Um simples relanço de olhos sobre as nações latinas, e ficará evidente a

necessidade de fortalecer em todas ellas as instituições e os poderes

publicos.

A França ainda apenas esboçou as reformas organicas da democracia. Tem

de revolver, e animar d'um novo espirito, todos os grandes serviços do

Estado: exercito, escola, justiça, fazenda. O programma de Belleville

indica summariamente o que ha a fazer desde já; da sua leitura vê-se que

só um parlamento seguro e um ministerio largamente apoiado poderão levar

a cabo as idéas formuladas por Gambetta e, ao que parece,

sympathicamente recebidas por todo o paiz. Foi na conscienciosa

comprehensão d'esta verdade que o chefe do opportunismo protegeu e

sustentou a lista multipla; a hostilidade do Senado a esta proposta

obstou a que a maioria da camara franceza tivesse a direcção e

disciplina que aquelle systema eleitoral lhe havia de imprimir, e com as

quaes o annunciado ministerio de Gambetta assentaria definitivamente,

n'uma base indestructivel, as fórmas e os costumes da republica

conservadora.

Na Italia a onda revolucionaria, conductora do novo ideal politico,

recresce incessantemente e sobe já, de quando em quando, os proprios

degraus do throno. Exhibe-se n'esta nação o espectaculo unico de

transigirem, e se accordarem na politica interna, o representante da

fórma monarchica e os chefes do partido republicano; por isso alli a

republica, ao estabelecer-se, deve ter uma saudação e uma benção para a

dynastia vencida! Mas apesar da boa vontade de todos, a existencia dos

ultimos governos italianos tem sido angustiosa e difficil. Ha muito que

os ministerios representam, não uma opinião triumphante, mas transacções

que uma conformidade de momento celebra, e logo qualquer divergencia

desfaz e inutilisa. É recente a famosa crise, que se prolongou por

algumas semanas, sem que o rei Humberto podesse escolher, á mingua de

indicações parlamentares, um chefe de gabinete entre os tantos que se

habilitavam para isso: Depretis, Zanardelli, Sella, Crispi, Nicotera...

N'estas condições, o que a Italia necessita é uma reforma eleitoral, que

lhe dê camaras disciplinadas, inspiradas n'um pensamento commum, com

energia necessaria á resolução dos grandes problemas interiores e

diplomaticos, que as circumstancias lhe formulam e impõem no actual

momento. Um projecto de reforma n'este sentido foi já apresentado; é

crivel que seja brevemente convertido em lei do paiz.

A Hespanha é outro claro argumento da these sujeita. Ella não deve o seu

relativo bem-estar senão á dominação conservadora de Canovas del

Castillo, que realisou o extranho milagre de se equilibrar n'aquelle

meio inconsistente, onde cada idéa que nasce traz implicita a febre

d'uma revolução, onde os partidos são aguerridos como exercitos e

fanatisados como seitas, onde a concepção theocratica, combatida ha

cinco seculos, é ainda uma escola militante, e o federalismo

communalista uma doutrina publica, com historia, com hierarchia e com

programma! O actual ministerio, de côr liberal, está, a estas horas, na

prova mais solemne da sua competencia e da sua lealdade; é de receiar

que não sáia d'esta prova tam galhardamente como deseja, porque, apesar

da excellente lei eleitoral de 1878[13], não tem ainda todas as

condições precisas para caminhar sem estorvos, e ir adeante, e depressa,

ao seu fim.

Entre nós existe, na maior parte das consciencias, uma aspiração

vehemente para progredir, mas falta vontade, decisão pratica,

determinação decidida para requerer, de modo efficaz, as reformas

necessarias. A esta indolencia da nação corresponde a esterilidade dos

governos. O systema eleitoral vigente, longe de a combater, favorece a

inercia nacional, porque toca apenas na superficie do espirito publico,

em vez de o interessar intimamente, revocando-o á vida, obrigando-o a

luctar. Sob este aspecto, Portugal diverge profundamente de outros povos

da mesma communidade historica. Ao passo que n'esses é flagrante a

disparidade entre a força da opinião e a energia dos governos,--no nosso

paiz é tão fraca a opinião como os governos são debeis, timidos,

incoherentes. Se um logra conservar-se por mais tempo, é á indifferença

publica que deve a sua duração. Mas dura, não vive. Se, de quando em

quando, desperta uma agitação qualquer, não se ennobrece com ella a

liberdade. Em geral, não é o sentimento da justiça que a determina; é a

sensação da fome que lhe dá origem. E, satisfeita a fome, recomeça o

entorpecimento...

É por tanto evidente que se necessita em todos estes Estados politica

activa, com pensamento certo e facilidade de acção, e que isso não

poderá conseguir-se senão fabricando novos moldes em que o suffragio

universal assuma proporções largas, completas, em substituição das

pequenas fórmas em que elle ahi se retalha e desfigura. A fortaleza do

poder é a primeira garantia da verdadeira liberdade; quem se arreceia de

governos vigorosos não tem, de certo, a melhor comprehensão do fim do

Estado, ou assiste de olhos cerrados á assombrosa multiplicação de

encargos e deveres, que a civilisação vai creando de dia para dia, de

hora para hora, no commercio, na industria, em todas as applicações do

direito, em todas as repartições do trabalho humano.

Disse, n'um dos numeros precedentes, que a votação por lista multipla,

com representação das minorias, seria um regimen eleitoral perfeito;

depois tentei demonstrar que a mais instante necessidade de hoje é a

formação de parlamentos que representem a opinião publica, não nos seus

infinitos desvios, mas nas linhas principaes, mais salientes e mais

caracteristicas. Parecem contradictorias estas duas affirmações, porque

a representação proporcional de todos os partidos accidenta, n'uma

grande variedade, as assembléas legislativas, e tira-lhes a força que

resulta da unanimidade ou, quando esta não é possivel, do accordo do

maior numero.

Mas a antinomia é só apparente. Se todos os partidos forem representados

na proporção das suas influencias, a opinião mais seguida no momento

eleitoral vingará uma justa maioria que a exprima e faça valer. Estando

n'essa maioria e nas restantes fracções os homens de mais extremado

valor, a camara terá a elevação d'uma escola onde as doutrinas sociaes

serão discutidas com seriedade e applicadas com prudencia. Por outro

lado, as divisões parlamentares, que correspondem realmente a aspectos

diversos da consciencia publica, não são as que enfraquecem mais o poder

legislativo; as que o debilitam e embaraçam a olhos vistos são as que se

improvisam no seio de assembléas artificiaes, arranjadas pela habilidade

dos politicos, de todo o ponto alheias ao pensamento da sociedade, que

ellas teem a pretensão, ingenua ou cynica, de comprehender e significar.

N'este caso a ambição pessoal organisa grupos, inventa programmas,

colore bandeiras, consagra distincções, estabelece categorias, finge que

serve doutrinas, e, com grande dispendio de phantasia e de arte, logra

dar a um parlamento, que a urna não produziu de sua virtude propria, as

postiças apparencias d'uma differenciação real e positiva! E, ainda

n'esta vulgarissima hypothese, vê-se frequentemente surdir no primeiro

plano um homem sem cortejo partidario, sem imprensa sua, erguendo a

propria vaidade á altura d'uma indicação politica, reclamando o direito

de governar, atirando com a sua personalidade ao meio da lucta, como se

o certamen fôsse de pessoas apenas, e não tambem de doutrinas! São estas

divisões que esterilisam e deturpam o systema representativo, não as que

resultam de partidos realmente existentes; e tanto mais que, em geral,

sómente dois d'estes disputam com interessado empenho a posse immediata

do poder, limitando-se um dos extremos a formular os protestos do

passado, com uma logica vencida e uma sentimentalidade facil, e

satisfazendo-se o outro em desenhar, com mão mais corajosa do que

acertada, as nebulosas prespectivas d'um futuro muito distante...

A lista multipla, ainda que não tenha a intenção de representar as

minorias, póde conseguir approximadamente este effeito. Quando a votação

é só d'um nome, é impossivel a união das minorias; quando é d'uma lista

de nomes, nada mais facil do que combinarem-se em alguns d'elles. Para

isto requer-se apenas uma condição: a de que estejam organisados os

partidos, obedecendo todas as suas influencias a uma impulsão central.

Desde que se constituam assim, na verdadeira realidade e na precisa

ostentação da sua força, serão frequentes as concessões reciprocas, e as

maiorias serão predominantes, mas não esmagadoras. E quebrar-se-hão nas

mãos dos empregados administrativos algumas armas das que elles mais

certeiramente apontam á liberdade dos eleitores, porque é muito mais

facil assediar e vencer o corpo eleitoral no espaço cerrado d'um pequeno

circulo, do que n'um amplo districto onde as resistencias se multiplicam

sempre, e a estrategia da defesa tem de ser, por necessidade, mais

complicada e mais segura[14].

Em resumo: não é facil incluir n'uma fórmula todas as exigencias da

politica de hoje. São complexas como a sociologia, a que pertencem,

cambiantes de momento para momento, como tudo o que se refere á fórma

dos agrupamentos humanos. Mas parece-me que a mais clara de todas as

indicações é a que visa a reestabelecer em novos fundamentos a missão

dos governos, que deve ser mais comprehensiva do que a fazem os

melindres d'uma mal entendida liberdade, e superior em força ao que ella

é actualmente nos povos de mais graduada civilisação. Tambem é certo que

não ha governos fortes sem uma solida opinião que os sustente, e que

esta, para que seja válida, tem de ser colhida, não por meios que a

fraccionem, mas com emprego de processos, que a recebam inteira e viva.

Para este effeito a lista multipla é mil vezes mais apta do que a

votação d'um só nome. Aquella dá-lhe o retrato em tamanho natural; esta,

funccionando a pouca luz e com machinas de pequeno alcance, apenas tira

essas miniaturas imperfeitissimas, em que se convencionou que o povo

reconhecesse a sua imagem.

VIII

Li, não sei onde, que Lord Derby chamára á revolução franceza de 1848 um

_salto nas trevas_. É felicissima a phrase. O suffragio universal, que

tem a sua mais solemne consagração n'aquella data, lançou a politica

n'um caminho de aventuras, escabroso, cortado de incertezas, não

deixando vêr dois passos seguros para deante do logar occupado.

Até hoje o excesso da lei tem sido annullado pela habilidade, mais ou

menos digna, dos estadistas. Alguns, sinceramente convictos de que a

liberdade é como a formularam os clubs revolucionarios de 1848, fazem a

sua côrte permanente ao suffragio universal, tem com elle toda a sorte

de attenções, simulam que o consultam ainda quando procuram

impressional-o ou esclarecel-o, e, se alguma vez o attraiçoam, não ha

véo que não lancem sobre a sua infidelidade. Outros, descrentes

d'aquella instituição por effeito de reflexão ou por commodidade da

propria indolencia, corrompem-n'a, viciam-n'a, desvirtuam-n'a,

violentam-n'a se é preciso, acariciam-n'a ou insultam-n'a consoante a

opportunidade, e sempre conseguem vencer, com armas boas ou más, as

resistencias que ella lhes oppõe.

O passado é isto. O presente assimilha-se-lhe. Como será o futuro? A

interrogação é difficil, e não é indifferente á sensibilidade de quem a

formúla que a resposta seja de um ou de outro modo. Presente-se que terá

um termo a meia somnolencia em que vivem alguns povos, talvez por

effeito d'esta dupla causa: a fadiga do trabalho consummado, um immenso

trabalho de negação e de critica, e o desalento produzido pelas mil

difficuldades a vencer ainda na reconstituição de tudo o que foi abatido

e desmantelado.

D'aquelle torpor desperta-se por uma agitação forte. Mas de que origem

ha de vir? Mas em que sentido deve ser? Mas que tempo póde durar?... A

agitação vale, serve, é excellente para sacudir uma geração adormecida

pelo habito ou prostrada pelo cansasso; como regimen permanente, e ainda

como expediente muito repetido, é a negação de tudo o que a natureza diz

e a historia repete. Por meios compassados e gradações evolutivas é que

a nossa especie se desenvolve, desde o estado rudimentar, em que ella é

um mysterio cheio de sombras, até á perfeição de hoje, em que ella é já

um enigma cheio de luzes. Os movimentos bruscos, os impulsos violentos

são, na sociedade, como os remedios heroicos na therapeutica:

necessarios, mas raros e perigosos. Collocar um individuo,

constantemente, sob a acção convulsionada d'uma pilha electrica sería

desconcertar o seu systema nervoso, e abreviar-lhe a existencia

atormentada e esteril; ter a humanidade no sobresalto contínuo de crises

successivas e de revoluções interminaveis é deslocal-a dos seus

fundamentos, impellil-a e desvial-a do seu equilibrio, desligal-a dos

seus mais caros interesses, e tirar-lhe, a final, o proprio gosto da

vida! O pessimismo, como escola moral, não é um facto alheio a estas

situações anomalas.

Luctar é viver, diz-se. É uma phrase das muitas que se constellam na

memoria dos povos, mais para seu damno do que para sua utilidade. A que

lamentaveis erros conduzem! A que desvairamentos levam! Desde crimes

individuaes até grandes perturbações collectivas, a phraseologia de

effeito, repartida em fracções accommodadas a todos os momentos, tem

operado um mal enorme, complexo, irreparavel! Está por escrever a sua

historia, que demanda uma sondagem profunda e uma observação

delicadissima.

Luctar é viver, mas descansar é tambem viver. A verdade é isto. A

propria natureza a exemplifica. Os vulcões não irrompem todos os dias do

seio abrazeado da terra; na machina complicada do corpo humano

revesam-se os orgãos no trabalho mais intenso da vida; a morte é o

somno, é o socego preciso á grande força mysteriosa que sustenta e anima

tudo. Se a humanidade tivesse sómente necessidades politicas a

satisfazer, se mais nenhum grande interesse a preoccupasse, ainda a

civilisação da _cidade_ teria de effectuar-se n'um progresso contínuo,

mas lento. Exemplo: a de Athenas no periodo de sua gloriosa hegemonia.

Em combinação com aquellas necessidades existem, porém, outras que se

compadecem menos com surprezas e instabilidades, e hão de formular-se e

cumprir-se a salvo das intermittencias radicaes, que ameaçam d'uma

excessiva prodigalidade o presente e o futuro. A industria, o entranhado

amor ao que se cria ou se possue, a vantagem, tão legitima, de se contar

com o dia seguinte, o direito de cada cousa a desenvolver-se antes de

transformar-se, são outros tantos obstaculos irremoviveis ao proposito,

aliás generoso e sympathico, de accelerar o movimento da historia na

ousada proporção da logica das doutrinas.

A liberdade politica é uma creação enorme, uma _génese_ complicada, a

ascenção gradual, successiva, das consciencias todas á posse absoluta de

si mesmas. Mas entre o nada e a ordem ha o chaos, e é este o periodo que

atravessamos, e o espirito de Deus mal começa a deslisar pela superficie

irrequieta das cousas, na sua missão de as definir, nivelando as que são

eguaes, differenciando as que são diversas.

Ponderando as antinomias do suffragio universal, escrevia, ha pouco,

Alberto Wolf, o jornalista francez que possue a mais completa fórmula da

politica conservadora:

_Tout pour le peuple, rien par le peuple._

Sim, mas ha duas pequenas dificuldades: a de convencer o povo de que se

deixe governar, e a de apparecer quem lhe inspire confiança. A abdicação

obrigada é impossivel, porque elle tem a força; a abdicação voluntaria é

improvavel, porque elle conhece a historia...

Não é sem dôr que o meu espirito comprehende assim os factos d'este

tempo. Se a verdade não fosse infinitamente amavel, invejaria o

romanesco optimismo dos que, sobreviventes d'um systema condemnado, ahi

se desatam ainda em festivas saudações ao que julgam felicissimo reinado

da liberdade e do direito. Desservem a humanidade, mas gosam os prazeres

egoistas d'uma illusão, que deve ser deliciosa.

Quero dizer que a sciencia exclue o sentimento? De modo algum. Toda a

philosophia tem uma sensibilidade propria. Na fórmula actual dos

destinos da nossa especie está implicita a maior acção que os grandes

corações podem produzir e empregar. Quando o pantheismo dominava as

consciencias, a natureza e a sociedade estavam na perennal divinisação

d'uma arte formosissima; compunham-se na mais esplendida luz os quadros

do presente; as prespectivas do futuro, ridentes de abundosas

esperanças, eram o encanto e o enlevo de quem as contemplava. A

phantasia humana revia-se, contentissima, na sua propria obra! Mas este

systema passou, acabou. Ninguem o reviverá. A prosa eloquente de Renan,

o ultimo pantheista, não é a revelação d'uma escola viva, actual; é

apenas o vestigio luminoso e perfumado d'uma grande illusão que se

extinguiu... É outra hoje, e muito diversa, a inspiração sentimental das

cousas. É melhor? É peior? É, simplesmente, mais verdadeira. Menos vaga,

mas mais determinada, mais precisa, mais util. Não abarca tanto espaço,

mas envolve-o, circumda-o, aperta-o mais estreitamente. Não tenta

romper, aguia valentissima, as bramas cerradas do futuro, nem desfere

vôo na direcção do sol; mas as suas azas desdobram-se como anteparo e

abrigo, e a sua vista, que os grandes deslumbramentos não ferem,

conserva-se limpida e penetrante sobre a terra de que não foge!

É d'esta sentimentalidade que se impressionam quantos veem claramente as

contradicções que a liberdade inclue, as incertezas gravissimas de que

está cheio o mais proximo futuro. Ha sómente duas soluções: o povo

reclama a direcção de si mesmo, ou continúa sob tutella. No primeiro

caso, será tumulto, anarchia, conflicto permanente o que devera ser

progresso e paz, liberdade e ordem. No outro, quem sabe como elle será

dirigido, se o explorará a ambição, se a lisonja o adormecerá nos seus

braços insidiosos, se o despotismo o vencerá por muito tempo, se, por

tudo isto, elle terá de recomeçar infinitas vezes a ascenção da

suspirada montanha, onde o espirito é livre, amplo o horisonte e o ar

purissimo!

Tudo é possivel. O salto foi grande, mas... _foi nas trevas_, como disse

Lord Derby.

*Notas:*

[1] _Politique Actuelle_, pag. 249.

[2] _La Politique_, pag. 277 e 278.

[3] _Les elections nouvelles et la vieille politique_--_Revue de la

Phil. Posit._, septembre-octobre, 1881.

[4] _As Eleições_, pag. 24.

N'este opusculo, fortemente pensado e escripto com grande eloquencia,

procura o sr. Oliveira Martins resolver o problema eleitoral pela

representação organica das categorias sociaes. Apreciando a obra do

radicalismo individualista, que só foi excellente na sua parte critica,

attribue-lhe com evidentissima razão a geral desordem de interesses e de

idéas que caracterisa a evolução politica do nosso tempo. «Por ter

cahido a crença no principio esoterico, onde se estribava a hierarchia

das classes, cahiu tambem a organisação inteira. Ao apagar-se a luz

dentro do sanctuario desabaram as paredes por terra. Em nome da

liberdade prégou-se a destruição de tudo. Do principio de que em todos

os homens havia capacidade juridica egual, deduziu-se o de que, entre os

homens, eram todos aptos para tudo, e assentou-se em que á lei não

cumpria especialisar funcções, nem dividir o trabalho, nem tornar

independentes os orgãos sociaes. Opinou-se e fez-se. A sociedade passou,

em nome da liberdade, a ser uma massa inorganica de homens, um cahos,

onde os individuos, como os elementos nas edades geologicas, deixam

debater e debatem os seus interesses e paixões, agitando-se á tôa,

inteiramente entregues a si, e abrindo por tal fórma a era das

revoluções e das crises permanentes ou successivas» (pag. 35).

A observação é profunda e exacta. O gravissimo defeito da nossa

civilisação está aqui apontado com coragem e verdade. Cahiu em

descredito o optimismo dos que pensavam que as consciencias individuaes,

libertas das pressões antigas, tinham, de propria iniciativa, o poder de

se organisar, e que a solidariedade humana era um sentimento universal,

independente de qualquer consagração politica. A reacção contra a

concepção _atomistica_ do Estado é um facto geral na mais moderna

sciencia; mas, como é natural, não falta quem a exaggere fóra de termo e

medida. O ultimo numero da _Philosophia Positiva_ dá conta de um livro

em que Armand Hayem intenta provar que as _classes sociaes constituem

fórmas tão irreductivas como as de especie e de raça_! A verdade é muito

menos do que isto. As classes têm um estreito laço de união, que é a

communidade do mesmo interesse profissional, mas isso não é bastante

para alterar as linhas predominantes na physionomia moral dos povos. A

preoccupação profissional não é tão intensa que importe modificações

organicas; por outro lado a successão dos officios ou misteres sociaes

dentro das familias é excepcionada a cada momento.

O sr. Oliveira Martins intenta remediar os inconvenientes do actual

estado de cousas reestabelecendo a Ordem, não com o velho conteúdo

d'este termo, mas com a realidade de todas as forças, de todos os

elementos activos, que são o nervo e a substancia das nações. «Desde que

a origem do Poder é immanente e social, o modo de tornar concreta ou

positiva essa auctoridade é constituil-a por meio da reunião de todos os

orgãos da sociedade n'um corpo uno. Esses orgãos são de varias

naturezas: são as classes ou profissões, base economica da sociedade;

são as escolas e as instituições, base intellectual e administrativa;

são as regiões, base natural e geographica. A reunião d'esses orgãos

constitue a sociedade, e o Estado, que a exprime syntheticamente, têm de

formar-se por emanações ou delegações de cada um d'elles.» Os periodos

transcriptos resumem o pensamento todo do eminente publicista, que, com

Hartmann, considera a Vontade como synthese do Estado, e, com Krause,

comprehende o direito como um principio de coordenação, só com a

differença de que o philosopho allemão deduzia-o da propria essencia do

Bem, manifesta na consciencia, ao passo que o sr. Oliveira Martins

infere-o da observação objectiva de factos biologicos e sociaes.

A indole d'este trabalho, e a forçada rapidez com que escrevo,

inhibem-me de consagrar á apreciação do systema exposto o espaço que

seria preciso. Por isso resumo em poucas palavras a impressão que me

deixou a recente leitura do sr. Oliveira Martins.

Muito antes d'este illustre escriptor, em 1830, o eminente Silvestre

Pinheiro Ferreira combatia a representação dos individuos, consagrada

nas instituições da Inglaterra e dos Estados Unidos, e d'ahi trasladada

para todos os paizes liberaes. Queria a representação dos tres estados:

_propriedade_, _industria_, _serviços publicos_, subdivididos esses

estados nas suas classes naturaes. «É falso, dizia elle, que n'um

determinado assumpto em que divergem especialistas, possam ter opinião

segura individuos dotados apenas de conhecimentos geraes; é absurdo que

uma opinião de especialistas possa ser annullada por uma maioria de

homens que não têem, para julgar o objecto em discussão, senão aquelles

conhecimentos geraes.» (_Cours de Droit Public interne e externe_, pag.

373 e seg.).

Seja dicto de passagem que este absurdo, se o é, seria sempre inevitavel

desde que não houvesse para cada classe um parlamento soberano.

Não me parece que a representação dos _estados_ ou das categorias

resolvesse as difficuldades sentidas por aquelles illustres pensadores;

e ainda que tal se conseguisse, não seria isso de realisação facil e

immediata.

Principios e questões de philosophia politica (Vol. 2 of 2) · 第 2 / 3 段