Affirmavam os que a tinham conhecido em menina, que fôra bonita; a mim

parecia-me simplesmente sympathica.

Era alta, magra, loura e muito branca, uma physionomia serena e

melancolica, sem muito relevo, mas com muita doçura.

Andava sempre vestida de escuro, com uma simplicidade em que

transpareciam, porventura, vislumbres de antigas elegancias.

Ao olhar para ella conhecia-se que havia de ter gostado de certas

puerilidades mundanas, de se vestir e pentear bem, por exemplo, de ser

citada pelo esmero do seu gosto, e pela distincção finissima de suas

maneiras.

Hoje todas as vaidades se tinham apagado; fizera quarenta annos, e

acolhêra-os com resignação, com dignidade, com uma certa graça

melancolica que lhe ficava muito bem.

Nenhum dos rapazes que frequentavam aquella casa se atrevia a chamar-lhe

_solteirona_.

A _solteirona_ é a mulher solteira que não sabe acceitar resignada as

amarguras da sua isolação, e as converte em ridiculos quando as não

converte em pessimas qualidades.

A _solteirona_ é pretenciosa, presumida, avida de attrahir a attenção,

revolve os olhos sentimentalmente, lê romances, come gulodices, tem um

_king charles_ e inveja tudo o que é moço, radiante, feliz, tudo que tem

esperanças e para quem o futuro desabrocha em promessas.

A _solteirona_ é egoista, incommodam-na como uma injuria que lhe é

particularmente dirigida todas as alegrias que não tem, persegue-a

atrozmente a aspiração irrequieta a um pobre marido que podesse

atormentar á vontade; sente-se na vida como n'uma casa que não é sua;

d'aqui o seu mau humor continuado que torna d'ella quasi sempre o

flagello da familia onde se sente pária!

A tia Izabel, porém, não era nada d'isto, pelo contrario.

Tinha para os sobrinhos um coração que, sem ser de mãe, encerrava muito

de maternal, sobretudo no que as mães têem de indulgente!

Nunca a vi colerica, nunca a vi tambem excessivamente animada.

Não se ria, mas tinha habitualmente um sorriso placido, quasi

distrahido, o sorriso de quem se sente um pouco estranha a todas as

alegrias que a rodeiam, mas que nem por isso deseja projectar as suas

sombras na luz que os outros espalham em torno d'ella.

Era muito estimada pelo irmão, pela cunhada e pelos sobrinhos, uns

traquinas que andavam sempre a recorrer á sua inexgotavel paciencia, e

que nunca foram expulsos com um gesto de irritação ou de desamor.

Sabia a difficil sciencia de se tornar util a todos, quasi

indispensavel; estreitando d'este modo os laços que a prendiam aos seus,

tornando-os por assim dizer inquebrantaveis:

Sentia-se assim menos só!

Nos jantares de familia os melhores pratos eram sempre executados

debaixo da sua direcção; era ella quem fazia o _menu_, quem distribuia

os lugares, quem presidia a todos os arranjos de casa.

Encarregava-se das tarefas mais enfadonhas, d'aquella parte aborrecida

que tem uma festa e que as donas da casa acceitam com tédio, mas que

lhes é mais tarde compensada no applauso, na satisfação, ás vezes mesmo

na inveja disfarçada em risos dos seus convivas.

N'essas occasiões solemnes em que ninguem dava por ella, creio que se

permittia um instante de innocente amor proprio, vendo a meza bonita,

bem disposta, com a elegante e symetrica poesia das grandes jarras do

Japão cheias de flores, dos crystaes facetados onde o vinho tomava as

olympicas apparencias do nectar, da bella louça da China de lavores

extravagantes e phantasiosos, da roupa fresca, pesada, macia, de linho

da Russia adamascado, tendo bordadas iniciaes... que não eram as d'ella.

Depois voltava para o seu logar secundario, obscuro, e voltava de

boamente com simplicidade despreoccupada.

Estava sempre bem com todos, sem se curvar obsequiosamente diante de

alguem.

Tinha mesmo um modo seu de dizer as verdades com firmeza e com brandura,

sem transigencias cobardes, sem severidade excessiva.

Quando havia em casa um doente, sentava-se-lhe tranquillamente á

cabeceira, fazia-lhe sentir com discreta suavidade a sua influencia boa,

perdia as noites com um aspecto de intrepidez e de meiguices; era

inapreciavel emfim.

Tinha uma infinidade de pequenas idéas que punha em pratica e de cada

uma das quaes resultava um allivio para o doente: arranjava as

almofadas, aconchegava as roupas do leito, dir-se-hia que a sua mão

esguia, branca, um pouco secca, tinha o segredo de verter balsamo em

todas as feridas de um corpo enfermo.

Na convalescença lia alto.

Escolhia muito bem os livros, tinha a maravilhosa intuição de todas as

necessidades de um espirito adormecido, n'aquella dubia luz crepuscular

da doença physica.

A sua voz vellada, sem grande sonoridade, tinha umas notas macias que

entravam até ao fundo do coração e que o amolleciam docemente.

Ainda nos desgostos de familia, na hora das crises e das catastrophes

era para ella que instinctivamente todos os braços se estendiam.

É que ella, com o seu passo miudinho, o seu ar sereno, os seus habitos

methodicos, nem diante das maximas catastrophes perdia a placidez

necessaria.

Uma das suas particularidades mais accentuadas era a repugnancia pelo

barulho, pelo espalhafato, por todas as exterioridades apparatosas.

Andava, fallava, trabalhava, movia-se sempre devagarinho.

Lembro-me perfeitamente do quarto d'ella, como d'uma especie de pequeno

sanctuario onde poucas vezes penetravam as travêssas creanças de quem

ella era como que segunda mãe.

Quando eu acertava de lá entrar com ellas, emquanto a pequenada corria

de um lado para outro, vendo, tocando tudo, perguntando informações de

todas as cousas, eu observava callada com o meu olhar de mais velha,

mais penetrante e mais curioso.

Tudo alli era limpo, aceiado mas tudo antigo, datando sem duvida da sua

adolescencia, do tempo em que ella fôra feliz, porventura requestada e

formosa.

A alcova branca, discreta, com o seu oratorio de pau santo, cheio de

bellas imagens, a Virgem risonha e loura com o menino nos braços, o

Christo macerado e sangrento com a expressão de sobre-humana agonia no

amortecido olhar.

No gabinete contiguo as cortinas, os reposteiros de chita, as poltronas,

as pequeninas mezas cobertas com os seus panos de _crochet_, as estantes

de livros, tudo emfim era bem conservado, sem ser novo; via-se que tinha

sido o objecto de attentos cuidados, que todas aquellas cousas mudas

haviam sido as companheiras unicas de uma existencia concentrada e

solitaria.

Nas paredes, sobre as pequenas _étagères_, muitos retratos, todo um

cortejo moço e triumphante que passava ao longe.

Exhalava se d'aquelles objectos tão esmeradamente cuidados, um vago, um

indistincto perfume de saudade, como d'um herbario de flôres seccas,

colhidas entre risos de crystal, nos dias radiantes da primavera...

Os pequenos então, com a sua inconsciente crueldade infantil, faziam mil

perguntas, impacientes, curiosas...

--Quem era esta menina, tia Izabel? tem um vestido de seda decotado e na

mão um malmequer que está desfolhando. Como ella scisma tão embebecida!

Em que scismaria ella, minha tia?

--No futuro!... respondia ella sorrindo com o seu bello sorriso

intraduzivel em que havia talvez muitas saudades.

--Que é feito d'ella? Era sua amiga, não era? Porque é que a não vem cá

vêr nunca?

--Ao principio veio, depois casou-se; o marido levou-a a viajar, foram

muito longe, divertiram-se, provavelmente ella esqueceu-se. Quando

voltou trazia um filho, um _baby_ louro e côr de rosa como o teu

irmãosinho Arthur. Só o vi uma vez. As creanças absorvem muito as mães,

por causa d'ellas esquecem-se de tudo, até das amigas da infancia. Hoje

só sei que é muito feliz, e quando tenho saudades olho para o retrato

d'ella!... Fômos tão amigas!

E callava-se baixando os olhos, receiosa de que a vissem contemplar com

demasiado enlevo os dias que já não podiam voltar.

Todos aquelles retratos tinham uma historia.

Aquelle cortejo de juvenis visões louras, morenas, travêssas ou

melancolicas faziam parte do passado, por isso lhes queria tanto.

Umas tinham casado, eram felizes, viviam absorvidas pelo divino egoismo

da familia, todas entregues ao bem estar dos seus, aos interesses, ás

alegrias, ás dôres do seu pequeno circulo de affectos.

Outras tinham morrido; eram as que alli nos appareciam mais pallidas,

com um vago reflexo de luz febril nos olhos pasmados e pensativos.

Tinham morrido na plena florescencia do seu imaginar juvenil, levando

para a cova, como levariam uma flôr ainda constellada pelos orvalhos

matinaes, a dôce chymera que nenhum sôpro brutal lhes havia desfeito.

Fecharam os olhos cercados por todas as apparições fulgidas, que

envolvem a mocidade como n'um circulo de estrellas, e foram

despertar--quem sabe! n'outras regiões de que ninguem ainda voltou, do

sonho feliz que haviam começado na terra.

Não eram essas as menos bemfadadas.

Ella, porém, ficára só.

Porquê?

Condemnação de que não conhecia o implacavel segredo!

Tambem fôra môça, tambem tivera crenças, esperanças, pequenos

sobresaltos de amor proprio, ephemeras vaidades de quem se julgara

querida!

Estremecera muita vez, ao sentir abrir uma porta, echoar um passo

ligeiro e firme nos vastos corredores, vibrar uma voz viril, grave e

terna!

Tivera rubores subitos, sentindo pousar na sua fronte branca, a luz d'um

olhar quente e caricioso; colhêra uma rosa, prendera nos cabellos um

cacho de madresilva, vestira um dia um certo vestido branco, cheia de

alegria, agradecendo a Deus ter feito a vida tão boa, o céu tão azul, o

cheiro das arvores tão penetrante e tão sadio!

Olhava n'este tempo para as creanças, beijava-as como a ensaiar as

graças da maternidade, fazia-lhes festas, pensando que tambem havia de

ter um dia uns pequeninos como aquelles, que lhes havia de querer muito,

e leval-os a passear, seguida pelo olhar invejoso das outras mães...

cujos filhos seriam forçosamente feios.

Então consultava comsigo mesma o systema de educação que adoptaria, e o

modo porque os havia de vestir, e concluia vendo-os entrar para a

Universidade, n'um dia de muitas lagrimas e de muitos dilaceramentos,

altos, esbeltos, um pouco altivos, com um buçosinho louro, appetitoso

como a pennugem d'um pecego mal maduro.

Foram-se-lhe dias e dias n'este sonhar que a entretinha, como a leitura

d'um romance cujo interesse nunca afrouxa.

Um dia, porém, por acaso viu-se ao espelho, e despediu-lhe o seio um

grito de angustia.

Despontava-lhe entre os fártos cabellos louros, o primeiro cabello

branco, um fio de prata, tenue, quasi imperceptivel, uma cousa em que

ninguem reparava.

Reparou ella.

Reparou tambem n'esse momento que todas ou quasi todas as companheiras

tinham casado, que muitas das suas illusões se tinham desfeito ás

asperas nortadas da realidade, que se ia sentindo na vida muito só.

Teve umas horas de lucta, de revolta, quasi de desespero.

Alguem, ou _alguem_ invisivel em que ella sempre acreditára, mandou-lhe

a força, porque lhe mandou a resignação!

Quando o pae lhe morreu veio para casa dos irmãos, e a pouco e pouco

achou em si a fonte de todas as riquezas mysteriosas, que espalhava

pelos affectos que o seu coração adoptou!

* * * * *

Eis pouco mais ou menos a _historia da tia Izabel_.

O MELHOR SOMNO DO MILLIONARIO

Tinha ido para o Brazil ha muitos annos.

Ainda havia frades em Portugal e fôra até um seu tio frade que o

acompanhara a bordo de um brigue e que lhe dissera com voz solemne e

sentenciosa, no momento da despedida, estendendo os braços n'um largo

gesto de pregador:

--Deus te leve a salvamento, Francisco!

O sr. Francisco Cerqueira lembrava-se de todos os pormenores e

incidentes trabalhosos da jornada que elle fizera desde a sua pequena e

risonha aldeia minhota até Lisboa.

Era um gosto ouvil-o á mesa, ao domingo, quando o armazem repousava na

sua humidade claustral, e não se ouvia o estrepitoso labutar dos negros

carregadores, a voz arrastada dos Mineiros freguezes da casa, e a

melopéa das quitandeiras na rua.

Os socios muito mais moços que Cerqueira _puxavam-lhe pela lingua_

conforme a pittoresca locução do povo, e á sobremesa, recostados, com os

charutos accesos, ouviam-no discretear alegremente.

Lembrava-se de tudo o sr. Cerqueira. Era uma chronica viva. Recordava-se

da sua aldeia, narrava historias da sua infancia, descrevia com rudes

mas pittorescas phrases a aula de primeiras letras, o abbade da

freguezia, as proezas do tio frade, que com um varapáo nas unhas era

homem para varrer toda uma feira, e enternecia-se até ás lagrimas,

quando tocava no assumpto de despedida da mãe.

--Ah! vocês não imaginam! Não me sahe d'aqui! Parece que tenho um nó na

garganta, quando me lembro d'aquelle momento. Abraçava-me a chorar e a

soluçar que era uma cousa por maior! Inda me parece que a vejo ao pé das

carvalheiras do adro da igreja, estendendo-me os braços de longe e

gritando suffocada:

--Ah! rico filho, rico filho da minha alma!...

Que idade terá ella hoje? Ora, espera, eu tenho cincoenta e seis; ella,

pelas minhas contas, vem a ter os seus setenta bem puxados... quem me

dera vêl-a!

--Mas, _seu_ Cerqueira, nada mais facil! Por que se não resolve? Em

dezoito dias está lá...

--Sim, é verdade.

E ficava triste e meditabundo por instantes...

--Mas tenho medo de chegar e de não a encontrar. O unico motivo que me

leva á Europa, é ella, a pobre velhinha... É o unico parente que tenho,

que não sei se vocês sabem, que da nossa familia restamos tão sómente

nós, ella e eu... a minha terra é aqui, para aqui vim creança, e aqui me

fiz gente... Que vou eu fazer á Europa, não me dirão?

Isto dizia o sr. Cerqueira; mas o que se lhe passava no intimo era bem

diverso. Tinha saudades, tinha-as e bem fundas da aldeia em que nascêra

e da casa em que se creára.

Porque a sua vida fôra um luctar sem treguas, um batalhar decidido e um

inferno, á sahida do qual elle contava, como o mythologico Orpheu, rever

as appetecidas Eurydices--a mãe e a patria...

Escrevia á mãe de tres em tres mezes, e nunca deixava de lhe recommendar

que conservasse tal e qual como estava a casita, e que não mexesse nunca

no leito em que elle dormira nos annos proximos á partida para o

Brazil.

«Porque desejo morrer n'elle», escrevia Cerqueira á mãe amantissima.

E ia-se deixando ficar.

Por duas vezes os socios estiveram em Portugal, mas o nosso Cerqueira

não se decidia.

Ás vezes parecia tomado de uma forte resolução, e, ouvindo as

descripções das viagens dos socios:

--Homem, parece-me que sempre me resolvo!

No outro dia, porém, lá andava pelos armazens mourejando, dando ordens,

e n'aquella atmosphera de trabalho vivificante e saudavel parecia

transfigurado e como que esquecido da promessa que a si proprio fizera.

* * * * *

Um dia, quando o sr. Cerqueira encarapitado no alto banco de palhinha

sobre a secretária, revendo se na sua bella letra ingleza e floreada,

entrou no escriptorio um dos caixeiros annunciando-lhe que estava alli

um sujeito que desejava fallar-lhe.

Cerqueira collocou a penna atraz da orelha, puxou do lenço vermelho, e

abrindo a caixa enterrou unidos, no tabaco, o pollegar e o index, e mal

acabava de absorver a pitada pela narina direita, tamburinando

voluptuosamente com os restantes dedos na esquerda, quando lhe surgiu á

porta um rapaz bem trajado e modesto, que figurava ter quando muito

dezeseis annos.

--Creio que fallo ao snr. Francisco Cerqueira?

--É verdade.

--Cheguei hoje de Portugal e trago-lhe esta carta.

E o rapaz desabotoando o fraque, tirou do bolso uma carta que entregou

respeitosamente ao negociante.

Olhou attento para a lettra do sobrescripto e sorriu-se; um bom sorriso

beatifico e dourado de mocidade que lhe illuminou o semblante.

Depois abriu a carta, desdobrou-a e collocando-a ante o rosto começou a

lêl-a devagar, como que saboreando cada palavra e cada phrase. Ás vezes

parava, e como um namorado que espreita por cima d'um muro, erguia os

olhos acima do papel e examinava attentamente o rapaz, que se conservava

de olhos baixos, direito e tranquillo.

Chegando ao fim da carta, voltava de novo a lêl-a. Era como que um

conversar com aquellas letras que vinham de longe e que lhe traziam um

pouco de perfume das larangeiras do paiz natal, e um tudo nada das

lagrimas de sua mãe.

--Queira sentar-se, disse benevolamente o commerciante ao mancebo.

E continuou a ler. A carta era pequena, mas n'aquellas letras

arrevesadas e tremulas elle via um rosto, umas feições adoradas, e logo

depois como nas tintas esbatidas e aereas de um sonho de convalescente,

levantava-se uma figura de mulher ainda moça e vigorosa, ao pé de umas

carvalheiras, e essa mulher estendia-lhe os braços e dizia-lhe de longe

com uma voz entrecortada de lagrimas:

--«Ah! rico filho, rico filho da minh'alma!»

Arrancado d'aquella visão, o sr. Cerqueira dobrou a carta devagar com as

mesmas dobras, abriu a larga carteira de marroquim vermelho e collocou-a

com grande cuidado n'um determinado compartimento.

Em seguida levantou-se e pitadeando de novo:

--Olhe, o nosso guarda-livros vai espairecer até Buenos-Ayres, e creio

que por lá ficará. Coitado! aquillo vai mal!... Quer o senhor occupar

esse lugar n'esta casa?

O moço acceitou reconhecido, e ia a levantar-se quando um preto velho em

mangas de camisa abriu a porta do escriptorio:

--O jantar está na mesa, nhônhô...

* * * * *

Passados dias notaram os socios do sr. Cerqueira que este não parava em

casa um instante. Sahia frequentemente, andava mais contente e lepido

que o costume. Pouco fallava ao jantar; de communicativo que era,

tornara-se recolhido comsigo, mas no olhar lampejava-lhe uma doce e

ineffavel alegria.

Ora que fazia o sr. Cerqueira?

Andava envolvido n'uma terrivel conspiração, queria desfazer-se,

desligar-se dos queridos laços, creados pela sua longa e trabalhosa vida

de perto de quarenta annos, n'aquella terra a que elle de entranhas

queria, e aonde aportara pobre, desprotegido, sem recursos...

Logo pela manhã, depois de dar as suas ordens no escriptorio, mettia-se

a caminho, percorria as ruas, examinando attentamente cousas que antes

lhe haviam passado desapercebidas.

Entrando nos _americanos_, dirigia-se aos formosos arrabaldes da

côrte...

Lembrava-se então das suas merendas saudosas e illuminadas pelo sol dos

vinte annos, no morro de Santa Thereza, nas chacaras ridentes do

Botafogo, á sombra das arvores do Corcovado.

E passava distrahido sem corresponder aos frequentes e affaveis

cumprimentos que lhe faziam os conhecidos e amigos, do alto da imperial

dos omnibus, ou da plata-forma dos _americanos_.

Alguns dos companheiros dos seus passeios e folguedos da mocidade tinham

morrido, outros haviam deixado o Brazil e viviam na Europa, em Portugal.

--Como poderam elles deixar isto sem saudade? É verdade que eu gostava

de morrer lá, onde nasci, na minha pobre aldeia, ao pé de minha mãe...

pensava o sr. Cerqueira.

E á hora do jantar, já não havia o conversar, e aquelle teimoso

questionar que tanto alegrava os dois socios!

É que o sr. Cerqueira continuava a fallar comsigo e a passar uma a uma

pelos dedos as contas do mystico rosario das suas saudades...

* * * * *

Uma tarde os socios de Cerqueira bateram-lhe á porta do quarto. Houve

uma certa demora em se abrir essa porta. Insistiram. Cerqueira veio

emfim saber o que era.

Entraram os dous e recuaram surprehendidos ante a mudança que

observaram.

No meio do quarto estava uma grande mala escura cravejada de pregos

amarellos; em cima do canapé esgarçado avultavam montes de roupa branca,

e pequenas malas inglezas com fechos dourados e reluzentes. As gavetas

da commoda estavam corridas, havia n'aquelle quarto em fim a apparencia

d'uma casa saqueada...

--O que é isto, _seu_ Cerqueira?

--É o que vocês estão vendo. Ámanhã é o dia da partida... Resolvi-me

emfim...

--E eu que tinha apostado aqui com o _seu_ Fernandes que você nunca se

resolvia...

--Pois, meu amigo, perdeu a aposta, cortou o Cerqueira, sorvendo

sybariticamente uma pitada.

Na manhã do dia seguinte, no tombadilho d'um dos vapores da Companhia do

Pacifico, emquanto os dous socios do Cerqueira riam e diziam facecias,

deitando com ares de casquilhos atabalhoados as lunetas a algumas

francezas, que, com os seus vestidos de fazendas claras animavam

alegremente aquelle conjunto de pessoas possuidas de tão estranhos e

contradictorios sentimentos, o nosso viajante olhava com os olhos de

quem se despede de um sitio amado para os armazens, para os trapiches

que se retratavam nas aguas da bahia, para as torres das egrejas que se

arrendavam nitidamente no claro céo azul.

* * * * *

Em Lisboa pouco se demorou.

No hotel, alguns amigos quizeram prendel-o ainda, tentando-o com o

theatro lyrico, com Cintra e com as poucas fascinações baratas de

Lisboa.

Cerqueira resistiu, e n'uma bella manhã, mettido em uma diligencia que

partia de Braga, dirigiu-se para Ponte de Lima. Aqui alugando uma

cavalgadura endireitou para a aldeia em que nascêra.

A meio caminho apeou-se, despediu o homem que o acompanhara, e deitando

ao hombro uma pequena mala que trouxera, encaminhou-se para o seu lugar.

Seriam quando muito duas horas da tarde. O calor era grande. Pouca gente

na estrada. Cerqueira parou a contemplar o quadro.

De um dos lados do caminho viam-se algumas raparigas com largos chapéos

desabados e saias apanhadas segando herva, á compita, e misturando o seu

canto ao metalico e monotono cantar das cigarras...

Do outro lado, um rapazito meio nú, de carapuça, sentado no chão,

estava de guarda a meia duzia de bois que pastavam tranquillamente na

herva macia e tenra...

De vez em vez, quando um dos bois se approximava de algum castanheiro, o

rapaz agarrava de um calhau, e atirando-lhe rasteiramente, gritava:

--Eh! malhado...

--Quantas vezes eu tambem guardei as vaccas da nossa casa! pensou

Cerqueira.

--Seu moço, venha cá, disse para o rapaz, venha cá, menino!

O rapaz olhou para o forasteiro com um olhar estupido e embezerrado e

deixou-se ficar.

--Venha cá, menino, que lhe não quero mal...

O pequeno não se movia.

--O rapaz é mouco, disse comsigo o viajante, e como quem conhece o

coração humano, tirou a bolsa e mostrou-lhe uma moeda de prata.

--Queres isto?

De um salto o rapaz poz-se a pé, tirou a carapuça, e coçando a cabeça

aproximou-se.

--Diga-me uma cousa, menino, é aqui do lugar?

--Saiba vossemecê que sim senhor.

--Conhece a tia Genoveva?

--Uma que é assim a modo bexigosa, e já muito velhinha?

--Essa mesma.

--Olhe, ainda ha pouco a vi passar da banda do rio... São horas de a

topar em casa...

Cerqueira estava emfim tranquillo.

Desapparecera o receio de não encontrar a querida velhinha.

Verdade é que podia ter tido novas d'ella em Lisboa escrevendo ao

abbade, mas queria fazer uma supreza, chegar de improviso.

Áquella hora as aldeias do Minho são silenciosas e calmas, e ha n'ellas

como que a intima paz das fabricas ao domingo.

Os homens andam no campo, as mulheres, quando os não acompanham, estão

nos lavadouros ensaboando, e poucas pessoas, a não serem os velhos e

algumas creanças, ficam em casa.

Na sombria humidade das tabernas descobre se a taberneira fiando,

emquanto no quinteiro proximo os porcos com os focinhos semi-enterrados

na lama grunhem voluptuosamente.

Um ou outro cavalleiro que passa ás vezes pela estrada n'um choito

endiabrado, com o páo de choupa apertado nos joelhos, levantando uma

nuvem de poeira dourada. E é então que os cães acordam aquelle silencio,

latindo e correndo atrás dos cavalleiros, e que apparecem ás janellas e

ás portas as raras pessoas que ficaram em casa.

Quando Cerqueira bateu á porta da casa pulava-lhe o coração de um modo

desusado.

--Quem é?

--Alguem é, respondeu o viajante.

--Pois empurre o postigo, puxe pela aldraba e entre, se isso o não

incommoda.

Assim o fez o nosso Cerqueira e entrou na saleta em que a tia Genoveva

dobava...

Ante aquelle homem estranho, a velha surprehendida parou, e pondo uma

das mãos diante dos olhos como uma palla:

--Que me quer vossemecê?

--Um abraço e um beijo, balbuciou o que entrara com voz enternecida e

expirante...

--Elle que diz? Ó Christo!

E levantando-se foi direita á janella para chamar por soccorro

imaginando vêr-se a braços com um doudo.

--Olhe que não estou doudo, santinha! Venho de longe e trago-lhe um

beijo e um abraço de uma pessoa que é muito sua amiga.

Contos e Phantasias · 第 7 / 12 段