Arrancaram-lhe a custo da boca o seu querido fardo e ella continuou a

nadar frouxamente sem poder resistir ás ondas que a levavam de chofre de

encontro aos escaleres.

Quiz subir, galgar a borda de um dos escaleres, e não pôde, resvalou na

agua, ganindo dolorosamente, sendo preciso que um dos marinheiros a

empolgasse com força, arrebatando-a assim á morte inevitavel.

Da galera, applaudiram a acção da _Cigana_, e quando ella e o capitão

chegaram, não sei bem qual dos dous foi mais abraçado.

--Bravo, _Cigana_! exclamou o contra-mestre, não ha homem que te valha.

Dá cá um abraço!

O capitão foi levado por dous marinheiros para a sua camara, emquanto a

_Cigana_, resfolegando alto, com os olhos embaciados, o corpo escorrendo

agua e todo tremulo, tentava arrastar-se para onde lhe levavam o dono.

* * * * *

Ora, aqui está porque a _Cigana_ era tão querida e estimada na pequena e

alegre casa do capitão em Lessa, e aqui está a razão por que a filha do

velho e bondoso Navarro lhe pedia com tão amavel meiguice que deixasse

ficar a _Cigana_ quando para a outra vez tivesse de fazer viagem.

Quando a galera _Terrivel_ partiu, não levava a seu bordo nem o capitão

nem a _Cigana_. Porque?

Se o leitor é pae diga-me, se no caso do capitão Navarro, teria forças

de fazer-se ao largo e deixar sósinha uma filha de quinze annos,

graciosa e encantadora.

Não tinha forças para tal, acreditamos.

Ao capitão succedeu o mesmo. Despediu-se dos seus companheiros, chorou

quando viu pela primeira vez a _Terrivel_ fazer-se de vela sem elle, mas

ficou em terra.

Tinha saudades, isso tinha, do mar, da solidão magestosa das aguas, da

melancolia das horas da calma, das tempestades que, de quando em quando,

o visitavam, mas fitava os olhos azues da filha e bebia n'elles

consolações que lhe amorteciam essas maguas.

Ás vezes, sahia de casa acompanhado pela _Cigana_, e ficava-se á beira

do mar, observando os navios que passavam a distancia, absorvendo a

plenos pulmões o saudavel ar maritimo, regalava-se conversando com os

pescadores e com os embarcadiços, e n'essas tardes recolhia mais alegre

e com o corpo mais direito e rejuvenescido.

Outras vezes, ia n'um bote pelo amenissimo rio Lessa acima, e n'essas

excursões levava quasi sempre a sua querida Luiza, e quasi sempre

n'esses passeios em que elle contava á filha as peripecias de toda a sua

vida trabalhosa, encontrava-se com outro bote em que ia ao leme um moço

de vinte annos, elegante e galhardo que o comprimentava respeitosamente.

Á terceira vez que aquelle encontro se deu, o velho disse á filha:

--Não sei se conheço aquelle moço? É o filho unico de um meu antigo

companheiro. O pae está rico, está. Eu tambem por aquelle preço podia

estar como elle ou melhor. Que se elle tem muito de seu, a mim m'o deve.

Joaquim Antonio Ferreira, que depois foi feito Conde da Guaratiba, bem

queria que eu fosse capitão de uma sua barca, recusei, porém, sempre, e

apresentei-lhe um dia Gouvêa, o pae d'esse rapaz, que afinal de contas

depois de seis ou sete viagens felizes á Africa, deixa a vida do mar e

foi um dos que mais lotes de escravos levava aos armazens de Vallongo...

Ser rico á custa de tantas lagrimas não era para o filho de meu pae...

E aqui entrava o capitão a contar a Luiza cousas da sua mocidade, e

absorvido n'essas recordações não reparava que a filha seguia com a

vista anciosa o barco em que ia o herdeiro do millionario Gouvêa.

* * * * *

Luiza amava, e amava com o primeiro e grande affecto de quinze annos.

Segregada das moças da sua idade, não tinha a quem confiar tantos e tão

amantissimos segredos: embriagada por aquelle amor, deixava-se ir

deliciosamente pela correnteza, sem medo de encontrar um dia a voragem

que a tragasse, o abysmo em que se lhe afundasse a honra e a vida.

Nunca tinha fallado ao noivo da sua alma; via-o de longe, ora passar a

cavallo pela rua em que morava, ora no rio quando o pae a levava aos

costumados passeios.

Conhecia-o pelas cartas, que lia, relia e decorava, e a todas ellas

respondêra, menos á ultima cujo conteudo a trazia surpreza, enlevada,

vibrante...

O não responder a essa carta era como que um assentimento a um pedido

que n'ella se fazia.

O velho capitão n'essa noite pedira á filha que lhe lesse uns livros de

viagem. Luiza lia perfeitamente, com uma entoação harmoniosissima, e

dando com a voz um relevo maravilhoso á narrativa. O capitão, com o

corpo reclinado na poltrona, o cachimbo apertado nos dentes, e a cabeça

da _Cigana_ nos joelhos, sorria na plena beatitude de um goso

indefinido. De vez em quando, accordava d'aquella deliciosa somnolencia

e emendava as incoherencias e os enganos do escriptor.

--Nada, nada, isso não é assim. Venham cá dizer-m'o a mim, que passei

por esse ponto mais de trinta vezes...

Ás dez horas serviu-se o chá, a _Cigana_ foi levada para o quintal, e

Luiza acompanhou o pae até ao limiar do quarto.

--Deus te abençôe, minha filha, disse o velho ao despedir-se, e beijou

Luiza na testa.

--Hoje tenho pouco somno, papá, fico ainda a lêr um bocadito na sala, se

o papá quizer alguma cousa chame-me, sim? Vou acabar de lêr este livro,

acho-o muito bonito. Gosto tanto da vida do mar!

--Filho de peixe sabe nadar, volveu o capitão sorrindo com o divino

sorriso dos paes, que se crêem unicos senhores dos affectos dos filhos.

Passada meia hora, ouviu-se no quintal o ladrar continuo, frenetico e

raivoso da _Cigana_.

O capitão gritou da cama:

--O que é aquillo, filha? A _Cigana_ está hoje como nunca a vi. Vai

socegal-a, se não tens somno, e prende-a. Naturalmente os pescadores

saltaram-me á fructa. É o que é. Deixal-os lá, coitados! Estes dias tem

havido pouco peixe. Não vá a _Cigana_ fazer alguma das suas... Ora vae,

anda, tem paciencia... Eu não vou porque me sinto fatigado e exquisito

hoje... A _Cigana_ ouvindo-te, socega...

* * * * *

Luiza desceu ao pateo.

Abriu com mão tremula a cancella e encostou-se vacillante, agitada e

convulsa ao muro. O ladrar da cadella cessára. Adiantou-se. No fundo do

jardim sob a latada, um vulto cosia-se com a parede. A pobre menina

levou as mãos ao peito, como para socegar a douda violencia do coração

que parecia suffocal-a; quiz fallar e não pôde. O corpo vergava-se-lhe

frouxo, molle, sem forças...

De repente sahiu das sombras das arvores a _Cigana_, que se arrastou

para Luiza, ganindo dilacerantemente, movendo com difficuldade a cauda,

com a parte posterior do corpo quasi paralytica, escorrendo-lhe da boca

uma baba espessa, com os olhos dilatados desmedidamente...

N'aquelle olhar que a claridade da lua deixava distinguir havia um

pedido, uma supplica.

--_Cigana!_ exclamou Luiza.

Ouvindo aquella voz, a cadella, que se sustentava difficilmente nas

patas dianteiras, ergueu ainda, por um supremo esforço, a cabeça, e,

tomada de uma ancia afflictiva, convulsionando-se-lhe o corpo n'um

estremecimento instantaneo, soltou um gemido rouco, escabujou

violentamente, e cahiu morta aos pés da filha do capitão.

--A sua _Cigana_ é muito má, mas ainda é mais gulosa, disse o vulto que

se escondia sob a latada.

--Que mal lhe fez este animal, sr. Gouvêa? perguntou reprehensivamente

Luiza, estrangulando-se-lhe a voz na garganta.

--Boa pergunta! Não subisse eu tão depressa para o muro e estava

asseiado a estas horas! O demonio do bicho! Mas vinha prevenido,

atirei-lhe uma bola, que lhe soube como se fosse manteiga. Ora deixe lá

o cão, querida, não se faça piégas...

Luiza interrompeu bruscamente aquellas palavras tolissimas, e

endireitando o corpo, ergueu a voz quebrada pelas lagrimas:

--Saia, saia depressa; se não quer que meu pae o venha aqui matar sem

ser tão cobardemente como o senhor acaba de matar a minha pobre

_Cigana_.

E emquanto o vulto marinhava pelo muro, a desditosa creatura abraçava a

_Cigana_, e chorava como sómente uma vez em vida chorára, quando lhe

levaram para fóra de casa o corpo de sua mãe.

--_Cigana_, minha pobre _Cigana_! repetia Luiza, fui eu que te matei!

Ao outro dia murmurava o capitão, fingindo-se sereno e forte para poder

consolar a filha:

--Vão lá depois fazer bem... Eu mandava prender a _Cigana_ para que não

fizesse mal a ninguem, e pagaram-me d'esta fórma!...

E o velho, para não chorar tambem, fingia que não reparava nas lagrimas

que rolavam como perolas pelo rosto descolorido e pallido da filha.

DUAS FACES DE UMA MEDALHA

Ella tinha já feito vinte e cinco annos, elle contava apenas vinte e

dous.

Era uma creança triste e ambiciosa.

Sonhava no impossivel, e n'esse sonho creava forças heroicas para todas

as luctas da realidade.

Margarida distinguira-o no meio de todos os homens ricos, elegantes,

nobres ou poderosos, que a rodeavam e acclamavam rainha.

É que na fronte d'elle, já cavada por duas linhas profundas, lia o que

não lera ainda nos outros--o pensamento e a energia.

Sabia, porém, que seu pae, o banqueiro millionario, só a daria com

prazer a quem trouxesse mais lustre ou mais dinheiro á sua casa, e

timida, melancolica, sem disposições para as luctas da vida,

repugnava-lhe tudo que fosse combate ou resistencia.

Tinha sido doente desde pequenina, era um organismo nervoso e delicado,

cheio de caprichos inconscientes, mais artistico do que reflexivo.

Gostava de musica, de flores, de versos, das cousas bellas e

harmoniosas, tinha um vago desdem silencioso por tudo quanto via ser o

enlevo e a preoccupação exclusiva dos seus.

O dinheiro! sempre o dinheiro!

Ninguem fallava em torno d'ella senão em dinheiro, e no entanto ella,

que vivia n'um voluptuoso ninho de princeza de conto de fadas, tinha

pelo dinheiro em si o mais soberano desdem.

Salvava-a isto da vulgaridade que mais ou menos contamina as mulheres

ricas.

Margarida no inverno vivia em Lisboa.

Tinha então a vida futil e ociosa de todas as rainhas da alta vida.

Ia muito a S. Carlos, recebia n'uma certa noite da semana, presidia aos

jantares dados por seu pae, ia passar muitas noites fóra, fazia compras,

corria as modistas acompanhada sempre por miss Brown, uma correcta

ingleza de sacca-rolhas côr de açafrão, que seu pae descobrira

felizmente n'uma das suas viagens a Londres.

No meio d'esta vida artificial tão vazia e tão fatigante ao mesmo

tempo, que lugar havia para que ella pensasse, sentisse, desejasse

alguma cousa para fóra do circulo estreito que a encerrava?

Margarida deixava-se viver.

Um dia, porém, n'um baile, apresentaram-lhe Eduardo de C., e depois de

meia hora de conversação sentiu por elle o que não sentira ainda por

nenhum outro.

Ficaram conhecidos.

Elle na sombra, de longe, já se vê; ella lá em cima na plena irradiação

da sua graça, da sua formosura, da sua opulencia, de todo o seu

esplendor.

Cumprimentavam-se com uns toques de familiaridade, e n'um ou n'outro

baile d'estes a que vae _toda a gente_, a boa e a má, tinham-se apertado

a mão mutuamente, e tinham trocado algumas phrases affectuosas.

No verão, o pae de Margarida, que tinha propriedades em varios pontos de

Portugal, consultava a filha para que lhe indicasse a quinta em que mais

gostaria de passar as calmas do estio.

Pouco tempo depois do encontro com Eduardo, Margarida, disse a seu pae,

que a consultava como de costume:

--Este anno vamos para o Minho, sim? Sinto-me tão fraca, tão doente! O

ar do Minho ha de por força fazer-me bem.

É verdade que nas vesperas, n'um baile, Eduardo dissera-lhe,

approximando-se d'ella:

--Peço licença para apresentar a v. exc.ª as minhas despedidas.

Alcancei uma collocação em Vianna do Castello, e parto para alli um dia

d'estes.

--Vianna! pensou Margarida emquanto dous raios de alegria se accendiam

nas suas pupillas de um azul sombrio.

--É em Vianna a nossa quinta.

* * * * *

Partiram.

Na provincia a intimidade estabelece-se forçadamente entre pessoas que

não pertencem ás mesmas camadas sociaes.

Para se admittir um sujeito em qualquer sala de provincia exige-se

simplesmente que tenha uma educação limpa, e que possua alguma _prenda

de sociedade_.

Em Vianna, na sala do grande banqueiro tão altivo e tão inaccessivel,

reuniam-se não só os fidalgos mais primorosos das cercanias, como tambem

os humildes funccionarios do Estado, que por aquellas regiões se achavam

accommodados.

Margarida, com o seu porte de soberana, o seu sorriso altivo e

distrahido, a graça ondeante da sua gentil figura, recebia a todos com a

mesma benevola indifferença.

Todos a contemplavam fascinados e quasi medrosos.

Ninguem se atrevia a dirigir-lhe finezas banaes: de tal modo o olhar

d'ella sabia tornar-se glacial, logo que adivinhava a pretenção de um

namorado na amabilidade um tanto desastrada de algum dos seus convivas

provincianos.

--Não ha aqui um empregado chamado Eduardo de C.? perguntava um dia na

sala a elegante filha do banqueiro.

--Ha. Um rapaz muito estudioso, muito concentrado, que desenha muito

bem, acudiu espevitadamente d'alli uma menina que fazia as delicias das

_soirées_ de Vianna, pela sua voz de falsete sempre prompta a torturar

os ouvidos do proximo. Conhece-o?

--Foi-me apresentado este inverno em Lisboa; respondeu Margarida.

E accrescentou mentalmente:--Quem me dera que elle aqui apparecesse!

Como me distrahiria de tudo isto que me cérca.

_Isto_ era uma duzia de _cavalheiros_ da _provincia_ acompanhados das

suas respectivas esposas ou _manas_, tudo gente preoccupada dos

interesses mais mesquinhos, das pequenas intrigas mais pueris, fallando,

gesticulando, dançando, tocando, cantando, murmurando e constituindo a

unica diversão das noites de Margarida.

Não sabemos de que traças usou a gentil lisboeta: sabemos que algumas

noites depois d'esta, Eduardo de C. era apresentado por um fidalgote,

aspirante e litterato, na sala do banqueiro.

Desde esse dia elle e Margarida formaram em commum uma especie de

refugio contra a frivola banalidade d'aquellas noites.

Eduardo desenhava com muito chiste caricaturas e graciosos _croquis_,

que Margarida guardava contentissima; ella cantava com a sua voz meiga e

flexivel algumas simples melodias allemãs, ou tocava as musicas dos

velhos mestres classicos, tão queridos de Eduardo.

Fallavam a respeito de tudo com a liberdade de pessoas que se entendem e

apreciam.

Discutiam litteratura, musica e versos.

Ás vezes fallavam ambos do futuro.

--Que tem tenção de fazer? perguntava Margarida.

--Ora! Não sei bem. Com certeza hei de fazer alguma cousa. Ando a crear

forças para a lucta. Ha de ser tenaz, ha de ser terrivel, bem sei, mas

eu hei de vencer!

--Quer que lhe dê um talisman para entrar no fogo?

Elle envolveu-a em um olhar ardente; depois, baixando a vista, respondeu

quasi com violencia:

--Não brinque comigo. Olhe, que me faz muito mal.

* * * * *

Margarida sabia que era amada.

Tambem ella sentia por elle o que nunca sentira, mas não tinha coragem

para resistir ás ordens de seu pae.

Por esse tempo andava elle a arranjar o casamento da filha com o conde

de V., um moço que tinha nas veias o sangue dos reis godos, e na cabeça

a mais crassa estupidez de que ha memoria desde o tempo dos ditos.

Margarida sabia ou suspeitava do caso, mas deixava-se ir n'uma

indolencia de crioula á mercê dos acontecimentos da sua vida.

Ao pé de Eduardo sentia-se bem, e quando elle a fixava com o seu bello

olhar de ambicioso e de pensador, Margarida esquecia-se de tudo que não

fosse a delicia de ser preferida por aquelle homem.

* * * * *

N'uma noite em que os hospedes habituaes estavam na sala, e em que junto

da meza redonda do serão Eduardo e Margarida liam esquecidos de tudo que

os cercava, felizes, despreoccupados como os dous amantes do florentino,

ouviu-se o rodar de uma carruagem que parava á porta do palacio.

O banqueiro levantou-se rapidamente da banca do voltarete e sahiu da

sala relanceando para a filha um olhar de esconso.

Margarida, sem saber porque, fez-se pallida como uma morta.

--Ó meu amigo--exclamou n'um impeto ardente, irresistivel, que não soube

conter,--chegou o fim da nossa felicidade!

Eduardo olhou para ella desvairado.

--Que diz? que é isso? a que se refere?

N'este momento entrava na sala o pae de Margarida dando a direita ao

ultimo herdeiro de nobres avoengos.

--O sr. conde de V... pronunciou com o orgulho humilde dos burguezes

ambiciosos de honrarias sociaes, apresentando o recem-chegado a toda a

companhia.

Margarida accolheu-o com um sorriso gelado.

Conhecia-o, sabia que o pae queria pôr-lhe sobre a cabeça loura e altiva

uma corôa de condessa, e sentiu que dentro d'alma lhe estalava uma corda

que nunca mais tornaria a vibrar!

* * * * *

D'alli a seis mezes todos os jornaes annunciavam na secção do

_high-life_ o casamento da filha do banqueiro opulento com o neto dos

heroes medievicos.

Os noticiaristas fundavam as mais ardentes esperanças n'este consorcio

que alliava o sangue nobilissimo e a fortuna collossal, e contavam com

grandes minudencias as pompas d'aquella festa principesca, os presentes

riquissimos que a noiva recebera, a _toilette_ d'esta, a alegria dos

numerosos convidados, etc., etc.

O que ninguem sabia é que esse casamento despedaçára duas vidas!

* * * * *

No fim de dez annos o conde de V... déra cabo do dote da mulher, e da

vida do sogro, que morreu amaldiçoando-o.

Continuava, porém, _la vie à grandes guides_, que tinha começado no dia

seguinte ao seu noivado, e já havia quem calculasse muito pela rama por

quanto tempo podia durar ainda a desenfreada orgia d'aquella existencia

de _Marialva_ estupido.

Em casa da condessa o luxo não se modificára com as aproximações da

pobreza.

No olhar d'ella divisava-se uma profunda e desdenhosa indifferença da

vida.

Nem o amor maternal conseguira salval-a do desespero.

Ligada a um homem que desprezava do intimo d'alma, entristecida para

sempre por uma d'estas recordações que lavram dia a dia, e que por fim

se apossam de uma existencia inteira, Margarida procurava esquecer-se de

si, aturdir-se no turbilhão das festas mundanas.

Os filhinhos estavam entregues ao cuidado d'aquella pobre miss Brown que

ao vêr o abandono dos pobres anjos, innocentes das culpas de seus paes,

se dedicára por elles com a abnegação profunda de que só é capaz uma

ingleza feia!

Margarida passeava de carruagem, ia ao theatro, ao paço, aos bailes, ás

festas de beneficencia, vendia nos bazares de caridade elegante, fazia e

recebia visitas, e de vez em quando, se no meio d'este turbilhão

avistava o marido, media-o de alto a baixo com um olhar de profundo e

inconcebivel tedio!

Eduardo durante estes dez annos tambem soffrera grandes modificações na

sua vida.

Luctara como um homem, e soubera vencer a mediocridade do seu nascimento

e da sua posição.

No instante em que aquella que elle um dia amara como a noiva

estremecida da sua alma, sentia vagamente afundar-se no sorvedouro negro

da miseria, elle recusara altivamente uma pasta de ministro e uma noiva

brazileira, possuidora de duzentos contos fortes, isto depois de uma

sessão legislativa, em que a sua palavra viva, nervosa, eloquente,

colorida e artistica havia deslumbrado o paiz.

--Não me vendo por dinheiro, nem pelas honras mentirosas com que os

tolos lançam poeira á cara uns dos outros; respondera a quem o

interrogava espantado ácerca d'estas duas recusas.

* * * * *

Alguem, que me contou este vulgar episodio da vida moderna, mostrou-me o

fragmento de uma carta que Margarida escreveu doze annos depois de

casada a uma socia das suas antigas alegrias.

«É a ti que prefiro escrever. Conheceste-me solteira, feliz, idolo de um

pae, que, ai de mim! se perdeu e me perdeu pela vaidade. Has de ter dó

de mim.

«Tenho dois filhos e preciso ganhar honestamente o pão que elles hão de

comer!

«Presinto o teu espanto, as tuas interrogações, os brados afflictivos da

tua surpreza!

«Não me perguntes nada.

«Pergunta-o se quizeres, a essa Lisboa, que assistiu ao louco esphacelar

de uma fortuna enorme, com o sorriso banal e adulador que ella tem para

todos os perdularios.

«Sabes a educação que recebi.

«Creio que seria uma mestra capaz de cumprir com a minha ardua missão.

«Em nome dos teus louros pequeninos, tão fartos de gulodices e de

beijos, arranja-me algum meio de ganhar um pedaço de pão para os meus

filhos.»

* * * * *

Dava lições!

A brilhante Condessa de V..., a filha adorada de um dos homens mais

ricos de Lisboa, a rainha dos salões luxuosos, a _estrella_ mais

fulgurante do alto mundo, dava lições para sustentar os dous filhos que

lhe restavam, unicos vestigios de um passado de pomposas mentiras.

O infortunio nobremente supportado transfigurara aquelle rosto

desdenhoso e soberbo de garrida mundana.

Deixára de ser rainha e levantára-se martyr!

Levantava-se de manhã muito cedo, bebia á pressa uma chicara de café,

que a sua fiel Miss Brown, companheira dos triumphos e das desventuras

lhe preparava por suas proprias mãos, e sahia, modestamente vestida de

preto, a cumprir a sua improba tarefa.

Só voltava a casa de noite.

Divulgára-se rapidamente a noticia d'aquella excepcional desventura, e

muita gente, que vira com desprazer a prodigalidade da caprichosa

condessa, compadecia se agora, sem pensamento reservado, d'aquella digna

e santa expiação.

Margarida tinha muitas discipulas.

Fazia pena vel-a, muito delgada, quasi diaphana, com os olhos pisados,

as faces córadas pelo cansaço e pela febre, e um sorriso triste

resignado, humilde, n'aquelles labios que tinham sabido tregeitar com

tão altivo desdem.

Era sempre a mesma alma sem energia.

Não esperava cousa nenhuma da terra senão a morte, levando a consciencia

de ter expiado os erros do seu orgulho.

Cumpria uma penitencia, não encetava uma lucta heroica de que esperasse

sahir vencedora.

N'uma tarde do mez de janeiro, chuvosa, humida e fria, Margarida subia a

muito custo a calçada de S. Bento, em Lisboa, onde morava uma das suas

discipulas.

A rua, viscosa e lamacenta, inspirava-lhe aquella repugnancia patricia,

que a infeliz ainda não soubera vencer.

A atmosphera plumbea e carregada dava-lhe ao coração uma dose de

invencivel tristeza.

Sentia-se predisposta para as recordações cruciantes para as inuteis

fluctuações de um sonho que se extinguira.

Comprehendia com angustia que lhe faltava coragem para levar a cabo o

doloroso dever que a si propria impuzera.

Oh! ella bem sabia que a sua alma não era da tempera das que luctam e se

sacrificam!...

N'isto uma carroagem elegante descia a calçada ao passo de dous formosos

cavallos inglezes.

Margarida, vendo a alguns passos o correio agaloado, percebeu que era um

ministro e, sem querer, movida por um impulso subito, levantou os olhos

e fitou os no homem que ia dentro do trem.

O que ella sentiu não se explica.

O ministro era Eduardo de C.

Os olhos dos dous encontraram-se.

Margarida quiz saborear a voluptuosa tortura de vêr n'esses olhos o

brilho de um satanico orgulho, de um triumpho sinistro e mau.

Não viu!

Eduardo teve tempo de inundal-a em um d'estes olhares doces, unctuosos,

cheios de misericordia, de doçura, de perdão; em um d'estes olhares que

só podem comparar-se ao olhar do Christo redimindo a Magdalena!

Só de longe a tinha visto de vez em quando nas salas do alto mundo:

nunca lhe fallara então; não quiz humilhal-a fallando-lhe agora!

Ella sentiu que se lhe despedaçara no peito alguma cousa indispensavel á

vida.

Apertou em torno do corpo friorento e emmagrecido as pregas do seu pobre

chale preto, abaixou a cabeça instinctivamente, como se fizesse pender

para a terra um pezo estranho, e continuou a subir devagarinho,

arrimando-se á parede, aquella eterna calçada, cheia de agua e de lama.

Cahia uma chuva fria e miuda que lhe encharcava o fato.

* * * * *

Um mez depois, da casa pequenina de Margarida sahia um enterro aceiado e

modesto.

Era o enterro d'ella.

Miss Brown explicava que a pobre senhora voltara uma noite muito

constipada das lições, que teimara em sahir ainda no dia seguinte, mas

que tivera de recolher-se á cama, onde penou pouco menos de um mez.

O enterro de Margarida levava por acompanhamento unico uma carruagem sem

brazão.

N'essa carruagem ia Eduardo de C.

Margarida, antes de morrer, escrevera-lhe uma carta cujas supplicas

dolorosas iam apagadas pelas lagrimas.

Os dous orphãos de Margarida estão agora a educar-se em um dos melhores

collegios de Lisboa, e todas as despezas da sua educação são pagas por

um protector invisivel e mysterioso.

Ha quem dê a essa Providencia ignota o nome sympathico e hoje glorioso e

querido de Eduardo de C.

A TIA IZABEL

Conhecia-a em casa de uma familia amiga da minha.

Contos e Phantasias · 第 6 / 12 段