um escriptor mysantropo: vê as cousas pelo lado mais negro, e as suas
bachanaes, nuas como são, não téem effeitos enervantes, doem como um
caustico applicado sobre uma ulcera aberta.
Ao lel-o, a gente não tem de certo tentações de imitar os seus
deploraveis heroes; pelo contrario. Sente-se ferida, humilhada, quasi
que angustiada, e exclama tristemente: Meu Deus! pois a humanidade é
isto!
Octavio Feuillet é, por assim dizer, o contraste do seu illustre
contemporaneo.
Escreve das mulheres e para as mulheres com penna d'ouro e nacar.
Feuillet é o ultimo romantico, depois do romantismo ter morrido, como
Balzac é o primeiro realista antes do _realismo_ nascer.
Para Feuillet, o delicado observador, as paixões são doenças da alma;
para Zola, o anatomista implacavel, as paixões são doenças do corpo.
O convulso e repugnante hysterismo das mulheres de Zola não tem nada que
vêr com a sentimentalidade melancolica das mulheres de Feuillet.
Nenhuma d'ellas--deixe-se isto bem claramente registrado para honra e
felicidade do sexo feminino--nenhuma d'ellas é a verdadeira mulher, a
que tinha a obrigação de ser a mulher do futuro, já me não atrevo a
dizer da que o será.
Octavio Feuillet, que está talvez perto demais das cruas pinturas do
realismo, intentou n'este seu ultimo livro, chamado _Le journal d'une
femme_, rehabilitar as ideias romanticas, que visto perderem tantas
mulheres, podem tambem salvar algumas.
Elle que sabe tão bem dar vida ás suas pallidas e nervosas heroinas, que
téem na bocca o sorriso da esphinge, que téem na voz uns feitiços
mysteriosos, que téem no gesto uma graça irrequieta e caprichosa, que
sabem arrastar o homem até á beira do crime com um aceno das suas mãos
esguias e aristocratas, elle, o creador do Conde de Camors, esse ultimo
producto da litteratura byroniana, que endoudeceu de _amor litterario_
tanta mulher, eil-o que se propõe d'esta vez o difficil thema de
explicar a que nobres e altos sacrificios o _romantismo_ bem entendido
póde levantar uma mulher.
Foi arrojada a empreza; arrojada, mas feliz.
_Le journal d'une femme_, livro que eu já d'aqui recommendo a todas as
minhas leitoras, é uma joia admiravel, cinzelada pela mão de um artista
de coração.
E depois são taes os exageros e desmandos da chamada _escola realista_,
é tal o amesquinhamento a que ella reduz a humanidade, que é bom que um
escriptor de tão prestigiosa eloquencia como é _Octavio Feuillet_ mostre
que, no fim de contas, nem tudo era mau na geração que os moços de hoje
tentam desthronar com tão arrogante desdem.
Roubar ao homem e sobretudo á mulher aquelle ideal em que até agora
todos punham a mira embora o julgassem inacessivel, é despir a vida das
poucas flôres que ella póde ter.
Não; o homem não é só um ser organisado que pensa, é tambem uma alma que
ama, espera e crê!
N'esta era de transformação e de incerta claridade, é bom que uma voz se
erga e diga bem alto que a paixão só é criminosa quando mal dirigida,
que o excesso do sentimento só é ridiculo quando mal applicado, que a
abnegação inteira e absoluta tem gozos superiores a todos os gozos da
materia, e que as almas boas e as almas grandes descobriram uma
linguagem mysteriosa, na qual fallam com Deus.
Não basta descrever minuciosamente com uma perversão de gosto, devéras
deploravel, tudo que ha mau, grotesco, ou vicioso na creação; não basta
ter em si tão accentuada preoccupação horrivel, que se deseje vêr com o
microscopio do naturalista, para bem lhe distinguir os defeitos, as
anfractuosidades, as maculas, os vermes, de tudo que á simples vista
seria harmonioso e bello.
Áquelle a quem se roubam todas as illusões salutares cumpre apontar para
algum bem que ainda lhe ficará na terra, bem verdadeiro que o compense
de todas as suas perdidas alegrias mentirosas!
Não basta negar, é necessario affirmar com convicção robusta; não basta
demolir, é preciso ao lado dos edificios que se derrubam e desmoronam
construir novos edificios mais ricos e mais seguros.
Octavio Feuillet fez este livro, como um protesto de escola, sem comtudo
perder com esta qualidade um tanto dogmatica, o seu interesse dramatico,
a vida intensa, tão indispensavel ás verdadeiras obras d'arte.
Dado o caso de se chamar romantismo ao excesso de certos e determinados
sentimentos, á concepção mais ou menos chimerica que temos das cousas da
vida, resta provar se o romantismo póde ou não póde ser nocivo conforme
o terreno em que medrar e o meio em que se desenvolver.
A principal heroina do romance, aquella que escreve o seu Diario, ao
qual dá o titulo de livro, é uma rapariga apaixonadamente romantica,
tudo quanto ha mais romantico, quer dizer tudo quanto ha de menos
pratico e real.
Por isso sendo moça, formosissima, sentindo cantar dentro da sua alma a
festiva e triumphante symphonia dos vinte annos, tendo uma d'estas
bellezas caracteristicas que dão a certas mulheres um aspecto de deusas,
amando com aquella primeira e casta ternura das virgens um homem em tudo
digno d'ella, sacrifica todas estas superioridades da natureza, todas
estas radiosas promessas de felicidade a quem? a que?
A um pobre mutilado que morria de amor por ella, a um soldado que
voltára da guerra sem uma perna e sem um braço, informe, grotesco,
irremediavelmente desgraçado, e que, assim mesmo do fundo do abysmo em
que o destino o lançára, ousou amar aquella mulher olympica, e teve a
audacia de tentar morrer por causa d'ella.
Emquanto elle viveu, foi-lhe fiel como as mulheres dignas o sabem ser,
consolou-o de tudo que perdera, levou a luz da sua caridade bemdita aos
antros em que aquella pobre alma se debatera inutilmente por tanto
tempo.
Mais tarde quando o marido morre, abençoando-a como se abençôa um anjo,
ella, livre de novo, torna a encontrar o homem que amou uma vez, e que
não soube esquecer.
Esse é então marido da amiga, da infancia, da juvenil viuva.
Não são felizes, os dous, mas ella, a intrepida, a caridosa creatura, lá
está tentando da abnegação de cada um d'elles fazer a felicidade de
ambos.
Não o consegue, e quando a amiga, culpada e arrependida se mata para
fugir ao horror de mentir eternamente a seu marido, só ella no mundo
recebe a confidencia do seu crime, confidencia que n'uma carta repassada
de dôr a douda creança lhe pede que transmitta ao esposo ultrajado.
Ficaram ambos livres em face um do outro, ambos viuvos, ambos tendo
cumprido a missão que o destino lhe confiára.
Nada os desune agora, nada, a não ser uma duvida que punge o animo
d'aquelle, que hoje ella ama perdidamente com a paixão concentrada de
tantos annos de sacrificio.
--Porque foi que a minha mulher se matou? pergunta elle então. Ás vezes
lembro-me que foi talvez o desamor que eu não soube occultar bastante.
Se assim fôr, fugirei. Não quero gozar uma ventura de que não sou digno.
Se eu matei uma innocente e casta creança, quem me dá direito a ser
ainda feliz na terra?
Só ella o sabe, só d'ella depende aquella ventura divina, de que o dever
e a caridade a fizeram fugir n'outro tempo.
Pois a ninguem revelou o segredo da sua amiga morta, da doce creatura
que a paixão fustigara e que a paixão matou!
Calou-se, deixou que o noivo da sua alma se affastasse para sempre,
pungido por um remorso que o separava da ventura, e olhando para o berço
da filha escreveu estas palavras que vertem lagrimas, as santas
lagrimas, que os _realistas_ não conhecem:
«Restas-me tu, minha filha... Escrevo estas linhas ao pé do teu
bercinho... Espero que um dia estas paginas façam parte do teu enxoval
de noiva; talvez ellas te digam que queiras muito á tua pobre mãe, tão
romantica!... D'ella saberás talvez que a paixão e o romance podem ser
bons, com a ajuda de Deus, porque elevam os corações e ensinam-lhes os
deveres superiores, os grandes sacrificios, as elevadas alegrias da
vida. É verdade que eu chóro ao dizer-te isto, mas olha que ha lagrimas
que causam inveja aos anjos.
MADAME DE BALSAC
I
Ha tempo annunciaram os jornaes que a viuva do grande romancista vinha
fazer uma viagem á Peninsula e que partira já de Paris em direcção á
capital de Hespanha.
Senti então um impeto de curiosidade verdadeiramente irresistivel.
Pensei em vêr a deliciosa russa e em conhecer n'ella humanado e visivel,
um de aquelles immoredouros typos femininos, de que Balsac foi o
analysta assombroso, se é que não foi o phantastico creador.
Em Madame de Balsac havia de haver por força muito d'aquelle homem que é
o producto mais genuino da sua época e do seu meio; homem prodigio, que
era ao mesmo tempo o espirito mais sceptico e o mais supersticioso, o
mais corrupto e o mais infantil, o mais cultivado e o mais ignorante, o
mais positivo e o mais phantasista, o mais atrozmente eivado de todos os
venenos corrosivos da civilisação moderna, e o mais primitivo e
adoravelmente poetico que existe no mundo da Arte.
Ella conhecera-o por muitos annos, mesmo antes de ser sua mulher,
amparara-o muitas vezes nas suas luctas cyclopicas contra os modernos
monstros--a Divida, a Calumnia, a Inveja--e tantos outros que lhe
retalhavam o coração com as garras sanguinarias; acolhera-o muitas
outras, cançado, vencido, aniquillado, depois de uma d'aquellas
vertiginosas viagens pelos mundos chymericos do Impossivel; vira-o
partir montado no fogoso Pegaso do sonho. Imaginario terrivel, moderno e
mais complicado D. Quichote, em busca de tesouros que nunca existiram,
de fabulosas hypotheses em que ninguem acreditava, de ideaes entrevistos
que lhe davam o deslumbramento extatico e paradisiaco; ouvira-lhe depois
no seu regresso ao mundo da realidade o rir estrondoso e _rabelaisiano_,
rir de um gigante em horas de gaudio, rir só digno d'aquella natureza
robusta e fecunda em contrastes, que tinha todos os requintes
aristocraticos e todas as grossas expansões plebeias; conheçera-o a
fundo, debaixo de todos os aspectos, e aos meus olhos havia n'ella uma
attração extranha e magnetica como quem visitou o antro de um leão e o
domou meigo e dôce aos seus pés pequeninos.
Levei então horas e horas ideiando o meio porque me havia de approximar,
eu obscura e desconhecida da illustre mulher, duplamente celebre pelo
merito pessoal, e pelo genio de que era como que o reflexo vivo.
Quando estava no meio d'estas locubrações inoffensivas aconteceu o que
era de esperar: a condessa Hanskan de Balsac, entendeu que Portugal, o
Portugal tão querido dos poetas patriotas, não era digno de uma visita
sua.
Resignei-me, portanto, a conhecêl-a sómente atravez de um livro que é a
obra-prima de Balsac, o auctor de tantas obras primas que não morrem.
Este livro é a _Correspondencia_ do grande escriptor, publicada ha pouco
pela casa Calmann Levy.
Não conhecemos, podemos affoitamente confessal-o, livro mais dramatico,
mais cheio de vida e de interesse, mais _empoignant_, permitta-se-nos o
expressivo francezismo.
N'estes dous volumes de cartas apparece-nos Balsac em toda a potencia da
sua extraordinaria individualidade, e conhecer Balsac é como que
conhecer a sua época, a sociedade que o produziu e formou, os vicios,
virtudes, preoccupações, sentimentos, ideias e paixões do seculo
extraordinario, de que elle é a synthese mais completa, seculo agitado
por esse poder fecundo e malefico chamado _Oiro_ que tamanha influencia
exerceu na vida intima de Balsac.
Nos livros devidos á penna do fecundo escriptor, o oiro com o seu brilho
fulvo, com as suas tentações diabolicas, com o seu cortejo de visões
sinistras ou luminosas, com as suas miragens attrahentes e enganadoras,
com as paixões phreneticas que elle cria, que elle excita, que elle
exacerba, com os milagres de que é a fonte tantas vezes turva, com os
explendores de que é o mais perfeito creador, o oiro, esse inimigo, esse
auxiliar, esse idolo humano, scintilla, tremeluz, precipita-se em
cascatas fulgidas, doira com o seu reflexo infernal todas as cousas,
communica um não sei que de vertiginoso e satanico a todas as creaturas
e a todos os objectos, produz allucinações doentias que desorientam e
desvairam.
Esta preoccupação, que tanto nos espanta nos romances eminentemente
modernos de pintor mais perfeito e mais _realista_ que a sociedade
franceza do seculo XIX encontrou, transparece, na existencia inteira do
homem, e explica-se por todos os factos do seu agitado viver.
Ganhar dinheiro, muito dinheiro, o que bastasse para saciar as ambições
mais desregradas, os desejos mais insensatos, o ideal de luxo mais
artistico e requintado, os sonhos mais orientaes de um _nababo_ ebrio de
_haschish_, eis o ficto que preencheu a vida de Balsac.
Á primeira vista a gente imagina que o escriptor lhe sacrificou e
subordinou tudo o mais.
Engano!
Emquanto aquella phantasia desenfreada e febril revolvia milhões,
aspirava á opulencia das _Mil e uma noites_, se lançava nas mais doidas
especulações, escavava minas que não havia, procurava thesouros
occultos, se exhauria emfim n'uma lucta impossivel e tenaz contra a
mediocridade da sua fortuna, o escriptor severo e consciencioso não
sacrificava ao ganho nem uma diminuta parcella da sua legitima gloria.
Os editores ajustavam pagar-lhe um livro por certa e determinada
quantia, muitas vezes vantajosa para o orçamento do poeta, mas
conhecendo-lhe a singularidade do caracter especificavam no contracto
que o auctor só teria direito a receber um certo numero de provas, e
que, excedido elle, as correcções seriam por sua conta.
Muitas vezes todo o preço do romance era esgotado nas correcções que
Balsac fazia á sua custa, tão elevada era a ideia que elle tinha da
perfeição da Arte.
Esmagado debaixo do peso das dividas, que todos os dias pagava e todos
os dias cresciam, trabalhou como um titan, trabalhou sem descanço, sem
treguas, com phrenezi, com paixão, com tenacidade de que só era capaz
aquelle organismo d'uma robustez antiga, e ao mesmo tempo vibratil,
nervoso, delicado como o de uma mulher.
Chegou a escrever consecutivamente e sem descanço pelo espaço de
quarenta e oito horas, conservando-se n'uma exaltação artificial,
produzida pelo fortissimo café, que bebia em grandes doses.
Quem deixaria de succumbir a esta vida de martyrio?
Apesar do seu estranho vigor, aos cincoenta e um annos Balsac succumbia
a um aneurisma, tendo produzido dezenas e dezenas de obras admiraveis,
que bastariam, repartidas, para constituir a fama de vinte escriptores.
Morreu com a penna na mão, tendo attingido as duas ambições supremas da
sua vida; morreu sendo _amado_ e sendo _celebre_, mas morreu antes de
haver podido saborear no repouso e na dilatação tranquilla da alma o
_amor_ conquistado em annos e annos de servidão cavalleiresca, de
castidade monastica, de paixão secreta e delicada; a _celebridade_
adquirida em trinta annos do mais infatigavel e violento labutar que
ainda um espirito de homem concebeu e realisou.
Quanto mais se estuda aquella vida singular, maior pasmo nos avassalla o
entendimento.
Todo elle era contrastes incomprehensiveis, dos quaes, no entanto, tinha
a consciencia definida e clara.
Pondo na bocca d'um dos seus protagonistas pensamentos que eram seus,
diz elle analysando a sua propria vida:
«Amante effeminado da preguiça oriental, namorado dos meus sonhos,
sensual por temperamento, trabalhei sempre sem repouso, recusando-me a
todos os gozos da vida parisiense; guloso, fui sobrio; gostando dos
grandes passeios, das longas viagens maritimas, desejando conhecer todos
os paizes da terra, vivi constantemente immovel, sedentario, com a penna
na mão, amarrado á banca do trabalho; fallador, loquaz, communicativo,
ia escutar em silencio os professores nos cursos publicos da bibliotheca
e do museu; vivi solitario como um monge benedictino, e a mulher no
entanto era a minha chimera unica, chimera sempre acariciada, e sempre
esquiva.»
O que elle aqui não diz, mas o que mais d'uma vez lhe foge dos labios e
dos biccos da penna, n'um grito doloroso e dilacerante de agonia
prophetica, é que a morte implacavel ha de vir colhel-o no instante em
que elle já extenuado de tantas luctas ia tocar a méta do seu desejar
infrene.
O que torna mais digno de um curioso estudo a indole litteraria de
Balsac é a revelação feita pelos seus amigos e confirmada por elle
proprio, da excessiva difficuldade, que o romancista encontrava para
achar um molde adequado ao seu pensamento tão profundo e complexo.
A palavra trahia-o a cada instante, a lingua, como a Galatheia da
fabula, recusava-se a ceder ás febris solicitações do seu pensamento,
fugia-lhe ondeante e caprichosa, e elle impotente, desesperado, ardendo
em febre, luctava noites e noites com a fórma tyrannica que se não
queria deixar domar!
«N'essas batalhas nocturnas,--diz Théophile Gauthier, no admiravel
estudo que consagrou a Balsac,--e das quaes o escriptor acabava de manhã
despedaçado, mas vencedor, quando o lume do fogão se apagava e a
atmosphera arrefecia, a cabeça d'elle exhalava fumo, e do seu corpo
sahia uma especie de nevoeiro vizivel como do corpo dos cavallos em
tempo de inverno.
«Ás vezes uma só phrase occupava uma vigilia inteira; era empolgada,
tornada a empolgar, torcida, amassada, martellada, allongada, encurtada,
escripta de mil modos differentes, e coisa notavel! a fórma necessaria,
absoluta, não apparecia senão depois de se haverem exgotado as fórmas
approximativas. O metal, sem duvida, corria muitas vezes de um jacto
mais cheio e mais solido, mas poucas paginas existem de Balsac que
ficassem exactamente iguaes ao primeiro rascunho.»
II
É ainda Théophile Gauthier quem nos deixou de Balsac o retrato mais
expressivo, aquelle que se nos affigura mais fiel.
«Usava elle sempre, diz o escriptor já citado, em vez de _robe de
chambre_, o habito de cachemira ou de flanella branca, preso á cintura
por um cordão grosso, com o qual, mais tarde, se fez retratar por Luiz
Boulanger.
«Que phantasia o levára a escolher de preferencia aquelle vestuario que
nunca mais deixou? Não o saberemos dizer.
«Talvez que elle aos seus olhos symbolisasse a vida claustral a que o
seu trabalho o condemnava, e, benedictino do romance, adoptara o trajo
da sua vocação.
«Como quer que seja, a verdade é que lhe ficava muito bem.
«Gabava-se sempre mostrando-nos as suas mangas intactas, de não lhes
haver jámais manchado a alvura com a menor nodoa de tinta, porque, dizia
elle, «o verdadeiro homem de lettras deve ser aceiado no trabalho.»
«O habito, um pouco aberto, deixava-lhe vêr o pescoço de athleta ou de
touro, redondo como um troço de columna, sem musculos salientes, e de
uma alvura assetinada, que fazia perfeito contraste com o tom mais
colorido das faces.
«N'essa época, Balsac, em todo o vigor da sua virilidade, apresentava
indicios de uma saude violenta, pouco em harmonia com a pallidez
esverdeada que o romantismo tinha posto á moda.
«O puro sangue da Touraine fustigava-lhe as faces tintas de purpura
vivaz, e dava-lhe um colorido quente aos grossos labios bondosos e
espessos, tão accessiveis ao riso; um pequeno bigode e uma pêra
impercetivel accentuavam-lhe os contornos sem os esconder; o nariz
quadrado na extremidade, repartido em dois lobulos, de narinas amplas e
dilatadas, tinha um caracter inteiramente original e unico; a ponto de
Balsac dizer a David de Angers em quanto este lhe modelava o busto: «Dê
attenção ao meu nariz;--o meu nariz é um mundo!»
«A testa era bella, vasta, nobilissima, muito mais branca do que o
rosto, sem rugas, a não ser um sulco perpendicular; as protuberancias da
memoria dos logares formavam uma saliencia pronunciadissima, por cima
das arcadas superciliarias; os cabellos longos, abundantes, asperos e
negros, arripiavam-se para traz como uma juba leonina.
«Quanto aos olhos nunca houve outros que se parecessem com os d'elle.
«Tinham uma vida, uma luz, um magnetismo inconcebiveis.
«Apesar das longas vigilias nocturnas, a esclerotica conservava-se-lhe
pura, limpida, azulada, como a de uma creança, ou a de uma virgem, e
engastava dois diamantes negros, a espaços allumiados por oppulentos
reflexos de ouro. Eram olhos para fazerem baixar as palpebras ás aguias;
olhos capazes de lerem atravez das paredes e dos corações, de fulminarem
uma féra furiosa: olhos de soberano, de vidente e de domador!»
Madame de Girardin, no seu romance intitulado: _A bengala do snr. de
Balsac_, falla d'estes olhos esplendidos:
«_Tancredo avistou então no cabo d'esta especie de masso, turquezas e
ouro, cinzeladuras maravilhosas; e por detraz de tudo isto dois grandes
olhos negros mais brilhantes que todas as pedrarias._
«Logo que a gente encontrava o olhar d'estes olhos extraordinarios, não
podia notar sequer o que as outras feições tinham de trivial ou de
irregular.
«As mãos de Balsac eram de rara formosura, verdadeiras mãos de prelado,
brancas, de dedos pequenos e redondinhos, unhas roseas e brilhantes; era
muito presumido d'ellas, e sorria-se de prazer quando via que as
notavam».
Diante d'este retrato é mais facil comprehender o escriptor com a sua
admiravel potencia intellectual, e as suas pequenas manias pueris;
sympathico, bom, com vaidades inoffensivas, e austeros orgulhos, sedento
de um affecto _unico_, e de uma _celebridade_ que fosse só d'elle.
Nas suas cartas de uma eloquencia irresistivel, volteiam constantemente
as duas grandes preoccupações da sua vida--_a gloria_ e _a mulher_!
«Tenho a alma profundamente triste, escreve elle. Só o trabalho me
ampara na vida. Não haverá para mim no mundo a mulher a que eu aspiro?
As minhas melancolias e tedios physicos cada dia se aggravam mais, se
tornam mais longos e mais frequentes. Cahir d'este trabalho esmagador ao
_nada_ mais completo! não ter nunca ao pé de mim aquelle doce e
carinhoso espirito da mulher, por quem tenho feito tanto!»
E fez! digam o que disserem os seus detractores, ninguem como elle
comprehendeu a mulher,--principalmente a mulher do seu tempo,--nas suas
fraquezas, nos seus crimes, nas suas delicadezas occultas, nas suas
aspirações morbidas e doentias, nas exigencias despoticas da sua alma e
dos seus nervos, nas abnegações sublimes de todo o seu sêr, nas suas
vaidades ferozes, no esquecimento absoluto, na abdicação completa de
qualquer egoismo, em tudo emfim que ella tem de bello e de feio, de
grandioso e de ridiculo, de puro e de maculado.
Que o digam Eugenia Grandet, a mais doce e mais melancolica das suas
creações; _La Fossette_, idylica visão tão sympathica como a Mignon, e
mais real do que ella; a condessa de Morsauf, a martyr do dever; a
viscondessa de Bauseant, a duqueza de Langeais, madame de Restaud, lady
Dudley, a monumental Valeria Marneffe, e tantas outras, tragicas
peccadoras, fascinantes, demonios que teem filtros na voz e no olhar;
productos de uma civilisação gasta e apodrecida; figuras typicas que
hão de ficar umas, caracteristicas da sua época e do seu meio, outras,
eternas e sempre verdadeiras como a humanidade!
Em Balsac ha muitas vezes expansões de candido orgulho que seriam
ridiculas n'outro homem, e que a elle o tornam mais sympathico.
Tem mais do que a consciencia clara do seu valor, tem uma confiança
enorme em si, no seu talento, na sua obra, na sua missão.
Imagina-se apto para todos os misteres, julga-se não só um grande
romancista, mas alguma cousa menos--um grande politico!
Escrevendo _Seraphita_ e _Luiz Lambert_, duas obras que lhe foram
inspiradas pelas suas leituras de philosophia espiritualista, e pelas
tendencias _Swedenborgistas_ que houve n'elle n'um dado momento da sua
existencia, tão _intellectualmente_ accidentada, julga preencher uma
grande lacuna, produzir alguma cousa de grande que os seculos vindouros
possam pôr ao lado do Fausto!
Curiosa illusão do genio!
Como se houvesse nada menos nebuloso, menos metaphysico do que esse
vigoroso _realista_, observador potente para quem a vida com todas as
paixões que a convulsionam e agitam não conservou um unico segredo.
III
São de 1835 as primeiras cartas que na _Correspondencia_ de Balsac
apparecem dirigidas a madame Hanska, se bem que já de mais tempo
dactassem as suas relações de pura e platonica amisade com a elegante e
fidalga mulher, que muito mais tarde foi sua esposa.