Começou soprando mais rijo o vento, e, quando o sol desappareceu,

fechava o horizonte uma lista negra, franjada de oiro, que ameaçava

engrossar.

Pois paciencia! Felizmente lá estavam na gaveta as economias do verão.

Todos os annos havia inverno e na casa d'elle nunca houvera fome, graças

a Deus.

E o José levou a mão ao barrete.

Sentia-se feliz, não tinha cuidados, o dinheiro entrava-lhe pela porta

dentro; teria até demais, se fosse a comparar, porque a elle nada lhe

faltava e a muitos faltava tudo.

Lembraram-lhe então certas historias. Aquella mulher a quem uma vez

alugára o bote, porque a encontrára a chorar no Largo. Tinha deixado os

filhos sósinhos em Caparica e estava ali com um vintem na algibeira; e

elle alugára-lhe o bote pelo vintém, que acceitára, porque não queria

envergonhal-a. E outra vez que elle se escondeu para o Conselheiro o não

ver e alugar o bote ao tio Matheus, que havia dois dias não trabalhava e

tinha a filha doente em casa, a tossir, a tossir, e elle sem

dinheiro para lhe comprar o caustico?

Havia tanta pobreza!

Elle nada lhe faltava e até na algibeira trazia quasi sempre uns cobres,

para o que desse e viesse.

E como levava sede, entrou n'uma taberna e pediu dois decilitros.

O taberneiro tinha sahido. Foi a filha quem veiu servir.

O José ficou um pouco enleado a olhar para a rapariga, quando esta lhe

trouxe o copo trasbordando, deixando cahir no pires de barro grosso,

branco, riscado de azul, um pouco de vinho em que ella molhava a unha do

pollegar.

Para o gosto d'elle nunca vira mulher assim!

Levou a mão ao barrete, e disse com a sua educação costumada:

--Muito obrigado.

E ficou-se a olhar para ella, um pouco apatetado, querendo falar e não

lhe occorrendo nada, sentindo como que um nó na garganta e um véo

no entendimento, que o apouquentavam.

Era uma rapariga alta, magra, de cabellos castanhos muito finos, muito

compridos, separados no alto por uma risca estreita, mostrando o casco

branquissimo; a orelha pequenina; o nariz perfeito apesar d'uma pequena

quebra; a bocca um quasi nada grande, com o beiço interior saliente, e

uns olhos azues escuros, que entonteceram o José, quando n'elles demorou

os seus.

Do outro lado do balcão, de mangas arregaçadas, um pouco enleada tambem

pela ingenua admiração que percebia causar áquelle homem, lavava os

copos n'um alguidar de zinco posto em cima d'um mocho, e collocava-os

depois na prateleira de pinho pintada de azul, virando para o ar os

fundos, onde, como aureolas, se alastravam grandes nodoas roxas rebeldes

á limpeza.

A noite vinha-se approximando. A taberneira raspou um fosforo na

prateleira e, desviando a cara dos fumos do enxofre, accendeu o

candieiro de petroleo.

--Muito boa noite, disse.

--Boa noite, respondeu o José, erguendo-se um pouco.

E nunca musica para elle valêra aquella voz.

O vento fóra soprava rijo e o ramo de loiro á porta raspava na parede.

O José levantou-se e abriu o saquinho d'algodão. Com voz sumida pediu

por favor dois charutos cortados e pagou, levando a mão ao barrete, sem

se atrever a mais palavra.

Por toda a estrada veiu pensando na rapariga. Trazia-a indelevelmente

fixada na memoria, e até nas mais pequenas particularidades, uns

signaesinhos espalhados pelo nariz e um outro sobre a palpebra um pouco

mais accentuado.

E repetia mentalmente, muito enlevado, as unicas palavras que lhe

ouvira:--«Muito boa noite. Muito boa noite.»

* * * * *

A mãe extranhou-o. Em vez de adormecer para ali, depois da ceia, como

costumava, pregou os olhos no tecto, e ficou-se a mascar um bocado de

charuto, a mascar, ora serio, ora sorrindo a alguma imagem que

entrevisse, como quem faz castellos no ar, que os vê cahir de repente e

logo erguerem-se mais alto. Nem sequer reparou nos olhares

prescrutadores que a mãe, de vez em quando, lhe lançava por cima dos

oculos.

Mas de repente a pobre Anastacia deu-lhe o coração um baque. E ella que

nunca se lembrára d'aquillo! Pois não era certo que tarde ou cedo havia

de acontecer?

E com um fundo suspiro de saudade pelo bom tempo que passára, murmurou

com os olhos embaciados:

--Queira Deus que seja para bem.

O José encarou-a, despertado por aquella voz.

Ergueu-se e approximou-se da janella, que abriu.

O vento soprava do sudoeste. Ao longe a barra roncava medonhamente.

Grossas cordas d'agua entraram no quarto.

--O inverno! disse elle, fechando a janella.

A velha encolheu os hombros.

E depois, com certo ar malicioso, já conformada:

--Ainda agora para ti começa a primavera!

* * * * *

Pouco tempo durou.

Uma noite, o José sentou-se tristemente á prôa do bote e remou devagar

para o largo. Chegado a meio do rio, deixou os remos e, traçando a

perna, fincando a barba no punho cerrado, deixou ir o barco na corrente.

Poz-se a olhar, sem as ver, para as mil luzes, que no quadro sobre as

nodoas escuras dos navios brilhavam como lentejoulas no panno negro

dos caixões. Estava triste o José naquella noite.

E quando reparou, á pôpa do barco, na alcunha d'elle--Ventura--pintada

em grossas letras brancas sobre uma variegada rosa dos ventos, sorriu

amargamente e murmurou com ironia:--Ventura!

O bote arrastado pela vasante passou para além da Torre, e o José perdeu

de vista os pontos luminosos do quadro. Apenas, ao longe, avistava um

candeio baloiçando-se sobre a facha projectada, tremeluzente.

Que tristeza aquella!

O bote corria para a barra e começava saltando na crista das ondas.

Fazia frio, e o Ventura encharcado, tremia.

De repente, o candeio desappareceu. Então o José ergueu-se, pegou

novamente nos remos, virou o bote, começou a remar com força para o lado

de Lisboa, arquejando, como a fugir d'um perigo. Mas de novo deixou

cahir os braços, em grande prostração, e a cabeça inclinou-se-lhe sobre

o peito. O bote virou devagarinho e continuou em seu caminho fatal.

O farol do Bugio circulava lentamente, e a luz fixa da Torre de S.

Julião parecia examinal-o com uma grande curiosidade idiota, nunca

satisfeita. O bote passou entre os dois faroes.

As ondas marulhavam de encontro ás bordas do barco, e a musica d'ellas

era triste como o coração do Ventura.

E fôra o Conselheiro, o seu melhor amigo, quem lhe enterrára o primeiro

espinho!

Ao principio corrêra tudo menos mal. Muitos tinham medo do vapor, e mais

que todos o Conselheiro.

--Nada! dizia elle ao Ventura, batendo-lhe com a mão no hombro. Estes

progressos são muito bons, mas cá para mim não servem. Um bello dia...

--Zaz!... Pum!... concluia José, rindo muito e imitando com os braços um

grande fogo de vistas, que era a caldeira a rebentar.

E, dez dias depois, o José cumprimentava-o com o seu melhor sorriso, e o

Conselheiro passava cheio de pressa, afogueado, levando as filhas a

reboque, muito coxas com as botas curtas, fazendo todos signaes

desesperados com os chapéus de chuva para o vapor que apitava, prompto a

largar.

Bem lhe tinha dito o pae da Maria Eduarda:

--Muda de vida, José, ou prégo-te a peça.

E, como o José não mudava de vida nem a caldeira rebentava, tinham

pregado a peça ao Ventura.

Foi n'um dia em que o catraeiro, pelo maior dos acasos, tinha ganho dois

tostões. E, em vez de os entregar á mãe, foi á loja da esquina comprar

um collar de contas para levar á namorada.

--Está cá, menina Maria? perguntou da porta com o coração a bater.

--Sahiu, respondeu lá de dentro a voz do pae. Queres-lhe alguma coisa?

--Nada, respondeu.

E ficou encostado á porta, esperando a noiva.

Lá dentro o taberneiro virava na frigideira as sardinhas que aloiravam,

bailando e cantando uma cantiga festiva no azeite a ferver.

E o Ventura á porta apertava na mão a caixinha das contas, e tinha fome.

--Olá, _seu_ Manuel Joaquim, disse entrando alegremente na taberna um

cocheiro de grandes melenas oleosas, repuxadas para diante das orelhas,

cara escanhoada, chapéu de capa d'oleado deitado para traz. Já vieram as

senhoras?

--Ainda não, mas não podem tardar. A pequena disse á mãe que haviam de

voltar cedo por você cá vir... _Seu_ maroto!...

--Ó _seu_ Manuel Joaquim!... Eu cá dou-lhe a minha palavra...

--Mau! mau!

E, largando as Sardinhas, chegou-se ao pé do cocheiro e disse-lhe ao

ouvido:

--Olhe que a ceia está prompta e tenho ali uma pinga...!

O Ventura á porta, envergonhado, sem se lembrar de os matar a ambos,

escondia o pé descalço atráz da perna nua e torcia nas mãos o barrete de

lã esboracado.

E logo voltando, n'um desespero, atirou ao chão a caixa do collar. E as

contas de vidro foram adiante d'elle saltando por longo tempo, fazendo

uma bulha alegre de gargalhadinhas trocistas.

E a mãe áquella hora tinha fome...! E fôra talvez a fome que a matára!

Lá estava enterrada na valla dos pobres, lá muito longe, por detraz

d'aquelles montes, que a lua a nascer, espargindo uma baça claridade,

azulava docemente.

Estavam fóra da barra, o mar estava picado e o Ventura tremia.

* * * * *

No dia seguinte, ao amanhecer, foi encontrado, meio desfeito, para além

de S. Julião, um bote abandonado, que tinha á poppa escripto n'uma

variegada rosa dos ventos o nome do Ventura.

E quando soube da triste nova, emquanto aos olhos das filhas subiam

saudosas e sentidas lagrimas, o Conselheiro, gravemente, lembrando-se do

pouco tempo que durára a primavera do José, citou as rosas de Malherbe.

O PRIMEIRO SORRISO

Mal se tinham accendido as luzes no Colyseu, quando elle entrou

devagarinho, triste, um pouco asmatico, meneando a cabeça pallida.

Parece que mais lhe pesava a corcunda n'aquella noite.

Andando pelo corredor estreito, que divide os camarotes dos logares mais

baratos, foi encostar o queixo á teia de pinho, pintada de branco,

junto do caminho atapetado, que a cantora devia seguir do camarim para o

palco.

Era uma artista celebre a que se estreava. Com oito dias de antecedencia

tinha-se espalhado com profusão pela cidade, collado aos vidros das

portas dos armazens de musica, pendurado em quadros ás esquinas das

ruas, o retrato lithographado de mademoiselle Eva d'Avenay.

Um dia, o corcunda, passeando depois do jantar, como costumava, pela rua

do Oiro, erguendo a cabeça, deu, de subito, com um d'aquelles retratos

na loja d'um livreiro.

Parecido ou não, representava uma mulher lindissima.

Ficou extatico um momento; sentia tremer-lhe o coração um pouco, e como

que dois dedos apertarem-lhe amorosamente a garganta.

Entrou envergonhado, e com voz sumida perguntou ao caixeiro se aquillo

se vendia.

--Um tostão.

Elle que nunca olhára para mulher senão cá de muito baixo, coitado,

assentando no meio da espinha as abas do chapéu, que (facto pouco

vulgar) por detraz é que amolleciam, podia finalmente, por um tostão

(barato!) contemplar uma mulher bonita á vontade, sentado commodamente,

sem ser visto e sem ter de córar.

Quando sahiu da loja, levando na mão o rolinho de papel pardo, que

embrulhava a lithographia, caminhou mais depressa, quasi alegre, menos

asmatico.

Chegou a casa, desdobrou o retrato sobre a mesa, encostou n'ella os

cotovellos, e, com as fontes apertadas nos punhos cerrados, passou parte

da noite em contemplação da extranha formosura.

Parecia-lhe que afinal aquella mulher tinha que reflectir para elle uma

parte de tanto amor, que todo lhe estava dando e que era o primeiro que

sentia.

Desejos haveria tido, mas amar... Quem? Se, quando passava, todos

se riam e ninguem, ninguem, jámais sorrira para elle!

Quando recordava tempos longinquos, via, como atravez d'um nevoeiro, uma

mulher a quem elle estendia os bracinhos magros, que se lhe debruçava

sobre o pequenino berço--tão pequenino!--e que o envolvia n'uma

atmosphera de amor, beijando-o muito. Mas essa mulher tambem não

sorria... chorava.

Chorava naturalmente de vel-o tão fraquinho, tão feio, tão infesado. Se

o visse agora, cheio de rugas precoces, com os cabellos alvejando-lhe

nas fontes, e triste sempre, sempre tão triste!

Por isso contemplava aquelle retrato, como se fôra possivel aquella

mulher loira, voltar a cabeça no papel e enviar-lhe, só para elle,

aquelle sorriso que, por todas as esquinas, por toda a parte, ella

enviava... para quem?--para coisa nenhuma; que o retrato era a tres

quartos e ninguem sabia para onde olhava.

* * * * *

Os porteiros, cada um á sua porta a receberem os bilhetes, cantarolavam

os bocejos e assoavam-se com estrondo para espertar. O theatro

continuava ás escuras.

Um homem gordo entrou devagar, com as mãos nas algibeiras do collete,

assobiando por entre dentes. Sentou-se, deitou as pernas para cima da

cadeira que lhe ficava defronte, poz o lenço entre o pescoço e o

collarinho, e, tirando um palito da algibeira, poz-se a espalitar os

dentes, com um ar massado.

Duas ou tres filas mais adiante, um outro abanava-se pachorrentamente

com o chapeu, virando um bocadinho a cara para lhe ir o fresco ás orelhas.

Conheciam-se e começaram conversando em voz alta:

--Olá, Conselheiro! Então tambem deitou até cá?

O homem gordo encolheu os hombros.

--Não ha mais nada que fazer!

E depois de espalitar um bocado:

--Que isto cheira-me a fiasco.

--Ora! disse o outro com ar convencido e para estar de acordo. A tal

mulher...

--A gente cai em cada uma...! terminou o Conselheiro.

E, encostando a cabeça para traz, deu largas a um bocejo formidavel.

Um arrumador, que passava n'aquelle instante, sorriu-se aduladoramente,

curvando-se muito.

--Senhor Conselheiro...

--Adeus, _seu_ José.

E fechou os olhos, como se estivesse dormindo.

Ah! se o corcunda não andasse tão rasteiro, se não fosse tão fraquinho,

como perguntaria áquelle homem, frente a frente, com que direito

bocejava, quando elle estava ali sentindo o coração a estalar-lhe no peito!

Os musicos com os instrumentos dentro de saquinhos de chita,

começaram a entrar, limpando o suor, resmungando arias, espreguiçando-se.

Deram oito horas. Chegaram umas carruagens a trote largo. O theatro

encheu-se rapidamente.

Ouvia-se o sussurro das conversações e o ranger das varetas dos leques.

Os logares junto da teia, a que se encostara o corcunda, eram da

predilecção de muitos; pouco a pouco foram-o empurrando, e elle

apertado, afflicto com a asma, que logo o atacou violentamente, ouvia

por detraz umas risadinhas zombeteiras. Sentiu n'uma orelha bater-lhe

uma bolinha de papel. Um velho mal encarado, ao lado d'elle, estava de

figa feita.

E resignado, agarrando-se aos balaustres da teia, esperava que fosse

aquella noite a primeira feliz da sua vida.

Abriram as torneiras do gaz e a luz jorrou de repente.

Houve um sussurro maior. Muitos, que ainda se não tinham visto,

cumprimentaram-se. Os elegantes das cadeiras apontaram os oculos para os

camarotes e começaram tirando os chapéus.

O theatro transbordava.

Os musicos afinavam os instrumentos. Ouviam-se por entre as variações

alegres da flauta as notas harmonicas das rabecas. O homem dos timbales

batia notas surdas com a mão esquerda e apertava com a direita as

escaravelhas.

Afinal entrou o regente, de casaca e gravata branca, cumprimentando os

collegas, emquanto descalçava a luva.

Bateu na estante e ergueu alto o braço.

Houve uns _schius!_ assobiados por alguns amadores, que a toda a salla

impuzeram silencio.

O regente olhou para todos os musicos, demorou-se um instante e depois,

descrevendo com a batuta um quarto de circumferencia, fez signal ás

rabecas, que logo começaram tocando muito piano, em unisono.

Era com certeza mademoiselle Eva d'Avenay quem ali attrahia a maior

parte dos espectadores. Os conversadores pouco a pouco foram elevando o

tom e, como as rabecas sósinhas continuavam tocando pianissimo, havia o

que quer que fosse fantastico n'aquelle maestro de grande cabelleira

cahindo-lhe até á golla da sobrecasaca, elevando alto, muito alto, a

batuta, e deixando depois cahir o braço a tremer, a tremer, commandando

uns arcos que se mexiam como puchados por um só homem, mordendo cordas

que não tinham som.

Decididamente o corcunda suffocava.

De repente, a um signal energico do regente, os metaes vibraram enchendo

a sala de notas alegres, vivas, que n'um instante, como por encanto,

cortaram as palestras. Foi um relampago de alegria. O regente sorriu-se

delicadamente e as rabecas continuaram sósinhas no meio da distracção

geral.

Um gaiato gritou lá de cima:

--Muito bem!

Tinham acabado felizmente.

A respiração do corcunda era um apitosinho.

* * * * *

Instantes depois, corria-se uma cortina e encaminhava-se para o palco

mademoiselle d'Avenay.

Houve um sussurro admirativo. Muita gente ergueu-se. Ouviram-se vozes:

--Abaixo!

Ella, já no palco, sorria impassivel, cumprimentando o publico, olhando

em volta, muito serena.

Alguns enthusiastas davam palmas.

O Conselheiro olhou para o amigo e fez-lhe uma cara como quem diz:--de

truz!

O regente muito amavel curvou-se para a cantora e fez-lhe baixinho uma

pergunta.

Respondeu que sim, muito risonha, muito amavel.

As rabecas preludiaram.

Ella concertava o decote e alisava o cabello na testa.

Era uma mulher em todo o esplendor da belleza dos trinta annos, de

elegancia distincta e intelligente, alta, com o busto quebrado um pouco

na cintura, o peito forte, braços admiraveis, hombros muito redondos, e

nas costas, bem ao meio, uns dois ou trez signaes, que pareciam ter-lhe

sido dados, de caso pensado, pela natureza, para que ninguem julgasse

que aquelle busto era de marmore. Os olhos azues tinham um olhar

profundo e os cabellos loiros e finos emmolduravam uma testa muito lisa,

como de virgem de quinze annos.

Quando cantava, a bocca sympathica, fresca, sorria sempre, alegrando-se

aos cantos com duas pregas infantis.

Do logar onde estava, o corcunda via-lhe o perfil sereno, a longa trança

doirada e todo o vulto branco salientando-se na massa escura dos

espectadores agglomerados nos degraus em amphitheatro do outro lado da

sala.

Quando ella acabou de cantar, toda a platéa applaudia, delirante.

O corcunda bem queria dizer--bravo! mas sumira-se-lhe a voz.

Mademoiselle d'Avenay cantou tres vezes n'aquella noite e o delirio

crescendo sempre!

Agradecia muito reconhecida, pondo a mão no peito, fazendo ranger a seda

do vestido.

Já os musicos se tinham retirado, já o illuminador começava fechando as

torneiras do gaz e ainda novas ovações eccoavam na sala.

Ella tornava a subir ao palco, agradecendo, muito amavel, sorrindo como

no retrato, para o ar, para coisa nenhuma.

E por onde passava deixava no rasto um cheiro forte, bom, que embriagava

o corcunda.

* * * * *

Achou-se afinal sósinho.

Umas familias, que se tinham encontrado á sahida, conversavam,

emquanto as senhoras vestiam os chailes e os homens accendiam os cigarros.

Que fazia ali o corcunda? Viera na esperança de que essa mulher ideal,

como elle não sonhara poder haver no mundo, reparasse no pobre verme e

do seu pedestal lhe fizesse a mercê d'um olhar.

Mas nem ella o vira, nem elle pudera ajudar á ovação. Bem tinha deitado

os bracinhos por entre os balaustres para applaudir; se não fosse a

asma, teria gritado: bravo! mil vezes. Mas se era tão fraquinho...!

Estava extenuado, meio morto; a cabeça estalava-lhe.

Sentou-se n'um dos degraus da geral e escondeu o rosto entre as mãos.

Pouco a pouco, ia perdendo a memoria do que se passára, conservando

apenas a consciencia de que era um desgraçado.

Accordaram-o uns passos de mulher.

Ergueu a cabeça.

Mademoiselle d'Avenay, toda embrulhada em rendas brancas, sahia do

camarim muito risonha, conversando com uma velha, que a acompanhava.

Levantou-se. Ella tinha de passar por ali e elle tremia.

Quasi sem forças, desvairado, mal poude pronunciar:

--Bravo! Bravo!

Ella parou um pouco assustada. Vendo-o tão pequenino, na meia escuridão,

julgando-o provavelmente uma creança, tocou-lhe com dois dedos na cara.

Mas, picando-se nas barbas, retirou a mão e disse:

--_Pardon, monsieur._

E quando passou... sorriu-se para elle.

O MEU REWOLVER

Em dezembro. O sol morria depois de curta vida. A tarde era fria e o

vento cortava.

Triste, cansado, depois de um dia inutil, voltava para casa

silenciosamente, mastigando um charuto insupportavel.

Pesava-me como cruz de ferro a ociosidade que não pudéra combater.

A melancolia apoderára-se de mim. Envolvia-me a alma como que n'um

lençol humido e frio.

Bandos de operarios voltavam do trabalho alegres, socegados,

interrompendo com cantigas de fado as conversações politicas.

Irritou-me a alegria d'elles.

Eu caminhava de cabeça baixa; mas só mal definidos pensamentos se

atropellavam no meu espirito, sem razão, como succede nos sonhos inquietos.

Vagas saudades do passado, desejos mal definidos de outro tempo... Tudo

triste, triste.

* * * * *

Subi a escada ingreme, que levava ao meu quarto andar, e achei-me em

casa, sem quasi me lembrar do caminho que seguira.

Os ultimos raios do sol entrando pela janella entreaberta morriam,

faltos de forças, allumiando fracamente uns velhos retratos de familia,

immoveis, havia muito, nas molduras carunchosas.

Estava só.

Ainda bem.

Puxei de uma cadeira e sentei-me á janella, resolvido a esperar com

paciencia a noite, que ao mesmo tempo desejava e temia.

A atmosphera era humida e pesada.

Na rua havia profundo silencio.

O occidente, carregado de nuvens negras, orladas por uma franja dourada,

parecia o panno enorme d'um caixão de gigante.

As nuvens cresciam impellidas pelo vento da barra, ameaçando breve

toldar o céu.

Luziu a primeira estrella.

Contemplei-a com amor, lembrando-me de que ainda ninguem áquella hora

tivesse dado por ella. Estaria talvez no ceu brilhando tão só para mim.

E senti não sei que satisfação intima com aquella idéa: para mim só!

Puz-me a contemplal-a com amor, a falar-lhe como um poeta; e ella

consolou-me, e, durante toda aquella tarde, foi este o unico momento em

que tive amor á vida.

Um empregado do gaz passou pela rua accendendo os candieiros e

assobiando uma polca.

Ouvi uma voz por cima da minha cabeça.

--Menina Maria! Menina Maria!

Era o meu vizinho da trapeira, um empregado de uma casa de penhores,

feio, bexigoso e rachitico.

--Está o gaz acceso. São horas de começarmos a conversar.

N'uma janella do outro lado da rua appareceu a cabeça pallida de uma

rapariga, que de dia namorava o boticario e de noite conversava com o

bexigoso.

--Muito boas noites.

A menina Maria começou a fazer-lhe signaes querendo dizer, creio eu, que

addiasse para mais tarde as declarações de amor, não fosse eu ouvil-as.

--O que? perguntava o bexigoso. Não percebo. É pena estar o tempo de chuva.

--É pena, é! Pouco poderemos conversar. D'aqui a pouco... Olhe, não vê?

Estão as nuvens quasi tapando aquella estrella.

E apontou para a estrella, que fôra até ali o meu enlevo.

Dei um murro no parapeito da janella e fechei-a desesperado.

* * * * *

A nuvem negra, para provar que o bexigoso não era tolo de todo, deixou

cahir como prologo de maior chuveiro, uns poucos de grossos pingos de

agua, que vieram bater tristemente nos vidros da janella.

Accendi o velho candieiro de azeite e recostei-me n'uma poltrona de

oleado, onde dei largas aos merencorios pensamentos.

Decididamente odiava a vida.

E que me prendia a ella? Fôra uma cadeia de oiro a d'outros tempos, mas

viera a desgraça quebrar-lhe, um a um, os elos todos.

--A morte!

E machinalmente puxei do rewolver.

Era uma joasinha americana, bonita, de systema engenhoso, com fechos de

prata, que me saira n'um bazar de caridade.

--Eis o remedio para quantos males se soffrem no mundo, pensei. Uma

pouca de coragem, um pequenissimo movimento... e nada mais é preciso.

Comecei a brincar com o gatilho.

--De que serve uma vida a que póde dar fim coisa tão pouca?

E, como para convencer-me de que não havia nada mais facil, approximei

da bocca o cano do rewolver.

E vi que tinha medo e que me repugnava a morte.

Lembrei-me do frio da terra e do contacto da carne com os corpos frios e

molles dos bichos nos cemiterios. E requintei na fantasia as sensações

da longa fileira dos rigidos cadaveres, que via dormindo na valla commum

o somno doloroso da morte.

Passou-me um calafrio pelo corpo, ergui-me, levantei a golla do

casaco e comecei a passear pelo quarto.

Os velhos retratos mettidos na sombra da bandeirola pareceram-me espectros.

Um sobre todos, lembra-me, causou-me horror extranho, n'aquella noite.

Era um conego velho, gordo, sem barba, com uma corôa de cabellos

grisalhos em torno d'uma calva lisa e amarella. Tinha uns olhos azues,

pequeninos, que se fitavam na gente para onde quer que se fugisse.

Contos(#31905) · 第 3 / 6 段