E se ella apparece á janella?

Doem-me os braços, já não posso mais!

Mas então é certo!... Mas então vou morrer! Mas não quero, d'essa

morte horrivel não quero!

E não poder subir...! Talvez com um esforço grande, apoiando os pés á

parede... Mas o zinco estala cada vez mais, dobra-se todo...!

Se eu batesse as palmas ao guarda nocturno...? Mas como? Para bater as

palmas seria preciso largar a corda... Se me pudesse segurar com uma só

mão, despir-me com a outra e bater as palmas no...

Mas nem sei o que penso! Não posso suster-me só com um braço... Sinto

faltarem-me as forças!... E se ella abrisse a janella e me visse n'essa

posição ridicula?

Agora é que é certo! agora é que tenho de morrer!... E ninguem, ninguem

me salva!

Tenho as mãos a arder; não posso mais. Quem me dera ter animo para

gritar!...

Ainda que queira subir já não posso... E o zinco verga cada vez mais, ao

mais pequeno movimento!

Parece-me que sinto passos...! É preciso estar muito quieto...! Valha-me

Deus! O laço já correu um bocadinho...

Os passos approximam-se... É uma patrulha!

Ó camaradas!... camaradas!... Pchiu!...

Não são ladrões que tenho em casa, não senhor. Não vêem que estou

pendurado?... Acudam depressa!... O zinco está todo dobrado!

Depressa!... Sim, senhor, acompanho-os á esquadra.

E o laço a escorregar!...

Depressa! A porta lá em baixo está aberta.

É só preciso arrombar a cá de cima.

Tolice! Porque não a deixei eu aberta tambem?

E se alguém me quizesse acudir?

Os passos approximam-se...

Graças a Deus!... está a porta arrombada!

Acuda! acuda depressa!

Obrigado camarada!... Não ponha o pé no zinco!...

Meu Deus!

Ó meu pae, coitadinho!

Que horror!

Ella tem uns olhos azues tão b...!

REQUIEM AETERNAM

Todas as tardes, quando o azul no alto do céu começava a desmaiar, ou já

a enlutar-se nas pregas, pouco a pouco, serenamente accumuladas pela

neblina da noite, recolhia a casa, aos solavancos sobre as pedras da

calçada, a carruagem das velhinhas.

Espantosa, de grandes rodas espessas, ferragens desconjuntas, tecto

esboracado, tinta bexigosa, puxavam-a dois cavallos brancos,

magros, muito magros, de joelhos grossos, orelhas cahidas, choutando sem

brio, coxeando dolorosamente, com um ar de philosophos sem ração a

caminho da morte.

Atraz saltava a carruagem com um tinir de ferragens, soturno como um

ranger d'ossos em dança macabra. E eu encostava aos vidros da janella a

testa ardendo com febre, para ver a passagem d'aquellas duas velhinhas

sympathicas, irmãs decerto, gemeas talvez, tão eguaes, com os

cabellinhos bracos alisados sobre as testas enrugadas, as boccas

reentrantes, os olhinhos apagados, tremulas, encolhidas como passarinhos

com frio, com os mesmos fatos de luto, o mesmo ar tranquillo, o mesmo

sorriso de bondade. Macrobias á espera que a morte viesse n'um beijo

perfumado cerrar-vos para sempre os olhos, como devieis soffrer,

cabeceando, sacudidas, empurradas brutalmente uma contra a outra pelas

mollas duras, aos safanões das sob-rodas da calçada! Boas velhinhas,

minha paixão unica, minha esperança d'um dia inteiro, quando eu

vivia isolado com a minha melancolia, n'aquella casa onde o vento

soprava tristezas, onde o sol nunca entrou e onde as corujas riam de noite!

O cocheiro, um velho muito velho, corcovado, segurando tremulamente as

redeas, com as mãos pousadas sobre os joelhos, conservava um certo ar de

casa nobre, apezar da nodoa esverdinhada, que se alastrava nas costas da

sobrecasaca, e do chapéo de furta-côres, pequeno, de abas largas,

arrombado, sem pêllo, com um velho galão todo oxidado, velho, muito

velho, d'outros tempos muito melhores.

Que volta misteriosa dava todos os dias aquella carruagem, que ás tardes

ali passava trepando pela calçada? D'onde vinham, para onde iam, em que

palacio ou castello arruinado moravam as boas velhas? Quem eram? Nunca o

soube.

E era talvez por isso que as amava tanto. Architectava historias

fantasticas a respeito d'ellas, da carruagem, do cocheiro, dos

cavallos, e, quando por fim ouvia o rodar pesado e o tinir das

ferragens, sentia o coração pulsando rapido, a respiração difficil, um

calor nas faces, como se em vez da decrepitude a caminho do cemiterio,

fosse uma primavera cheia de flores e de mocidade, que ali passasse em

grande aureola de luz, em nuvem subtil de perfumes.

Creio que as velhinhas, n'uma doce, apagada recordação de galanteios

havia muito passados, adivinharam o meu amor, e olhavam para mim,

risonhas, fazendo renascer faiscas nos olhos côr de cinza, que um

sorriso bordava com ondas de preguinhas por cima das rugas! E eu, com a

testa encostada ás vidraças, via desapparecer a carruagem fantastica,

emquanto a noite descia lentamente e, muito desafinados, piavam lá no

alto, em doidas correrias, os negros andorinhões.

Boas, santas velhinhas, benza-vos Deus!

A calçada subia em linha recta, tendo por fundo o céu ainda vermelho,

áquellas horas. A carruagem levava uns cinco minutos até chegar ao

alto, e lá em cima, esfumada pela distancia, com as grandes rodas

salientes, tombadas para fóra, similhava uma grande borboleta negra, que

a descida precipitava na rutilante fogueira do pôr do sol.

* * * * *

Pouco depois accendiam-se no céo muito pallido as primeiras estrellas.

Então um doido, que morava no rez do chão, começava a uivar

sinistramente e pela casa espalhava-se um cheiro intenso, um fumo

suffocante d'ervas, que a irmã queimava por conselho d'uma bruxa, entre

rezas plangentes, arrastadas, de arrelia.

Pessimista bilioso, mal com a vida, fugira de parentes e de amigos, e

ali vivia isolado, merencorio, cheio de azedumes, n'aquella rua onde os

casebres em ruinas se alinhavam tristemente, com vidros esverdeados,

telhados cheios de corcovas, paredes desaprumadas, com ervas

crescendo junto aos muros em que as osgas aqueciam ao sol os dorsos

escamosos.

E dava-me bem n'aquella paizagem cuja musica harmonisava com as minhas

queixas, n'aquelle scenario que havia procurado e emfim descobrira, onde

arrastava as minhas preocupações, os meus desvarios, na prisão

voluntaria que escolhera e me era cara á força de melancolica, que eu

amava porque me era hostil.

Ao meu odio pela gente e pelas coisas, uma só coisa escapára--aquella

carruagem a desconjuntar-se, pyrilampo nas trevas da minha noite, nota

suavissima no concerto da minh'alma.

Tão egual era sempre a dôr que me atormentava, tão parecidos rodavam

meus dias, que o verão passou, sem que, olhando para traz, eu pudesse

ver na estrada, que andei triste, o marco d'uma alegria, d'um aspecto

novo, d'uma miragem na vida.

Aquelle amor, aquella quasi paixão, que ao principio as velhinhas

me haviam inspirado, esse mesmo sentimento purissimo affligia-me agora,

á medida que o sentia crescer.

O tempo fôra passando, e os cavallos cada vez choutavam menos, coxeavam

mais, mais brancos, mais tisicos, mais dolorosamente meditabundos; o

cocheiro mais corcovado, um pouco descahido na almofada, deixava pender

o chicote; a carruagem tinha na frente umas tiras de papel sobre um

vidro rachado; cordas, a que todos os dias se juntava um nó, ligavam os

arreios; as velhinhas tinham menos palhetas doiradas no olhar, quando me

sorriam. E já me sorriam como a pessoa conhecida, que occupasse na vida

d'ellas o logar em que moravam na minha, o que augmentava a minha tristeza.

Agora, cada vez que lá no alto da calçada se afundava a carruagem,

ficava scismando se teriam desapparecido de uma vez todos os meus

sonhos, tudo--que era sómente aquillo--quanto á vida me prendia.

O verão, muito lentamente, assim foi rodando, até que vieram as

primeiras chuvas.

Que tarde turbida e melancolica! Se não viessem...! E de tanto pensar

n'ellas, vi qual era sua pousada na minh'alma. Se não viessem...! Dia

immenso em que, cheio de inquietações passeei pelo quarto até

entontecer, approximando-me da janella a cada instante, vendo apenas na

solidão da calçada a chuva a cahir, a cahir, rio enorme, que se

despenhava até lá abaixo, rolando barrento, cheio de espuma,

quebrando-se, saltando sobre as pedras arrancadas, bi-partindo-se lá no

fundo, desapparecendo na curva e galgando as escadinhas, onde se

precipitava em cascata, com uma bulha monotona...

O doido, a quem a meia escuridão d'aquelle dia exacerbára a furia,

torcia-se, berrava como um possesso; e logo de manhã espalhou-se pela

casa o tal cheiro que eu detestava, de alfazema queimada, de alecrim e

d'outras ervas com que o demonio embirra.

Dia immenso, que me parecia não dever acabar!

Na minha imaginação exaltada via, como de então para cá vi sempre, um

ente unico n'aquella carruagem, com as donas, os cavallos, o cocheiro,

como se uma só alma os animasse a todos, não podendo desligal-os,

abstrahir d'uns para só pensar nos outros.

O dia vinha descendo e, ancioso, sentindo pelo ser fantastico que me

fazia pulsar o coração, aquelle fervoroso amor, que os encarcerados

dedicam ás vezes a uma formiga, a uma aranha, a uma plantasinha

qualquer, com as unhas cravadas na carne do peito, tive uma das mais

doidas alegrias da vida, quando senti sobre a lama que se alastrava de

lado a lado, o rodar lento, abafado, por que suspirava semi-doido.

Os cavallos gemiam, suavam, lançando pelas ventas baforadas densas. As

sob-rodas, occultas pela lama e que o cocheiro não evitava, cego pela

chuva que o zurzia, faziam cambalear o trem como um ebrio. E lá

dentro mal pude avistar, atravez dos vidros embaciados, as velhinhas que

sorriam.

Abri a janella para as ver desapparecer. Julguei que nunca chegassem ao

alto. O cocheiro com um gesto afflicto brandia o chicote; os cavallos

pegavam-se, ajoelhavam na lama; as molas estalavam.

Chegaram finalmente. Disse-lhes um adeus maguado. E emquanto a noite

descia, sentado junto da janella, parecia-me ver, como n'um sonho, a

carruagem fugindo, fugindo, por uma estrada que não acabava nunca,

levando no tejadilho, de pé, como os anjos dos coches de enterro, a

figura da morte. E a chuva cahia, cahia, e a noite embrulhava-se n'um

véo muito negro, cheia de frio.

* * * * *

Nunca mais as vi.

Passaram-se mezes. Na terça feira de entrudo uns mascarados bebados, que

desciam pela calçada, traziam adiante aos pontapés, em grande

troça, um chapéo de furta-côres, pequeno, de abas largas, arrombado, sem

pêllo, com um velho galão todo oxidado, velho, muito velho...

Boas e santas velhinhas!

_Requiem æternam dona eis, Domine, et lux perpetua luceat eis._

AS ESTRELLAS DO CEGO

Noite de Natal.

Terminára a missa. Repicavam sinos e o povo descia alegre os degráos em

ruina da larga escadaria.

A noite era cheia de estrellas, luzes d'altar immenso sob o immenso

docel de velludo azul. O céo muito frio parecia rir-se, a piscar os

olhinhos alegres.

Ainda nos eccos da alta abobada em berço resoavam os ultimos cheios

do orgam do convento. Pela porta aberta de par em par, onde a multidão

se acotovelava á sahida, vinha de dentro da egreja um perfume religioso

de flores, de fumo de incenso, de cera queimada.

O altar reluzia ao fundo, e as luzes inquietas enchiam de zig-zagues

rutilos as lentejoulas e os fios de seda nos mantos bordados da Santa

Familia e na colxa de damasco do berço pequenino, em que o Menino Jesus

dôrmia.

Tocavam sinos, e os repiques, como foguetes, subiam pelo ar denso da

noite fria, entre a algazarra do povo, massa escura caminhando pela

noite escura. A larga frontaria da egreja, comida pelo tempo, abafada

n'um velho tapete de musgo, sobresahia no céo em mancha muito negra,

d'onde jorravam feixes luminosos, ondas de harmonias, luz e canticos de

triumpho.

Um pequeno desceu a escada levando um cego pela mão.

Iam fechar-se as portas. Sahiam os ultimos devotos.

O cego era um velho corcovado, tremulo, com a face cheia de rugas

crusadas, como um pedaço de papel amachucado. Os olhos sem luz

voltava-os para o céo, meneando a cabeça constantemente, como se

procurasse... o quê? E sorria. Dava a mão ao petizinho e descia os

degraos tacteando-os com o pé.

--Ainda mais um, avô... E outro... E outro.

Fechou-se a egreja. O candeeiro da esquina mal alumiava o adro.

E o cego sorria e afagava a mão do pequeno.

O povo espalhou-se pela ruas. Eram como estilhaços de alegria por toda a

cidade.

Vinha a gente descendo pelos beccos angulosos, pelas travessas em

declive rapido. E parecia que todos levavam n'alma um pedaço de luz

d'aquella noite em Belem cantada nos evangelhos, da alegria

d'aquella musica ouvida no templo, quando os sinos repicaram e o

côro entoou o _Gloria in excelsis_! Todos falavam, todos riam, muitos

cantavam. Era a ceia prompta em casa, era o dia seguinte todo elle

inteirinho de descanço!

Noite de Natal! Noite de Natal!

E eu fui por ali abaixo tambem, atraz do cego.

O pequenito teria oito annos. Loiro. D'olhos azues. Olhava para as

estrellas a rirem lá em cima.

Os olhos tinham a côr do céo, e o que n'elles brilhava tanto podia ser o

reflexo das estrellas como a luz placida da sua almasinha.

Caminhavam os dois por ali abaixo e conversavam. Á voz tremula do velho

replicava compassadamente o pequenino. E o que elle dizia com a sua

vozita infantil, linda como um trinado, devia de soar aos ouvidos do avô

ainda como um cantico, como se um anjo d'aquelles, que haviam aos

pastores annunciado a vinda do Senhor, houvesse ficado na terra;

porque o cego continuava sorrindo, e, a descer pelos beccos escuros e

tortuosos, afagando a mão do netinho, fitava os olhos condemnados ás

trevas lá em cima, lá muito em cima, d'onde vinha aquella luz toda, que

alegrava os olhos da criança.

Conversavam os dois contentes. Eu ouvia bocadinhos do que diziam,

palavras soltas, por onde, mais ou menos, reconstituia a conversação.

Esperava-os em casa a mãe do pequeno, filha do cego. Os dois levavam

fome. A mulher ficara em casa fazendo a ceia. E ao velho ouvi dizer, uma

ou duas vezes, gulosamente:

--A canja.

E o pequeno:

--Degráo, avôsinho.

E o cego, muito attento, vagarosamente, tacteava o degráo com o pé,

afagando a mão do neto, cantarolando.

Pelos beccos, pelas travessas, sob os arcos dos pateos irregulares,

cheios de sombras, disseminara-se a gente. Iamos agora sós, nós trez,

n'aquelle caminho.

Ouviam-se ainda passos ao longe, eccos de vozes, uma ou outra guitarra

em lojas fechadas, onde brilhavam as frinchas das portas; de quando em

quando, um bater de palmas ao guarda nocturno, passos correndo, um tinir

de chaves. Um gallo cantou n'uma trapeira.

--É tarde, disse o velho.

Caminhavam mais depressa agora.

E eu ia andando atraz d'elles, sem saber bem porquê, atrahido talvez

pela doçura do quadro, pelo encanto do grupo, pela meiguice das vozes,

por ver tanta alegria onde tanta miseria se cuidava, tanta paz nas

almas, onde tanta dôr devia de suppôr-se.

Passei-lhes adeante. Esperei junto de um candeeiro. Queria ver-lhes

ainda uma vez os rostos.

O cego continuava a olhar para o céo, meneando a cabeça. O pequenito ao

lado, agora que na rua tinham acabado os tropeços, olhava para onde

olhava o cego.

A cabelleira loira, toda em anneis, não lhe cabia dentro do chapéo e

cahia-lhe, revolta, pela testa, ao longo das faces, pelas costas.

Era lindo, lindo! E o cego, que o não via, continuava a sorrir!

Deixei-os passar adeante.

A rua alargava-se entre casarias irregulares. Caminhavam mais á vontade

agora, mas tinham-se calado. Culpa talvez da minha indiscrição.

Faziam ecco no silencio da noite os nossos passos sobre a calçada, na

rua deserta.

Pararam. O velho bateu cinco argoladas á porta de uma casa esguia, com

grades de madeira nas janellas cheias de vasos. Passados poucos

segundos, ouviu-se a pancada violenta do trinco puxado com força desde

lá de cima.

O cego e o pequeno desappareceram na escuridão da escada. A porta bateu

com estrondo.

Ouvi ainda o velho cantarolando, emquanto subia. Pouco a pouco a voz

sumiu-se. Encostei o ouvido á fechadura: uma bulha de passos

apagando-se, mais e mais, a cada volta da escada; uma voz muito

alegre--devia de ser a da mãe do pequeno recebendo-os--palavras que

não percebi... E fechou-se lá em cima uma porta.

* * * * *

Então passei para o outro lado da rua e fiquei-me a olhar para aquella

casa.

Era noite de Natal, noite de festa, noite cantada pelos poetas. Talvez

as cordas da minh'alma vibrassem ainda em unisono com os cantos

d'aquellas vozes tão devotas, singelamente entoados por detraz das

grades do côro, hymnos muito simples ao Deus Menino nascido.

No céo de immaculada pureza as estrellas vibravam raios de luz

intensissima. Fazia frio.

E eu quedava-me a olhar para aquella casa, tão pobresinha, tão velha,

tão escura, tão cheia de flores d'alto a baixo!

Uma janella no telhado illuminou-se.

Começava a ceia do velho. Eu reconstituia o grupo dos trez: a mesa

encostada á parede na trapeira muito baixa, o velho aspirando os

perfumes da sopa, a terrina sobre a toalha muito branca, o pequeno

defronte do avô, e a mulher a sorrir-lhes, ouvindo-lhes as historias, o

throno, o presepio, a missa, o canto das freiras, a vinda por ali abaixo

a horas mortas, a minha perseguição.

E o pae do pequeno? Ah! sim, esse tambem lá estava... Pois quem trabalha

para sustentar a alegria n'aquellas almas?... Santa familia!

Que deliciosa ceia! Que paz tranquilla! Que boa noite de Natal!

Tanto falava o cego na canja, rua fóra, pela mão do pequeno! Quem não

tem olhos, tem melhor paladar.

E o pequeno como devora! É que é tarde e não costuma estar de véla

áquellas horas! Comprida manhã terá na cama. Já os olhitos se lhe

começam a fechar.

E o pae e a mãe a rirem, contentes de os verem assim!

Que boa noite de Natal!

Fitára os olhos na janella, não sabia d'ali apartal-os. Tambem eu agora

olhava para cima, como ainda agora o pequeno para as estrellas, o cego

não sei para onde.

Porque olhava o cego para o céo?

Tornou o gallo a cantar. Ouvi-o, ao longe, mais alegre, como quem já

adivinha a madrugada.

Ha quanto tempo estava eu ali? Porque olhava para aquella trapeira?

Encaminhei-me vagarosamente para casa.

Havia tantas estrellas no céo! Como era linda a noite de Natal! Como

tinha razão o pequenito dos cabellos loiros de olhar para as estrellas!

Que quantidade de luz! Tantas! Tantas!... Talvez o pequeno se lhe

mettesse em cabeça de contal-as! Houve uma, quando vinhamos pela

travessa abaixo, que passou correndo, deixando um rastro muito longo...

Era como a estrella dos Reis Magos. Que luz não tinham os olhos do

pequenito! E o cego sorrindo ao pé d'elle, com os olhos tenebrosos

postos no céo! Porque? É que se lhe voltavam para lá os olhos d'alma, é

que na alma tinha elle mais luz do que o pequeno nos olhos.

E vejo-os ainda a descerem pelos beccos, o velho meneando a cabeça, o

pequenito a dar-lhe a mão? Degráo, avôsinho? ambos com os olhos no céo,

a estrella a correr...

Que lindas estrellas vê o cego!

OS NETOS

Andavam todos pasmados, a falar baixinho pelos cantos.

O D. Affonso parecia outro!

Se fosse um Affonso qualquer!... mas o Dom, o quarto, o do Salado!...

Quem jámais o vira assim de olhar tão doce na sombra do supercilio

carregado, de riso tão lhano sob as enormes barbas patriarchaes,

honradas entre as mais honradas dos affonsinos?

O Coelho, que, havia muito, andava tramando o crime, até disse baixinho

ao Pacheco:--«Ali ha coisa!» O Pacheco já a farejára, olha quem! E

entretanto, o D. Affonso, todo fóra dos eixos costumados, dizia graças,

quando passava alguma dama a rojar sedas na peugada da linda Inez.

Ia seu caminho o drama tenebroso. Tanto haviam feito, que já tinham

escangalhado o socego da que depois de morta foi rainha. E o sceptro,

sobre que tão famigerados heroicos havia de bordar o Dr. Ferreira,

parecia pesar nas mãos do monarcha menos do que se fôra de pechisbeque,

talvez tanto como de papelão doirado.

É que n'aquella noite...

O homem tinha um fraco: pelava-se pela canja!

Elle em pessoa comprára a gallinha, uma ave amarella, que era uma

belleza, gorda, anafada... Depois de muito regatear, e por ser a elle,

D. Affonso, é que a saloia a vendêra por seicentos e vinte! Um rico

pedaço de toucinho, um bom naco de prezunto, o bello chouriço,

cheirinhos, arroz da melhor tenda... Ora adeus! Um dia não são dias.

Aquella noite de Natal havia de ser falada!

E, por debaixo dos longos bigodes brancos, brancos de neve, El-rei

lambia os beiços.

Chovia a potes.

O drama terrivel, a mais calamitosa tragedia da historia patria, ia-se

pouco a pouco desenrolando.

Inez lamentava-se. Os horrificos algozes haviam-a trazido ante o rei.

Eram tres judeus de calvario de semana santa, muito capazes de dar sete

pesadêlos a quem não estivesse prevenido. Muito cabello, muita

sobrancelha, muita barba, vozes de tyrannos. Ella erguia para o céo

cristalino os olhos piedosos, attentava nos meninos cheios de somno,

falava ao avô cruel nas brutas feras e nas aves agrestes, na mãe de Nino

e nos irmãos que Roma edificaram; queria ir fosse lá para onde fosse,

para a Scythia fria ou para a Lybia ardente, comtanto que a

tirassem d'ali. Era de partir os corações! Mas aquelles patifes, de

punhaes desembainhados, sanhudos, faziam esgares!

E a desditosa amante do Principe, entre soluços e lagrimas,

pensava:--Que demonio tem hoje o D. Affonso?

O rei só via a canja, os olhinhos da gordura, o arroz muito branco... E

arregalava o olho e abria a venta!

Ah! que delicioso quadro! Que lhe importavam a linda Inez de rojo a seus

pés, as iras do filho apaixonado, a politica do reino, as Hespanhas, os

Castros?

Uma trapeira, que, toda envolta em arroz de telhado, era como um

ramalhete, n'uma rua estreita, escura, tortuosa, para lá lhe tugia o

pensamento. Em volta d'ella cantavam pardaes todas as manhãs, e o sol

mal nascia, pintava-lhe os vidros como se fossem pedras preciosas,

rutilantes. Tanta paz lá dentro, tanto riso de creanças!

Noite de Natal muito fria. Ih! como chovia lá fóra! Cantava a agua,

cahindo em jorros das biqueiras sobre as pedras das calçadas. Como

estavam lamacentas as ruas, cheias de poças! O vento do sudoeste

arrastava pelo céo as nuvens desgrenhadas, e chovia sem descanço.

Lá dentro da trapeira, tanta luz, tanta alegria!

Noite de Natal! A toalha resplandecia muito branca sobre a velha mesa

herdada dos avós, um nadinha coxa e remendada. Era um velho traste

amigo, n'aquella noite todo enfeitado para a festa. O candeeiro,

entornando sobre a alvura do linho um circulo de luz aconchegador, fazia

faiscar as laminas das facas, estriava com fogo os cabos muito limpos

das colheres. O pão, ha pouco vindo do forno, ainda fumegava embrulhado

na flanella, e seis guardanapos engommados ostentavam formas

caprichosas, em cima dos pratos: pombinhas, leques, romãs abertas.

Lá dentro, na cosinha, riam as crianças.

A mais pequenina, uma gorducha rosada e muito loira, fechava os olhos

cançadinhos de somno, teimando em não querer deitar-se, que havia com as

mais velhas de assistir á grande festa.

E a panella a chiar e o vinho a aquecer e o quebrar das nozes!

Vá lá um homem ralar-se com a politica do reino, ter consciencia de sua

altissima missão, comprehender o direito divino, recalcar no coração a

piedade e ser cruel contra o proprio filho meio louco de amor e que a

dôr tornaria completamente louco, contra os infantes seus netos, contra

a formosa fidalga chorosa, que deixava espalhar pelos hombros os fartos

cabellos pintados de loiro!

--Pois sim, cantem, pensava elle.

E respondia tão distrahido, tão fóra do sentimento, que todos, pasmados,

diziam:

--O D. Affonso... ali ha coisa!

Corriam-lhe pelas faces uns arripiosinhos, impaciencias perceptiveis sob

as enormes barbas todas brancas, fazendo-lhe tremer as azas do

nariz e os cantinhos das fartas sobrancelhas.

O filho, o D. Pedro, com voz de trovão, arrancava do peito as ultimas

exclamações e afastava-se a largos passos para ir pegar em armas. A

côrte, attonita, afflicta, corria para a vasta janella rendilhada para

ver o desgraçado amante atravessar os pateos, chamar os seus, com elles

dispor a vingança. Era então que o velho heroe do Salado, desgraçadinho,

cheio de lagrimas na voz, com o coração dilacerado, deante do corpo

inanimado da linda Inez, havia de soluçar altissimas philosophias sobre

a vaidade das vaidades, o peso d'aquella corôa sobre as cans, d'aquelle

sceptro nas mãos decrepitas.

--A canja, a canja! pensava elle.

Contos(#31905) · 第 5 / 6 段