e já o D. Affonso galgava a quatro e quatro os degráos da escada, sem
corôa, sem sceptro, sem barbas, respondendo ao contra-regra, que o
chamava para ir agradecer os applausos da claque:
--Vão para o diabo!
E, meia hora depois, que alegria!
Quando chegou a casa, em volta da mesa, a filha, o genro, os tres
netinhos, todos a cantarem o hymno da carta:--Tchim! Tchim!...
Taratatchim! Taratatchim!
Que bem que cheirava a canja!
Aquella noite de Natal havia de ser falada!
A BURRINHA BRANCA
Meu avô tinha uma burrinha branca, que parecia um macho.
Era branca e lustrosa como um cotãosinho de serralha, esbelta, com as
mãosinhas muito finas, viva, com as orelhitas muito curtas. Uma estampa.
Quando o avô sahia n'ella, não havia general em campo de batalha que
mais garboso se apresentasse. Tic-tic!--lá iam os dois pelos caminhos.
Vinham as mulheres ás portas e era um côro:
--Benza-te Deus, burrinha!
É que tinha uns modos que prendiam o olhar de todos.
Homens havia que embirravam com o avô, por causa d'aquella fortuna, e
diziam ao vel-os:
--Raios os partam!
Mas o velhote não cuidava de mulheres, despresava invejosos e só pensava
na burra.
Chamava-se Pomba, pomba por dentro e por fóra, tão branquinha d'alma
como de pêllo.
Muito meiga, quando o avô lhe levava a ração, esfregava n'elle a cabeça,
mexia as orelhas e dava ao rabo, que é o modo por que os burros fazem
festas á gente. O avô dava-lhe beijos.
Por todas essas aldeias, nunca vi gato nem cão, animalzinho mais
querençudo.
Assim passaram muitos mezes de muita paz e socego.
Lá o nosso visinho sapateiro é que se mordia de inveja. De amarello que
era fez-se verde, de magro um trinca-espinhas. Era dono d'um cavallinho
lazão, coxo, pelludo, calçado de tres pés e bebendo em branco.
Pois ainda queria comparar o diabo do homem!...
Ora isto da malha branca da testa correndo pelo focinho até ao beiço é
de mau agoiro. Diziam os moiros que os cavallos assim marcados tinham na
cabeça a mortalha do cavalleiro. Até onde seja verdade não sei; mas vi
mais d'uma vez o lazão aos coices nas estrellas e o sapateiro no chão
com as costellas amolgadas.
Pois, apezar d'isso, só para fazer rabiar o avô, dizia que não trocava!...
A Pomba era um apetite. Invejavam-lhe ovelhas a mansidão.
O avô calava-se, porque bem conhecia o sapateiro. Ria-se, sem que
ninguem desse por isso, que eram tantas as rugas na cara, que mais uma
menos uma não fazia differença. Onde se lhe conhecia a alegria era nos
olhos, uns olhitos pequeninos, já sem côr.
A burrinha a trote,--tic-tic!--e elle:
--Bons dias, visinho!
Então o cavallicoque escanzelado, muito malcreado, tinha o máu sestro de
rinchar.
O avô não gostava do atrevimento; mas que havia de fazer senão
conformar-se com o namoro desaforado de quantos quadrupedes na terra
havia? Era a linda cabecinha branca apontar entre os humbraes da
cocheira e logo cada zurro de repicaponto, que, fosse a Pomba como
certas mulheres, seria a aldeia um céo aberto.
Ella, muito dengosa,--tic-tic!--olhava para todos de soslaio, mas nenhum
encarava de fito.
Eu levava-a muita vez a pastar. E, como o avô não queria que ella
perdesse um só ponto da reputação, dizia-me sempre:
--Não percas o animalzinho de vista. Não deixes de pear a burra.
Nem o mais pintado se lhe havia de chegar, que eu tinha sempre o olho
n'ella e nunca as peias me haviam esquecido.
Entretanto chegou o mez de abril e toda a charneca se encheu de flores,
desde as copas mais altas dos sobreiros até ás ervinhas, que se escondem
envergonhadas debaixo das moitas.
A burrinha abria muito as ventas, respirando o ar fresco da madrugada,
que cheirava a alecrim e a rosmano, que nem eu sei encarecel-o! Os
estevaes eram todos em flor e a charneca parecia um mar todo elle verde
e branco, quando o vento cursava por essas mesas fóra.
Ella gostava de ouvir os passarinhos, que até parece que os entendia.
Não ha como máus exemplos. Andava azougada e o avô inquieto.
--Peia-me a burra, dizia sempre.
Iam tamanhos desaforos pela aldeia...! Mas quem havia de pensar...?
* * * * *
Ora, por esse tempo, a Pomba fez quatro annos, o que é tambem a
primavera na vida dos burros.
Uma certa manhã, o sol, depois de trez ou quatro dias de choviscos,
appareceu de repente limpo de nuvens e com tanta luz, que as abelhas
embebedaram-se todas. Era um zunir lá pelos ares, que até dava alegria á
gente. E lá em baixo no montado, ao pé do rio, ainda os rouxinoes se não
tinham calado, já os trigueirões andavam cantando. Era dia de festa
tanto na terra como no céo!
Ora um homem póde ser marréca, aleijado e feio como eu sou, ha coisas
que lhe vão direitinhas á alma.
Larguei a burra no ferregial e fui-me deitar debaixo da figueira.
Dizem que o sol, quando nasce, é para todos; porque não havia de haver
uns raios para mim? Tanta moça boa na aldeia e eu estropiado, sem me
atrever...
Puz-me a olhar para aquelles montes, d'onde o sol vinha a subir. Um
moinho ao longe bracejava, com as velas muito brancas, que mal se
viam no céo todo em volta cintado de côr de sangue. Zuniam as abelhas,
cantavam os passaros, e o cheiro das flores, em que me tinha deitado,
trepava-me á cabeça. Fechava os olhos encadeados com a luz do céo e
punha-me a sonhar. O sol appareceu por detraz do monte, correu uma
aragem, as florinhas do rosmano curvaram-se, escondendo-se na troca dos
beijos. Passaram no ar duas borboletas brancas, uma atraz da outra, e
pelas ervas andavam gafanhotos aos saltos. Eu pensava em muita coisa
junta e cantarolava baixinho uma cantiga, que tinha ouvido de longe,
n'um baile da véspera:
Qual a distancia e a lonjura
Onde o sentido caminha,
Onde é que elle vai parar,
Isso ninguem adivinha.
Ora os versos que eu cantava, a burra tambem os sabia. Tinha-me
esquecido peal-a e, quando voltei a mim, não vi da burra nem rastos!
E ali fiquei eu, não sei que tempos, como um simplacheirão, de queixos
cahidos e mãos a abanar, sem achar uma idéa que me allumiasse, sem ver
remedio de vida, a tremer das furias do avô.
Depois, muito cosido com as paredes, fui até á cocheira. Talvez a Pomba
tivesse tomado o caminho de casa.
O avô, satisfeito como um gato ao borralho e descançando em meu cuidado,
assentára a barba sobre o peitilho, e no pateo, sentado no banco de
pedra, dormia ao sol.
A burra não estava.
Fui para a charneca. Onde via esteva pisada, procurava achar um rasto.
Levava n'uma palhinha a medida certa da ferradura; mas as poucas horas
de sol n'aquella manhã tinham endurecido a terra.
O sol foi subindo e até ao meio dia andei leguas. O coração batia-me
tanto, que me fazia doer. Não parei. Ia á doida, sem destino.
Bateram na villa ave-marias. Dei por mim a quatro leguas da aldeia.
Calaram-se os passaros; as papoilas das estevas enrolaram-se para
dormir; anoiteceu, e eu deixei-me ficar toda a noite na charneca, a
tremer de susto e de frio. Toda a santa noite um mocho piou e eu pensei
na coça que me esperava. Se não fosse a marréca, tinha fugido para
assentar praça. Uma d'aquellas só pela fortuna! E toda a noite tive nos
ouvidos a mesma cantiga... Mas quem podia adivinhar...?
Era quasi madrugada, quando cheguei a casa.
Mal o avô me avistou, bateu-lhe o queixo como em terçãs, e até os beiços
se lhe fizeram brancos.
--E a burra? perguntou.
Por felicidade, n'essa altura, a Pomba entrou no pateo, a passo, de
orelha muito murcha, como quem traz peso na consciencia.
Foi o que me valeu. Eu, que tanta praga durante a noite lhe rogára, tive
até vontade--palavra!--de desatar aos beijos á minha salvadora.
Mas já o avô a tinha agarrado. O desgosto não lhe havia feito esquecer o
costume, pelo contrario, e uma melhor matadella de bicho tornava-o ainda
mais terno.
O que elle disse á burra! O que elle lhe disse!
* * * * *
Mas embora o velho perdoasse, o mal estava feito. Breve d'isso se
convenceu. Primeiro foram apenas suspeitas, passados dias uma certeza.
O avô andava envergonhado. Já, quando passava em frente da porta do
sapateiro, não largava chalaças para a loja. O caso tinha sido falado.
Isto de más linguas na aldeia!... O avô parecia-lhe que a honra da burra
tinha o que quer que fosse com a honra d'elle. D'antes sempre
cantando--_tiro-liro-liro!_--andava matuto agora. «Quem seria?...
Vão lá saber!» Nasceu-lhe um odio enorme a todas as cavalgaduras a quem
pudesse attribuir a desgraça. Desafogava comigo e dava-me bofetadas,
cada vez que dizia «não a peaste!» O asno do moleiro era amarello com
uma cruz nas costas e tinha fama de requestado. Nunca mais o poude ver.
Contra todos tinha uma pedra no sapato e, quando o lazão rinchava,
dizia:--«Desavergonhado!» Mas não desconfiava d'elle. Tão feio!...
Quiz ver se a Pomba se trahia. Quando passeava pela aldeia na burrinha,
ia-lhe sempre observando qualquer gestosinho das orelhas. E ella muito
seria... tic-tic!...
* * * * *
Uma madrugada vim dar parte ao avô de que havia mais um machinho na
cavallariça.
Nem sequer acabou de engolir o copinho de aguardente e atravessou como
doido o pateo.
Um macho! Um macho!... Mas então quem?... quem?
A luz da alvorada mal coava pelos intervallos da telha vã, cobertos de
teias de aranha, onde se baloiçavam palhas. Foi preciso que eu
accendesse a candeia.
Como a Pomba enternecida lambia o filhinho!
Era um machinho lazão, muito feio, calçado de tres pés, bebendo em branco.
Quando o avô lhe não deu ali um estupor, é porque já não morre.
O caso, é claro, fez bulha, ainda mais do que o primeiro.
Eram quasi dez horas da manhã, quando o avô, que se fôra encostar na
cama, ralado pelo desgosto, ouviu uma voz alegre, que lhe gritava:
--Parabéns!
Veio á porta furioso e mostrou o punho ao sapateiro, que se afastava,
rindo, a chouto, no lazãosinho coxo, pelludo, calçado, dos trez pés e
com a tal malha de máu agoiro...
Ora o que desconsolou o avô foi o que me deu alegria para a vida.
Aquillo do cavallicoque animou-me, porque a burra estava despeada e foi
até onde muito bem lhe pareceu. São gostos. Pobrinho d'uma figa n'alma,
no corpo e na algibeira, vivi desde então com uma esperança.
* * * * *
Quando o marrequita acabou de contar a historia, a Caetana que andára
servindo os freguezes, poz-se vermelha... vermelha...
--Até mais logo, disse elle, sahindo.
O diabo do marreca tinha sorte!
INDICE
Pag.
As Mães 1
O Baile dos velhos 13
A Outra 27
O Paquete 47
Perdido 63
Ad Astra 77
O Ventura 95
O Primeiro sorriso 113
O Meu rewolver 127
O Mimoso 139
Gri-gri 153
Na Biqueira 161
Requiem aeternam 171
As Estrellas do cego 183
Os Netos 195
A Burrinha branca 203
LIVRARIA EDITORA
GUIMARÃES, LIBANIO & C.IA
108, R. de S. Roque, 110--LISBOA
*Mulheres da Beira*, contos, de Abel Botelho--1 vol. broch. $700
*Os Amores de Camillo* (Biographia amorosa de Camillo C. Branco) por
Alberto Pimentel--1 vol. illustrado, broch. 1$200
*Lyra insubmissa*, versos de Abel Botelho--1 vol. broch. $500
*O Lubis-homem*, comedia em 3 actos, de Camillo C. Branco--1 vol. broch.
$600
*Historia do Culto de N. Senhora em Portugal*, por Alberto Pimentel--1
vol. de 500 pag. in-4.º com mais de 80 gravuras--br. 2$000, enc. 2$600
*Cartas da Condessa d'Alve*, romance, por Daniella--1 vol. broch. $500
*Pintores e poetas de Rilhafolles*, por Julio Dantas--1 vol. ill. $400
*Viagem á roda das viagens*, por Alberto Pimentel--1 folh. impresso em
papel de linho $200
*Tratamento natural*--(7.º vol. da Collecção do povo) pelo dr. João
Bentes Castel-Branco--1 vol. cart. $100
*Meia Noite*, peça em 3 actos, de D. João da Camara--1 vol. br. $500
*Rindo...*, contos de D. Claudia de Campos--1 vol. br. $700
*Pela Vida fóra*, memorias, de Silva Pinto--1 vol. broch. 800 enc. 1$000
*O Sonho da Rainha*, por Alberto Pimentel--1 folheto $100
*Pedro Alvares Cabral e o descobrimento do Brazil*, por Faustino da
Fonseca--1 vol. cart. $100
Notas de transcrição:
O texto aqui transcrito, é uma cópia integral e inalterada do livro
impresso em 1900.
Mantivemos a grafia usada na edição impressa, tendo sido corrigidos
alguns pequenos erros tipográficos evidentes, que não alteram a
interpretação do texto, e que por isso não considerámos necessário
assinalá-los. Mantivemos inclusivamente as eventuais incoerências de
grafia de algumas palavras, em particular quanto à acentuação.