de crystal da Bohemia, trepavam amorosamente em volta dos troncos mais
robustos que as cercavam; as margaritas com a sua alvura _mate_ e o seu
feitio de estrellas resaltavam n'um adoravel contraste da verdura clara
e fresca dos taboleiros de relva.
Havia flôres muito direitas e esbeltas no pedunculo delgado, que faziam
scismar Bertha,--não sei bem porquê--, nas lindas princezas dos contos
de fadas, que vivem nos seus palacios á beira do mar, escondidas,
discretas e cheias de magestosa gentileza.
As camelias com a victoriosa belleza do seu teclado de côres vivas e tão
varias, lembravam a Bertha a musica que ella ouvira uma vez, n'um dia de
parada, no desfilar apparatoso das tropas, musica brilhante, sonora,
marcial, feita do estridor dos clarins, da fanfarra triumphante dos
instrumentos de cobre, de todas as notas bellicas que rebentavam no
espaço, como que n'uma explosão harmonica e sonora!
Gostava muito das violetas--pequeninas e modestas, denunciando-se a medo
pelo seu rasto de perfumes,--e que ella costumava procurar nas hervas
para encher com ellas a jarra de porcellana de Sèvres, que havia sempre
sobre a mesa de costura de sua mãe.
E não penses tu que gostava menos das arvores! oh! a alma de Bertha
expandia-se naturalmente para tudo que é bom e que é bello.
Levava horas a espreitar através dos ramos delicadamente recortados pela
thesoura do Celeste Jardineiro, o alto céo azul, tão cheio de luz, e
que sem ella saber porque, a estava chamando sempre!
Depois nas arvores é que vivem os passaros, é alli que elles dependuram
os ninhos, que elles modulam as suas cantigas sem _libretto_, que elles
cantam a quem passa as suas alegrias e as suas saudades.
As arvores são boas, hospitaleiras e carinhosas, como se tivessem uma
alma occulta sob a rugosa cortiça dos seus troncos.
Ellas dão sombra, dão frescura, dão fructos, dão flôr, dão um bom cheiro
sadio, que reconforta e alegra; as arvores, minha Naly, são as nossas
melhores amigas.
Tu has de saber mais tarde, que no mundo ha muito riso falso, muita
amizade fingida, muita cousa que a gente julga solida, e que no fim de
contas está construida sobre a areia; mas os vegetaes, os eternos amigos
do homem, os que o nutrem e se nutrem d'elle, oh! esses nunca nos mentem
nem atraiçoam, nem dão conselhos máus!
O jardim era, pois, para a nossa Bertha um mundo riquissimo, um mundo
mysterioso, onde a vida palpitava, no insecto, na planta, no musgo, na
ave, na terra fecunda e robusta, na arvore frondosa, na agua limpida e
corrente, em tudo que rescende e murmura, e canta, e pullula, em tudo
que enlaça a alma do homem n'uma cadeia feita de embevecimentos magicos.
* * * * *
E as boas horas passadas no _gabinete azul_, o que ellas não valiam para
o pequenino coração de Bertha!
Sabes o que era o gabinete azul? era a saleta toda forrada e estofada de
setim azul, em que a mãe da nossa pequenina se conservava habitualmente.
Chamava-se Margarida a mãe de Bertha, e era formosa, de uma delicada e
fragil formosura, que despertava ao vel-a instinctos de piedade e de
protecção.
Alta, esbelta, levemente scismadora, como quem tem cuidados que a
preoccupem, sempre vestida de seda com punhos de cabeção de rendas
finas, um pouco amarelladas, que punham na _toilette_ de casa uns toques
de aristocratica distincção. Nos cabellos bastos, louros e frisados, uma
flôr quasi sempre colhida por Bertha.
O pae, esse era forte, robusto e sadio, mas tinha a virtude dos
valentes: a bondade. N'aquella physionomia accentuada e trigueira o
sorriso era tão doce que lembrava o desabrochar de um lyrio.
Não estava muito em casa, tinha que fazer fóra, andava ganhando a vida
de elegancias e de confortos, que viviam inconscientes, innocentemente
egoistas, os seus dous frageis amores--a mulher e a filha.
Mas quando elle estava, que festa!
Bertha, ora ennovellada aos pés da mãe, nas felpas avelludadas do
tapete, e com os grandes olhos curiosos fitos nos d'ella, ora folheando
um grande livro de imagens--como o teu, minha Naly--, ora empoleirada no
espaldar da larga poltrona onde o pae estava sentado, e passando-lhe a
pequenina mão crestada pela cabelladura revolta e crespa, Bertha era a
mais feliz das creaturinhas do bom Deus!
Era um gosto vel-os alli a todos tres, na intimidade d'aquelle viver de
familia!
Margarida, ao principio, trabalhava sempre; n'uns dias, um vestidinho
para a sua querida filha, n'outros dias, um pequeno objecto galante e
mimoso para o escriptorio do seu marido; de tempos a tempos um enxoval
para uma pobresinha, um enxoval muito aceiado, que Bertha dobrava e
desdobrava, que servia de thema para longas interrogações, e como que
iniciação da creança na doce caridade de sua mãe.
O pae, quando voltava, tinha sempre tanto que contar!
Gente que vira, casos que lhe haviam succedido! planos de futuro que
andava devaneando, e depois risos, brinquedos, correrias atrás do
diabrete da Berthazinha, eu sei!... o demonio a quatro!
Havia alli um conchego tepido, uma alegria, uma benção de Deus,
repartida por tres almas, e que parecia reflectir-se nas cousas mudas
que o cercavam servindo lhe de elegante e rendilhada moldura.
* * * * *
Queres tu saber, Naly? Bertha tinha um defeito. Era um bocadinho
egoista. Um egoismo de tres, já se entende, porque ella não sabia
separar a sua vida da de seus paes.
Uma das manifestações mais claras d'este egoismo era a repugnancia que
tinha pelos estranhos.
Sentia frio ao pé d'elles; fugia muito pensativa e muito arisca quando
via um indifferente interpôr-se importunamente entre ella e as caricias
que eram o seu alimento de todos os instantes.
Mas a pessoa que mais lhe aggravava esta impressão hostil, era um primo
que por aquelle tempo começara a frequentar mais a casa.
Um moço, alto, elegante, bem parecido, muito fallador n'umas horas de
expansão, muito concentrado n'outras horas, de bigode retorcido e
triumphante, olhares que sabiam ser doces, e que eram quasi sempre
altivos.
E, comtudo, que meigo que elle era para Bertha, espreitando-lhe os
caprichos, conformando-se com as brincadeiras d'ella, trazendo-lhe
_bonitos_, flores, cousas novas, delicadas, que ella não vira nunca, e
que, no emtanto, vindas da mão d'elle lhe desagradavam instinctivamente.
É que tambem o _primo_ tornara-se d'uma assiduidade irritante!
_Primo_ para aqui, _primo_ para alli, toda a gente gostava d'elle, para
cada pessoa tinha um dito amavel, uma intenção delicada, uma lisonja
habilmente escondida!
Tratavam-n'o por _tu_, era admittido nas festas intimas da familia, ia
ao jardim apanhar flores, acompanhava a _mamã_ ao theatro! Uma usurpação
em fórma, uma usurpação revestida de todas as circumstancias
aggravantes!
E depois usava essencias.
Bertha declarara com ar solemne e magestoso, que embirrava muito com o
primo, porque elle cheirava a _pat-chouly_.
E ella que andava habituada aos aromas frescos e sadios da livre
natureza, não podia supportar aquelle cheiro de essencias requintadas, a
que dava este nome generico e detestado.
A _mamã_ por ter de atural-o a cada instante, renunciára aos seus dôces
trabalhos d'outro tempo, de que Bertha gostava tanto, e que davam ás
suas mãosinhas travessas a sensação grata das sedas, das bonitas
fazendas desdobradas sobre o estofo das poltronas, de todas as graciosas
cousas com que podia brincar.
Andava triste a sua adorada mãesinha.
Tinha horas de melancholia morbida em que a cabeça lhe cahia no peito,
como se tivesse dentro estranho pezo. E ficava-se horas e horas calada e
desfallecida, com um livro aberto no regaço, ou com um trabalho apenas
começado cahido aos pés, sem ouvir o papaguear festivo da sua pequena
Bertha.
Quando voltava a si d'aquellas scismas doentias, parecia acordar d'um
mau sonho, passava a mão pela testa, bebia agua, muita agua, e beijava a
filha com um arrebatamento que lhe fazia mal.
A pequenita enfastiava-se!
Pudéra!
Fugia só para o jardim, sem que uma voz sollicita e assustada a chamasse
de longe, sem que uns olhos inquietos a velassem de perto, e punha-se
n'uma indistincta e muda linguagem que só as suas flores entendiam a
queixar-se das tristezas vagas, que a definhavam longe do calor que
d'antes a acalentava e aquecia.
As tardes do _gabinete azul_, os principios da noite, quando cahia do
alto dos céos a penumbra indecisa e dubia do crepusculo, tudo aquillo
perdera a sua graça, a sua antiga e ideal doçura!
No silencio constrangido da saleta, retiniam então os passos
conquistadores do _intruso_, e Bertha com vontade de romper em soluços,
pedia muito depressa que a fossem deitar.
Chamava-se a creada, vinha, levava-a pela mão, amuada, e ella, ao
aconchegar-se nas roupinhas do seu leito, sentia ainda uma estranha
impressão de desconforto e de frio. Era o beijo distrahido e formalista,
que lhe haviam imprimido na testa os labios quentes, seccos e febris de
sua mãe.
* * * * *
Era noite de festa para Berthazinha.
Estavam sós todos tres no _gabinete azul_, o paraiso d'outr'ora, onde
agora não havia senão flores... que ella não colhêra!
Bertha alcançara licença para se deitar ás nove horas.
Que bom!
Um longo serão de risos, de conversas sem tom nem som, de tagarelice
inextinguivel. O livro das grandes imagens, a boneca deitada no tapete,
uma profusão de _bonitos_ de todos os feitios--alguns, por peccados de
Bertha, tinha-lh'os dado o negregado primo! emfim por aquelle dia,
Bertha estava magnanima. Perdoava-lhes o virem da mão de quem vinham!--e
elles dous, os dous amores, o _papá_ e a _mamã_ ao fogão, conversando
com a intimidade feliz de quem se quer muito!
É verdade que a mamã estava pallida, tinha até nos olhos umas orlas
rôxas que pareciam de febre, e uma luz exquisita que lembrava aquelles
clarões subitos e phosphoricos, que costumam accender as bruxas, quando
fazem os seus encantamentos e _maus olhados_.
Oh! mas que importavam a Bertha symptomas que ella não via!
Estava contente, contente, e ia-se enthusiasmando a pouco e pouco, á
proporção que a alegria lhe inundava como uma onda a pequenina alma
luminosa!
Um beijo no papá, uma festinha na mamã, e aqui desmanchava um canudo,
acolá despregava um alfinete, depois fechava um livro que ia começar a
ler, amarrotava uma renda, trepava para cima d'uma cadeira!
Que anjo! que demonico, feito d'um bocadinho de azul!
N'isto, por um movimento rapido e imprevisto, atirou-se ao collo da mãe,
mergulhou a mãosinha no decote quadrado do vestido, amachucou uma rosa,
que ali parecia aninhar-se no meio das rendas, e arrancou com gesto
triumphante um papel, um papel côr de perola amarrotado.
--Oh! gritou a mãe, fazendo-se mais branca do que a cal; dá cá, dá cá,
isso é-me preciso.
Quem disse lá que ella respondia!
Fugira rindo, rindo como uma doudinha, e fôra esconder-se entre os
joelhos do pae, agitando com um gesto de graça inimitavel o roubado
trophéo.
A mãe erguêra-se convulsa, tremula, com tamanho desvairamento e tamanha
angustia no olhar e na voz, que dir-se-hia que a esmagava uma
catastrophe imprevista e tremenda.
--Dá cá, dá cá, murmurou ainda desfallecida e supplicante.
--Papá, papá, esconde tu, respondia Bertha, n'uma convulsão de riso. Ih!
cheira a _pat-chouly_, cheira a _pat-chouly_.
Elle e ella, a mãe e o pae, olharam-se.
Tu nunca viste um olhar assim, Naly, nem eu, e Deus nos defenda de o
vermos nunca!
Foi mudo, foi longo, foi sinistro! Um poema de agonias silenciosas!
Depois o pae de Bertha, afastando a creança com um gesto lento,
desdobrou o papel e leu.
* * * * *
Já lá vai um anno depois d'aquella noite de festa, em que Bertha
alcançou licença para se deitar ás nove horas.
N'um anno quantas differenças póde fazer uma existencia!
É muda e triste a casa onde vimos tantos risos, está descuidado e cheio
de hervas o jardim onde brincava um pequenino sêr feito da luz das
auroras, e da innocencia dos lyrios.
Bertha está doente.
Na sua alcova branca e silenciosa, á luz dubia de uma lamparina de
jaspe, vela uma criada, emquanto a loura pequenina fita no tecto os
grandes olhos azues e parece seguir as visões phantasticas de um sonho
de febre.
Ao principio era feliz, muito feliz. Quem e que viera destruir todas
aquellas alegrias que pareciam querer durar sempre? A pobre doentinha
não o sabia.
Diante dos olhos d'ella dançava teimosamente um grande demonio escuro,
com muitos _bonitos_ nas mãos e com um bigode retorcido e triumphante.
Que vinha fazer alli aquelle demonio? Quem póde explicar o que são as
visões de um delirio!
Depois uma certa noite, doce, allumiada, festiva. Que succedêra n'essa
noite? Meu Deus! Ella brincára muito, ainda mais que o seu costume. Não
lhe lembrava mais nada, senão que fôra deitar-se a chorar. Tambem não
sabia porquê.
Desde então é que a sua vida mudára.
O pae repellia-a de si, sempre que ella lhe estendia os bracinhos,
empurrava-a quando ella queria beijal-o!
Nunca mais houvera os serões do gabinete azul, nunca mais ouvira aquella
voz paterna, tão grave, tão meiga, tão musical, acaricial-a como
antigamente!
E a mãe?... A mãe definhava sósinha, mas n'aquella tristeza desolada,
não admittia os beijos da sua Bertha d'outro tempo.
Um dia dissera-lhe asperamente, com um brilho secco no olhar:
--Vae-te d'aqui! És a causa da minha desgraça toda.
Bertha não percebeu o que aquellas palavras significavam, mas percebeu o
ar com que foram ditas!
Nunca mais foi ao jardim! nunca mais viu a capoeira nem o viveiro dos
canarios, nem os peixinhos vermelhos do tanque!
Tinha sempre frio, muito frio.
Tiritava horas e horas a um canto da _casa de engommar_ onde as criadas
riam e palestravam indifferentes, com uma expressão de espanto, de
surpresa, de desolação selvagem no olhar!
Parecia-lhe a ella que tambem estava na vida como uma intrusa. O que
viera ella cá fazer? Por que se não ia embora?
Sentia que alguem estava á espera d'ella, lá em cima, n'um sitio onde
havia muito azul, muitas flôres, um jardim mais bonito que o que fôra
d'ella, uns serões mais placidos e mais cheios de risos e de caricias
que os amados serões de outro tempo... que não podiam voltar!
E abrindo os braços, fez um doce gesto de ave espavorida que vae
levantar o vôo para o infinito!
* * * * *
--Ai! a menina que vae morrer!--bradou a criada com muita ancia.--Chamem
a senhora, chamem o senhor, este anjinho diz que lhes quer dizer adeus!
Ouviam-se portas que se abriam, vozes angustiosas que chamavam...
depois, por duas portas differentes, entraram duas pessoas.
Dous espectros do que tinham sido.
Olharam-se como que admirados de se verem alli juntos!
Miraram-se curiosamente como para sondarem os grandes abysmos que os
separavam dos dias d'outr'ora!
Depois sem quererem, olharam ambos movidos pelo mesmo impulso para o
pequeno leito de cortinados brancos.
Uma voz dulcissima, toda mimo e toda supplica, chamou-os d'alli:
--Papá! mamã! adeus! Digam-me que são meus amigos agora que eu vou
morrer! Como é bom ir para o céo! Nunca mais hei-de ter frio!...
Se não fosse a voz e a expressão divina d'aquelle olhar, quem diria que
aquella que fallava era a pequenina Bertha!
--Ó papá, console a mamã, já que eu me vou embora! Voltem para o
gabinete azul, e ao serão não se esqueçam de fallar de mim!
Puxou-os a ambos com uma força que não parecia já d'este mundo, e
abraçou-os unidos contra o coração!
Todos tres como d'antes!
* * * * *
Quando ambos se ergueram d'aquelle supremo abraço, os bracinhos d'ella
tinham afrouxado e cahido.
--Perdôa-me pela nossa filha que morreu! soluçou a voz d'aquella mãe
dolorida!
--Perdão! papá! ciciou como uma caricia de aragem uma voz que ninguem
soube dizer se vinha da terra se do céo.
* * * * *
FIM DA PRIMEIRA PARTE
SEGUNDA PARTE
A PROPOSITO DE UM LIVRO
Ha momentos em que eu não posso deixar de me sentir desconsolada.
Parece-me n'esses momentos que a humanidade está passando por uma das
crises mais graves da sua vida de tantos seculos.
E quem terá forças para conservar-se espectador indifferente d'essa
dolorosa tragedia de que é theatro o mundo inteiro!
Theorias que se atropellam e se contradizem, systemas politicos que
mutuamente se combatem, opiniões tão variadas, ácerca das cousas graves
e das cousas insignificantes, que não nos resta meio algum de
descortinar a verdade em meio de tão babylonica confusão.
Na pratica o desmentido formal e permanente a todas as doutrinas que se
prégam e se propagam!
Celebra-se a apotheose da familia, e a familia decadente, desnorteada,
desunida, apresenta o reflexo fiel d'esta quadra de desalento e de
incerteza!
Emquanto os sonhadores erguem um altar á justiça, como á deusa moderna
que mais cultos merece, a injustiça acclamada, protegida, triumphante
campeia n'este mundo onde a victoria já não pertence ao mais forte, mas
sim ao mais astuto!
A politica, que parecia dever ser aquella sciencia complexa e
respeitavel de conduzir as sociedades ao mais alto grau de
aperfeiçoamento material e moral, não é senão um mercado abjecto, onde
se debatem os mesquinhos interesses individuaes, não aquelles interesses
que são a base do bem collectivo, mas os que se traduzem na exploração
do homem pelo homem.
A guerra aqui acesa e selvagem, de uma selvageria refinada e
scientifica, acolá disfarçada e hypocrita, arma-se por toda a parte,
como nos seculos que lá vão, egualmente funesta, embora a revistam mais
prestigiosos aspectos.
Falla-se em paz, em fraternidade universal, préga-se uma religião humana
que parece querer e dever supprir a religião divina, mas os modernos
crentes d'esse dogma que assenta no direito, na justiça, no amor
universal, atraiçoam tanto as suas doutrinas, como atraiçoavam a sua fé
os catholicos mal esclarecidos das épocas de ascetismo rude, e de
fanatica superstição.
Para onde vamos nós?
Se vamos para o Bem, o que é que origina esta dolorosa inquietação, que
avassalla e confrange todas as almas, este contraste incomprehensivel,
entre o que se pratica e o que se pensa?
Se vamos para o Mal, para que nos fallam do progresso, da
perfectibilidade humana, das conquistas da civilisação, dos arrojos
felizes da sciencia, de tudo que parece preparar ao homem uma quadra
luminosa, feliz, nunca realisada até agora?
D'antes, n'estas horas de duvida, de angustia oppressiva, iamos nós
procurar consolação na palavra animadora e harmoniosa dos que, com os
olhos fitos na estrella do ideal, indicavam ao homem o rumo que elle
tinha a seguir, para não se perder na sua gloriosa ascenção.
Hoje, esses pilotos da náu do futuro estão mudos ou descrêem tambem!
Mais doloroso ainda que o silencio desalentado, é o rictus sarcastico
com que elles assistem á lucta estranha e confusa de tantos elementos
contradictorios e incompativeis.
Depois a litteratura, que é o espelho da alma das sociedades, é hoje
por toda a parte um brado unanime de negação.
Não reconstrue, não modifica o que está feito, trata de o desmoronar
pedra por pedra!
Ha um homem em França que refaz, collocado n'um ponto de vista diverso,
a obra collossal de Balsac.
O romancista mais admiravel da França, aquelle que fez do romance um
ramo das sciencias sociaes, fez n'um momento, que tem por força de
ficar, a synthese de sua época.
Pintou, e com que potencia da verdade! os reis, e os operarios, as
duquezas sentimentaes, e os artistas convulsionados pela _nevrose_ do
seu tempo, os politicos, os sabios, os pensadores, os litteratos; as
peccadoras do alto mundo, e as peccadoras do mundo equivoco; os
financeiros, e os luctadores ambiciosos; os que vinham perder a alma e
gastar o corpo n'essa Pariz electrica e absorvente, que attrahe os
genios e os monstros, e os que vinham alli conquistar a fortuna, o
poder, a soberania omnipotente.
Na sua obra complexa, enorme, que ás vezes tem na distancia um não sei
que de monstruoso, encontra-se viva, palpitante, com os seus vicios, com
as suas paixões, com o seu talento ardente, com a sua magnetica e
irresistivel seducção, uma das épocas mais caracteristicas da
civilisação da França, o que significa a civilisação da Europa.
Se em Balzac encontramos as florescencias rubras do mal, nem por isso
nos seduzem menos as suavidades castas da virtude.
Ao pé de Madame de Marneffe, a pequenina e graciosa féra parisiense,
felina e nervosa, com caricias que mordem e furores que acariciam, ha a
doce figura de Eugenia Grandet, a mais dolorosa virgem, que a imaginação
moderna ainda concebeu e idealisou.
Ao pé de Luciano de Rubempré o ambicioso effeminado e morbido; de
Vautrin o brutal luctador que seria um _condottiere_ do seculo XVI e que
só póde ser um forçado no seculo XIX; ao pé de Marsay o politico sagaz,
que faz dos homens, das mulheres e das cousas, meros instrumentos da sua
fortuna, que não tem lei nem fé, e que é capaz de assassinar com um
sorriso de _dandy_, temos d'Arthés o pensador austero, e pobre escriptor
para quem a litteratura é um magisterio e não um officio, temos Cesar
Birotteau, a sublimidade burgueza, o honesto commerciante que tem
palavra de duque, que é perfumista com a mesma nobreza de abnegação e de
honradez, com que se é sacerdote, e que glorifica toda uma classe de que
se riem os frivolos, sem saber quanta heroicidade é precisa para saber
guardar immaculada em um peito de burguez, a honra de um paladino.
Dizem que o vicio pollula na obra de Balzac com uma exhuberancia de
vegetação inacreditavel.
Elle não foi mais do que o analysta apaixonado da sua época.
Adorou-a pelo que ella tinha de grande, comprehendeu que lhe podia
desnudar as chagas, visto que ao lado d'ellas podia mostrar tão
admiraveis bellezas.
Foi implacavel na sua justiça.
O seu tempo seduziu-o pelo que havia de brilhante nos seus vicios, de
fecundo e poderoso nas suas paixões, de arrebatado e creador no seu
genio, de raro e dedicado nas suas virtudes.
Hoje no artista que segue as pisadas de Balsac, que não tem a sua
potencia creadora, mas que tem como elle, e talvez mais methodicamente
do que elle, o estudo paciente e investigador, que vemos nós que possa
dar-nos aquella sensação de prazer agudo que a leitura conscienciosa de
Balzac dá a um verdadeiro artista?
Emilio Zola tambem descreve a sua época.
É artista, porque sente e sabe fazer sentir.
Diz-se imparcial!
Faz viver nos seus livros a sociedade de que faz parte; entra nos
palacetes de pedraria rendilhada dos modernos financeiros, os reis do
mundo actual, percorre os salões doirados e os _boudoirs_ phantasistas,
as salas de jantar, onde se reunem as reliquias mais preciosas de umas
poucas de civilisações, janta nos _restaurantes_ de mais fama, visita
nos seus camarotes da _opera_ ou dos _italianos_ as mundanas mais
elegantes, as _hautes gommeuses_ mais admiradas e invejadas, está no
segredo de todas as operações da Bolsa, escutou a uma porta todas as
combinações e convenios diplomaticos, penetrou com a sua perspicacia
tenaz no interior da alma que anima o seu tempo, fallou com os artistas,
com os sabios, com os poetas, com as mulheres; subiu aos oitavos andares
onde dormem amalgamados n'uma dolorosa e medonha promiscuidade os
miseraveis d'essa Pariz, cuja superficie é tão seductora e tão
brilhante; viu os farrapos que cobriam o corpo d'esses indigentes, e os
vermes que corroiam a alma d'esses parias; escutou as perfumadas
confidencias que murmuram devagarinho uns labios frescos e vermelhos,
por detraz d'um leque onde dançam a _gavotte_ umas pastorinhas de
Watteau.
Observou de perto o que ha de mais brilhante e o que ha de mais abjecto,
o que ha de mais puro e o que ha de mais ignobil.
D'essa observação tão variada e tão completa que resultado colheu?
Não o posso dizer ao certo, sei só que não ha nada mais desolador e mais
triste do que a leitura d'um livro de Zola.
E Zola é, depois de Tlambert, o grande _mestre_ que morreu, o escriptor
de mais pulso da moderna geração realista.
Os outros não téem o talento d'elle, não téem o alcance funesto ou bom,
mas em todo o caso poderosissimo da sua obra, não téem a sua paciencia
de benedictino, exercida com os processos da nova escola.
Isto não é dizer mal dos que trabalham agora, é notar e assignalar um
dos symptomas da confusão que hoje nos desnorteia.
* * * * *
Acudiam-me todos estes pensamentos, imagina como, leitora?
Ao lêr um novo livro de Feuillet, ultimamente publicado em Pariz _Le
journal d'une femme_.
Feuillet é por excellencia o escriptor elegante e delicado.
No fundo, póde ser que a obra d'elle tomada no seu conjuncto não seja de
uma moralidade tão cauterisadora como a que resulta dos livros de Zola.