Rua dos Calafates, 110

1880

I

Dos grandes continentes que compõe o denominado velho Mundo, é

certamente a Africa aquelle cuja exploração hoje em dia se tornou de

preferencia o objecto da attenção geral dos governos das nações

civilisadas, e isto por tão variados titulos, como os que podem dizer

respeito ás investigações geographicas, ao conhecimento da importancia

de seus productos, ás condições da sua população, e á influencia que lhe

póde caber no futuro movimento commercial do Mundo.

É na Africa que teve séde uma das mais antigas civilisações que a

historia recorda, a egypcia, testemunhada pelas ingentes pyramides e

collossaes esphinges, que por muito tempo causaram a desesperação dos

archeologos. A Lybia, onde os phenicios levaram suas colonias á fundação

de Carthago, deixa vêr a vetustidade d'aquella parte do globo, que já

para o grande poeta do Lacio fornecia inspirações, tiradas de factos

coévos de Dido e dos exules do cêrco de Troya.

Mas esse continente onde a historia antiga vae descobrir o ancião dos

povos, e remontar a epocas remotissimas, é aquelle que ainda hoje, apoz

os progressos da moderna geographia, deixa mais vasto campo para estudo

e indagações, e cuja maior porção ainda se acha mal conhecida,

inexplorada, e povoada por tribus tão variadas, como varios são seus

caracteres mais ou menos selvagens, e na maxima parte, ainda estranhos

aos effeitos da civilisação.

Notaveis coincidencias nos deixa vêr a historia. Milhares de annos se

interpõe decorridos desde que a Africa é n'ella mencionada. De pouco

mais e pouco menos de quatro seculos datam, o começo das explorações do

até então desconhecido littoral do occidente africano, e o descobrimento

do limite austral d'aquella velha parte do Mundo. A esse tempo, as duas

Americas eram entidades desconhecidas, quando Colombo e Cabral d'ellas

deram noticia. Haverá um seculo apenas, que Cook descobria regiões

austraes até então ignotas. E hoje as Americas e a Australia, esses

vastos continentes apenas conhecidos de tão recente data, apresentam-se

na sua maxima parte povoados de cultas sociedades, em todos seus

extensos littoraes, e deixando vêr n'aquellas regiões transatlanticas,

novas nacionalidades e estados florescentes, oriundos da civilisação

europea, para alli transplantada, e onde a par da importancia

d'aquelles, se alarga a esphera d'acção d'esta.

E a Africa? Ainda um denso véo encobre em grande parte a sua intima

condição da existencia e modo de ser; ainda no maximo numero a sua

população vive vida selvagem e feroz, sem que o facho da civilisação

viesse alumiar as trevas do seu primitivo estado.

É pois na Africa que o geographo, o geologo, o naturalista, e o

estadista, encontram os mais variados assumptos para estudo e

especulação, na delimitação do seu territorio, nas feições do solo, de

seus variados productos, seus extensos rios, vastos lagos, espessas

florestas e até inhospitos desertos. D'ahi o empenho, e as tentativas

que tornaram em nossos dias como o pensamento e proposito de todos os

governos das nações cultas, a exploração e civilisação da Africa.

Cousa notavel! Uma parte do globo que ha menos de quatro seculos ainda

era desconhecida, a America, hoje já se distingue, contribuindo com a

velha Europa no empenho de explorar as regiões não desbravadas d'aquella

outra parte, a Africa, aliaz não ignorada desde a mais remota

antiguidade!

No decurso dos acontecimentos, de que o Mundo é o grande theatro, e em

que a humanidade é o actor, difficil cousa seria o pretender designar e

precisar taes acontecimentos como subordinados a uma regra invariavel,

de modo a sujeitar seus effeitos a causas precisas. Elementos

contingentes influem de modo que as causas só podem conhecer-se pelos

effeitos. Na contemplação pois do que possa haver contribuido para o

atrazo em que a Africa ficou perante as outras regiões do globo

posteriormente descobertas, podem talvez apontar-se, a influencia de um

clima em grande parte deleterio e adusto; as difficuldades materiaes de

transpor suas aridas planicies e suas asperas cordilheiras, e mais

talvez do que isso, a natureza selvagem e em grande parte feroz dos seus

povoadores; e a influencia que a escravidão e seu trafico entre taes

povos barbaros podiam ter, no desvio das praticas mais conducentes á

util exploração d'aquelle vasto continente.

Uma população assim embrutecida e sem laços sociaes que lhe elevem o

nivel moral, constitue necessariamente um obstaculo, uma difficuldade á

realisação de quaesquer emprehendimentos no sentido de desbravar

aquellas regiões.

Esta feição ethnologica poderia considerar-se como uma das que muito tem

influido e ainda influe, quando outras causas não houvessem, para

estorvar a realisação do grande pensamento em que a humanidade está

empenhada, qual o de civilisar a Africa, pensamento que o espirito do

seculo reclama, e que as nações cultas se interessam por conseguir.

Perante povos selvagens, é a acção do missionario o meio mais conducente

a abater seus instinctos ferozes ou brutaes, meio este que lançando o

germen da civilisação, mediante a influencia das crenças que actuem no

homem pelos estimulos da consciencia e pelas noções do dever, e que

tomando a moral por base da familia, institue assim esta molecula

social, por onde se chega á formação de uma sociedade cujo bem estar

reclama novas aspirações, e d'aqui vem como resultado a necessidade do

aproveitamento do solo, de augmentar seus productos, effectuar

permutações, e activar o commercio, obtendo-se assim vencer os

obstaculos que ainda hoje se apresentam para realisar aquella tão

apetecida obra, pois é civilisando o africano, que se conseguirá

civilisar a Africa.

O conseguimento pois do fim a que as nações cultas se propõem na Africa,

depende de taes elementos que são a cathechese, que desbrave a fereza do

selvagem e entre elle estabeleça os laços sociaes; o commercio, que

obrigue ao trabalho util e ao desenvolvimento da riqueza natural do

solo; e por ultimo, de estabelecer o predominio que resulta da força,

como meio indispensavel para manter o prestigio da civilisação sobre a

barbarie, e para conter em respeito aquelles que por indole indomita ou

instinctos brutaes se tornem ameaçadores e aggressivos, em vez de doceis

e submissos á acceitação dos meios tendentes a regenerar a sua

existencia social.

Como tem sido, ou como conviria que fossem aproveitados estes meios, e a

quem de preferencia compete attender aos seus desejados effeitos, é

assumpto que se presta a algumas ponderações.

A historia da humanidade, assim como nos revella as variadas tendencias

de suas differentes épocas, tambem nos deixa vêr exemplos de nações, ás

quaes parece que a Providencia commetteu uma ou outra missão a cumprir,

em virtude de caracteres peculiares de sua existencia e condição.

Se por entre as exorbitancias a que as rudezas da edade media deram

logar, pretendermos discernir os commettimentos dignos de ser acatados,

é mister para isso destacar aquelles, nos quaes se possa descobrir um

cunho ou feição, por onde se revelle justiça no procedimento, ou

conveniencia geral no seu effeito.

Coube tambem a Portugal uma boa parte e um importante papel a

desempenhar nas evoluções sociaes pelas quaes o Mundo tem passado. Paiz

pequeno, mas situado na orla mais occidental onde a Europa é banhada

pelo Atlantico, foi a elle que competiu a missão de alargar os

horisontes da geographia, rompendo aquelle limite além do qual tudo era

desconhecido. No desempenho de tal encargo, não faltou aos dictames que

a justiça lhe podia impor, assim como tambem não deixou de mirar a um

objectivo que significava uma conveniencia geral, a bem da humanidade.

Assim foi, que quando ao deslisar da edade media D. João I conduziu suas

hostes á conquista de Ceuta, levando a guerra á Africa, obedecia ainda

áquelle impulso que vinha dictado pelo antagonismo de crenças e

resentimento de armas. Não estava ainda de todo extincto aquelle

espirito religioso, que quando levado até ao fanatismo, formára o ideal

do heroismo cavalheiroso das cruzadas. A guerra aos inimigos da cruz

como proseguimento das conquistas operadas sobre o crescente, e que fôra

o principio em que se baseára a monarchia fundada em Ourique, estava

apenas diferida mas não finda. A guerra levada á Africa era pois o

proseguimento da conquista sobre terras de mouros, tão justificada

d'além, como o fôra nos Algarves d'aquem mar.

Esse pensamento de dilatar na Africa tal conquista como territorio de

Portugal e não como feitoria colonial, quando proseguido e mantido,

poderia ter dado logar a uma phase politica de grande alcance futuro, e

que haveria formado de Portugal um grande estado europeu africano.

Mas outros enlevos, outras ambições, outros calculos de interesse vinham

unir-se ao primitivo movel moral, qual o da fé religiosa, desde que

outras vistas mais positivas, embora menos enthusiastas, impelliam ao

empenho de procurar novas regiões, transpondo o mar, alargando os

limitados dominios em que a geographia se achava contida.

Ceuta, o primeiro baluarte da Mauritania, foi o posto avançado para

assegurar o ponto de partida e franquear o caminho, que o immortal

infante D. Henrique preparava, aos que largando de Sagres, haviam de

explorar as costas desconhecidas, desde o occidente, e a seguir para o

sul, no continente africano. A obra a emprehender era tal, que n'ella

devia predominar ora o valor do soldado, ora a coragem do marinheiro. Á

consciencia da justiça que auctorisava a guerra, ligava-se tambem a

perspectiva e resultados grandiosos para a sciencia, bem como de um

alcance mais subido, desde que redundavam em vantagem da humanidade.

N'esta ardua, mas gloriosa tarefa, se ao cabo Tormentoso, vencido por

Bartholomeu Dias, se seguiu o caminho do Oriente ser aberto pelo Gama;

se á escola de Sagres se deveu o que era o resultado do arrojo e denodo

dos nautas, tambem é certo que a escola de Ceuta, Tanger e Arzilla foi a

que preparou e alimentou aquelle valor guerreiro, que durante quasi um

seculo tanto contribuiu para illustrar, por seus feitos no Oriente, o

nome portuguez.

Em toda esta obra grandiosa, Portugal, procedendo em harmonia com o

espirito da época, soube desempenhar-se nobremente da missão que lhe

competiu. Adquiriu para si uma gloria immorredoura, e alcançou uma época

de prosperidade, que havia de ser ephemera; mas tambem preparou os

elementos de uma das maiores revoluções que na ordem social, economica e

politica o Mundo viu. Foi talvez mais longe do que lhe poderia ser

moralmente exigido, ou do que o seu exclusivo interesse lhe aconselhava.

O Oriente absorveu suas attenções e seus recursos; e por isso a Africa,

ficando revelada em suas costas e no seu limite austral, deixou então de

ser o objecto de mais aturados empenhos e esforços, quanto á exploração

das regiões internas de seu vasto continente.

A Influencia Europea na Africa perante a Civilisação e as Relações Internacionaes Considerações ácerca do tratado de 30 de maio de 1879 denominado de «Lourenço Marques» · 第 9 / 17 题