modificou, e estreitou tão profundamente, mas desde a época em que esta
mulher superior apparece no seu destino, a vida de Balsac tem um
profundo e apaixonado interesse.
Vinte horas por dia trabalhava elle então, para conseguir encher aquelle
horrivel tonnel das Danaides, que era a sua divida!
Apesar d'isso, lograva ainda roubar alguns instantes a este agro
labutar, para escrever umas cartas que todos os criticos hão de
consultar no futuro, para conhecerem a fundo a vida e o caracter do
prodigioso escriptor.
São caricias ideaes, interrompidas por calculos monetarios, são queixas
dilacerantes a que se segue uma longa risada de inoffensiva ironia;
porque elle, que soube pintar tão bem os cynicos, os depravados, os
terriveis escarnecedores, cujo riso corroia como um caustico, era no
intimo bom, quasi infantil; depois confidencias, esperanças, sonhos
politicos, sonhos financeiros, sonhos industriaes, planos gigantescos de
trabalho, phantasias de artista, desejos de mulher garrida e bonita,
observações profundas, divagações poeticas, melancolias de alma
solitaria que ninguem na terra sabia entender.
Entendia o ella, a adoravel slava, que vêmos atravez d'estas cartas,
altiva para todos, consoladora e maternal para elle; grave, magestosa,
fidalga como a sua velha raça, e no entanto cheia de graciosas
delicadezas, que endoideciam de jubilo e de amor o plebeu namorado de
todos os requintes aristocraticos, o trabalhador eternamente exilado de
todas as alegrias do amor, o artista que tão bem sabia avaliar o lado
elevado e bello de todos os sentimentos.
É um estudo interessante e curiosissimo vêr como o tom ao principio
respeitosamente affectuoso das cartas de Balsac vae seguindo gradações
successivas e harmonicas, tornando-se terno, apaixonado, confiante,
expansivamente amoroso.
É que madame Hanska, quando elle a conheceu, é uma senhora casada e
sinceramente virtuosa.
O adoravel _monstro_ parisiense de juba de leão e olhos de brilho fulvo
e diamantino, poude attrahir-lhe a curiosidade, excitar-lhe a
imaginação, seduzir-lhe o espirito, mas parou aqui o seu terrivel poder!
E só depois de viuva, quando, sem crime, a altiva dama póde entregar-se
á tendencia tão violenta do seu coração, é que ella o acolhe com o
abandono de mulher amada e amante, que lhe deixa conceber esperanças que
o fascinam, e que por fim as corôas, dando a sua fina mão branca, esguia,
principesca, ao pobre artista, ao louco aventureiro do genio, que tão
fiel e estremecidamente lhe quiz, em longos annos de casta abstenção.
Mas elle trabalhara, luctara, padecera tanto; por tanto tempo desejara
aquelle enlace, que era ao mesmo tempo a realização das suas chymeras de
ambicioso, e dos seus sonhos de homem e de poeta; empregára tão
violentos esforços para pagar até ao ultimo ceitil a sua enorme divida,
para entrar desassombrado e digno na vida conjugal, em que, aos olhos
d'esta sociedade ignorante, elle dava tão pouco e recebia tanto;
realisára taes prodigios para mobilar, como um artista millionario, o
ninho em que havia de receber a adorada mulher que deixava por elle as
pompas seculares da sua vida opulenta, que succumbiu ao excesso das
fadigas e que ao tocar com os labios sofregos o pômo tantas vezes
sonhado, o sentiu esvaír-se em cinzas, como em cinzas se esvaía a sua
vitalidade opulenta!
É esta lucta d'um tragico sublime, mais interessante do que todos os
romances que Balsac escreveu, que se desenrolla com uma belleza
maravilhosa na sua _Correspondencia_, cuja leitura aconselhamos sem
hesitação a todas as nossas leitoras, cousa que não fariamos a respeito
da obra do escriptor, apesar da sua incontestavel e radiante formosura.
É preciso ler estes dois volumes para saber como o grande romancista
soffreu e como se compram caras as glorias do genio, tão invejadas pela
turba.
«Não tenho nem uma hora para chorar, nem uma noite para descançar!», diz
elle n'uma das suas cartas.
Madame Hanska é comtudo para o titan, infatigavel e sempre vencedor, a
suprema doçura, o balsamo ineffavel de todos os instantes.
«_Ó_ minha querida alma fraternal, tu és a santa, a nobre, a dedicada
creatura a quem eu entrego toda a minha vida e toda a minha felicidade
com a mais ampla confiança! Tu és o pharol, a estrella luminosa e _la
sicura richezza senza brama_! Em ti comprehendo tudo, até as tuas
tristezas e por isso as amo tanto! Comtigo a _sociedade moral_ não
existe! eis o grande segredo, o segredo supremo de felicidade.»
Mas para que havemos de fazer citações sempre incompletas e sempre
inuteis?
Quem quizer conhecer a que foi esposa e hoje é viuva d'um dos maiores
genios da França, que leia o livro de que temos extrahido rapidos
trechos.
Vel-a-ha serena, intelligente, instruida, não bella d'aquella belleza
juvenil, que agrada aos mais profanos, mas da grave formosura, que
envolve o outomno da mulher n'uma nuvem de indefinivel saudade, sabendo
curvar a sua gentil e orgulhosa cabeça de _madonna_ ao jugo d'uma
elevada ternura, e comtudo conservar intacta a sua dignidade de senhora,
duplamente illustre pela virtude e pelo nascimento; tendo para o genio a
admiração e a indulgencia; comprehendendo com uma finura toda feminil,
feita de talento e de experiencia, o que ha de infantil n'um grande
homem, o que ha de fraqueza n'uma potencia intellectual, abdicando
todas as falsas vaidades, cultivando em si todos os verdadeiros
orgulhos, n'uma palavra a mulher completa, tal como a sonhamos e como
quereriamos vel-a mais vezes realisada.
LINCOLN E GRANT
De vez em quando a tela monotona d'esta nossa vida de Lisboa, unicamente
bordada de pequeninos _cancans_ politicos, litterarios e sociaes,
rompe-se com a chegada, ou para melhor dizer, com a passagem de um
viajante illustre.
Em geral os viajantes que por cá apparecem não _chegam_, _passam_.
É mais verdadeiro o verbo, embora lisongeie muito menos a vaidade
nacional.
Este nosso modesto _Jardim da Europa á beira-mar plantado_, como a
caridosa phantasia do poeta do _D. Jayme_ lhe chamou, tem poucos
attractivos que chamem os viajantes.
D'entre os que nos teem visitado, só um, e esse na sua qualidade de
mulher tinha amplo direito para se entreter com devaneios illusorios, só
um--M.ᵐᵉ Ratazzi--descobriu em nós qualidades extraordinarias que
nos vaticinam brilhante futuro, além de nos dotar de genios pouco
vulgares, de obscuros Shakespeares, para quem soará brevemente a hora
gloriosa da fama universal.
A propria M.ᵐᵉ Ratazzi se offereceu bizarramente para apressar essa
hora, que já ia tardando, não só pondo em prosa franceza a prosa dos
nossos escriptores, como tambem encarregando-se ella propria de
personalisar, n'um dos eternos _theatrinhos_ que anda armando por toda a
parte, as creações mais ou menos formosas dos ditos Shakespeares,
desconhecidos.
Será bom que a gente peça a Deus d'aqui por diante nas suas orações mais
fervorosas não excitar a dedicada admiração d'aquella illustre, mas
indiscreta dama!
Quem lhe manda a ella andar apreguando lá por fóra nossas glorias!
Nós bastamos ao menos para nos applaudirmos mutuamente.
A que vem, porém, todas estas divagações? pergunta de certo a leitora.
E pergunta com muita justiça, porque a minha imaginação, está _folle du
logis_ indisciplinada, não tem direito para cansar assim a benevola
attenção dos que me lêem.
Vinha tudo isto a proposito de ter estado ha pouco entre nós, vindo
embarcar no nosso porto, o general Ulysses Grant, um dos vultos mais
importantes da moderna historia.
O apparecimento d'este homem modesto, que foi um heróe, além de ser um
grande cidadão, pouca ou nenhuma impressão produziu no espirito dos
lisboetas.
Porque, emfim, sejamos justos, o general Grant que direito podia ter á
fervida admiração dos seus contemporaneos?
O general Grant não inventou, como o seu patricio Boyton, um apparelho
de borracha para andar por cima d'agua; o general Grant não é um palhaço
afamado dos que attrahem o _High life_ ao circo Price; o general Grant
não tem nem a voz de _Manrico_ ou de _Arthur_, nem a capa e o chapeu de
pluma d'estes cavalheiros; o general Grant não passa de um homem muito
vulgar, que salvou o seu paiz na guerra, e que o reconstruiu,
desenvolveu, fortificou e engrandeceu durante a paz!
Que significarão estas cousas para quem só gosta de aventureiros e de
_poseurs_?
Nós, porém, é que, lendo que chegara á cidade em que vivemos o
ex-presidente dos Estados-Unidos da America, tivemos curiosidade de
lançar um relance de olhos, comquanto rapido, sobre a vida d'esse homem
singular, d'esse moderno luctador, vida que se nos afigura um estudo
proprio para levantar e robustecer o espirito dos que acreditam nos
futuros destinos da democracia.
Não é possivel separar na historia os dous nomes de Lincoln e de Grant.
Ambos combateram pela mesma nobre causa, ambos concorreram igualmente
para o seu grande e difinitivo triumpho.
O nome de Lincoln tem a suprema aureola que dá o martyrio, o nome de
Grant tem o prestigio fascinador que dá a heroicidade.
Nenhum conhece o apparato, a ostentação, esta humilde vaidade que torna
os povos latinos tão doudamente namorados de tudo que fulgura.
Ambos elles pertencem profundamente, mais ainda pelo caracter do que
pelo nascimento, ao paiz de que são filhos.
Paiz estranho, gigantesco, sempre agitado, onde o homem tem campo vasto
para desenvolver a sua multipla actividade, para exercitar e pelo
exercicio permanente robustecer as suas varias e complexas faculdades, e
onde, tendo de dever sómente ás suas forças individuaes a elevação a que
forçosamente aspira, elle tem de empregar n'essa lucta de ambições
fecundas todos os recursos, todas as energias da sua intelligencia,
todas as riquezas da sua organisação.
O que ha de extraordinario n'estes dous homens é que ambos alcançaram o
mesmo fim, ambos partiram da mesma origem, e comtudo não ha nada mais
divergente do que o caracter d'elles e os meios que empregaram para
subir ao mesmo posto supremo da sua nação.
É fóra de toda a duvida que hoje a ideia democratica tende a triumphar
por toda a parte.
É uma ideia que germinou ha dezenove seculos, e que, antes de bracejar e
florir á luz crua do dia, lançou até ás entranhas da terra as suas
raizes vigorosas, cresceu, medrou, sugou a mais exhuberante e a mais
substanciosa seiva, minou lentamente tudo que lhe ficava em torno, e,
quando emfim appareceu a todos os olhos, já vinha forte e robusta demais
para que ousassem derrubal-a.
A democracia não é um modo de ser transitorio das sociedades modernas;
quando as leis e os costumes, quando os acontecimentos e os homens, se
modificaram e transformaram á sua grande voz, já ella tinha direito de
asylo em todas as consciencias.
Os que a repulsam não desconhecem o feio crime que perpetram.
Os que a atacam são movidos pelo seu proprio interesse, que ella muitas
vezes tem de magoar ou de destruir, mas nunca pela sinceridade das suas
convicções.
A democracia bem entendida não póde separar-se da ideia da justiça.
Desde que uma despontou sobre a terra, outra começou a apparecer
imponente e irresistivel ao espirito dos que sabem ler em vagos
prenuncios as transformações fataes de que teem de ser theatro as
sociedades.
A democracia não está, pois, destinada a morrer como as outras fórmas
sociaes que a precederam, e que não foram senão a lenta preparação do
seu triumpho, comquanto pareçam as suas inimigas irreconciliaveis.
Entre os elementos que constituiram o passado, e os que vão constituir o
futuro, não ha inimizade, ha incompatibilidade.
Uns teem de succumbir para que os outros triumphem, eis tudo.
N'esta grande evolução que nunca pára, o que ás vezes se nos afigura
mais contrario a uma causa é justamente aquillo que lhe está preparando
a victoria absoluta.
É bom que tenhamos isto sempre bem presente, para que não sejamos
accintosamente inimigos do que foi, nem loucamente vaidosos do que vai
ser.
Os acontecimentos não são nunca o resultado de uma causa isolada; são a
consequencia fatal de uma lei relacionada com todas as outras, parte que
está em perfeita harmonia com o seu conjuncto.
A geração de hoje, e a que foi sua predecessora, fizeram muito, é
verdade, em favor da causa democratica, porém não foram ellas que no
curto espaço de um seculo semearam o germen, regaram a planta, a viram
transformada em arvore gigantesca, e lhe colheram os fructos abençoados.
Seria demais para tão pouco tempo.
É bom que o repitamos: ha dezenove seculos que a humanidade caminha, sem
parar um só instante.
Tem tido dias que podem chamar-se seculos, e em compensação tem tido
seculos que pódem chamar-se dias; em todo o caso, é porque ella ainda
não estacionou que hoje avista emfim o ponto a que se dirigia.
Tenhamos o santo orgulho do que temos feito, mas não desprezemos o que
os outros fizeram antes de nós.
* * * * *
A America é o paiz em que o pensamento democratico tem tido mais pratica
e mais positiva realização.
Sem entrarmos em considerações que seriam inopportunas, sem analysarmos
todas as condicções excepcionaes que favoreciam este povo, para que elle
pudesse, mais do que nenhum outro, dar uma forma real ao que tem sido o
sonho de tantos utopistas e de tantos martyres, basta-nos percorrer
rapidamente a vida dos dous homens notaveis de que fallamos para
conhecermos a fundo quanto os costumes, as ideias, as leis, os
sentimentos do povo americano estão profundamente penetrados do
principio da _igualdade de condições_, que é no fim de contas a base de
toda a verdadeira democracia.
Tanto Lincoln como Grant sahiram das mais humildes posições sociaes.
Lincoln foi até aos vinte annos carpinteiro e barqueiro; Grant foi até
aos trinta e tantos annos operario como seu pae, operario humilde e
obscuro.
Se me perguntarem qual dos dous me inspira mais sympathia, responderei
que prefiro Lincoln.
Ambos teem a suprema distincção da honestidade, esta virtude moderna,
que é indispensavel aos grandes homens, os quaes tinham d'antes ampla
licença para serem aventureiros felizes, sem por isso deixarem de ser
admiraveis e admirados.
Mas, emquanto Grant é simplesmente um homem de energia inquebrantavel, e
de espirito positivo e clarissimo, Lincoln, que é tambem isso, é mais
ainda do que isso, porque é uma alma de poeta.
De poeta, sim; não se riam, minhas queridas leitoras.
A poesia que se escreve é muito inferior áquella que se sente e que se
pratica.
Não admira que a alma do martyr americano se colorisse na mocidade de
todas as tintas opulentas da genuina poesia.
Elle conhecêra de perto a natureza grandiosa do seu paiz; ouvira,
humilde, pobre, talvez inconsciente, o que diz no silencio das noites ou
no acordar festivo das madrugadas a voz sonora, grave, religiosa das
florestas insondaveis.
Depois, o seu primeiro livro, aquelle em que aprendeu a lêr na obscura
escola da terra em que vivia, o que mais o inspirou, o que lhe deu
adoraveis côres para as suas tão finas parabolas, eloquencia e uncção
para advogar a causa de tantos milhões de parias, arrojo, audacia e
valor para proclamar a redempção dos seus irmãos escravos--e escravos na
terra onde uns poucos de homens intemeratos tinham vindo erguer o
estandarte da liberdade, desconhecido na Europa--o livro, emfim, da sua
mocidade foi a Biblia, o grande, o immutavel poema, o maior de todos,
porque não é o poema de um homem, é o poema de um povo.
Lincoln teve, como todos os poetas do coração, o culto mais profundo
pela mãe.
--Tudo que sou a ella lh'o devo,--dizia.
E, no entanto, ella morrêra-lhe quando o filho contava apenas dez annos,
e fôra em vida uma creatura simples, uma alma ingenua e ignorante.
Quem póde, porém, affirmar que não existisse uma communhão mysteriosa
entre a alma da mãe e o espirito do filho!
Quem sabe se a ella lhe faltou apenas cultivo esmerado para ser uma
creatura superior, e se a creança rude e obscura, que foi mais tarde o
grande homem e o grande martyr, não deveu as qualidades que o tornaram
tão distincto á influencia occulta da que o gerou no seio?
Como quer que seja, a verdade é que o pobre operario conseguiu á força
de estudo--estudo ainda assim que nada teve de methodico--improvisar-se
advogado.
Lincoln n'esta nova posição, conquistada pela sua energica vontade,
tinha uma singularidade que deve espantar altamente: só acceitava a
defeza de causas justas.
A feição mais caracteristica do espirito de Lincoln é uma jovialidade
conceituosa, uma malicia benevola, uma graça de moralista, que faz das
fabulas e das parabolas armas infalliveis de argumentação.
Nunca se deu ao trabalho de improvisar arrojos de eloquencia, tinha
sempre ao serviço das suas convicções umas anecdotas a um tempo cheias
de graça e de bom senso, umas pequenas historias que deitavam por terra
toda a laboriosa rethorica dos adversarios.
Aos trinta annos o advogado modesto viu-se de repente orador popular e
candidato á legislatura da sua terra.
Não que elle fizesse nenhum d'esses discursos tribunicios que arrastam e
enthusiasmam as massas, mas sempre pela força irresistivel do seu bom
senso, que era tão raro e tão completo, que o punha a par dos homens de
genio.
Todos conhecem a vida de Lincoln, que, depois de ser um dos oradores
mais populares e mais queridos das reuniões publicas do seu paiz, foi
duas vezes eleito presidente dos Estados-Unidos, e durante os ultimos
annos da sua vida gloriosa sustentou e venceu uma das guerras mais
assoladoras dos modernos tempos, e arrancou da terra que lhe deu o sêr
essa lepra--hoje felizmente desconhecida no mundo civilisado--que se
chama escravidão!
Foi pouco tempo depois de ter assignado o decreto que remia dos horrores
do captiveiro quatro milhões de desgraçados, que Lincoln, um dos heróes
da humanidade, um dos santos, um dos conquistadores, um dos martyres de
que falla com mais louvor a historia, cahiu morto, ás mãos covardes de
um assassino!
Nada mais pathetico e de uma tristeza mais commovente e mais profunda do
que a descripção do funeral do libertador da patria, do grande
emancipador da raça escrava.
O seu cadaver, consagrado pela admiração d'esse povo gigante, foi levado
de capital em capital, desde Washington até á pequenina cidade de
Springffel, patria de sua mocidade laboriosa e humilde.
Foi um caminho de triumpho, que lembrava, mas de bem diverso modo, o
caminho que elle andara em vida, desde a sua terra pequena e pobre, até
á grande capital, onde o tinham levantado á primeira magistratura do
paiz.
D'alli voltava elle agora, martyr da sua causa que era a causa da
patria, da humanidade da pura democracia, e que deixára vencedora e
triumphante.
Não póde haver existencia mais cheia, não póde haver gloria mais pura,
nao póde haver destino mais digno de admiração.
* * * * *
Grant, que fôra desconhecido até muito mais tarde do que Lincoln,
revelou-se d'outro modo á attenção dos seus patricios.
Longe de ter a facilidade graciosa do espirito do seu predecessor, o
espirito de Grant era acanhado e silencioso. Na infancia e na mocidade
nenhuma superioridade visivel o distinguia dos seus companheiros.
Educado á custa do Estado na escola de West-Point, sahio d'alli como
alferes graduado do 4.º regimento de infanteria, e partindo para a
guerra do Mexico, distinguiu-se ás ordens do general Taylor no cerco de
Vera Cruz.
Depois de sete annos de serviço, em que se mostrou sempre militar
valente, pediu a sua demissão, e estabeleceu-se como simples rendeiro no
Missouri, proximo de S. Luiz.
Muito pobre, se bem que muito trabalhador, tendo já quatro filhos, Grant
não tinha remedio senão ir elle proprio vender as madeiras da sua matta
á cidade de S. Luiz, e muitos habitantes d'essa cidade se hão de lembrar
ainda de vêr aquelle homem agil, laborioso, calado, quasi mudo, passar
na sua carroça, ao galope dos cavallos, que sempre teve bons,
descarregar a lenha que trazia, e partir de novo, tão mal trajado, que
muitos dos seus antigos camaradas do exercito se envergonhavam de se
darem por conhecidos d'aquelle grotesco figurão.
Não lhe correu, porém, favoravel a fortuna, apesar da energia com que
elle trabalhava.
E o futuro presidente dos Estados-Unidos, cançado de luctar em vão
contra a má sorte, voltou para junto da sua familia, que toda vivia do
commercio dos couros, e começou tambem a trabalhar n'este humilde ramo
de industria.
Foi d'esta posição, de que na nossa aristocratica Europa ninguem era
capaz de sahir, por mais que soubesse e por mais que valesse, que Grant
subiu a commandante em chefe do exercito dos Estados-Unidos, e depois a
presidente da Republica.
Como? porque?
Eis o que só se comprehende comprehendendo bem a indole do povo
americano.
Subiu mesmo pelos motivos que entre nós inutilisam os homens.
Subiu porque conhecia a miseria e o trabalho; por que não o amedrontava
o perigo, porque tinha a energia concentrada e omnipotente dos que,
tendo nascido para altas emprezas, são longos tempos esmagados pela
desgraça.
Elle era destemido e energico, tinha--não a instrucção--mas a intuição
guerreira; antes d'elle o norte fôra sempre vencido pelo sul, na
terrivel guerra civil, que começára em 1861; depois d'elle apparecer
succederam-se rapidas e brilhantes as victorias do norte.
Em 1865 a auctoridade federal restabelecia-se em todo o territorio dos
Estados-Unidos, o general Lee aceitava a capitulação de Richmond, e
Lincoln entrara na cidade que o fogo destruira, descobrindo-se diante
dos miseraveis negros, que recebiam pela primeira vez n'aquella
homenagem, a confirmação da sua dignidade de homens.
Foi um anno de triumphos devidos á audaciosa iniciativa do general
Grant, que além da bravura do soldado, tinha em alto grau a bravura do
general.
Tão excepcional foi sempre a sua energia, como são raras as suas
palavras.
Os seus ditos, de uma concisão antiga, nas horas de crise de sua vida,
são dignos de ficarem registrados pela historia.
Nenhuma ostentação, nenhuma pretenção nos seus modos excepcionaes.
Na carreira triumphal de militar e de cidadão conservou o seu feitio de
rude agricultor ou de obscuro operario.
Não admira que a morte de Lincoln désse o posto supremo a Grant.
Lincoln fôra o advogado de uma causa da qual Grant foi o guerreiro.
A herança era logica a natural.
Quando o elegeram presidente, Grant respondeu com esta simples carta á
communicação que recebera:
«Procurarei applicar as leis com boa fé, e serei economico. Tenhamos
paz, emfim.»
Esta carta define-o.
Elle não tinha levantadas theorias, não tinha planos concebidos, não
tinha presumpçosos systemas.
Estava resolvido a ter economia, boa fé, respeito ás leis.
Todo o segredo de uma administração magistral.
E quantos obstaculos encontrára!
Tudo em roda d'elle eram vestigios do assolador flagello que passára,
desvastação, fome, miseria; que vasto campo, e ao mesmo tempo que missão
perigosa e difficil!
Pois cumpriu-a.
Cinco annos depois de finda a guerra já o exercito estava dispersado;
mais de oito mil homens tinham ido com os seus braços dar um novo
impulso á agricultura, á industria, ao commercio, a todos os ramos uteis
da actividade de um povo.
As leis eram rigorosamente executadas, a divida diminuira, a protecção
aos antigos escravos estava plenamente confirmada, a America emfim
entrava definitivamente em uma phase de reconstrução e de prosperidade.
E tudo isto se devia á energia, á intelligencia, á actividade de um só
homem.
E este homem, tão modesto na apparencia, tão laconico nas fallas, tão
simples no viver, este homem que recusa recompensas apparatosas, porque
julga que a suprema recompensa é a da propria consciencia, este homem
que póde apresentar-se como a personalisação da democracia moderna, é o
mesmo que Lisboa ha pouco viu passar com a estupida e distrahida
indifferença que ella tem para tudo que é verdadeiramente grande, e por
isso mesmo despretencioso e simples.
AS FILHAS DE VICTOR HUGO
Ha pouco tempo um escriptor francez desconhecido entre nós, o sr.
Gustavo Rivet, publicou um livro intitulado _Victor Hugo chez lui_, no
qual pinta o grande poeta francez, surprehendido, por assim dizer, na
intimidade dos seus pensamentos, de seus gostos, das suas attitudes mais
familiares.