XXI

Chegára a hora da prestação de contas. Argemiro escrevia á

secretária, quando Alice entrou na sala. Como da primeira vez que se

fallaram, ella ficava contra a claridade, encolhida no seu vestido de

lã barata, escura, e com o véo descido até ao queixo.

Estava prompta para sahir; esperava ordens...

Argemiro remexeu nos papeis. Abriu um caderninho encarnado, que a moça

reconheceu de longe. Era o caderninho dos assentamentos do mez, que ella

lhe mandára sommado e com saldo.

Sem saber porque, Argemiro sentia-se embaraçado, e foi com certa

timidez que convidou a moça a sentar-se.

--Estou bem...

--Não; sente-se.

--Obrigada...

Ella parecia querer ficar em pé, prompta para fugir!

Elle gaguejou:

--Então...

Evidentemente não sabia como principiar.

De repente:

--Os seus cadernos estão numa ordem admiravel. Realmente eu nunca

imaginei que uma senhora entendesse tanto de contas... é um

guarda-livros! Comtudo... parece-me encontrar aqui um pequeno engano...

Alice approximou-se, com um arrepiozinho de susto.

Elle, indicando-lhe uma cadeira, a seu lado:

--Tenha a bondade de sommar...

Offereceu-lhe a penna, que ella mesma molhou no tinteiro.

Estavam sós. A casa em silencio.

Alice sentou-se, com afflicta curiosidade, e levantando o véo baixou os

olhos para o caderno, recomeçando a sommar as parcellas indicadas.

Entretanto, elle contemplava-a pela primeira vez. Era mais bonita do que

pensava: tinha a pelle suave, os olhos pestanudos e o cabello escuro e

abundante...

A mão esguia, branca, movia-se sobre o papel, num leve tremor nervoso.

Argemiro pensava:

«Fui um estupido; eu deveria ter apressado este instante. Ella é

deliciosa! E aspirava num deleite o aroma que vinha d'ella, aquelle

cheiro de cidrilha, de malva, ou flôr de fructa e que constituia já

uma das suas necessidades.

Alice córava intensamente. Não atinava com o erro!

--Não acho... confessou por fim.

--Entretanto, elle não é pequeno...

Alice levantou com espanto os olhos para Argemiro; elle fixou-os com

ternura. Estremeceram ambos.

Ella tornou a baixar a vista para o caderno. Letras e cifras dançavam

estonteadoramente. Argemiro percebeu-lhe a commoção. Bem dissera a

sogra! E com alegria:

--Quer que lhe aponte o engano?

--Se faz favor...

--Está aqui!

Argemiro apontou para a verba que representava o ordenado da moça,

apressando-se em continuar:

--A senhora reduziu esta quantia...

--Foi o que nós combinámos!...

--Combinámos o dobro.

--Affirmo-lhe que não.

--Devo-lhe muito...

--Não me deve nada.

--Tel-a-ei offendido?

--Não...

Estava elle outra vez encalhado. Nem para traz nem para deante, sem

saber que dizer, todo olhos para o rosto, que já desapparecia sob o

véozinho bordado.

--D. Alice!

A moça respondeu com um olhar timido.

Elle calou-se. Parecia-lhe impossivel aquella estupidez!

--Então a senhora vae-se mesmo embora...

--É preciso.

--Se Gloria lhe pedisse para ficar... Ella é tão sua amiga...

--Nem assim...

Argemiro levantou-se e disse com voz grave e resoluta:

--Tem razão. O seu logar não é aqui, agora que a vi e a conheço. Só

lhe peço uma coisa: que me consinta ir amanhã á sua casa, em

companhia de minha filha... pedir-lhe perdão...

Alice esboçou um gesto de protesto. Receava chorar se fallasse.

Elle approximou-se e ficaram ambos calados, adivinhando-se atravéz do

silencio, até que Maria da Gloria gritou da porta:

--D. Alice! o Feliciano já levou a sua mala!

Dois mezes depois, numa linda manhã, os barões assistiram ao casamento

de Argemiro e de Alice, feito por Assumpção, testemunhado por Adolpho

Caldas, Telles e D. Sophia.

A ceremonia foi simples e sem lagrimas. A baroneza conteve-se. Muito

pallida, d'entre as sedas negras do vestido, ella adquirira pelo

esforço energico da vontade, uma rigidez de estatua. Nem um musculo das

faces lhe tremia. Com as mãos pousadas nos hombros da neta, ella

parecia olhar para tudo como do alto de uma torre, imperturbavelmente.

Á tarde Assumpção foi visital-a. Tinham voltado á chacara do

suburbio. Gloria correu a recebel-o no portão. Estava decidido que ella

viveria alli uns mezes, para consolar a avó. Achava agora tudo tão

bonito! O avô lá andava no horto, verificando o estado das suas

plantas, alegre como um patinho n'agua! Ella estava por alli á cata de

mangas maduras...

Assumpção acariciou-lhe a cabeça e entrou sózinho na saleta da

baroneza. Ella alli estava no seu cantinho costumado, febril, com o

corpo alquebrado, descahido, os olhos avermelhados entre as palpebras

empapuçadas. Vendo-o, chamou-o a si; e segurando-lhe as mãos, numa

queixa soluçada:

--Minha filha tornou a morrer hoje, Assumpção; agora está só

commigo, e eu já vou perdendo as forças para chorar...

--Não a chorará sózinha... murmurou elle quasi em segredo, córando.

Ella voltou-se, e contemplou-o num mixto de esperança e de assombro.

--Você?...

Elle olhou silenciosamente para a batina, como para explicar tudo.

Transfigurada, num movimento inconsciente, alegre, ella apertou-o nos

braços e exclamou:

--Meu filho!

A Intrusa · 第 26 / 27 题