--Do meu Francisco? exclamou a velha. Venham de lá não só um mas muitos

abraços, que elle no dinheiro é mais generoso, valha-o Deus! Um só

abraço!

E a velhita apertou nos braços Cerqueira, que com as lagrimas nos olhos

murmurava:

--E eu que pensei que me conhecia! Pois não me conhece, minha mãe? Eu é

que sou o seu Francisco, sou eu, repare bem...

A velha então explodiu um alto e clamoroso grito, e chorando e rindo,

cahiu nos braços do filho.

--Agora conheço, sim, estava tonta! Esta cabeça! Mas se tu eras uns _dez

réis_ de gente quando abalaste d'aqui... Onde está a tua roupa? Já

jantaste? Cá a gente janta ao meio dia, mas arranja-se tudo, não tem

duvida... a Joanna foi á cidade, vou eu mesma matar uma gallinha... Tens

fome? deves ter, sim? A minha cabeça... a minha cabeça! O meu Francisco!

Mas porque me não mandaste dizer que chegavas, rapaz? Valha-te Deus,

manicanso!...

E a tia Genoveva no meio do seu contentamento sahia da sala para logo

voltar, amontoando perguntas sem nexo.

--Gostas d'isto? gostas d'aquillo? Do que vaes gostar é do vinho, é do

nosso _caco de salsa_ e sahiu-me d'aquella casta! O presunto vamos com

Deus, que tambem me sahiu bom. Vaes provar... Ora o peccado do rapaz que

me não avisou de nada!

E sahia para d'ahi a pouco voltar com a mesma abundancia de perguntas e

de phrases penetradas de amoravel reprehensão...

* * * * *

Oh! que bom e que intimo foi aquelle jantar!

A sala alegre e caiada de branco, a toalha aspera, grossa e nevada, os

talheres de cabo d'osso fabricados em Guimarães, os copos com um friso

dourado nas bordas, as janellas abertas e dando para os campos onde

cahiam suavemente as tintas do sol posto, tudo dava uma quieta e serena

beatitude ao coração do _brazileiro_.

A mãe encostada ao espaldar da cadeira em que estava sentado o filho

servia-o com muito carinho, fazendo-lhe perguntas sem conta a que elle

respondia com o rosto inundado e clareado pelas lembranças de um passado

que as palavras da mãe evocavam renascido.

Depois coube-lhe a elle fazer tambem perguntas: o que era feito d'este,

se ainda era vivo aquelle, se no sitio de tal ainda existiam aquellas

carvalheiras onde havia d'antes tanto ninho de melro, e se uma casára, e

outra tinha muitos filhos, eu sei! um mundo de recordações e de

saudades!

E com o olhar humedecido, Cerqueira percorria tudo, o velho armario

pintado, as grades da varanda, as medas levantadas no meio da sombria

verdura dos campos...

Ia cahindo a noite, ouvia-se já na aldeia um certo borborinho de vida,

vinham da estrada trechos ruidosos de conversações. Recolhiam do campo

os trabalhadores.

E os dois a conversar ainda!

--E a Joanna que não chega da cidade! É sempre assim!

Quando ha pressa é que não vem... Queres tu dar uma volta pelo lugar,

Francisco?

--Nada, minha mãe! Este dia é só para si. Inda bem que ninguem me viu, e

que se não sabe que cheguei... Conversemos, tenho tanto que dizer, tanto

que ouvir...

Entrelaçava-se de novo a conversa, e assim estiveram até que a velha

disse:

--E então não querem vêr que o rapaz quer tirar-me dos meus habitos! São

horas de deitar. Vou fazer-te a cama, está ahi quedo que eu já volto.

Voltou d'ahi a pouco com um candieiro de tres bicos. A luz batia-lhe no

engelhado rosto cheio de bondade, e um sorriso de ventura brincava-lhe

nos olhos e na bocca.

E, empuxado suavemente pela mãe, o brazileiro entrou no quarto que lhe

estivera preparando.

A velha abeirou-se da cama, desdobrou as roupas, ageitou a

travesseirinha de largos bordados tesos e engommados, e voltando-se para

o filho que examinava tudo curiosamente:

--Agora toca a deitar! Tenho tanta pena que me não trouxesses uma nora!

pois eu creio que lá no Brazil ha muitas moças bonitas, pois não ha?

O brazileiro sorria-se, e a mãe incansavel enchia-o de perguntas, de

mimos, de recommendações, até que sahiu abençoando-o com toda a sua

alma, rude mas extremosa.

* * * * *

Francisco Cerqueira deitou-se, e ainda que lhe parecesse que o haviam de

incommodar os pesados lençoes de linho duros e asperos, adormeceu

profundamente.

Sonhou. Estava no Brazil, os socios tinham chegado da Europa, vinham

queimados da viagem, mas contentes; contavam anecdotas e casos

succedidos durante o passeio.

Que Portugal era um jardim, o Minho sobretudo! não se fazia ideia.

Narravam a maneira como tinham sido recebidos na aldeia natal, as

festas, as alegrias da chegada, as noites de esfolhada, as romarias

ruidosas... Cerqueira ouvia-os, e lá por dentro do coração, sentia a

grande e plumbea nostalgia do paiz natal... Se eu pudesse lá ir! Mas

para que? Estou velho... e depois póde ser que a velhinha já não

viva!...

E continuava a trabalhar, a dar ordens no humido armazem sombrio entre

os escravos...

N'isto saccudiram-no uma, duas vezes, tres vezes...

--Ó grande mandrião, pois isto são horas de dormir ainda? Olha que já

estou a pé ha duas horas! Na cozinha vae tudo raso com trabalho! Arriba,

homem! Não tens vergonha, dorminhoco?

E o _brazileiro_, estendendo os braços e esfregando os olhos com os

punhos fechados, perguntou bocejando:

--Que horas são?

--Dez horas, grandecissimo perguiçoso!

--Ha quarenta annos que não durmo um somno tão bom, minha mãe!

A PERCEPTORA

Chamava-se Martha de Vasconcellos.

Era alta, loura, delicada como uma figura de _Keepsake_.

Uma physionomia suave e infantil que captivava pelo seu encanto

inconsciente.

Á primeira vista, nas _soirées_ semanaes do commendador Gonçalves,

vestida de branco, com um simples velludo negro nos seus cabellos

crespos de um louro fulvo e ardente, parecia uma creança despreoccupada

e frivola.

Não o era.

Quem a conhecesse de perto sabia que ella tinha a seriedade precoce dos

que já padeceram muito.

Nenhuma sentimentalidade falsa no seu olhar azul, meigo e pensativo.

Nenhuma ideia errada, nenhuma chiméra juvenil na sua cabecinha d'uma

lucidez singular.

Sabia conservar-se na sombra, sem deixar de ser digna; tinha a

consciencia da mesquinhez do seu destino, sem ter nunca aprendido a ser

humilde.

Pouco fallavam com ella, e no entanto parecia não dar pelo desdem quasi

brutal de toda aquella gente que a cercava.

Tinha um modo docil e meio risonho de sentar-se ao piano, e tocava uma

noite inteira valsas, contradanças, lanceiros, que outras dançavam, na

expansão da sua alegria burgueza.

Nunca lhe perguntavam se estava cançada, nunca lhe davam a menor mostra

de interesse ou de sympathia.

Pagavam-lhe integral e generosamente, tinham direito aos serviços

correspondentes a essa remuneração.

As suas relações paravam aqui.

Não sabiam se ella tinha uma alma, se essa alma se iria azedando a pouco

e pouco ao contacto d'aquella indifferença cruel; não sabiam do seu

passado senão que era honesto e puro, nunca pensavam no seu futuro senão

vendo-a eternamente curvada ao pezo do mesmo destino ingrato.

Martha era mestra de duas filhas do commendador, duas rapariguinhas de

treze a quinze annos, muito presumidas da sua riqueza, muito vaidosas do

seu luxo, das carruagens em que andavam, dos vestidos de seda que

vestiam, das festas com que os paes alteravam de vez em quando a chata

monotonia do seu viver de negociantes retirados.

O commendador tinha um filho muito mais velho do que as irmãs, que se

educára na Allemanha; e que depois de viajar pela Europa inteira, havia

regressado emfim á casa paterna, onde, aqui para nós, se enfastiava

poderosamente.

O commendador queria dar tambem ás filhas uma educação brilhante, uma

educação que correspondesse ás dimensões da sua _burra_, eis porque,

depois de as tirar do convento, onde tinham estado até áquella idade,

escolhera para professora Martha de Vasconcellos.

De resto as idéas do commendador e da mulher sobre a educação de suas

filhas, não eram das mais engenhosas e atiladas.

A pobre gente--n'este caso, _pobre_ significa riquissima--a pobre gente

não era obrigada a ter um ideal muito levantado.

Sabiam que a filha do barão de tal tocava pianno, e queriam que suas

filhas soubessem tocar muito melhor.

Tinham ouvido louvar os desenhos da menina _Fulana_ e juraram aos seus

deuses que as suas meninas lhe haviam de levar a palma.

Não tinham ideias absolutas, tinham simplesmente ideias relativas.

Excitar a admiração parecia-lhes uma cousa réles e insignificante; o que

elles queriam era excitar a inveja.

As pequenas comprehendiam isto maravilhosamente.

Em vendo uma amiga da infancia, uma conhecida qualquer com um vestido

mais bonito ou com uma prenda intellectual mais preciosa, tinham ataques

de desespero surdo.

Ralava-as uma vaga inveja de todos os esplendores sociaes.

Andavam á busca de gente a quem podessem offuscar.

Eram simplesmente ridiculas!

Ás vezes entravam no quarto de Martha e diziam-lhe n'um transporte de

colera:

--Quero saber allemão. A Mariquinhas sabe allemão, emquanto eu não sei.

--Quero aprender a bordar de matiz, a Julia fez um quadro que eu não sei

fazer.

Era assim que iam progredindo no estudo.

Marta conformava-se docilmente ás aspirações das discipulas:

ensinava-lhes tudo o que sabia, mas o que ella de todo não pudera, era

inocular-lhes a vida interior que animava e coordenava todos os seus

conhecimentos adquiridos ou intuitivos.

* * * * *

Dizia-se que Marta conhecera melhores dias, affirmava-se mesmo que não

fôra para servir de mestra a burguezinhas pretenciosas que seu pae, um

pae extremoso, lhe adornára o espirito de todos os primores de uma

educação excepcional.

Conhecia as linguas modernas, mas não como as conhecem as meninas que

por ahi conversam com os diplomatas, resumindo n'isso todas as suas

ambições de estudo.

Penetrára no espirito d'ellas, comprehendera o genio especial de cada

uma, sabia de cór e escolhia principalmente os poetas que synthetisam

uma nacionalidade ou uma civilisação.

Tinham-lhe ensinado a raciocinar, a pensar, a estudar a fundo todos os

problemas em que outras mulheres tocam sómente ao de leve.

A curiosidade natural ao espirito feminino, essa qualidade preciosa,

que, descurada, se torna quasi sempre em um vicio antipathico, fôra

n'ella tão bem dirigida, disciplinada com tal mestria, que se tornára

em fonte dos mais puros gozos do seu espirito.

Não sabia _can-cans_ de salão, sabia o que dizem na sua muda lingua os

astros e as plantas; não tentara penetrar na vida intima das suas

amigas, contentava-se em saber a vida intima da Creação.

Nunca lhe viera á idéa penetrar com o espirito no pélago revolto das

paixões insalubres; a sua curiosidade insaciada debruçava-se de melhor

vontade no pélago profundo das ondas, a quem horas e horas perguntava

pelas mysteriosas riquezas do seu seio.

No meio d'isto, despretenciosa e simples, julgando-se a mais ignorante

das creaturinhas do bom Deus, não sabendo que era artista, que era

intelligente, que tinha alma capaz de entender todas as grandes cousas.

O pae, que a vinha ver muitas vezes á casa da senhora a quem na infancia

a confiára, disse-lhe um dia com o pejo a ruborisar-lhe as faces, com

lagrimas a marejarem-lhe os olhos, que ella era uma filha natural, mas

que tencionava reconhecel-a, regularisar a sua posição, dar-lhe todos os

direitos que ella por tantissimos lados merecia.

A adoravel creança não o percebeu.

Então--castigo terrivel das suas culpas--o pae teve de explicar, de

fazer comprehender áquelles castos ouvidos de quinze annos uma historia

deploravel, a historia do seu crime!

Martha escutou-o n'um silencio dolorido, com uma expressão de doçura

triste no olhar.

Depois abraçou-o melhor ainda que nos outros dias, porque até alli só

tivera muito que agradecer e d'alli por diante sentia vagamente que

tinha muito que perdoar.

--E minha mãe?--perguntou depois com uma tremura na voz.

--Tua mãe morreu.

O pae de Martha era casado, tinha filhos, vivia para sempre longe d'ella

nas tranquillas alegrias da familia, uma familia em que ella só podia

ser a intrusa!

Desde esse dia Martha estudou com dobrado afinco, aprendeu com uma ancia

dolorosa, com um não sei quê de impaciencia inexplicada.

Sentia que havia de ter muito que soffrer, muito que luctar.

Tratou de robustecer a alma e de dilatar o espirito.

Era uma especie de iniciação heroica.

* * * * *

O pae de Martha morreu.

Um dia, ao acabar de jantar, cahiu para o lado inesperadamente,

fulminado pela ruptura d'um aneurisma.

A morte surprehendera-o. Não tinha tido tempo de fazer nada em favor da

sua desvalida Martha.

Oito dias depois, entrava esta, vestida de luto, muito pallida, mas com

uma expressão estranha de firmeza no olhar, em casa do commendador

Gonçalves.

* * * * *

Julião, o filho do commendador, tinha 23 annos quando Martha foi para

casa do pae. Ao principio pouco reparou n'ella. Imaginava-a uma mestra

como as outras, o mesmo livro tirado a centenas de exemplares.

Reconheceu sómente que era um pouco mais bonita que a generalidade das

suas collegas.

Um dia, porém, que elle lia Gœthe no original, e que uma phrase

obscura do poeta o fazia parar na leitura um tanto impacientado e

confuso, lembrou-se--acaso ou presentimento--de recorrer á mestra de

allemão de suas irmãs.

Entrou na sala de estudo, com um certo desdem a transparecer-lhe na

physionomia.

Póde ser-se educado na Allemanha e não comprehender o _Fausto_: o que

era no emtanto absolutamente impossivel, na opinião do moço, era não ter

nunca estado na Allemanha e conhecer Gœthe como um poeta nosso

compatriota.

Martha conhecia-o.

Pegou no livro que Julião lhe estendia, deitou um relance de olhos para

o verso de que se tratava, e depois, com um sorriso não isento de certa

malicia innocente, explicou a Julião a ideia do poeta.

Havia tanta clareza nas suas palavras, uma tão superior intuição

artistica nos seus rapidos e despretenciosos commentarios, que o moço

olhou para ella devéras espantado.

Pareceu-lhe que a via pela primeira vez.

Não lh'o disse, porém; pelo contrario, sentiu uma especie de surda

irritação ao perceber a sua inferioridade intellectual perante aquella

creança tão simples, e que todos olhavam com tamanho desdem.

Martha percebeu porventura a impressão que despertára; o caso é que a

malicia que lhe chispava no olhar accentuou-se com um indeciso cambiante

de ironia.

«A pequena creio que se atreve a fazer escarneo de mim», pensou Julião,

sahindo da sala, onde a juvenil perceptora ficou com as discipulas.

Desde esse dia Julião e Martha observaram-se mutuamente com mais

attenção.

Elle achava-a graciosa, sympathica e boa sobretudo, tinha muita pena

d'ella, ao vêl-a desdenhada por tanta gente que lhe era inferior na

intelligencia, na coragem, na distinção, em tudo que póde tornar

adoravel uma mulher.

Martha sentia-se silenciosamente comprehendida, e agradecia áquelle moço

esbelto e pensativo as delicadezas mudas com que a compensava do desamor

de todos os mais.

Tocou então para elle as mais doces e sentidas musicas que sabia; os

apaixonados _nocturnos_ de Chopin, as queixosas melodias de Schübert, as

sonatas mais bellas d'esse sublime surdo chamado Beethowen.

Conversavam um com o outro através da musica, sem nunca se fallarem de

outro modo senão nas cousas mais banaes da vida de todos os dias.

Á tarde, depois de jantar, emquanto o commendador resonava a sua sésta

sobre a prosa elegante do _Diario de Noticias_, emquanto a

_commendadora_ meditava o rol d'aquelle dia, digerindo um bom jantar, e

um ataque de furia contra as suas criadas presentes e futuras, emquanto

as meninas debruçadas á janella, trocavam substanciosos commentarios

ácerca de um alferes que morava no predio fronteiro, e de uma menina

muito _namoradeira_ que morava no predio do lado, Martha, sentada ao

piano, desfiava sósinha o longo rosario das suas saudades.

Julião ouvia-a, fingindo ler um jornal ou um livro, e a apaixonada

artista bem comprehendia que uma alma a estava escutando, e que essas

limpidas notas que ella arrancava ao piano iam vibrar divinamente em um

coração que a entendia.

Tudo os separava na terra: o orgulho feroz de uma familia de _parvenus_,

o santo orgulho d'ella, não menos implacavel, porém muito mais nobre, os

preconceitos, o dinheiro, quasi que a honra; mas, que importava?

Podiam entender-se e amar-se através d'isso tudo.

E Martha, empallidecida pelas commoções que lhe agitavam a sua alma de

artista, com uma expressão soffredora e apaixonada nos seus bellos olhos

d'um azul escuro, contava a meia voz n'aquella linguagem ineffavel as

suas dôres, as suas humilhações, as suas lembranças, todas as alegrias

que tivera, tudo que ella havia esperado na terra e que um dia se lhe

havia desfeito nas mãos, deixando-lhe apenas uma immensa, uma

desoladora, uma eterna saudade!

Ás vezes o piano chorava com uma desesperação tão inconsolavel e tão

profunda, que Julião tinha desejos de erguer-se da cadeira em que

estava, de protestar contra os energicos lamentos que traduziam a dôr

insanavel de um destino, e de gritar:

--Aqui me tem, prompto a luctar peito a peito contra o seu infortunio, e

a vencêl-o.

Mas não se atrevia!

Que diriam todos, que diria seu pae, que diria a propria Martha?

Quem lhe dava a elle direitos de interpretar d'aquelle modo a sublime

execução d'essa artista ignorada?

Quem pudera affirmar-lhe que era pessoal essa dôr mysteriosa que tinha

soluços tão doces, queixas tão resignadas e tão mansas, lamentações de

tão ineffavel ternura?

Um dia Julião quiz sondar o coração tão calado da pobre mestra. Procurou

fazer-lhe umas perguntas que não fossem por demais indiscretas.

Martha desatou a rir.

É verdade que no meio da sua crystallina risada os olhos se lhe afogaram

em lagrimas; mas n'esse instante Julião sentia-se tão envergonhado da

curiosidade que revelára, que se não atreveu a olhar para a sua

interlocutora.

* * * * *

O commendador Gonçalves era ambicioso.

Pudera!

Ou não fosse elle _commendador_.

Estava riquissimo, mas queria que os filhos fossem ainda mais ricos do

que elle.

Para isso andára a moirejar a vida inteira, por isso se sustentára de

pão negro e de bacalhau durante os annos mais florentes da mocidade!

O seu mais intimo amigo, possuidor de um baronato, de avultada riqueza e

de uma filha unica tão prendada como elle desejava as suas, fallou-lhe

um dia disfarçamente, com certa labia, a respeito de Julião.

_A meio entendedor meia palavra basta_; d'ahi a quatro mezes o

commendador dava uma pequena _soirée_ intima, em que a menina Adriana,

filha do sr. Barão de X, e chegada havia dias do _Sacré Cœur_, era

apresentada ao seu futuro noivo, o Sr. Julião Gonçalves.

Estavam só pessoas de familia em casa do commendador.

Elle, a mulher, as duas filhas, o filho e Martha. Emquanto ao barão,

viera simplesmente acompanhado pela filha.

Adriana era... o que d'alli a alguns annos haviam de ser as futuras

cunhadas.

Tinha a mais umas tincturas de _coquetterie_ parisiense, _coquetterie_

mal ensaiada, mais collegial do que mundana.

Não se iguala nem se descreve o desdem com que ella cumprimentou Martha.

Era uma vingança retrospectiva do que as suas proprias mestras lhe

haviam feito passar.

Nos olhos azues de Martha passou um relampago de colera fugitiva, mas

não disse nada. O que havia ella de dizer áquella gente, que a

considerava um traste... bem pago?

Adriana, a quem cabiam as honras da noite, sentou-se ao piano e tocou.

Tocou as musicas de Martha, com a agilidade e com o brio de uma pianista

experimentada.

Depois, levantando-se no meio de palmas e de bravos, indicou á mestra o

lugar que deixára n'uma especie de altivo desafio.

É que uma das irmãs de Julião lhe dissera n'um risinho de malicia, que o

irmão gostava muito de ouvir Martha.

A moça levantou-se com um gesto automatico, sentou-se ao piano e sem

mesmo olhar para as musicas dispersas principiou a tocar.

Foi um adeus soluçante, cheio de lagrimas, onde a espaços passavam como

brisas refrigerantes, umas vozes indizivelmente cariciosas!

Foi uma historia muito triste, que ainda ninguem tinha ouvido até alli,

a historia de um coração despedaçado!

Como ella lhe havia querido, ao seu bello sonho desfeito, e com que

dilacerante agonia lhe dizia para sempre adeus!

Na sala havia um silencio angustioso e profundo.

O silencio inconsciente que inspiram as grandes commoções.

Desde esse dia nunca mais ninguem ouviu a querida voz de Martha, aquella

voz que tinha por interpretes os mais sublimes artistas do mundo.

Ella continúa a dar lições ás filhas do commendador, e ha no seu sorriso

uma expressão divinamente dolorida, quando falla com Adriana, a feliz

esposa de Julião.

A MORTE DE BERTHA

(A NALY)

Minha Naly, ás vezes nos teus dias de bom humor, e sobre tudo nos raros

dias em que estás um pouco menos traquinas, vens sentar-te ao pé de mim,

n'um banco pequenino, e pegando n'um livro,--o teu livro de grandes

bonecos coloridos--, finges que estás lendo umas cousas que a tua

inquieta phantasiasinha de duende te representa, escriptas n'aquellas

paginas ainda mudas para os olhos da tua intelligencia.

Com o teu adoravel instincto imitador, arremedas-me inconscientemente.

És o meu epigramma vivo, um delicioso epigramma de olhos garços muito

abertos, muito intelligentes, muito maganos, como ainda não vi outros em

ninguem. Hontem, porém, estavas estranhamente curiosa.

Não te bastava o que fingias ler, querias mais, querias que alguem

inventasse por tua conta e risco, _fingisse ler_ para que tu ouvisses.

Levantaste a loura cabeça inquieta, e disseste com a voz que os anjos

costumam ensinar ás creanças:

--Contas-me uma historia?

Que historia te hei de eu contar, Naly? Com a tua alma de quatro annos,

tão limpa, tão transparente, tão cheia de ignorancias ideaes; com a tua

alma de flôr, só se entende a linguagem dos lyrios, só podem

comprehender-se cantos feitos de luar, de perfumes, de cantos de aves,

alguma cousa etherea, que eu te não sei dizer.

Venho contar-te esta historia para tu a leres mais tarde, quando a mão

de alguem--pede a Deus que seja a mão de tua mãe, Naly--houver arrancado

ao teu doce espirito de borboleta o pollen immaculado e scintillante com

que Deus o polvilhou e que tem um nome lindo, sabes qual?--a ignorancia!

Então saberás o que significam estas linhas escuras, alinhadas

symetricamente na brancura do papel; terás chorado muita lagrima, meu

anjo! a aprender cada uma d'estas letras, que hoje interpretas conforme

te inspira a tua vagabunda e caprichosa imaginação!

E sentada n'uma cadeira grande, muito direita, um pouco revestida da

elevada importancia do teu cargo de ledôra, repetirás alto á tua irmã

pequenina este conto verdadeiro que em tua intenção aqui venho traçar

hoje.

* * * * *

A pequena Bertha tinha cinco annos, um só mais do que os que hoje

contas, Naly.

Era como tu, loura, muito loura; dera-lhe Nossa Senhora uma cabelleira

de anjo, fulva, luminosa, feita de pequeninos anneis que se enroscavam,

e que scintillavam ao sol, formando em torno d'ella como que um

esplendor de gloria.

Os olhos muito grandes, transparentes, azues pareciam ter no fundo um

segredo de doce tristeza. Um segredo que ella havia de saber muito

cedo... no céo!

O seu pequeno corpo, macio, feito da brancura das assucenas que

desabrocham em maio, exhalava como que um aroma de flôr.

Bem vês que Bertha era linda! Um amor! O orgulho e a ventura dos paes

que se reviam n'ella.

Vivia n'uma grande casa aristocratica, discreta, forrada de colgaduras,

de tapetes, de bellos quadros antigos.

Descendo os degraus de marmore da casa em que ella jantava, entre o pae

e a mãe, na sua cadeirinha de pés muito altos, ia ter a um grande jardim

cheio de arvores cuidadas e decotadas pela mão habil de um jardineiro

inglez.

Muito gostava do seu jardim a pequenina Bertha!

Imagina tu se ella não havia de gostar, Naly!

Havia lá tantas flôres, tantas flôres! e depois eram de tantos feitios!

Umas triumphantes, purpurinas, como se as tingisse um sangue novo e

generoso, outras tão brancas como os braços eburneos da mãe de Bertha,

algumas tinham uma pallidez fina e morbida, que lembrava a das bellas

senhoras que ella via passar resvalando como sombras gentis, pelos

atapetados salões da sua casa. Outras eram, de uma côr de rosa desmaiada

e doce, que acariciava os olhos de quem as via.

Contos e Phantasias · 第 8 / 12 段