--Feliciano! diga á Sr.ᵃ D. Alice que eu desejo fallar-lhe...
--Ella está na sala de jantar, com D. Maria da Gloria...
--Bem, então não á incommode; eu vou lá.
O barão sumira-se atrás do genro, pela escada acima, e o padre
Assumpção seguiu pelo corredor.
Gloria enfeitava uma cesta de flôres e fructas, dirigida pela
governante. Era para o centro da mesa do almoço. Assumpção parou
entre portas, ouvindo-as sem ser presentido:
«...tenha o cuidado, Gloria, de combinar as côres, de modo que umas
façam resaltar as outras... por exemplo, sempre que tiver flôres
escuras, como estas rôxas, ponha-as ao lado de brancas ou de
amarellas... Refresque o musgo com agua todos os dias... não consinta
na mesa de seu pae nenhuma falta... você já está uma mocinha... Hoje,
por exemplo, offereça-se para lhe descascar uma laranja, e assim
procure servil-o todos os dias... Não... essa maçã não fica bem
ahi... repare que é da mesma côr do pecego... ponha-a antes aqui,
entre esta camada de musgo...
Assumpção interrompeu-as:
--D. Alice...
Alice voltou-se. Estava pallida, com os olhos pizados de choro.
Gloria exclamou:
--Ah! padre Assumpção! estou muito triste.
--Já sei; vae brincar um pouco, minha filha, preciso fallar com a tua
mestra...
--Eu não sou mestra...
--Assisti ainda a um trecho de lição!...
--Conselhos... só...
Gloria, entretanto, sussurrava ao ouvido do padrinho:
--Faça com que ella fique cá em casa, sim?!
E sahiu correndo.
--Sabe o que a Gloria me pediu?
--Adivinho...
--Recebi hontem uma carta do barão, dizendo-me que a senhora quer
deixar esta casa...
--Despediram-me.
--Hein?!
--Despediram-me.
Assumpção quedou-se attonito deante da moça.
--Não se admire; os meus serviços deixaram de ser precisos, já sou de
mais aqui.
--Mas...
--Presenti no senhor um amigo, e sei que me defenderá mais tarde. Isto
já é uma compensação! D'aqui a duas horas sahirei d'esta casa...
A voz tremeu-lhe, um rubor cobriu-lhe as faces, e concluiu:
--Logo que tenha feito as contas com o Dr. Argemiro...
--Suppuz que a resolução tivesse sido sua, e por isso procurei-a em
primeiro logar, desejando convencêl-a a mudar de idéa...
--Enganou-se... Fui posta na rua, e se não fosse corajosa teria
abandonado hontem mesmo o meu posto. Não quero que saiba pela minha
bocca do que se passou. Outros lh'o dirão. Só lhe peço uma coisa:
affirmar que eu sou uma rapariga absolutamente honesta, se acaso ouvir
qualquer allusão desairosa...
--Não ouvirei; todos a consideram aqui e eu sei bem quem a senhora é.
Estive em sua casa.
--O senhor!
--Mas não o disse a ninguem. Descance. Permitta que a deixe, para ir
fallar á baroneza. Vejo que era a ella que eu me deveria dirigir
primeiro... Em todo caso, prometta-me não sahir sem fallar com o
Argemiro.
--É só por isso que eu espero...
Assumpção contemplou-a. Ella fizera-se de novo como um lacre.
--Que tenciona dizer-lhe?
--Prestar-lhe as minhas contas. Tenho tudo em ordem. É questão para
uns vinte minutos...
Dizem-se num minuto mais de cem palavras... pensou o padre comsigo;
terão tempo de conversar!...
O Feliciano entrava e sahia, remexendo nos talheres, abrindo e fechando
gavetas, maciamente.
Sentindo passos na escada, Alice fugiu para o interior. O padre
voltou-se. Era o barão.
O velho approximou-se.
--Então... como recebeu o homem a noticia?
--Mal...
--Hum... foi o diabo!...
--A senhora baroneza?...
--Oh, você sabe, minha mulher não póde tolerar a outra. Aquillo é
uma doença. Doença que nem os medicos nem os padres curam... Esgotei
todos os argumentos a favor d'esta pobre rapariga; afinal, comprehendi
que o melhor seria deixar correr a agua ao sabor da corrente. Os factos
brutaes resolvem ás vezes questões delicadas melhormente do que
palavras doces. Depois, esta situação é intoleravel e não podia ser
prolongada, sob pena de ver a minha mulher no hospicio ou na
sepultura... Sacrificio por sacrificio, mais vale o da moça... lá
terá na propria mocidade consolação para os seus desgostos... se esse
nome merece o dissabor do desemprego. Afinal, não devemos exaggerar os
factos. Casas não faltam para essa especie de serviço. Mais lamento eu
o Argemiro, que vae voltar aos embaraços antigos logo que tornemos para
a chacara... Veja você se conhece alguem nas condições de substituir
esta moça... D. Sophia talvez possa indicar...
--D. Alice é insubstituivel.
--Ora, ora! tambem você!
--Eu, mais do que ninguem, posso affirmal-o. Como sabe, Argemiro
pediu-me que tomasse informações da governante, logo que se decidiu a
confiar-lhe a filha... A mim bastava-me vêl-a e ouvil-a para perceber
que a nossa Gloria estava bem entregue... mas a missão era tão
delicada, que insisti em leval-a até o fim, mais com o proposito de
defender a pobre moça d'estes ataques, previstos, do que por desconfiar
d'ella. O acaso ajudou-me.
Um amigo de meu pae, o coronel Barredo, que tem a especialidade de saber
a chronica de meio mundo, veio ao meu encontro, e por me ter visto a
conversar com ella, desandou a fallar a seu respeito, poupando-me o
trabalho de uma inquirição, para que me faltava o geito...
--Isso seria vago...
--Era positivo. O Barredo estava ao facto de tudo, conhecia até a
fórmula do contracto entre Argemiro e D. Alice! Ha d'esses homens
extraordinarios, cujas vistas perfuram paredes e desvendam mysterios...
Ainda nós não sabemos do que se passa em nosso interior e já elles
estão senhores do nosso segredo!
--As informações que elle deu foram então...
--Magnificas. Terei occasião de repetil-as agora deante da Sr.ᵃ
baroneza.
--Pelo amor de Deus, não tente uma reconciliação! Seria recomeçar!
--Não se tractará senão de uma reparação. Mas sempre os conheci
justos e amigos de fazer bem.
--Caridade bem entendida por nós mesmos é começada...
--Não se falla agora de caridade, mas de justiça!
--Dir-se-ia discutir-se a sahida de um ministro de Estado!...
--Esta é mais sensivel e merece maior ponderação.
--Emfim, o que está feito está feito. Parece-me que não vou agora
pedir á _menina_ que fique, pelo amor de Deus! Eu fiz muito
dirigindo-me a ella e pedindo-lhe desculpa pela fórma por que minha
mulher a despediu...
--Ah! e ella o que disse?
--Gaguejou umas coisas, fez-se vermelha, eu creio que o estava tambem, e
voltei para o meu quarto mandando ao diabo as mulheres! Ah! Assumpção,
estou morto pelas minhas mangueiras e o socego da minha casa. Passou-me
a edade das fantasias, mas não me posso cohibir de lamentar minha
mulher.
Ella está doente, levanta-se de noite, não dorme sem o retrato de
Maria em baixo do travesseiro... É o seu fanatismo. A sua religião! O
amor de mãe desvaira-a... Que soffrimento!
A mim, já me quer mal por eu defender o Argemiro, quando allude á
probabilidade de outros amores!
Veja só...
Assumpção não respondeu; olhava machinalmente para o jardim bem
relvado, fresco das regas e illuminado pelo fulgor dos ibiscos vermelhos
e os cachos rôxos das viuvinhas. Aqui e alli, roseiras de qualidade
vergavam as hastes molles ao peso de grandes rosas perfumadas. Em baixo
da janella, num heliothropo florido, palpitavam borboletinhas brancas...
O barão interrogou o padre sobre o ultimo facto politico. Assumpção
respondeu apenas. Mal entendia d'isso, apezar dos esforços da mãe com
o sentido de o interessar pela vida... A ambição pessoal dos homens
fazia-lhe mal aos nervos...
Feliciano passou assobiando pela porta do quarto de Alice. Fôra um
desafogo á alegria que lhe alvoroçava a alma; mas conteve-se antes de
entrar na sala, onde o esperava um olhar de censura do padre.
Pouco lhe importou. Alma de negro não é alma de cão. Senão, veriam
d'ahi por deante quem mandaria alli!
Quando Argemiro desceu para o almoço, foi avisado de que a sogra o
esperava na sala de visitas. A conversa precisava discreção,--imaginou
logo do que se tratava. Ia ser bonita, a historia! Onde se teria mettido
a Alice? Vinha-lhe agora uma curiosidade doida de a vêr!
Na sala encontrou os sogros e Assumpção, com um ar de solemnidade que
o desorientou.
A baroneza derramava pelo sofá as dobras da sua saia, em frente ao
retrato da filha, suspenso sobre um _guéridon_, entre dois grandes
jarrões cheios de rosas brancas. Só faltam as velas!... pensou comsigo
Argemiro, dando com a vista naquella especie de oratorio.
A sogra, emmagrecida e pallida, chamou-o para seu lado, e antes mesmo de
qualquer cumprimento, foi-lhe dizendo:
--Meu filho, de accôrdo com a ultima vontade d'aquella que está alli,
despedi hontem a sua governante. Sei que lhe dou um desgosto com isto e
lamento-o; mas a minha consciencia impunha-me este acto de salvação
para a sua alma e de paz para o espirito amoroso da nossa pobre Maria!
--Eu não a comprehendo... mamãe!
--Argemiro! a minha convivencia nesta casa com essa mulher provou-me que
as minhas suspeitas tinham fundamento. Ella ama-o.
Argemiro não conteve um movimento de surpreza:
--É impossivel!
--Antes eu tinha a intuição d'isso; tive depois as provas, toda a
certeza. Encontrei-a muitas vezes aqui, olhando para o seu retrato; vejo
a ternura com que ella aperta nos braços sua filha, o desvello
exaggerado com que trata tudo que diz respeito á sua pessoa e como
enrubece ao pronunciar o seu nome. Affirmo-lhe que o ama. Eu nunca me
enganei. Certa d'esta verdade, deliberei despedil-a antes da sua
chegada, do que não me arrependo, por que era tempo de acabar a
comedia, que não podia ser presenceada por minha neta.
--Minha senhora!
--Ah! já não diz minha mãe!... Era ainda... Emfim! peço-lhe desculpa
se o offendi.
--Fallemos com calma. Não sei em que lingua hei de dizer, para fazer-me
entendido: que nem sequer sei a côr dos olhos d'essa senhora, cujas
feições ignoro e cuja voz mal tenho ouvido a distancia! É bonita? é
feia? Que me importa! Nunca a vi. Não quero vêl-a. Para mim ella não
é uma mulher, é uma alma apenas, que me enche a casa de perfumes, de
conforto, de doçura, como nunca tive em minha vida.
--Nem no tempo de Maria?! Era o que faltava ouvir?
--Mas não fallemos do passado, pelo amor de Deus!
--Como não, se a elle está você preso por um juramento?! Nega ter
jurado á minha filha, na hora da morte, fidelidade eterna?!
--Não deixei ainda de cumprir tal promessa; mas não teria escrupulo em
fazel-o se as condições da minha vida o exigissem. Esse juramento foi
sincero, mas mesmo sem sinceridade eu o faria naquelle transe, para
adoçar o passamento de minha mulher...
--Quer você dizer com isso que romperá tal juramento...?!
--Sem escrupulo, já disse.
--A religião prohibe-o que o faça!
--Eu não sou religioso.
--Ah! vêem?! elle tambem a ama! Minha pobre filha! Minha pobre filha!
A baroneza estava tremula, ameaçadora. Crescera de estatura,
passavam-lhe pelos olhos fulgores de mocidade e de odio.
--Se a religião não lhe impõe o cumprimento do dever, appello ao
menos para a sua honra.
Não a terá tambem?!
--A minha honra obriga-me antes a defender essa pobre moça calumniada,
do que a manter um voto que já produziu o seu effeito e de que nesta
hora me liberto.
A baroneza recuara espavorida, com olhos de assombro. O marido sumia-se,
encolhendo-se todo para dentro de si mesmo. A velha voltou-se afflicta
para Assumpção, como a pedir soccorro. Seria possivel que elle, padre,
testemunha de tudo, não viesse em seu auxilio?!
Elle comprehendeu-a e encheu-se de dó, ao mesmo tempo que dizia:
--Argemiro tem razão; a sua honra obriga-o a defender essa moça, muito
mais digna de consideração que de desconfiança.
Foi ainda influenciada por paixões terrenas que sua filha exigiu do
marido essa promessa. Desprendida do mundo, a sua alma tornou-se toda
tolerancia e doçura, e seria offendel-a imaginar que os sacrificios
d'aquelles a quem amou lhe sejam caros...
--Sacrificios!
--Ao contrario; no ceu, só será completo o seu goso se na terra vir
felizes aquelles que a choraram. Creia, minha amiga, a pessoa que a
senhora condemna com tamanha injustiça é de uma perfeição moral
difficil de attingir.
Eu respondo por ella como se fôra minha irmã.
--Detesto-a!
--Ha de estimal-a um dia.
--Nunca!
--Bastará que eu lhe conte isto:
A baroneza abandonava-se, com desanimo, sentindo-se muito só. Os outros
esperavam, voltados para Assumpção. Elle começou:
--Esta moça, que toda a gente recebeu com certa malignidade, de que eu
não fui isento, exerce o encargo de governante d'esta casa para manter
uma velha paralytica e um velho cego, verdadeiros cacos humanos, que
ella visita todas as quarta-feiras piedosamente e de quem é o amparo.
Filha unica de um advogado brasileiro, Constantino Galba e neta materna
do General Vitalino Ortiz, logo que perdeu a mãe, foi mandada a educar
num dos melhores collegios da França, onde viveu até que, por morte do
pae, ficando quasi reduzida á miseria, voltou ao Brasil.
Aqui, por toda familia viu-se entre dois criados, uma velha que já
fôra ama do pae, e o marido, antigo camarada do avô. Bens, só tinha
uma casinhola velha em que se accommodou com o casal dos derradeiros
amigos. Encararam os tres a vida com animo. O homem trabalhava ainda e
viveram quasi sete annos dos recursos d'esse trabalho e de outros,
incertos, de D. Alice: costuras... pinturas... bordados... Afinal lá
chegou um dia em que o velho teve de sahir de scena. Cegou. Trabalhara
demais. Com o desgosto e outras fadigas da edade, fica-lhe a mulher
paralytica; e eis a nossa D. Alice entre esses dois seres de redobrado
peso. Redobrou tambem ella de actividade nos trabalhos manuaes...
propoz-se a dar lições... mas não lhe appareciam discipulos; os
trabalhos, mal remunerados, não matavam a fome aos seus velhos...
Foi por essa occasião que appareceu no _Jornal do Commercio_ um
annuncio offerecendo um bom ordenado a uma senhora para governar a casa
de um viuvo. Ella não hesitou. Os seus velhos teriam pão, ella um
pouco mais de descanso... A filha do advogado, a neta do general,
sujeitou-se a esse emprego para matar a fome aos seus criados.
A baroneza olhava para Assumpção, interrogativamente. Seria verdade
tudo aquillo?...
Elle continuava:
--A pobreza apura os dotes naturaes da creatura; ella trouxe para aqui a
experiencia do sacrificio... Ouçam agora: quando leva dinheiro para
casa, o velho, zeloso, apalpa-lhe o pescoço, os pulsos, os dedos, a
vêr se ella tem joias... A velha acha tudo pouco! Elle préga-lhe
moral... desconfia... a outra queixa-se de necessidades... Ella socega a
um, promette á outra e volta para os sarcasmos d'esta situação e para
as pirracinhas do Feliciano. Senhora baroneza! Isto que eu lhe digo é a
verdade. Eu vi.
A baroneza nem pestanejava. Sumira-se-lhe a côr dos beiços. Estava
livida.
Argemiro curvou-se todo para o amigo:
--Viste?
--Vi! Um dia fui chamado a levar soccorros espirituaes a um doente. Era
a paralytica. Foi junto á sua cadeira de rodas, que o marido me contou
toda a historia de D. Alice. Conheciam-me de nome e preferiram-me a
outro padre qualquer, exactamente para me fallarem d'ella, e pediram-me
que a protegesse! O velho tinha medo; conhecia as tentações do mundo e
a fraqueza das mulheres... queria ouvir da minha bocca palavras que o
socegassem. Soceguei-o. No dia seguinte voltei, a saber da paralytica;
tinha melhorado. Estava eu lá, quando, percebendo os passos de D.
Alice, os velhos supplicaram-me que me occultasse. Ella ficaria vexada
se me visse alli; occultei-me. Foi do meu esconderijo que assisti á
scena de humilhações a que me referi. Não tinham bastado as minhas
affirmações; o cego apalpou nervosamente os dedos, os pulsos, as
orelhas da moça, á procura da joia compromettedora... A paralytica
pediu-lhe goloseimas. Enjoara tudo. Morria de fraqueza...
Agora, senhora baroneza, creio que não preciso dizer mais nada...
O barão levantou-se:
--Luiza, não te parece que devemos pedir perdão a essa senhora?
Mas a mulher não respondeu. Parecia petrificada no seu logar, com os
olhos fitos no retrato mudo da filha.