baixo, para ver se assim parava a perseguição do seu olhar. Meu avô, que
n'aquelle momento entrara no quarto, ralhou muito commigo, que fôra uma
falta de respeito, que o conego era meu tio, que fôra homem de muito
saber e que até compuzéra uma grammatica latina com a prosodia em verso.
E eu, que detestava a prosodia e o latim, comecei desde logo a detestar
o tio.
N'aquella noite pareceu-me que os olhos azues e pequeninos scintillavam,
phosphorescentes.
Recuei com um calafrio, procurando fugir ao pesadêlo.
E os seus olhos pequeninos, azues, phosphorescentes continuaram a
seguir-me com pertinacia.
Passei a mão pela testa e trouxe-a humida de suor frio.
Dei volta á bandeirola do candeeiro e, cheio de falsa coragem,
approximei-me do retrato.
Estava louco!
--Sou um cobarde! Tenho a cobardia d'uma criança, pensei.
Fui ao armario de páo preto, envidraçado, onde tinha uma garrafa com um
resto d'absintho.
Um caruncho, com aquelle ruido monotono e compassado, que tanto se ouve
nas casas velhas, incumbira-se da agradavel tarefa de esfarelar uma
prateleira.
E eu sentia dentro em mim uma tempestade! E se me tivesse suicidado, se
junto d'aquelle armario se houvesse passado um drama horrivel, elle
teria placidamente, com a maior indifferença, continuado a morder
voluptuosamente a madeira resequida, em sua obra de destruição.
Abri a garrafa. Bebi sofregamente.
Pela segunda vez approximei da bocca, voltando as costas ao conego, o
cano do rewolver.
Senti abrir-se a janella do bexigoso e ouvi-lhe a voz esganiçada:
--Menina Maria! Parou a chuva.
Salvou-me a vida. Escutando-o, quiz despedir-me da voz humana. No curto
momento, em que o meu antipathico visinho levou a dizer aquella phrase,
entrou-me n'alma o receio.
--Decididamente sou um cobarde, um grande cobarde! Preciso beber.
E sahi, mettendo o rewolver na algibeira.
* * * * *
Pela segunda vez na vida o bexigoso falára sem dizer tolice.
Effectivamente cessára a chuva, e apenas umas nuvens brancas, com
grandes manchas d'uma côr mais carregada, formavam castellos
fantasticos, entre os quaes corria a lua a toda a brida.
Ao dobrar d'uma esquina encontrei um amigo.
--Aonde vais? disse-me. Até S. Carlos?
Pareceu-me offensa a pergunta e estive para responder-lhe:
--Não, vou matar-me.
Mas não quiz. Dizer-lh'o, para que? Se não podia perceber-me?
--Vou sem destino, disse.
--Já jantaste?
--Ainda não.
--Jantemos juntos n'esse caso.
E deu-me o braço e começámos a descer a rua.
E eu ia pensando com uma certa alegria no jantar e comecei a ver a
morte sob outro aspecto: o suicidio depois de bem comido, numa salla
bonita, quente, alumiada fortemente por dois lustres de gaz.
Que differença! Que admirava que me tivesse faltado a coragem n'aquelle
quarto frio e humido quando eu estava possuido da tristeza da fome? Frio
e fome por toda a eternidade!...
Entrei no hotel cantarolando um bocado da minha opera favorita.
Defronte de nós uns americanos bebiam champagne, _veuve Cliquot_.
--Grande vinho, o champagne! não achas? disse o meu amigo.
--Magnifico!
--Havemos de vir bebel-o aqui um dia d'estes. É pena não poder ser hoje.
--Porquê?
Não respondeu e córou até ás pontas das orelhas.
E eu achei que para dar coragem nada havia como o champagne.
E puz-me a passar revista a todas as suas boas qualidades, e por fim
achei que eram tantas e tantas, que, esquecido da morte... fui pôr o
rewolver no prego.
O MIMOSO
--Está frio, dizia elle subindo o Chiado.
Era um homem de quarenta annos, magro, quasi cadaverico, de melenas tão
compridas e tão esquecidas de pente que se lhe emmaranhavam nas barbas,
de olhos negros, encovados, de olhar obliquo e desconfiado, a luzirem
com fome por cima das olheiras papudas.
Era no inverno e elle com a mão ossuda, engrifada apertava contra o
peito a sobrecasaca rota, sem botões. Não trazia collete e a camisa era
um frangalho. Como se precisa ter gravata para entrar nos passeios, onde
não desgostava de ir á tarde apanhar um bocado de sol, trazia um
pedacinho de panno azul pregado ao collarinho sem gomma com um alfinete
de ferro. As botas rotas, sem tacões, tinham, a tapar-lhes os buracos,
camadas sobrepostas de lama secca.
Parou á porta do Baltresqui.
Um janota sentado a uma das mesinhas do café, deante de uma garrafa de
Père Kermann, aspirava o fumo aromatico de um charuto pequenino.
Passados momentos, tirou o relogio da algibeira, viu as horas, engoliu
de um trago as ultimas gottas do calix e, chamando o criado pelo nome,
atirou-lhe uma nota de dez mil réis. Quando o criado voltou com o trôco,
levantou-se deixando o cobre em cima da mesa.
--Muito obrigado, sr. Visconde, disse o criado, dando-lhe piparotes
na manga do sobretudo suja pela cinza do charuto, que o Visconde
quebrára na borda da mesa.
--É um visconde, observou distrahidamente o homem das botas rotas.
E como o Visconde voltasse para cima, seguiu-o á espera que deitasse
fóra a ponta do charuto. Ia apertando a sobrecasaca contra o peito e
invejando o casaco do Visconde, comprido, felpudo, de grande golla, que
se podia levantar e abrigava as orelhas do frio.
O Visconde subia o Chiado devagarinho, com as mãos nas vastas
algibeiras, tirando do charuto abundantes fumaças, com aquelle sorriso
de satisfação, que dá a certos parvos de bom estomago a digestão de um
bom jantar.
O pobre diabo tinha fome. Almoçára na véspera; depois não tinha comido.
Mas o que mais o apouquentava era o apetite de fumar.
O fumo adormece a fome e expulsa a melancolia. Póde-se dormir, quando se
tem um cigarro na algibeira e o fumo de um outro enchendo o quarto.
O tabaco é o veneno rei dos venenos, um elixir que mata lentamente, que
embriaga, que socega os nervos, que enfraquece a memoria e dá ás pernas
uma preguiça deliciosa, que faz achar boa a cama pela manhã, quando o ar
está cheio de neblina e na rua afogada em lama se ouvem os pregões e o
sussurro dos que teem que fazer, dos que trabalham.
--Por isso Deus que afinal é bom, ia o homem pensando, encheu as ruas de
pontas de charuto para os homens e de tallos de couve para os cães, que
não fumam, que não teem que esquecer, que são tolos.
Mas a noite estava chuvosa e as pontas de charuto, não se viam,
enterradas na lama pelas rodas das carruagens. Por isso seguia o ricaço,
ancioso pelo momento em que o charuto havia de cahir espalhando em torno
uma chuva de faisquinhas.
O Visconde parava de vez em quando, apertando a mão aos amigos que
desciam.
--Então que se faz? perguntavam-lhe.
E elle só encolhia os hombros como resposta áquella pergunta ociosa e
tola. O homem notou:
--Pois elle não terá nada, mesmo nada, que fazer?
Comparou-se com o Visconde e sentiu uma certa vaidade. Porque elle
trabalhava, fazia alguma coisa. Se lhe perguntassem o quê, talvez não
respondesse logo, assim sem pensar, sem examinar um instante com olhar
desconfiado o fim com que lhe faziam a pergunta. Ás vezes, quando se
levantava, não tinha de comer; era preciso arranjal-o e arranjava-o. Era
talvez pouco escrupuloso; isso sim.
--Mas, pensava, para se terem delicadezas é preciso alguma coisa na
algibeira.
E isso era raro, muito raro.
Decididamente, se alguém lhe perguntasse:
--Então que se faz? havia de responder como o Visconde, encolhendo os
hombros.
Depois, como se toda esta cadeia de pensamentos o tivesse conduzido
a uma conclusão certissima, olhou para o janota, a rir-se, com certo ar
maganão, e exclamou baixinho, como quem faz uma descoberta:
--Olá!
E, apontando com o dedo pollegar para o Visconde, disse piscando o olho
a si mesmo:
--É cá do meus.
Chegado á rua Nova dos Martyres, o Visconde parou um instante, tirou o
relogio da algibeira e, approximando-se de um candeeiro, tornou a ver as
horas. Esteve um momento como que indeciso sobre o que havia de fazer;
por fim dobrou a esquina e dirigiu-se para S. Carlos.
Tirou as luvas da algibeira e começou a calçal-as.
--Quando deitará elle fóra o charuto? pensava o homem.
Mas de repente affirmou a vista e os olhos faiscaram-lhe: o Visconde ao
tirar as luvas da algibeira deixára ficar o lenço com a pontinha de
fóra.
Contrahiu um pouco as sobrancelhas meditando.
Valeria a pena um lenço? Tinha fome. Aquelle lenço representava talvez a
ceia. Seria triste na verdade; o que poderia valer um lenço?
Estendeu o labio inferior.
Era preciso tomar uma resolução.
Ora, adeus! Mais valia do que morrer de fome.
Approximou-se nos bicos dos pés.
Olhou para todos os lados. A rua era deserta.
O coração bateu-lhe um pouco. O Visconde podia sentil-o, defender-se,
gritar, e elle iria preso, com fome, e passaria a noite a tiritar de
frio, fechado n'um calaboiço.
Animo!
Metteu a mão esquerda por debaixo da aba do sobretudo.
O Visconde cantarolava:
C'est q'çá gli...iiis...se.
Victoria! O lenço era d'elle!
O homem não tinha sentido nada e acabava a copla:
Encore un qui n'l'aura pas
La timbale
La timbale.
* * * * *
Um lenço! Ia finalmente comer. Tinha ganho o dia.
E o lenço era um bom lenço, muito branco, muito novo.
Mirou-o e remirou-o.
Não tinha uma só passagem e era de seda.
Era de seda! Queria dizer que representava talvez mais do que a ceia.
Quanto poderia valer aquillo?
O homem chegou-se a um bico de gaz e poz-se a olhar. De vez em quando,
coçava com a unha a aza do nariz, signal certo de duvida.
O Gomes é que lh'o poderia dizer. O Gomes era muito entendido; um pouco
ladrão, mas muito entendido.
E já esquecido do Visconde e do charuto, voltou e dirigiu-se para a
Calçada do Duque.
A casa de penhores era á esquerda, uma casa pequena, asphixiante, cheia
de fato até á porta.
O Gomes estava por detraz do balcão, encostado aos livros, com a sua
suissa á ingleza, a caneta atraz da orelha, e o seu sorriso protector.
Um candeeiro de petroleo, com vidro sujo e luz economica, alumiava
fracamente as roupas inuteis, que nas prateleiras até ao tecto esperavam
tristemente pela traça ou pelo proximo leilão.
Uma guitarra sem cordas pendia de um prego ao lado de uma serra. Do
outro lado, o retrato de um bom velho burguez e calvo, com a barba
cerrada, ar de pessoa de bem, e um botão d'oiro, quadrado, no peitilho
da camisa, sorria com bondosa satisfação para um cacho de botas
velhas, que, suspensas do tecto, se lhe baloiçavam a dois palmos do
nariz. Tinha valido um dinheirão, valia agora cinco tostões.
O homem parou á porta e poz-se á espreita.
--Muito boas noites, sr. Gomes.
--Olá!
--Dá licença?
Atirou o lenço para cima do balcão.
--Faça favor de ver isso.
E, á espera que o exame do lenço acabasse, entreteve-se a olhar para uma
borboleta, que esvoaçava em torno do candeeiro.
O Gomes desdobrou o lenço, sacudiu-o, levantou um pouco a torcida e
começou um exame minucioso, palpando, virando e revirando a seda.
--Isto de bordados... Um _A_ e uma corôa.
E o Gomes sorriu-se, esforçando-se por ter um ar intelligente.
--Foi o sr. Visconde que m'o deu para o empenhar, disse o outro,
encolhendo os hombros com impaciencia.
--Pois, amigo, diga ao sr. Visconde que isto pouco valor tem. O bordado
é bom, o bordado tem valor; mas a quem póde isto servir? Quer trez tostões?
--Traste...! resmungou o homem. Então só vale...? Ó sr. Gomes, olhe que
roubar é feio. Faça favor de reparar que é de seda.
O Gomes, desdenhoso atirou com o lenço.
--Dê-me um cruzado e vou-me embora.
--Homem, você parece que não sabe quem eu sou!
E poz doze vintens em cima do balcão.
--Traste! tornou a resmungar o homem, pegando nos doze vintens e
encaminhando-se para a porta.
--Quer cautella? perguntou o Gomes com ar de brincadeira, já
desmanchando o bordado com o bico d'uma tesoira.
--Nada. Obrigado. O sr. Visconde não me falou em cautella.
E sahiu sempre a resmungar.
* * * * *
Poucas horas depois, estava estirado ao pé d'uma sargeta.
Cahia uma chuva miuda e fria e elle sonhava.
Sonhava que tinha roubado um lenço de seda, d'uma seda muito fina, tão
fina que nem o Gomes sabia ao principio o que lhe havia de dar pelo
lenço. E tinha-lhe dado a loja toda, as botas, a guitarra, o oiro que
estava na gaveta do balcão, o dinheiro que estava na commoda, tudo. E
elle era rico. Andava de trem e bebia no Baltresqui uma coisa com
bolhasinhas a subirem e que fazia saltar as rolhas das garrafas. Os
janotas do Chiado tratavam-o por _tu_ e os gaiatos davam-lhe _dom_. O
Visconde era muito amigo d'elle e offerecia-lhe charutos
magnificos, que roubava a um estanqueiro muito velho da rua dos
Canos. Tinha um sobretudo côr de canella, muito quente e andava de
luvas. Morava n'um palacio e tinha na salla o retrato do velho que
estava na loja do Gomes, e que era pae d'elle, e do outro lado estava o
retrato do outro pae, do que tinha conhecido, do que lhe dava pancadas
quando elle era pequeno. E o Gomes vinha pedir-lhe esmola. Estava muito
magro. O lenço não era de seda, era de papel. E elle tinha um cão muito
grande, com olhos de lume, que mordia no Gomes, e o Gomes chorava.
--Leva arriba!
Um policia de voz aspera accordou-o com um pontapé.
E, como o homem resmungava, metteu-lhe a mão por debaixo dos braços e
obrigou-o a levantar-se.
--Marche adeante e nada de cerimonias.
Fôra dia de grande gala e as luminarias morriam nos preguinhos do
governo civil.
O homem percebia tudo um pouco vagamente. Sentia-se empurrado e via as
luminarias.
Aquillo entristecia-o.
Perguntaram-lhe o nome e ainda teve forças para murmurar com voz avinhada:
--Francisco Antonio, o _Mimoso_.
* * * * *
Quando, pela madrugada, acordou, cheio de frio e de fome, metteu a mão
tremula na algibeira das calças e murmurou com voz triste e arrependida:
--Fiz mal.
E depois d'um instante de reflexão:
--Devia ter comprado um massinho de cigarros.
GRI-GRI[1]
Ao longe, para as bandas de Santos, começavam a apagar os candeeiros.
Uma neblina baixa espalhava-se sobre o Tejo, mas no céu, atravez do
nevoeiro, brilhava, muito fria, a estrella da manhã, e a lua, como um
saveiro de prata, de proa e poppa recurvadas, empallidecia pouco a
pouco. Os montes da Outra Banda estampavam confusos no céo embaciado os
contornos gigantescos, e no fundo escuro mal se distinguiam as grandes
massas negras dos navios. Occulto n'um monte de pedras, um grillo
cantava distrahido:--_gri, gri, gri, gri..._
O homem vinha d'aquelles lados do Caes do Sodré. Parecia bastante fóra
de si; cambaleava por excesso de cançaço; muito pallido, com o fato em
desalinho, o chapéo de palha, amolgado, deitado para a nuca. Parava
repentinamente, de quando em quando, como em frente de um obstaculo
invencivel, e limpava com as costas da mão as bagas de suor
escorrendo-lhe sobre a testa das melenas desgrenhadas, que então sacudia
para traz com um gesto violento da cabeça. Seguia aos SS, machinalmente,
ao acaso, para onde as pernas o levavam. As abas do casaco desabotoado,
onde batia com os braços a dar, a dar, faziam-o parecer na sombra,
quando passava junto dos candeeiros, um grande morcego ferido a
querer esvoaçar. Vinha de dentes ferrados, olhar fixo, olheiras pisadas.
Já se ouviam os barulhos antipathicos do amanhecer na cidade. Recolhiam
as carroças dos varredores, e na Praça D. Luiz dois empregados, mudos e
somnolentos, limpavam as sargetas do passeio. O homem dos candeeiros
vinha-se approximando, fazendo tinir os vidros, ao cahirem depois da luz
apagada. Para aquelles lados apenas ficou luzindo uma lanterna moribunda
n'uma barca de banhos. Um homem em mangas de camisa, que dormira toda a
noite em cima d'um banco, espreguiçou-se muito, dobrou os joelhos,
tornou a esticar as pernas e depois, rodando sobre o centro, sentou-se
de repente, tirou o barrete, coçou desesperadamente a cabeça. Uns
operarios, com o fardel em lenço de chita na ponteira do guarda-chuva,
passaram apressados. Por todos os lados, na cidade alta, em roda da
Praça e nas capoeiras dos terceiros andares, estrugiam cantos de
gallos, roucos e solemnes, conquistadores e desafinados.
O homem, que até então seguira pelo meio da rua, approximou-se do
passeio. O outro acabara de coçar-se e, como a manhã estava humida,
enterrara o barrete até ás orelhas e, de braços cruzados, muito chegados
ao peito, fazia, para aquecer, o gesto de quem emballa uma criança.
Levantou-se depois e foi para o caes gritar muito prolongadamente--«Ó
compadre...! Ó compadre...! Ó compadre...!» Lá de longe, d'uma fragata,
responderam-lhe:--«Eh! ti'Zé...!» O homem dos candeeiros passou, e, como
o ti'Zé se levantára, o outro sentou-se sem dar por isso, no mesmo
banco, perto d'onde o grillo continuava distrahido:--_gri, gri, gri,
gri..._
Parecia muito afflicto, em grande desespero, relanceando em redor os
olhos, sem fixar a vista em nenhum objecto, como se apenas pudesse olhar
para a sua desgraça. Tirou o chapeu, fincou os cotovellos nos joelhos, e
com as maçãs das faces sobre os punhos cerrados, arrepelou as barbas
para cima dos olhos. Olhando tristemente para o chão, todo curvado,
vinham-lhe estremecimentos nervosos, que lhe percorriam rapidos o corpo,
fazendo-o levantar as pernas, que recahiam com força; tinha no rosto a
mascara pallida e feia da tristeza sem consolo; nas olheiras carregadas
e nos cantos dos labios uma amargura dolorosa cavára as rugas muito
fundas. Respirava alto, murmurando exclamações irritadas d'uma angustia
sem remedio, frases sem nexo, cortadas por soluços.
Os fios do telegrapho cantavam sem pausa uma doida melopéa triste,
emquanto ao longe, já se ouvia um murmurio indefinido de vida a começar.
Algumas chaminés principiaram a deitar baforadas negras de fumo, que,
não podendo elevar-se na atmosphera humida, alastrava-se sobre o Tejo. E
os signaes das embarcações e o reflexo d'elles n'uma grande faxa
tremeluzente faziam como que um bordado a oiro no grande véu
esfarrapado de gaze luctuoso.
O horisonte branquejava.
Ouviram-se nos navios os tiros frouxos da alvorada e de longe chegaram
moribundos uns toques de corneta. Junto ao caes passeava, com modos de
avejão na densa neblina, um guarda da alfandega friorento. E o grillo
sob as pedras continuava distrahido:--_gri, gri, gri, gri..._
O homem ergueu-se n'um impeto, como quem toma uma decisão inabalavel
contra argumentos. Cambaleando, arrastando-se, approximou-se do caes.
Pequeninas vagas marulhavam docemente e lá do fundo subia um frio
humido, desagradavel, frio de morte. Então poz-se a fitar os olhos nas
aguas e, como se ellas lhe cantassem uma canção muito meiga, como se
ouvisse a voz da melhor amiga, sorriu-lhes desvanecido, mais tranquillo,
já quasi convalescente da longa noite de exaspero. Duas grossas lagrimas
correram-lhe pelas faces macilentas, o peito oppresso ergueu-se
alto, e elle respirou fundamente, passou as mãos pela cara. Pouco
depois, preso de pavor medonho, abalou, sem querer olhar para traz, com
gestos doidos, d'olhos esbogalhados, chapéu na mão, melenas erriçadas.
E, passados instantes, estava outra vez junto do caes, parado,
meditando, com os olhos fitos na agua.
O Tejo accordára. Do lado do Barreiro surgiam umas velasitas brancas e
rio abaixo singrava, orgulhosa, uma grande fragata de vela avermelhada,
com uma ancora pintada de negro no panno, projectando na agua immovel
como grande placa oleosa, uma imagem tremida, enorme, cortada por uma
linha de espuma. Em terra começavam a definir-se certos sussurros.
Rangiam portas de tabernas, passavam peixeiras correndo, um guarda
nocturno batia fortemente á porta d'um armazem, ouviu-se um despertador
no interior d'uma casa. O ceu, muito branco havia pouco, tornara-se côr
de laranja. A neblina erguera-se e o fumo das chaminés subia a
prumo, alargando-se no alto, como um penacho de porta machado.
Então o homem decidiu-se e de braços para a frente, atirou-se ao
rio--Chap!--O benemerito guarda d'alfandega, o _72_ por signal,
atirou-se atraz do homem.
E, quando seguia para a esquadra, acompanhado pelo guarda que
gesticulava muito, entre dois soldados da guarda municipal, encharcado,
sujo, envergonhado, arrependido, tranzido de frio, o grillo continuava
distrahido sob as pedras:--_gri, gri, gri, gri..._
* * * * *
Ora isto não quer dizer nada; mas então porque foi que só n'essa
occasião é que elle embirrou com o grillo que fazia _gri, gri_?
[1] _Variante em verso, publicada pela livraria Popular_
NA BIQUEIRA
Ella tem uns olhos azues tão bonitos!... Mas se eu vi! Elle a olhar para
cima... e ella a fazer signaesinhos com o lenço!... Vi; ninguem m'o veio
dizer... Fui eu que vi!
E estas cartas que me escreveu! Talvez em nenhuma fale verdade. Esta
ultima é toda mentira com toda a certeza. Quando a escreveu, já foi
depois de ter polcado com elle... E chama-me seu _anjo_ a infame!
Como póde um homem baixar até morrer por uma mulher assim! Morrer,
sim, está resolvido... vou matar-me.
Meu pobre pae, coitado! Sempre com tantos sacrificios por minha causa! O
que dirá, quando souber que me suicidei? Pobre velhinho! É capaz de
morrer de desgosto! Tinha vontade de lhe escrever; mas não tenho animo.
Nem animo nem papel. Gostava de me despedir... O resto do papel ainda o
gastei a escrever áquella desgraçada!
Ah! mas vou afinal vingar-me!... Hei de atribular-lhe a vida com remorsos!
Custa-me tanto morrer!... Dizem que só os cobardes é que se matam. E eu
acho que é preciso ter animo, muito animo!
Mas está decidido.
Vou morrer enforcado... Dizem que não doe nada... Mas morrer! Quem foi
que disse que não doe? Aqui está a corda. Exactamente do tamanho preciso
para que, de manhã, quando ella abrir a janella, me veja pendurado, em
frente dos seus olhos, na biqueira do meu telhado.
É preciso não hesitar... Infame! Mas que mulher tão infame! E tem uns
olhos tão bonitos!... Que besta... o outro!
Bem! agora ponho-me a chorar! São saudades de meu pae!
Aquella biqueira tentou-me. É de zinco, parece muito forte, algum tanto
virada para cima.
Vamos.
Está frio cá fóra... Chovisca... A noite é escura!...
Ali estão as janellas do quarto d'ella, d'onde tanta vez olhou para mim,
d'onde tanta vez me falou e me atirou beijos com as pontinhas dos
dedos!... Que mentira! Agora faz o mesmo ao outro!
Está frio! Será bom vestir o sobretudo... Assim estou melhor, mais
conchegado... para morrer!
Cá estou outra vez a chorar!
Ámanhã, quando abrires as tuas janellas, has de ver, mesmo em frente, o
meu corpo, baloiçando-se ao vento soturnamente.
O peor é se fico com a lingua de fóra... É tão feio uma lingua de fóra!
Eu fico tão feio!... E os olhos...! Os olhos d'um enforcado...!
Mas está decidido, está decidido. O enforcado é o mais limpo dos suicidas.
Se não fosse o medo já lá estava. Um suicida é um valente!
Atemos a corda. Mau! o telhado escorrega...! Se eu cahisse lá abaixo!...
Só pensal-o me arripia todo!
D'ali é que ella erguia os olhos tanta vez para a minha trapeira!
Devagar... Assim.. Parece-me que o laço está bem dado... Quasi que não
vejo com as lagrimas... Está bem dado, está; está seguro.
O melhor é descer pela corda, e depois, lá em baixo, quando tiver
chegado ao fim, metto o pescoço no laço, segurando a corda, devagarinho,
muito devagarinho... e deixo apertar.
Como é triste morrer assim tão novo, tão cheio de vida!...
Morrer!... Chega a ser estupido...! porque afinal eu tinha um futuro
talvez brilhante... Um praticante de pharmacia... Morrer assim tão novo!
Mas como isto faz chorar!
Está frio!
Ella dorme...! Se adivinhasse...!
Não pensemos mais n'isto. Sejamos homem!
Devagarinho...!
Estou suspenso sobre o abismo! Uma altura de cinco andares...! Sinto um
frio na espinha...! Se as mãos se me escapassem...!
Não me despedi bem do meu quarto. Devia de voltar para cima. Afinal fui
ingrato com elle. Tive ali momentos bons.
A corda dá-me cabo das mãos. Devo estar quasi na ponta... Cá está o
laço. Estou mesmo, mesmo em frente das janellas. Se me baloiçasse um
bocadinho, tocava-lhe com a ponta do pé nos vidros.
Punhamos o laço ao pescoço. Foste tu, mulher devassa, que me fizeste
esta gravata!... Agora deixemos apertar devagarinho.
Apre! É aspera a corda!
É horrivel morrer-se assim! Se ella me visse, se arrependesse e me
salvasse!
Já tenho os braços cançados...! Que tentação de voltar para cima!
Morrer...! Mas é uma desgraça!... uma tolice!
Hein? Que é isto? Pareceu-me sentir estalar o zinco da biqueira!...
Talvez fosse engano... Mas o melhor é voltar... verificar...
Não, não é engano, que horror! Estalou, é certo. Ao mais pequeno
movimento estala e dobra! Se verga demais, o laço escorrega e eu
esmigalho-me lá em baixo nas pedras da calçada!
Quem me ac...!