poeta da _Lenda dos Seculos_, e mostra-nol-o com a _robe de chambre_ e
os pantufos de qualquer honesto _rentier_ do Marais.
Victor Hugo não perde em ser visto assim.
A sua alma amantissima, desnudada diante do nosso olhar corresponde
positivamente a tudo que d'ella esperavamos.
O avô brincando no tapete do seu quarto de trabalho com a graciosa
Joanninha que a _Art d'être grand père_ immortalisou, não desmente de
modo algum o justiceiro implacavel dos _Châtiments_.
Comtudo não é o pae de familia, que nós vamos hoje estudar em Victor
Hugo, como o nosso titulo um tanto phantasista parece estar indicando.
_As filhas de Victor Hugo_, que nós tentaremos apresentar diante dos
olhos das leitoras, não são as filhas do seu matrimonio de simples
mortal, são as radiosas filhas do seu genio, as visões illuminadas que
elle evocou com palavras de mysterioso encantamento d'esse Olympo
inaccessivel onde vivem e nascem as creações immortaes dos grandes
artistas.
Para nós que temos vivido da palavra do mestre, que temos seguido com
enternecimento apaixonado todas as phases do seu espirito, essas
mulheres ideaes é que são as suas verdadeiras filhas. Que nos importam
as outras no fim de contas, se atravez d'estas é que elle se revelou tal
como é?
Todos os artistas de primeira ordem criam um typo de mulher, em que
consubstanciam e sinthethisam todos os sonhos que tiveram, todas as
aspirações que tem concebido.
A mulher que elles fazem viver com a penna, se são poetas, com o escopro
ou com o pincel, se são estatuarios ou pintores, não é como alguns
querem que seja, a mulher que elles amaram: é mais do que isso, é a
mulher que elles queriam amar!
Para essa é que a sua lyra tem cantos mais ardentes, o seu cinzel mais
avelludadas caricias, a sua palêta côres mais suaves, a sua penna traços
mais vivos, analyses mais delicadas, intenções mais graciosas e mais
finas.
E como o coração dos homens é tão vasto que n'elle cabem dous cultos que
se não prejudicam mutuamente, quasi sempre esses artistas de que
fallamos tratam com o mesmo primoroso esmero dous typos de mulher bem
diversos, e que representam como a dupla face do seu modo de sentir.
Um d'elles personifica a virginal creança cujas seducções mais
irresistiveis se chamam innocencia, pudor, candura, ou ignorancia;
lyrios que o orvalho da manhã corôa com um diadema de perolas, lyrios
que uma aragem mais quente crestaria, e que o contacto de uns dedos
brutaes lançaria por terra murchos e amarrotados. Outro, a mulher na
plena posse da sua perigosa soberania, a mulher sereia que encanta e
embriaga e mata, consciente dos seus maleficios, e gosando do seu fatal
poder!
Consoante o espirito do artista se enamora da sombria belleza do mal, ou
da immaculada candura do bem, assim elle trata com mais delicada
predileção o _eterno feminino_ que representa uma das faces do mesmo
problema insoluvel.
Porque o homem grande ou pequeno, intelligente ou mediocre, ha de sempre
amar a mulher debaixo de qualquer d'estas duas formas, ou antes debaixo
d'ellas ambas.
Até os bons nas suas horas de perversão, nas crises em que no coração
d'elles triumpha a _porção de dominio_ que ha até mesmo na alma dos
anjos, hão de sentir-se attrahidos por este mysterio luminoso e sombrio,
que na arte pagã se chamou Circe ou Helena, que na edade média foi
Melusina, que na Renascença foi Imperia ou Lucrecia Borgia, que os
modernos emfim conhecem debaixo de tantos nomes, que o genio de tantos
homens tem revestido de prestigio magico e de superior fascinação.
Os maus... escusado é dizer que os maus, só n'essas mulheres symbolos do
mal, symbolos de todas as seducções insalubres, hão de achar a graça
magnetica que arrasta e que enlouquece.
Não é por isso de admirar que todos os poetas as tenham cantado, que
todos os romancistas as tenham descripto, mas na feição peculiar que
cada um d'elles dá ao modo por que as estuda e as pinta, é que consiste
a superioridade ou inferioridade do eterno typo.
Quanto ás outras, ás boas, ás candidas, ás angelicas, poucos as
comprehendem na sua genuina e original pureza, e os que as souberam
comprehender teem produzido obras primas!
Shakespeare é o poeta a quem se deve uma galeria mais radiosa e pura
d'estas divinas creanças impeccaveis.
Umas absortas n'um sonho de eterna tristeza, envoltas como que n'um
presentimento de inevitavel desdita, como Ophelia ou Desdemona; outras
deixando florir nos labios frescos a rubra flôr da alegria matinal, mas
todas lindas, e meigas e innocentes, todas fazendo crer no bem até os
mais cynicos.
Victor Hugo tem, como Shakspeare, d'estas criações risonhas e
sympathicas.
As mulheres de um como as mulheres do outro, téem na alma um pouco da
alma das aves.
Téem a ligeireza alada do sonho, téem a graça imponderavel das visões.
Não ha ninguem que não quizesse ter por filha uma d'essas creanças
borboletas; não sei se todas as quereriam para esposas.
E no entanto são boas, de uma doce bondade inconsciente que d'ellas se
exhala como o aroma se exhala da flôr; mas tambem as creanças são boas,
e comtudo ninguem como ellas sabe ser engenhosamente cruel.
* * * * *
Victor Hugo com a sua alma de forte, que não precisa de auxilio, e não
precisa de guia, não comprehende a mulher como os modernos aspiram a
encontral-a.
Não quer a companheira robusta d'esse athleta moral, que é o luctador de
hoje; não quer a mulher de animo reflectido, de coragem viril, de
consciencia illuminada e austera, que na hora do perigo ou na hora da
vacilação criminosa, arrasta ao impulso da sua voz o espirito do homem
esmorecido ou duvidoso.
Elle, cuja vida tem sido uma ascenção progressiva para o bem, elle, que
não precisa d'outra bussola que não seja a luz interior que nunca se
apaga nem bruxoleia, não teve necessidade de crear ao lado de Marius, ao
lado de Didier, ao lado de Gennaro, ao lado dos seus altivos heroes, uma
mulher forte que os auxiliasse e fortalecesse na grande lucta do bem!
Oh! não era de força que elles careciam.
Era de luz nas sombras do seu caminho sombrio!
Didier saberia resistir ás seducções da criminosa voluptuosidade;
Hernani saberia responder ao sinistro som da trompa funeraria; Gennaro
saberia confessar as suas indignações austeras e os seus odios
inquebrantaveis; Marius saberia amar a honra impolluta como as virgens,
brilhante como as espadas, implacavel como a eterna justiça.
Do que elles precisavam era de risos, de flôres, de caricias e de
beijos.
Precisavam de quem os arrancasse á contemplação do seu deslumbramento
ideal e lhes dissesse ao ouvido ternamente, melodiosamente:
--Olha! eu sou a graça, sou a poesia, sou o esquecimento, sou a
embriaguez. Tenho só um nome, que vale por todos e a todos sobreleva: eu
sou o amor!
E não são mais nada as mulheres creadas pelo genio portentoso de Hugo!
O amor, sempre o amor.
O amor egoista, o amor cego, o amor absorvente, exclusivo, com os seus
pudores instinctivos, as suas ignorancias virginaes e as suas aspirações
insaciadas a fatalidade irresistivel da sua força!
No seu primeiro drama, Hugo todo imbuido das ideias cavalleirescas do
_romanceiro_, creou um typo de mulher que é talvez um dos mais bellos da
sua formosa e radiante galeria.
_Dona Sol_ sabe amar impetuosamente, ardentemente, e n'esse amor que é a
nota predominante do seu caracter, encontra força para todas as
resistencias viris.
Como ella é dôce e humilde enlaçada pelos braços valentes do seu
_senhor_, do seu leão das montanhas, do seu principe bandido, do seu
rebelde e indomavel cavalleiro!
Sorrisos, olhares, vozes, caricias, tudo é de velludo!
Um desejo d'elle, tem-na escrava! no entanto sabe por instincto, que
elle o heroe, o forte lhe não póde pedir cousa alguma que a filha de um
paladino das Hespanhas deva recusar envergonhada.
Quem dirá que aquella graça póde fazer-se indignação, que aquella
flexibilidade ondeante póde transformar-se em revolta implacavel?
É que n'ella ha de tudo! porém esse _tudo_ é simplesmente amor.
Appareça outro que a requeste, outro que ouse amal-a, e a pomba saberá
ser leôa, para defender o seu thesouro!
Mas de que lhe vem a força com que ella domina, a indignação austera que
a transfigura? Do coração.
As mulheres de Hugo não pensam, não raciocinam, amam! Isso lhes basta.
E se a fome ás vezes as perde, se a maldade e a perfidia do homem as
arrasta, nunca o amor deixou de as redimir.
Para ellas o amor não é a perdição, é o resgate!
Vêde Marion, a cortezã incredula, a serpente de enganosas caricias, que
um sentimento verdadeiro purifica e exalta, e que d'elle recebe uma nova
e mysteriosa virgindade! Vêde Eponine, a filha das lamas de Pariz, a
quem um olhar de Marius inocula o amor, o sacrificio, a abnegação e a
heroicidade!
Mas--contradicção á primeira vista inexplicavel e que no fundo tem
talvez uma significação sublime--o amor que transfigura e santifica e
illumina as peccadoras, torna egoistas, torna ingratas as puras!
Eponine immola-se, porque ama, e Cosette, porque ama, esquece tudo que
não seja o seu amor, e com a mesma pequena mão com que abre a Marius os
paraisos inacessiveis enterra o punhal no seio de João Valjean!
Marion, de Magdalena impudica e triumphante, levanta-se Magdalena
arrependida e piedosa, e Esmeralda não tem a esmola, a caridade de um
sorriso bom para Quasimodo!
Porque?
Ah! é que umas são a ignorancia na sua perfeição mais divina, outras
guardam na bocca o gosto amargo de todos os fructos vedados que teem
devorado!
Umas não conhecem nada para além da nuvem iriada que as envolve e lhes
intercepta o mundo, outras possuem a medonha sciencia que é feita de
todas as decepções, de todas as agonias, de todos os tedios, de todos os
remorsos, de todas as nauseas da vergonha e do desprezo proprio!
Umas entram no amor, triumphantes, immaculadas, curiosas, ébrias de
harmonias nunca ouvidas, sedentas de alegrias nunca sonhadas, absortas
pela radiante visão que as transporta a mundos desconhecidos.
Viviam d'antes? tinham affectos? prazeres? distracções?
Não sabem.
Sabem que as inundou a luz de um olhar, e que, a essa luz, viram o que
nunca tinham visto, esqueceram tudo mais que fôra seu.
As outras vão alli á porta d'aquella região de que hão de ser as eternas
exiladas, pedir a esmola de um perdão, a caridade de umas horas de
esquecimento.
E em troca d'esse consolo supremo a que se julgam sem direito, são
capazes de todos os sacrificios, de todos os renunciamentos sublimes
que inventa a mulher depois de ter perdido a esperança de ser feliz.
* * * * *
Leitora, estás cansada das chatas e incaracteristicas figuras que tens
encontrado na vida real? Entristecem-te dolorosamente os typos hediondos
ou repugnantes da moderna arte?
As Gervasias, as Bovarys, as Fannys, as peccadoras da França juvenil?
Pois bem, deixa que desfile por diante do teu olhar pensativo a gloriosa
legião das filhas de Victor Hugo.
Oh! crê que não aprenderás com ellas cousa alguma que rebaixe o teu
espirito, que fira o teu coração, que surprehenda cruelmente o teu
entendimento.
Ellas sabem todas o que é o amor, muitas o que é o arrependimento, o
remorso, a vergonha, a expiação; nenhuma sabe o que é o triumpho
impudico do vicio, a ostentação criminosa das vaidades mundanas, a
impenitencia immoral das que medram no meio do crime.
As peccadoras contar-te-hão a dolorosa historia das suas amarguras, as
virgens a doçura sonhadora dos seus extasis!
Amaram, acreditaram, sentiram na plenitude do coração que a vida é boa,
e que o paraiso póde encontrar-se n'um canto da terra.
Não sabem nada de _toilettes_, de pequenas intrigas, de namoros, de
vicios mesquinhos, de invejas e de tagarelices; atravessaram o mundo com
os olhos fitos n'outros olhos, com as mãos enlaçadas n'outras mãos, com
a alma a cantar-lhes um _hosanna_ de mysticos arroubos!
Se queres estudar os escaninhos caprichosos de um coração de mulher
bonita e garrida, não as procures, mas tambem lhes não peças que te
fallem nos nossos piedosos e obscuros deveres de todos os dias.
São as hallucinadas do amor! Arrastou-as uma tempestade para outras
espheras ardentes onde se não vive a vida que conhecemos!
Vê tu--Esmeralda! que bem posto nome!
Toda ella scintilla ao sol como a pedra preciosa que lhe serviu de
baptismo; os seus dedos de _gitana_ crestados e finos arrancam ao
pandeiro do seu paiz doidos e extranhos sons! Fascina com um olhar
inconsciente dos seus olhos de velludo, com uma nota da sua voz
crystallina, com um meneio do seu corpo de serpente.
Que sabe ella da vida? Nada; a não ser que a vida é bella, visto que ha
dous olhos que ao fixar nos seus os banharam de fulgor!
E Cosette! vive ao pé d'ella um enygma sombrio! um espirito sobrehumano!
um luctador d'estas luctas interiores cujo reflexo se estampa na frente
que as encerra.
Ella nunca interrogou essa alma, e nunca tentou decifrar esse enygma, e
nunca sequer comprehendeu a existencia d'essas luctas.
Ao seu companheiro triste, humilde, heroico, adoravel ella deve durante
quinze annos a ventura mais perfeita que póde gosar-se na terra.
Satisfez-lhe todos os desejos; todos os brinquedos d'aquella fada,
encarregou-se de os fornecer a natureza na liberdade plena, nos seus
idyllios primaveris! Estava na escuridão, e deram-lhe luz; era escrava
fizeram-n'a rainha.
Não importa! Marius appareceu e Cosette louca, deslumbrada, esquecida,
deixa morrer de dôr o amigo da sua risonha mocidade.
É má?
Não; é ignorante. Não sabe que se morre visto que elle vive na posse de
uma ventura que nunca até alli conhecera.
Não sabe que se tem saudades, porque ao pé de Marius nunca esse espinho
lhe mordeu no coração!
Pois é possivel ser desgraçado quando eu sou tão feliz! pergunta
tacitamente com barbaridade que se ignora, cada um dos sorrisos de
ventura que ella atirara em redor de si, sem se importar onde lhe vão
cahir!
Ai! Cosette, Cosette! eu gosto de ti, borboleta, ébria de luz! és uma
das visões luminosas que ficarás para sempre moça e querida! és uma
estatua branca que ninguem ousará mutilar e que os seculos verão erguida
no teu pedestal de flôres! Mas como eu te amaria muito mais ainda se em
vez de seres o Amor fosses o Sacrificio!
Um dia Victor Hugo pediu ás neblinas matinaes dos climas do norte, uma
porção de renda branca e transparente com que ellas corôam a crista das
montanhas e... fez Déa!
Que doce, vaporosa e lendaria visão!
Não ha n'ella cousa alguma que seja realidade!
Toca na terra ao de leve; não tanto que pareça filha d'ella, não tão
pouco que lhe não seja dado consolar alguem votado ás dores sem consolo.
É cega!
Amada por um monstro sabe verter-lhe n'alma as alegrias de um Deus!
Não vê o homem que a ama, vê o amor de que elle a veste!
Abençoada cegueira que faz dous felizes!
* * * * *
Ao lado d'ella--supremo contraste!--sorri Josiane com o seu sorriso de
deusa pagã!
No olho azul da patricia ingleza scintilla em chispas uma diabolica
ironia.
Josiane é a amante do impossivel! Procura o que nunca ninguem achou!
Quer um sonho que a sacie, o amor de um Titan, ou de um cyclope, o amor
de Apollo ou de Polyphemo!
Estranha figura, producto doentio de uma noite de febre!
* * * * *
Dona Sol, Maria de Neuburgo, Marion, Eponine, Cosette, Déa, quantas
figuras radiosas, quantas humanições esplendidas da mulher sonhada!
Nas horas de desalento ou de amarga duvida, nas horas em que as miserias
que nos cercam, nos fizeram encarar a vida pelo seu aspecto mais
desolado e mais escuro olhemos para ellas!
Dir-nos-hão os poetas de hoje que ellas não existem, e, o que é peior,
que ellas não puderam existir nunca.
Oh! é bem triste, é bem esteril a arte que só trata de rebaixar o que em
nós é de mais elevada essencia, e só quer que vejamos a fatalidade
brutal do instincto, onde viamos d'antes a fatalidade mais nobre do
sentimento.
Não acreditemos o que elles nos dizem, porque na sua preoccupação
exagerada do horrivel, elles mentem muito mais do que os outros mentiam
na sua preoccupação exagerada do bello!
Estes reunindo todos os vicios e hediondezas que encontraram dispersos
n'uma só figura, conseguem apenas crear... um monstro, um ser hybrido e
infecundo que a ninguem aproveita!
Os outros synthetisando n'uma filha do seu genio as harmonias, as
feições, os encantos, que estudaram e amaram em toda a natureza,
conseguiram alguma coisa mais!
Crearam o ideal immutavel e eterno e ensinaram-nos a fitar n'elle os
olhos da nossa alma, e a invocal-o como um consolo adoravel nas nossas
horas de desalento e de agonia.
FIM
INDICE
PRIMEIRA PARTE
PAG.
I--Uma historia verdadeira 7
II--O tio Sebastião 59
III--O annel do diplomata 79
IV--A escolha de Gastão 99
V--O romance de Adelina 125
VI--A Cigana 141
VII--Duas faces de uma medalha 157
VIII--A tia Izabel 173
IX--O melhor somno do millionario 185
X--A perceptora 203
XI--A morte de Bertha 219
SEGUNDA PARTE
I--A proposito de um livro 241
II--Madame de Balsac 257
III--Lincoln e Grant 277
IV--As filhas de Victor Hugo 295