II

O final do seculo XV deixa vêr um conjuncto de acontecimentos tão

importantes e tão extraordinarios, quão vastos e transcendentes foram os

seus resultados.

A passagem do cabo da Boa Esperança, o descobrimento da America que se

lhe seguiu; depois a nova derrota aberta para os mares da India, e em

seguida o percurso que Magalhães emprehendeu circumdando o globo, foram

os grandes feitos que o Mundo contemplou, e que vinham dar nova face ao

commercio e á navegação. Os portuguezes tendo em devida conta as

consequencias de taes feitos, tiraram d'ahi todo o partido não só

scientifico, mas tambem commercial e politico. Elles não se limitaram a

descobrir e a conquistar; prestaram tambem valiosos serviços á sciencia,

descrevendo novos mares, seus littoraes e suas ilhas, tirando a

geographia do cahos em que se encontrava, visto que ella se limitava a

descrever porções de terras e mares, mas sem nexo e sem medição, e de

modo que se substituia por supposições, o que a ignorancia occultava

quanto ás regiões desconhecidas. Pelo lado commercial, o trafico das

especiarias, drogarias e outras preciosidades do Oriente, tão

appetecidas na Europa, passou a tomar o novo rumo e direcção, mais

conducentes a generalisal-os e a tornal-os accessiveis.

Albuquerque, fundando o dominio portuguez oriental, tomando Goa por séde

de administração e apossando-se de Malaca e de Ormuz, assenhoreava-se do

emporio do commercio das Molucas, da feira universal da Aurea

Chersonesa; assim como expugnando Ormuz, apossava-se do entreposto por

onde se effectuava d'antes todo o trafico, que tomando pelo mar Vermelho

ou golfo persico, seguia depois até ao Nilo ou pelo valle do Euphrates,

em cafilas, aportando no Mediterraneo, concentrando-se depois em Veneza,

então rainha do Adriatico e emporio europeu de todo aquelle vasto

commercio.

A nova derrota maritima pelo cabo da Boa Esperança, veiu não só

estabelecer um desvio d'aquella rotina, pela comparativa facilidade,

desde que o carregamento de um só navio com productos da India, excedia

o valor da maior caravana da Asia, e evitava seu trafego; mas tambem,

outra razão peremptoria tornava essa derrota obrigada, qual era a

imposição que monopolisava o commercio nas mãos dos novos descobridores,

já dominantes n'aquelles mares, visto que a arabes e indios só com

salvoconducto era permittido um limitado e precario trafico costeiro;

assim como sob pena capital se prohibia a estranhos a navegação

d'aquelles mares. Era o que consignavam as ordenações do reino no livro

5.º «Assi natural como estrangeiro, ditas partes, terras, mares de

Guinéa e Indias, e quaesquer outras terras e mares e lugares de nossa

conquista, tratar, resgatar, nem guerrear, sem nossa licença e

autoridade, sob pena que fazendo o contrario moura por ello morte

natural, e por esso mesmo feito perca pera nos todos seus beens moveis e

de rays».

Nem as ameaças do grande soldão do Egypto, o poderoso inimigo da

christandade, nem os manejos da republica dos doges, que via cortado o

nervo do seu poder e de suas riquezas, acobardaram os novos dominadores

em seus intentos. O monopolio do commercio e o exclusivo de navegação

ficou em poder dos portuguezes, cujas frotas navegavam nos golfos da

Arabia e Persia, para cortar outro transito que não fosse a derrota do

cabo, por onde tudo vinha a Lisboa, tornada assim o grande e unico

emporio do Oriente, para d'alli se espalhar pelos portos da Europa,

tanto do Oceano como do Mediterraneo.

Tal era o systema, que o interesse aconselhava, que a politica e o

espirito da epoca dictava, e que as outras nações toleravam, com aquella

differença que lhes podia resultar, onde só viam não um prejuizo

proprio, mas apenas uma alteração no ponto de abastecimento, e isto a

troco de vantagens de uma ordem geral, desde que procedendo d'esta

forma, Portugal tomava a si o encargo de desviar no Oriente a attenção

do poder sarraceno, já altivo e ameaçador contra a Europa.

Pode pois dizer-se que Portugal trabalhava para si, mas tambem lidava a

pró da humanidade. Talvez que o interesse da humanidade, fosse mais do

que o proprio attendido em todos estes procedimentos! Effectivamente

Portugal foi mais longe do que a prudencia e o proprio interesse lhe

aconselhava. O Oriente era o sonho dourado de todas as especulações a

que o seu descobrimento e posse haviam conduzido os animos. A Africa,

ficava como que abandonada a meio caminho, á semelhança do que acontece

com o viandante que em demanda de aventuras busca longiquo thesouro,

fascinado pelo qual, esquece outros valiosos attractivos com que topara

no caminho.

O Oriente era tudo, e pelo Oriente se deixava tudo o mais. Era elle o

campo favorito para as especulações e aventuras, e para todos os engodos

que podessem ser fantasiados pelo bello idéal, e pelo que o amor do

maravilhoso deixava contemplar n'aquelle longiquo dominio.

Mas um dominio, uma prosperidade que se baseava no exclusivo da

navegação e no monopolio commercial, não podia ser perduravel. Havia uma

desproporção mui grande entre os recursos da metropole e a immensidade

d'aquelle desenvolvimento de possessões longiquas. Não é mister ir

buscar a causa da declinação d'esse poderio portuguez, á corrupção de

costumes que como diz J. de Barros «tinham alterado a modestia e

parcimonia antigas»; antes attribuil-o como o P.e Antonio Vieira «ás

injustiças e culpas de que Portugal foi réo»; nem mesmo se póde dar por

causa de tal descobrimento a carencia d'aquelle valor que illustrára

tanto o nome portuguez. Ainda quando este fosse de egual tempera ao dos

Albuquerques, Almeidas, Castros, Athaydes e Mascaranhas, elle por si só

não bastaria para manter pelo futuro um predominio, fundado em

principios de direito que então se toleravam, mas que o progresso da

humanidade havia de banir, mais cedo ou mais tarde, por isso que

significava a negação do grande principio da liberdade dos mares.

Um seculo não era decorrido desde que o Oriente vira monopolisado o seu

commercio e dominados os seus mares, quando a monarchia de Portugal,

perdido em Alcacer Quibir o fructo de suas anteriores victorias, passava

ao regimen do rei castelhano.

Esta phase politica, por si só não alterava as condições anteriores do

paiz com relação aos seus distantes dominios. Deixava alli ainda de pé o

simulacro d'aquelle grande poderio, pelo prestigio que o nome portuguez

havia adquirido indisputadamente. Mas desde que Filippe de Castella nas

suas luctas com os hollandezes prohibiu a estes o virem como d'antes ao

porto de Lisboa, emporio do commercio do Oriente, era obvio o recurso

que restava áquella nação de marinheiros e commerciantes ousados.

Trataram de ir elles áquelles mares orientaes, fazer por sua conta um

commercio do qual até então só indirectamente tiravam vantagem.

Ao findar do seculo XVI, Hautman e Van Neck dirigem as primeiras

expedições hollandezas, em menoscabo das prohibições de navegar nos

mares do Oriente. Era para elles uma necessidade o irem procurar á

origem, o que lhes era vedado no interposto que Lisboa d'antes lhes

offerecia.

Não iam ao Oriente renovar aquellas denodadas e cavalheirosas proezas

que tinham assignalado as conquistas realisadas pelos portuguezes entre

remotas gentes. O seu fito todo mercantil, era apoderar-se de um

commercio já existente, procurando estabelecer-se em pontos que

facilmente servissem de nucleo para dirigir aquella missão menos

gloriosa, talvez mais lenta, mas mais segura, explorando em seu favor o

animo das populações, e especulando com aquelles meios que facilmente

occorrem a um novo dominador, quando se apresenta a povos já fatigados

de um jugo mais antigo.

A guerra que a Hollanda declarára contra Castella e Filippe, veio em

seus effeitos affectar politicamente Portugal, como dependencia que era

então d'aquelle monarcha; assim como o affectou economicamente, desde

que por ella foi iniciado o desmoronamento d'aquelle edificio grandioso

na apparencia, mas precario na essencia, e que por isso á falta de bases

solidas cahiu com a mesma facilidade com que fora erguido.

O valor portuguez, com quanto não esmorecido, não bastava para acudir a

tão vasto dominio e aos calculados manejos dos seus aggressores europeus

e asiaticos. Os navios da carreira da India que escapavam do naufragio

eram victimas da pilhagem; a decadencia de recursos d'ahi resultante,

dava áquelles novos pretendentes o ensejo de se irem apoderando da maior

parte das possessões que á custa de tanto valor, cabedal e vidas, os

portuguezes tinham conquistado. Era este o estado de cousas, que ao

despontar do seculo XVII este herdava do seu predecessor.

A Inglaterra ainda não tinha elementos que a fizessem aspirar ao grande

poderio naval, quando Filippe II contra ella expediu a grande armada,

mal cognominada «Invencivel». Mas a destruição d'esta imponente força

naval e militar, enfraquecendo tambem Portugal que para ella contribuira

com os valiosos restos da sua marinha, deu margem a que as primeiras

expedições inglezas, no anno de 1601 sob o mando de Lencaster, partissem

para os mares da India, conseguindo fundar em Surate e em Madrasta

feitorias britannicas, que foram o germen d'esse grande dominio no

Indostão, para cujo desenvolvimento tanto concorreu depois a amigavel

cessão de Bombaim que passado meio seculo se estatuira no tratado entre

Portugal e a Grã-Bretanha, tratado que nos valeu a sua alliança e

auxilio na recuperação da independencia nacional.

Algumas phases notaveis apresentam as complicadas lutas d'aquella epoca,

pelas quaes se explicam as evoluções operadas nos dominios europeus no

Oriente.

A revolução de 1640, pela qual Portugal proclamou a sua emancipação da

Hespanha, deu logar á guerra com esta potencia, que já a tinha tambem

empenhada com a Hollanda. Perante o adversario commum concluiram

Portugal e Hollanda no anno seguinte uma convenção, estipulando uma

acção combinada na Europa, pelo auxilio reciproco de 20 navios de

guerra.

Mas os hollandezes, interessados n'essa acção na Europa, proseguiam no

Oriente e na America a conquistar as possessões portuguezas, e assim se

apossaram do Cabo da Boa Esperança e Ceilão, e de parte do Brasil.

Pelo tratado de Munster de 1648 entre Hollanda e Hespanha, esta

reconheceu a independencia d'aquella, cedendo-lhe não só as conquistas

já feitas nas possessões portuguezas, ao tempo que estas eram

dependentes da monarchia hespanhola, mas dando-lhe além d'isso o direito

sobre as que de novo fossem adquirindo na India e Brasil.

Por outra parte, a paz celebrada entre a França e Hespanha em 1659 pelo

tratado dos Pyrineos, deixou est'ultima potencia livre e desembaraçada

de inimigos para activar a guerra contra Portugal. N'este tratado o rei

de França obrigava-se a não dar ao reino de Portugal auxilio ou soccorro

de especie alguma, publico ou secreto, directa ou indirectamente em

homens, armas, navios, viveres ou dinheiro.

Abandonado Portugal aos seus unicos exforços, succumbiria perante o

poder d'Hespanha. Foi então que se negociou o tratado d'alliança e

casamento com a Inglaterra em 1661, cedendo-lhe Bombaim e Tanger, e

recebendo auxilio de tropas e navios.

N'esse mesmo anno negociava Portugal a paz com a Hollanda, estatuindo

que as possessões de parte a parte ficassem ao actual possuidor na epoca

da publicação do tratado.

Os hollandezes demoraram tal publicação, para no intervallo effectuarem

novas conquistas, e ainda nos dois annos seguintes se apoderaram de

Canganor, Cananor e Cochim. D'este procedimento resultou que só em 1669

se concluiu a paz definitiva entre Portugal e Hollanda confirmando a

ésta a posse de todas as conquistas, menos Cochim e Cananor, quando

Portugal désse tres milhões de florins. Foi d'este modo que as

possessões que Portugal adquirira por obra do seu valor, foram tomadas

pelos hollandezes que mais pelo diante as haviam de perder a favor de

outra potencia.

Effectivamente, os ciumes e rivalidades entre as nações maritimas que de

novo disputavam a primazia commercial, deu causa ao systema de reciproca

exclusão. Assim foi que o acto de navegação de Cromwell, estatuindo

restricções em favor da navegação ingleza, originou a guerra que a

Inglaterra moveu á Hollanda. Foi no decurso d'esta, que a Inglaterra

tomou aos hollandezes, as possessões que haviam sido portuguezas. Foi

pois esta nova posse realisada em resultado da conquista pelo direito de

guerra, não pelo roubo, como vulgarmente se insinúa, com mais espirito

de sanha do que de verdade.

Retrocedendo porém ás phases da guerra que os hollandezes sustentaram

com tanto empenho para se apossar do que fora obra portugueza, é digno

de ser notado, que a lucta foi travada não só materialmente pelas armas,

mas tambem moralmente pelo meio da argumentação e controversias dos

publicistas. A questão entre liberdade ou restricção, entre força ou

direito, deixou de ter por unicos arbitros a violencia e as armas. Era

submettida pela primeira vez a outra prova, em que a logica e a razão

universal era chamada a exercer o seu ascendente salutar, constrangendo

a prepotencia a ser julgada e processada na arena da discussão. Tal foi

o effeito da obra publicada em 1609 pelo celebre philosopho e publicista

hollandez H. Grocio, e que tendo por titulo _Mare Liberum_, compilou

todos os argumentos com que a logica d'aquelle genio superior, soube

demonstrar a injustiça, a inconveniencia, a lesão de direito universal

d'aquella pretenção dos portuguezes ao dominio do mar, cuja liberdade o

autor proclama, não só para os seus conterraneos mas para todos os

povos, quando depois de appellar para os recursos da placida e austera

discussão do assumpto, exaltava a justiça da guerra, que tinha tal

liberdade por objectivo, e concluia com emphase egual á convicção--_Si

ita necesse est, perge geris mare invictissima, nec tantum tuam sed

humani-generis libertatem, audaciter propugna._

A Influencia Europea na Africa perante a Civilisação e as Relações Internacionaes Considerações ácerca do tratado de 30 de maio de 1879 denominado de «Lourenço Marques» · 第 10 / 17 题