IV

Quatro seculos encerram um periodo, cujo começo se assignala pelo

descobrimento da America e determinação da orla maritima até aos limites

austraes da Africa, mas cujo termo nos deixa vêr em nossos dias as

vastas regiões centraes d'esta velha parte do Mundo, em condições que

pouco se avantajam áquella, em que as deixaram os primeiros que lhes

demarcaram os contornos, emquanto que na America vemos um novo

continente explorado e colonisado em todo o littoral e interior da sua

vasta extensão nos dois hemispherios.

As transições pelas quaes passou esta grande parte do Mundo, segundo a

tendencia e indole das nacionalidades que a si vincularam sua exploração

e posse, por longo tempo a amoldaram ás feições que taes elementos e

systema da colonisação lhe imprimiram.

Mas as grandes luctas de predominio e de interesses em que a Europa

andou empenhada desde o ultimo quartel do seculo passado e durante o

primeiro do actual, dando logar a vicissitudes e modificações na

politica e na economia de varias potencias, foram causas, que prepararam

a emancipação de todos aquelles dominios.

As frotas annuaes dos galeões de Cadix e das Philippinas, que combinavam

suas derrotas pelas Antilhas até Porto Bello, ou de Manilha até

Acapulco, para monopolisar o commercio d'aquellas regiões e o transporte

das riquezas do Novo Mundo, deixaram de ter a sua epoca. O trafico do

Brazil restringido todo a convergir em Lisboa, cedeu o logar á

concorrencia, pela abertura dos portos ás nações consumidoras de seus

productos de tão geral procura e consumo.

Na America septentrional, a formação de um grande estado maritimo e

commercial, actuou nas relações internacionaes, desde que deu força aos

principios favoraveis á bandeira cobrir mercadoria, e a garantir os

direitos dos neutros.

A independencia politica successivamente proclamada e firmada de norte a

sul das Americas, constituindo novos e robustos estados com todos os

elementos de uma civilisação adiantada, e com todas as vantagens de um

solo fertilissimo em productos de ampla procura, teve em resultado

acabar com todas as restricções e exclusões, para dar logar a um

commercio extensissimo, sempre crescendo em importancia e actividade,

com prodigioso desenvolvimento da navegação, e contribuindo não só para

o augmento das relações com as antigas metropoles, mas tambem com os

grandes mercados e centros de consumo, tornando cada vez mais firmes e

garantidos, pela solidariedade de interesses resultantes, os principios

de direito maritimo internacional, e de economia social, em vantagem de

todos os povos.

O quadro que fica exposto, como resultado da abolição do systema

restrictivo, abrange em seus traços o que se observa percorrendo todos

os mares e regiões da Asia e Oceania até aos confins do Globo.

Nas costas e portos das Indias, da peninsula Malaia, dos imperios

Birman, China e do Japão, e até da Australia e Nova Zelandia, e ainda em

volta até ao Pacifico, se encontram não só emporios commerciaes mas

tambem pontos de escala de uma navegação prodigiosa, entretida por

numerosos e explendidos navios, onde a architectura naval, a sciencia do

engenheiro, e a industria do ferro, nos deixam ver maravilhas da arte,

em typos de magnificencia, solidez e segurança, estabelecendo pela livre

concorrencia e pela rivalidade no serviço, aquella activa, permanente e

admiravel rêde de communicações, que o telegrapho auxilia, e que o

caminho de ferro ramifica pelos continentes.

Vae-se hoje aos antipodas, e quasi se faz o circumgiro do globo, com a

mesma rapidez, e com maior segurança e conforto, do que ha apenas meio

seculo se ia de um ponto a outro da Europa.

A propria Australia e a Nova Zelandia que ha apenas um seculo eram,

aquella povoada de tribus antropofagas, e ésta ainda desconhecida,

partilham hoje dos mesmos resultados, deixando ver, como em paragens

onde ha pouco só havia a floresta virgem, ou banquetes canibalescos do

Gunya ou do Maori selvagem, ao presente se ostentam cidades florescentes

onde a colonisação, a indole e o genio da raça anglo-saxonia, implantou

todos os progressos que a civilisação opéra, e onde todos os

estabelecimentos e recursos que o commercio reclama e a industria anima,

rivalisam com os que se encontram nas mais opulentas cidades europeas.

Isto que ha um seculo pareceria um sonho phantastico, e ha meio seculo

uma utopia de visionarios, é hoje uma realidade. Por visionario e

utopista seria tido, quem exaltando o alcance d'este grande resultado de

um systema menos egoista do que o então seguido, ousasse condemnar a

frota dos galeões, os monopolios de trafico, o trabalho servil, os

exclusivos de bandeira, a vedação de portos, e as theorias do _mare

clausum_.

Infelizmente nem as theorias nem os exemplos poderam ainda conseguir,

que deixasse de haver uma excepção bem frisante n'aquelle quadro geral e

progressivo do movimento commercial do Mundo.

Mais infelizmente ainda é ter de reconhecer, que uma tal excepção, que

bem destôa da regra, é a que se encontra na Africa, alli onde o dominio

portuguez mantém com uma teimosia ferrenha aquelle systema de

restricção, de ciumes e de formalidades prohibitivas, cujas ruinosas

consequencias não podem achar desculpa que lhes attenue a causa.

A questão importante e que hoje interessa a tantas nações e governos,

qual é o empenho na exploração da Africa para aproveitar os seus

recursos ao commercio e industria, e abrir alli novos mercados e centros

de consumo, não têem referencia ás regiões septentrionaes d'aquella

parte do Mundo, cujos estados desde Marrocos e Argel até ás dependencias

suzeranas da Porta, se por um lado estão em communicação com o

Mediterraneo, por outro encontram o grande deserto impondo uma barreira

impeditiva ao caminho para as regiões centraes.

A attenção fixa-se pois sobre a orla das costas occidental e oriental

africanas, que circundam o grande continente, e atravez das quaes, pelo

aproveitamento de seus accessiveis portos e extensos rios, é que pode

estabelecer-se a communicação que de ingresso ás regiões, cujo accesso o

commercio disputa, e a civilisação reclama.

V

É fóra de duvida, que dos occupantes do littoral do Oeste e Leste da

Africa é que está dependente o franquear o transito que deve conduzir á

realisação de um grande fim, que a humanidade reclama e que a justiça

sancciona.

Observando qual seja ainda hoje a feição predominante na administração

d'estes dominios, embora elles tenham já conhecido melhoria de riqueza

publica desde a abolição do trafico d'escravatura, ali encontraremos

ainda a ausencia d'aquelles elementos que mais eficazmente contribuiriam

para a grande obra da civilisação da Africa. Assim, procurando qual seja

a acção da catechese pelas missões, veremos que é nulla, desde que se

descura e se repelle esse meio tão efficaz para tirar o preto boçal da

sua brutal condição, e tão facil de crear amigos, de estabelecer

influencia e alargar o dominio. Em fins de 1876 consignava o governador

geral de Angola na sua allocução á junta geral da provincia, o seguinte:

«Que ali estava uma enorme provincia immersa em um profundo

obscurantismo, sem ainda sonhar com o dia em que a libertaria das

cadeias da mais estricta animalidade.»

Em todo o sertão de Angola e Moçambique, nada ha que se assemelhe na

fórma nem nos effeitos, ao que se observa de proficuidade na missão

franceza do Gabão, bem como n'essas outras que proseguem auxiliadas

pelos proprios governos heterodoxos, na sua obra civilisadora em

differentes estancias do interior da Africa. Obra humanitaria e

civilisadora, cujo empenho é dar ao indigena uma religião, um inicio de

perfeição no estado social, e o amor do trabalho, constituindo os laços

da familia. Nada d'isto se encontra nos dominios portuguezes. Ha o culto

do fetichismo, e do milongo, entre os pretos. Ha indifferentismo na

população de origem europea. Perpetua-se a tal animalidade que o

governador d'Angola notou. E como não ha de assim acontecer se o

missionario não for ligado ao preceito da obediencia, e movido por

aspirações mais ricas de desprendimento, por estimulos que se bazeam na

abnegação, e na coragem até ao proprio sacrificio. Tudo que isto não

seja, o missionario isolado, e sem regra de consciencia a que obedeça, e

só ligado por qualquer interesse mundano, será sempre como o soldado,

que se pretendesse tornar elemento de força militar, mas sem chefe e sem

disciplina, livre em seus actos, e livre para deixar o serviço quando

lhe aprouvesse. Não se faz guerra sem tropa de linha; não ha missões

proprias sem a milicia religiosa. Segreda-se que é indispensavel, mas em

publico nega-se. A verdade é esta. Não ha, como n'outros paizes, os

elementos para uma efficaz e proficua missão ultramarina. Substitue-se

essa falta, enviando todos os mezes uma leva de missionarios de

differente cunho, que partem de outra especie de convento onde se

professam outras regras, qual é o presidio do Limoeiro, para irem com o

seu exemplo e sua doutrina civilisar os pretos!

A colonisação europea na Africa portugueza, alimenta-se principalmente

com os facinoras, cujos crimes na metropole, por horrorosos que sejam,

só tem por punição, não o que serviria de terror salutar para cohibir

outros crimes, mas sem transportar o criminoso, ás vezes a seu contento,

de um para outro territorio! Na epoca dos descobrimentos abandonavam-se

alguns condemnados nas plagas inhospitas da Nigricia, como por

commutação de pena, a fim de que por meio d'esses entes assim degradados

da sociedade que haviam ultrajado, se obter eventualmente informações

dos povos indigenas. Era então um correctivo, e ao mesmo tempo um

aproveitamento. Hoje perpetua-se o systema; o que era excepção motivada,

conserva-se como regra, mas em condições mui diversas quanto ás causas e

quanto aos effeitos. Pretende-se estabelecer a pena appellando para a

morte lenta por effeito de um clima deleterio! Nem a moral, nem a

justiça, nem a conveniencia pódem sanccionar tal versão. Mas não é tudo.

A força publica que deveria ser o elemento de prestigio da auctoridade,

do predominio europeu, da manutenção da ordem, do respeito ás leis, e da

segurança publica, é composta d'aquelles mesmos criminosos, que os

tribunaes condemnam e que a metropole por castigo envia, para onde

outros vão sem fazer por merecel-o; n'uma palavra, a força publica é

composta d'aquelles elementos, para cuja repressão ella tem razão de

ser. Singular anomalia ésta, que por outra parte se pretende corrigir

com a monstruosidade de uma disciplina, que consiste em despedaçar

creaturas humanas, com milhares de golpes de chibata, dando-lhes a morte

sem processo, sem lenitivo espiritual, e entre torturas tão horrorosas,

que o consideral-as deixa a perder de vista as scenas de horrores que se

narram de povos mais barbaros.

Quanto ao commercio e communicações, mantem-se a restricção como

systema, a ficticia protecção em logar da livre concorrencia.

Classifica-se como cabotagem o commercio maritimo para longiquos

dominios, n'um percurso nautico de milhares de legoas, dando em

resultado afastar aquella concorrencia com que lucraria o trafico, e

reduzir quasi á nullidade a navegação nacional, a não ser a que é

entretida pelas escassas linhas favorecidas. Estas são taes, que quando,

n'uma só carreira mensal entre Angola e Lisboa, se completa uma viagem

que não exceda de 30 dias, aponta-se esta como notavelmente rapida,

quando aliás a quasi dupla distancia entre o canal Britannico e o cabo

da Boa Esperança, é _semanalmente_ percorrida, sem que as viagens

excedam a vinte dias, e sem prohibição ou obstaculo para quem egualmente

as queira percorrer. Obrigam-se a escala forçada por Lisboa, os

productos da Africa vindo sob bandeira privilegiada; e impede-se o

trafico sob qualquer outra bandeira, embora a frete mais barato, e

portanto mais vantajoso para o commercio.

Annunciam-se linhas de navegação que de outros paizes demandam os portos

d'Africa, tocando em Lisboa; mas a legislação é tal, que obriga a que

conjunctamente tambem se annuncie: é _prohibido levar carga para os

portos portuguezes_. Isto que deveria ser incrivel, é todavia a

realidade!

A navegação dos rios por vezes sujeita a contractos de exclusivo,

impedindo a concorrencia, tem limitado a exploração ao capricho ou

interesse dos concessionarios.

É este o conjuncto de formulas, que representam o estado social e

economico dos dominios portuguezes nas costas de Africa, embora n'estas

se achem os melhores portos, e n'ellas desaguem os mais extensos e

navegaveis rios, que a Providencia destinou como para serem os meios de

communicação desde o Oceano até ás regiões centraes.

Medeiam entre estes dominios, as possessões inglesas do Cabo, e as da

colonia do Natal. O estado de prosperidade d'estas pode ser avaliado,

notando que no espaço de quarenta annos, a actividade da raça

anglo-saxonia, e o seu systema de administração, alli formou uma cidade

como Durban, povoada por milhares de europeus, e notavel em belleza e

explendor, pela regularidade de suas praças e ruas, onde se encontram

luxuosas lojas, sumptuosas egrejas, magnificos parques, numerosos

hoteis, escriptorios e armazens, e onde a par de um movimento activo e

ruidoso de toda a especie de vehiculos, já se ouve o silvo da

locomotiva, e se observa o bulicio das estações dos caminhos de ferro.

Que triste é a confrontação com o que se vê no nosso velho Moçambique!

Mas alli, onde os esforços da arte e o aproveitamento dos recursos

naturaes, operou taes milagres da civilisação, a natureza por outro lado

não foi prodiga em conceder portos ou bahias em local adequado para

servirem de grande avenida para a Africa central. Estes, e em taes

condições encontram-se na costa mais oriental, na provincia de

Moçambique, sobresaindo Lourenço Marques como aquelle que por sua

capacidade e situação mais limitrophe das possessões inglezas, offerece

a perspectiva de ser destinado para o melhor e mais accessivel emporio

do commercio com o Transwaal, Orange e outras regiões centraes,

tornando-se assim o interposto pelo qual se encaminhará o commercio, que

para a Africa será um dos meios mais conducentes á obra da civilisação,

e que tão louvavel é de promover e auxiliar, como seria crime de lesa

humanidade o pretender estorval-o.

Se a confrontação do estado d'aquellas differentes possessões europeas,

deixa tão desagradavel impressão, por outra parte se compararmos entre

si os dominios portuguezes das costas occidentaes e orientaes, ahi

encontraremos identicas condições da existencia intima, variando porém

n'um ponto aliás importante.

Na costa occidental, o nosso dominio territorial termina com o sertão do

gentio, e não com estados reconhecidos pelo direito publico como fazendo

parte de nações constituidas. Alli portanto, a administração, boa ou má,

e as praticas com os visinhos, são até certo ponto questões domesticas

ou de direito privado, que só reflectem nos dominios d'este, e não

affectam os interesses de outras potencias, nem as relações de direito

externo.

Na costa oriental são diversas as condições, pois se por uma parte temos

por confinantes os regulos ou chefes de tribus africanas, por outro lado

temos por visinhos limitrophes os territorios sujeitos á soberania de

uma potencia europêa, a Inglaterra. É pois ésta uma circumstancia mui

attendivel, por isso que d'ahi resultam direitos e deveres reciprocos,

que para serem mantidos e respeitados, é mister que não se falte aos

dictames das praxes usadas internacionalmente entre estados

constituidos, e impostas pelo que recommenda a solidariedade das nações

cultas.

A Influencia Europea na Africa perante a Civilisação e as Relações Internacionaes Considerações ácerca do tratado de 30 de maio de 1879 denominado de «Lourenço Marques» · 第 12 / 17 题