III

A irresistivel tendencia que tinha levado todas as attenções e

actividades por aquella inebriante senda do Oriente, deu causa como se

disse, a deixar a Africa esquecida e abandonada. Mais do que isso. A

Africa não só ficou desprezada como objecto que se ladeia e para o qual

nem se lança a vista, mas até passou a ser como que exhaurida em auxilio

e proveito de novas especulações, que eram o resultado de outro

acontecimento notavel entre aquelles com que a edade media fechava a sua

época.

Colombo, o ousado genovez ao serviço de Castella, e que na escola de

Sagres podéra aperfeiçoar-se na sciencia da nautica e da cosmographia,

em sua mais feliz do que talvez directa insistencia de ir ao Oriente

pelo Oeste, engolfando-se n'este rumo havia encontrado, não o Cathay de

Marco Polo, mas as ilhas que, n'essa supposição, denominou Indias

Occidentaes. Era a America, com a qual poucos annos mais tarde Cabral

tambem topára em latitude mais meridional, quando se afastára para o

Oeste em busca da melhor monção, para demandar o já devassado Cabo da

Boa Esperança.

Parece que o destino patenteava aquelle ignoto hemispherio para dar nova

expansão á humanidade; mas contrabalançava uma tal vantagem,

associando-a a outras consequencias que importariam a desgraça da

Africa, desviando d'ella as attenções e cuidados, em homenagem ás

exigencias d'aquelle novo Mundo que Colombo dava á Hespanha.

Se Portugal tinha no Oriente um campo vasto para façanhas, conquistas e

explorações, era por sua vez a Hespanha a nação á qual se offerecia

identica área, para no Ocidente d'além mar alargar seus vôos no caminho

de aventurosas emprezas. Uma differença porém sobresahia na missão e na

tarefa que a estas duas nações cabiam. Emquanto que no Oriente os

portugueses acharam regiões habitadas por povos cujo commercio já era

tradiccional e florescente, e para se asenhorear do qual lhes bastou

dominar as costas, e apossar-se dos mais ricos mercados impedindo a

estes outras sahidas, os hespanhoes á sua parte iam encontrar na

America, ilhas só habitadas por selvagens nus, ignorantes das artes, sem

historia e sem commercio conhecido ou explorado; e passando ao

continente, n'essas immensas florestas virgens, onde a natureza

ostentava sua magnificencia n'uma vegetação luxuosa opulenta e variada,

só mais tarde é que as minas de ouro e prata do Potosi e de Zacatecas

poderam offerecer uma fonte de riqueza para attrair a attenção da

metropole, pois as extorsões nos desgraçados indios, e a pilhagem dos

templos de Cusco e do Mexico, serviam mais para locupletarem os

invasores, do que de proveito ao governo do paiz em cujo nome se

apresentavam.

Mas uma raça inerte, fraca e enervada, não podia fornecer a estes novos

occupantes os meios de explorar vantajosamente as riquezas a extrair do

seio da terra.

As violencias que soffreram os indigenas, as crueldades n'elles

exercidas dizimavam a população trabalhadora.

Para sanar este mal recorreu-se a outro meio apparentemente mais

plausivel, mas não menos deshumano, e tão depravado, qual foi a

importação dos negros d'Africa, trafico este para o qual, a torpe

especulação mercantil queria achar pretextos que o justificassem, mas

onde o engodo do ganho fazia calar a voz da consciencia dos

especuladores d'este mercadejo de corpos opprimidos pelo trabalho e

soffrimento, e de almas embrutecidas pela servidão; mercadejo infame no

qual ao ganho realisado pelo trabalho do negro, se accrescia o ganho

realisado sobre o proprio negro como cousa ou artigo de mercancia, e

objecto de regulamento.

Tal foi a origem do trafico de escravos, que desfalcando a Africa de

seus braços em vez de os convergir em seu proveito, afastou d'alli a

attenção da Europa, para tudo quanto não fosse sacrifical-a ás

especulações egoistas e inhumanas de que a America era causa e

objectivo.

Esta origem ignobil de fortunas adquiridas á custa de miserias e

aviltamento da especie humana, ainda tomou outra feição não menos

abominavel, desde que com ella se especulou, reduzindo-a a um monopolio

official adjudicado a contratadores, que tambem punham a preço a

distribuição d'esta mercadoria de carne humana com que a Africa

contribuia como adubo, do qual se fazia depender a prosperidade das

colonias do novo Mundo.

Já na primeira decada do seculo XVI, o tribunal de commercio de Sevilha

prefixava em 4:000 o numero de escravos annualmente reclamados para as

Antilhas. O monopolio do trafico foi primeiramente concedido por Carlos

V aos flamengos, assim como mais tarde o foi por Filippe II aos

genovezes, como retribuição de serviços, sendo sempre com o caracter de

fonte de receita que taes adjudicações se concediam a prazos, por

contratos denominados _assientos de negros_.

N'estes contratos ou _assientos_ se regulava o numero de escravos a

transportar, designando-o por cabeças, por peças de India e até por

toneladas, como se consigna no _assiento_ com a companhia portugueza de

Guiné, de 1696 a 1701, obrigando-se ésta a fornecer 10:000 toneladas de

negros! É notavel que á proporção que augmentavam os lucros d'este

trafico, os contratos tomavam a fórma mais solemne de tratados entre

potencias. O tratado de 1701, concedendo o monopolio do trafico á

companhia franceza de Guiné, estipulava que as corôas de França e

Hespanha ficavam interessadas, cada uma, na quarta parte dos lucros. E

depois o tratado celebrado entre Hespanha e a Grã-Bretanha em 1713,

estabeleceu em favor d'esta a adjudicação do monopolio d'este trafico

com as colonias hespanholas da America, para durante o praso de 30 annos

n'ellas importar 144:000 negros peças de India de ambos os sexos, sendo

4:800 em cada anno, e podendo os assentistas empregar n'essa conducção

os navios propriedade de Sua Magestade Britannica.

É certo, todavia, que muitas vezes a grandeza do mal marca a hora da

reacção tendente a cohibil-o. Assim, as importantes lutas internacionaes

do fim do ultimo seculo e começo do actual, em que se debatiam grandes

questões de supremacia maritima e commercial, influiram para que

variasse a politica até então seguida por varias nações com relação ás

colonias.

Erguiam-se vozes auctorisadas nas regiões da diplomacia, lançando

stygmas sobre o trafico de negros. As tentativas generosas de Clarckson

e de Wilbeforce, que ainda no começo do seculo eram no parlamento

britannico apenas secundadas pelo echo de suas vozes, pouco tardou que

não fossem coroadas de exito durante o ministerio de coalisão de Fox e

Granville, em que a politica ingleza se declarou e se fixou

decididamente pela repressão da escravatura. Proclamados estes

principios no congresso de Vienna, e acceite a doutrina pelas nações

cultas, em breve passou a ser sanccionada internacionalmente pelo

direito convencional dos tratados.

Justiça deve ser feita a Portugal, que apezar da immerecida reputação de

ter sido um dos fautores d'aquelle trafico reprovado, foi todavia o que

menos tardou em acceitar todas as medidas e pactos que á restricção do

mesmo se propunham. Era com razão que o ministerio Passos-Sá da

Bandeira, publicando o decreto de 10 de dezembro de 1836, que prohibia a

escravatura nas possessões portuguezas da Africa, consignava no

relatorio que o precedia, que «o infame trafico de escravos é certamente

uma nodoa indelevel na historia das nações modernas; mas não fomos nós

os principaes, nem os unicos, nem os peiores réos. Cumplices que depois

nos arguiram, tambem peccáram mais, e mais feiamente.»

Nos periodos de transição é frequente darem-se attritos e levantarem-se

dificuldades em superar os effeitos de inveteradas praticas, e mais

ainda quando uma nova ordem de coisas vem affectar interesses

systematisados. Não é de admirar portanto, que não sómente nos

especuladores, mas até d'entre funccionarios locaes, partissem exemplos

que dessem logar a suspeitas, de ser o engodo do lucro um movel superior

ao sentimento do dever. D'ahi surgiram desconfianças e azedumes, que

deram logar áquellas pressões menos razoaveis e insolitas, com que a

politica de lord Palmerston se tornou exigente e insoffrida para com

Portugal até ao ponto de ter tanto de oppressiva como pouco de generosa

e justa; politica excepcional, que mais devia servir de labéo á

prepotencia do homem de estado, do que ao caracter de uma grande nação.

Foi essa effectivamente uma politica individual, caracteristicamente

prepotente, e da qual tambem outras nações sentiram a acção; e tanto

assim que Portugal teve no parlamento britannico vozes em seu favor,

entre as quaes, a do illustre guerreiro da peninsula, o duque de

Wellington.

Mas nas condições actuaes tudo é diverso. Então era a apresentação de um

bill, lesivo da dignidade de uma nação, e que a feria no seu direito de

independencia. Agora é a negociação de um tratado, em condições de

reciprocidade e mutuas franquias, o que em principio é mais do que o

reconhecimento; é a garantia e confirmação da sua independencia e

direito de egualdade.

Então sim que toda a repulsa era nobre e digna; agora toda a reluctancia

e desdem, são injustificados.

Os resentimentos e aggravos que n'aquelle periodo anormal se seguiram,

foram pouco depois habilmente sanados pela celebração do tratado de 1842

entre Portugal e a Gram-Bretanha, tratado que desde logo em direito,

embora só mais tarde de facto, veiu tornar uma realidade o decrescimento

e quasi total extincção do trafico de escravos nas possessões

portuguezas da Africa. O trafico deixou de existir como regra

estabelecida e tolerada, limitando-se a dar amostra de si apenas como

excepção furtiva e condemnavel.

Mas, o ultimo passo para se chegar á sua completa extincção, está nas

leis mais modernas, que abolindo a condição de escravo e o estado

servil, consignáram o que o direito natural prescreve, isto é, a

liberdade do homem, sem attender a côr, condição ou logar. Foi este

decerto o golpe final n'aquella aberração social e depravada pratica, a

escravatura, que foi um dos grandes obstaculos á civilisação da Africa.

A Influencia Europea na Africa perante a Civilisação e as Relações Internacionaes Considerações ácerca do tratado de 30 de maio de 1879 denominado de «Lourenço Marques» · 第 11 / 17 题