intraduzivel soffrimento.
O ROMANCE DE ADELINA
(FRAGMENTOS DE CARTAS)
Meu pae, minha mãe, as pessoas que me cercam dizem-me continuamente que
a vida é triste, que o dever tem sempre um aspecto difficil, que as
chiméras da nossa imaginação nunca chegam a realizar-se...
Eu ouço-os, mas affirmo-te que não estou nada convencida.
Supponho ás vezes que vejo a existencia pelo avesso, que tenho um modo
muito extravagante de comprehender as cousas.
Ouço por exemplo chamar _romanescas_ a todas as mulheres loucas ou
desgraçadas.
Ás que deixam seus maridos para seguir um sujeito de bigode e collete
branco que lhes recitou versos ao piano entre dois candelabros; ás que
andam toda a vida á procura de um _ideal_ que ora encontram ora deixam,
percebendo que se enganaram; ás que usam olheiras e cabellos cahidos, e
fallam do seu _desespero_ inconsolado entre uma quadrilha e uma valsa.
Para mim essas mulheres são tudo menos romanescas.
Sabes ao que eu chamo romantismo?
A uma aspiração delicada, a tudo que é bello e bom. A um desejo ardente
de perfeição que se não satisfaz facilmente. A uma tendencia para
idealisar os deveres e os sentimentos.
Crê, minha boa Thereza, que não ha ninguem mais romantica do que eu!
Chego ás vezes a ter medo de que isto seja um pendor funesto que me
arraste a algum desvario.
No outro dia casou aqui uma prima minha.
É uma galante rapariga, bem educada e intelligente.
Encontrou o noivo uma duzia de vezes, elle pediu-lhe licença para
confessar aos paes que a amava muito.
D'alli a dous mezes, concluidos os preparativos, casaram-se.
Não se conhecem nada, mas como as fortunas, as idades, e as posições
dos paes estavam em harmonia, concluiram que se haviam de dar
optimamente.
Aquelle casamento que agradou a toda a gente, consternou-me a mim.
O meu casamento ha de ser o unico romance da minha vida, mas affirmo-te
que o quero bem longo, bem completo. Quero que as suas paginas luminosas
lidas uma vez me dourem de mysteriosa claridade todo o futuro. Quero
amar o meu noivo para adorar eternamente o meu marido.
Dizem que o dever é sempre custoso de cumprir.
Conforme!
Eu tenho dezoito annos, e nunca até hoje liguei á ideia do dever uma
ideia que não fosse de satisfação intima.
Sou tão feliz em amar meus paes, em soccorrer os desgraçados, em
cultivar o meu espirito, em sacrificar os meus prazeres aos prazeres de
alguem!
O sacrificio seja elle de que genero fôr, parece-me uma dôr suave, uma
sensação de pungitiva delicia, que nos eleva e nos engrandece.
Só os que sabem sacrificar-se affirmam a sua superioridade.
Tenho medo de ser criminosamente aristocrata.
Parece-me que assim como as pessoas bem educadas nunca se deixam
avassallar pela gula, pela violencia dos appetites grosseiros, assim as
almas finas não devem entregar-se a uma ambição desregrada de prazeres.
Soffrer é uma condição humana, mas ha soffrimentos que são a mais
requintada das doçuras.
Ás vezes olho para minha mãe e lembro-me que se pudesse trocar a minha
robustez pela sua debil saude, a minha cabelleira densa e loura pelos
seus lindos cabellos brancos, a minha alegria exhuberante pelo seu
sorriso meigo e soffredor, conheceria um gráo de felicidade mais puro,
mais alto do que todos os gozos que até agora experimentei.
E no emtanto ao dar-lhe a minha mocidade, ao receber em troca a sua
velhice, de certo que sentiria infinitas saudades!
Não se renuncia friamente a todas as esperanças do futuro!
Seria, porém, uma das taes dôres que eu amo, uma d'aquellas tristezas
divinas que fazem bem á alma e como que a depuram das imperfeições da
terra.
Será isto romantismo, Theresa?
* * * * *
Andam commigo agora de baile em baile, de _soirée_ em jantar.
Imaginam que me enganam, os queridos velhinhos!
Elles que gostam tanto do cantinho do fogão, onde conversam, e se
recordam de tudo que passou, fingem um subito e inexplicavel desejo de
distrações mundanas.
Eu sigo-os com um sorriso malicioso que ás vezes os assusta.
Sabes as minhas ideias, não é verdade?
Que garantias de futuro me daria a mim um marido apanhado a laço á luz
dos lustres dourados, em uma sala de baile frivola e banal?
Não é ahi que eu encontrarei de certo o noivo da minha alma!
Porque é que se não poderá alliar a poesia do coração com os deveres da
realidade? Não entendo isto!
Pois só serão deliciosos os amores vedados?
A mim parece-me que a vida com o seu cortejo de dores, de deveres, de
sacrificios, de affectos, a vida com a sua manhã purpurea e gorgeada,
com o seu meio dia luminoso em que rompe em ondas crystallinas a musica
triumphante dos vinte annos, com a sua tarde melancolica d'uma doçura
indefinida e dubia, com a sua noite emfim, noite estrellada e calma, em
que esmorecem e expiram todos os rumores da terra, é como que um poema
completo, uma symphonia em que ha todas as notas, todos os tons, todas
as expressões.
Os que amaldiçoam a vida, ou querem fugir das suas commoções naturaes,
procurando n'um meio artificial, n'uma atmosphera de estufa outros
gozos, outros prazeres, outras angustias, são esses que não entendem a
opulencia harmoniosa da criação!
Ser filha, e noiva e esposa e mãe! onde acharemos estados da alma mais
completos que aquelles que resultam naturalmente d'estes modos de ser?
Aqui ha tudo! Alegrias, dôres, sobre-saltos, esperanças, sonhos,
arrebatamentos, extasis ineffaveis!
Não proscrevamos o romance da vida, pelo contrario identifiquemol-o com
a vida!
Ponhamos no nosso modo de sentir a maior porção de ideal, a que sejamos
accessiveis.
Pensar que o dever só póde comprehender-se _terra a terra_ é amesquinhar
e rebaixar o dever!
A paixão não precisa de ser criminosa para nos dar gozos supremos; creio
mesmo que é o crime que a torna amarga aos labios e dolorosa ao coração!
* * * * *
Perguntavas-me no outro dia maliciosamente se eu faço a minha leitura
predilecta da _Moral em acção_.
Não faço.
Se ha cousa que eu acho desmoralisador é um tratado de moral _chaufé à
froid_.
Sabes quem são os meus mestres do bom e do bello? São Beethoven, Mozart,
Hayden, os meus queridos e nobres artistas.
Cada dia me deixo levar mais apaixonadamente por este amor da musica que
me consola, e me levanta e por assim dizer me realiza todos os sonhos
ambiciosos da minha alma.
Presinto que se chegar na vida para mim uma hora sombria em que veja por
terra os meus idolos, a musica me ha de consolar de tudo!
Ha pessoas que choram com a musica. Foge sempre da musica que faz
chorar. É enervante, é perigosa e traiçoeira.
Mozart e Beethoven não enfraquecem, fortificam. Dão-nos á alma como um
grande banho de ar puro.
Fazem-nos subir ás alturas immaculadas e de lá ver tudo que é pequeno,
ephemero, transitorio aos nossos pés.
Ó Beethoven, se eu alguma vez fôr trahida envolve-me nas tuas azas de
luz!
* * * * *
Não te disse eu que o meu romance existia algures, n'um mysterioso
recanto onde eu ainda não déra com elle?
Não me enganei.
Existe.
Tem vinte e cinco annos, ha muita gente que diz que elle é feio. Eu
acho-o simplesmente adoravel.
Tem uns bellos olhos escuros que a paixão illumina, de que a ironia faz
chispar faiscas sombrias, e que em horas de embevecimento e de ternura
tem segredos doces de uma bondade ineffavel! Tem uma testa larga e
pensativa, e uma boca desdenhosa como se o sarcasmo a houvesse
affeiçoado.
Acham-lhe innumeros defeitos, eu acho-lhe sómente alguns.
Mas é para aquelles que a vida endureceu e azedou, que as almas moças
devem abrir os mananciaes da sua fé.
Hontem disse-me, depois de me ter ouvido tocar piano durante tres horas,
que eu lhe fizera tanto bem, que se esquecia por amor de mim do mal que
todos os outros lhe tinham feito.
Estas palavras que em outra boca seriam uma banalidade, na boca d'elle
pareceram-me um juramento que vinculava para sempre as nossas duas
vidas.
* * * * *
Tres annos de silencio! Como é que tu has de perdoar-me, Thereza!
Mas se eu te disser uma cousa, só uma cousa, perdôas-me de certo.
Sou muito infeliz.
Quiz talvez realizar o impossivel, quiz achar no amor de meu marido o
conjuncto de todos os amores de que eu me sentia capaz.
Fiz tudo para conservar a felicidade, e a felicidade fugiu-me.
_Elle_ vê em mim um pezo, uma prisão, talvez que um grande
desapontamento.
Nunca me queixo. Para que?
A gente não deve queixar se, porque é uma humilhação escusada e inutil.
Procuro convencer-me de que na vida de todas as mulheres ha d'estes
cilicios occultos que ellas supportam ageitando nos labios um sorriso
heroico.
Não renego nenhuma das minhas ideias. O dever consola, o dever compensa.
Não comprehendo que, porque um faltou ao contrato ideal que fez com a
consciencia, o outro deva faltar tambem.
Emquanto _elle_ me quizer junto de si, hei de dar-lhe toda a minha vida,
feliz d'este sacrificio sem paga.
Illudi-me porque lhe quiz muito, e perdôo-lhe por que me illudi.
* * * * *
Hontem, minha mãe, a pobre velhinha que succumbe ás agonias da sua
recente viuvez, dizia-me diante do berço de meu filho desamparado, do
meu orphãozinho, cujo pae vive ainda:--Acabou-se tudo! Naufragámos todos
tres!
Pelo contrario! Agora é que tudo começa!
Não imaginas a coragem e a energia que eu sinto em mim!
Sou eu, minha mãe e meu filho.
Uma quasi que perdeu a consciencia, o outro não a tem ainda. Sou eu que
preciso pensar e trabalhar por todos tres.
Na grande desgraça que me feriu, a ideia de que sou necessaria, de que
me tornei indispensavel aos entes a quem mais quero, inoculou-me no
espirito dilacerado uma força superior.
Mas como foi que tudo isto succedeu? perguntas tu cheia de pasmo.
Não sei! Uma mulher que passou, uma artista que tinha em talento o que
lhe faltava em coração e que o levou atrás de si, satelite desprezivel,
de um astro cahido.
Não tenho saudades d'elle, crê que não tenho.
O homem que eu amei era uma nobre e digna creatura, incapaz de transigir
com a honra, e de submetter-se á tyrannia dos appetites brutaes.
Tinha defeitos, era violento, apaixonado, irascivel, mas era honesto.
Esse homem morreu, ou não existiu nunca.
O que fugiu não se parecia com elle.
Quando estou só, estremeço ás vezes com um asco intraduzivel de mim
propria.
Quem é que se consola das maculas de um tal amor?
Não te disse eu, que se tudo me faltasse, os meus velhos mestres, os
meus amigos, as almas sonoras e transparentes que sabem traduzir em sons
tudo que ha de bello na natureza, as côres, os perfumes, as linhas, o
mundo da materia e o mundo do espirito; não te disse eu que elles me
consolariam e me haviam de amparar?!
Chegou o momento supremo.
Chamei os e não faltaram ao meu apello.
Mostrei-lhes o meu coração partido, o meu orgulho machucado, as minhas
illusões desfeitas e disse-lhes: Consolai-me! Mostrei-lhes o meu filho
pequenino, e a minha mãe decrepita, e disse-lhes: dae-lhes pão!
E ouviram-me as almas adoraveis!
Sinto em mim a virilidade augusta dos fortes.
* * * * *
O meu Arthur tem hoje quinze annos.
É um formoso adolescente, louro e timido como uma virgem.
Vivemos eu e elle n'uma casinha de um bairro tranquillo e retirado.
De dia elle frequenta o lyceu, e eu dou as minhas lições de musica, á
noite lemos, conversamos e tocamos juntos.
Todos os annos, n'um dia certo, fazemos uma romagem piedosa.
Vamos visitar ao cemiterio o tumulo de pedra, pobre e modesto, onde
dorme o seu tranquillo somno a minha querida mãe.
Foram serenos e doces os ultimos dias que ella viveu na terra.
Ajudou a crear o meu Arthur, que era tão endiabrado e travesso como hoje
é tranquillo e scismador!
Eu sahia de casa muito cedo, e deixava-os a ambos juntos a papaguearem
alegremente, porque não ha nada que illumine a tristeza dos velhos como
a alegria dos netos.
Ao principio era-me doloroso aquelle monotono trabalho de ensinar os
principios de musica, mas quando vi desenvolver-se em casa o conforto
devido aos meus pertinazes esforços, cobrei nova coragem e alentos
novos.
Sahia com mais animo e voltava com mais alegria.
Em mim faziam-se dous trabalhos: Procurava afazer-me á minha nova
existencia e apagar da memoria o meu passado enganoso.
Tivera o meu romance, e o romance deixára-me na boca o travor amargo das
cousas insalubres!
Em todo o caso nunca me arrependi de ter aspirado a saciar a minha sêde
de ideal nas fontes puras do coração.
Era mais feliz na minha infelicidade que os outros nas suas alegrias!
A minha vida de professora, fazendo-me penetrar em muitas casas
diversas, deu-me ensejo para conhecer melhor o mundo.
Encontrei muita gente alegre e satisfeita que me causou profundo dó.
Marido e mulher separados pelas ideias moraes, pelas crenças religiosas,
pelas occupações, pelas indoles diversas, pelo modo antithectico de
encarar as cousas; unidos sómente por um laço, o habito; por uma força,
as conveniencias sociaes.
Oh! antes o meu desamparo, antes o abandono em que eu fiquei na flôr da
vida!
Conheci muitas mulheres que procuravam no turbilhão mundano consolação
para intimas tristezas; outras, que me confessaram chorando, que a
ingratidão e a inconstancia do marido as arrastára á perdição, ao
desprezo de si proprias.
Não as repelli, porque não tinha direito para ser implacavel;
lamentei-as, não porque as achasse dignas de lastima, mas porque me
pareciam dignas de desdem!
Como se o crime posterior da mulher não fosse a justificação do crime
anterior do marido!
Ser boa e digna e virtuosa, quando tudo nos ajuda a isso, grande
milagre!
Na solidão, no abandono, na injustiça do mundo, é que a honestidade da
mulher se acrisola!
Se meu marido não houvesse fugido de mim, deixando-me nos braços uma
creancinha de mezes, como poderia eu conhecer as luctas da vida e ter
sahido triumphante das provações da desgraça?
Não imaginas, querida amiga, como hoje é doce e tranquillo o meu
outomno!
Em primeiro lugar o querido anjo que eu eduquei sósinha, depois a
musica, as flôres e os bons livros. Falta-me a minha mãe querida, mas
essa morreu abençoando-me!
Ao domingo, quando eu e Arthur nos achamos bem sós, no nosso pequeno
gabinete de trabalho, chego a conceber a beatitude do paraizo.
Sento-me ao piano e toco, toco até me sentir sem forças.
Converso longamente com os amigos da minha mocidade, com os que me
vestiram a alma da crystallina armadura que resistiu a todos os
attrictos da miseria humana.
Conto-lhes as luminosas aspirações da minha adolescencia, a ideia que eu
fazia da abnegação, do amor, do sacrificio; e os esforços que empreguei
para me cingir sempre a essa ideia levantada e superior.
Conto-lhes o bello instante radioso em que na minha vida desabrochou a
flôr mysteriosa que elles me haviam ensinado a julgar o premio mais dôce
de um coração cheio de fé. E com que extremos eu cultivei essa flôr que
um dia se desfez em cinzas nas minhas tremulas mãos! E como a doce
illusão de a possuir me fizera melhor!
Depois conto-lhes a tempestade que subitamente fez sobre mim a sua
explosão sinistra, e o meu desamparo e a minha dôr fulminadora, e a
vacillação tremenda em que eu vi tudo que julgara immutavel prestes a
desabar, deixando-me só ruinas!
Foi então que o amor d'elles me salvou, foi então que as suas vozes
divinas me chamaram, e que, na esphera elevada em que elles moram, eu
me senti penetrar da calmaria adormecedora de todas as paixões ruins!
No outro dia, depois de tocar duas horas, esquecida de tudo, procurei
meu filho e achei-o de joelhos ao pé de mim.
Tinha a gentil cabeça loura mergulhada nos meus vestidos, e, quando
levantou os olhos cheios de lagrimas, disse-me com uma voz em que se
fundiam todas as musicas:
--Ó mãe, Deus te abençôe, porque foste ultrajada e trahida, e eu posso
amar-te e respeitar-te.
A CIGANA
Quando o gageiro gritou do alto das vergas--terra!--toda a gente que
vinha a bordo da galera _Terrivel_ sentiu uma grande e indefinida
alegria.
Subiram uns para o tombadilho, outros deixaram-se ficar no convez, e os
passageiros da prôa, os mais pobres, encarapitaram-se na amurada;
começaram todos a olhar com uma anciedade febril para a facha escura que
a pouco e pouco avultava no horizonte.
A viagem tinha sido longa; a galera levára cincoenta dias a chegar do
Rio de Janeiro.
Mas, todas essas penas, todo esse aborrecimento que assaltam o viajante
que durante dias e dias não vê mais que o céo e o mar, desapparecem
como que por encanto ante essa palavra magica, solta pelo
gageiro--terra!
Os passageiros eram, na maior parte, gente de baixa condição e de
ambições modestas: tinham sido no Brazil carroceiros, feitores de roça,
carpinteiros e pedreiros.
Vinham com pouco dinheiro, mas traziam grande abundancia de saudades;
tinham soffrido, padecido longe da patria, mas como ella os ia compensar
de todas essas amarguras!
A alegria bailava em todos os olhos.
Ah! o capitão Navarro, apezar de ter feito aquella viagem cincoenta
vezes, tambem vinha contente e esfregava as mãos, tomado de um jubilo
desmedido.
Quando o piloto se correspondia com o castello da barra, o capitão
impaciente, mas sem perder o seu aspecto risonho e benevolo, perguntava:
--Deixam-nos ou não nos deixam entrar a barra?
--Estão-me agora a perguntar se morreu alguem a bordo.
--Ora essa! Morto estou eu por me vêr em Massarellos. Querem vêr que
ainda temos que ir dar com os ossos em Vigo? Com mil bombas! Era o que
me faltava agora!
Mas não aconteceu o que o capitão receiava: do castello fizeram signal
que a galera podia entrar, e foi com uma voz vibrante de enthusiasmo e
de um prazer intenso que o capitão commandou a manobra.
A galera como um cavallo que obedece facilmente á pericia de um optimo
cavalleiro, proejou a barra em meio das exclamações dos impacientes e
saudosos passageiros.
* * * * *
A galera fundeou defronte de Massarellos.
No dia seguinte, já não havia alli senão parte da tripulação e um ou
outro marinheiro que não tinha familia e que olhava para o cáes com
repugnancia e com desdem.
As capoeiras em redor do tombadilho estavam despovoadas, a roda do leme
reluzia ao sol, parada, sem movimento, as tampas enceradas da meia
laranja abriam-se como as azas de uma enorme borboleta em repouso, e as
mangueiras de linho cheias, retezadas, levavam o ar á camara e ao porão.
Um bello dia de agosto!
O capitão Navarro assistia ao descarregar sentado em uma barrica de
farinha de mandioca; o contra-mestre no portaló olhava mais lentamente
para o Douro como quem procura enxergar uma cousa desejada e cubiçada.
--Ainda nada? perguntou o capitão.
--Admira, capitão! Das outras veses pouco se deixa esperar essa visita.
E com a mão em quebra-luz continuava a observar o movimento dos botes e
das catraias.
De repente, a _Cigana_, uma cadella de fila que era o idolo de toda a
tripulação do navio, deu um salto, subiu as escadas do portaló, e
alongando o pescoço, meneou festivamente a cauda e ladrou de contente...
Era um latir alegre e de boa feição, o latir que ouvimos aos cães das
nossas casas, quando recolhemos depois de longa ausencia.
--Espera! disse o contra-mestre, a _Cigana_ tem faro. Ahi vem a sua
gente, capitão!
Navarro ergueu-se, olhou e viu um barco que, á força de remos, se
dirigia para a galera.
--Até que emfim! disse o capitão, e desceu cheio de contentamento as
escadas do portaló...
A cadella, vendo descer o dono, acompanhou-o e saltou ao mesmo tempo que
elle para o interior do barco.
O contra-mestre olhava de cima aquelle quadro e murmurava entre alegre e
melancolico:
--Parece que é bom ter familia e ter uma pequerrucha bonita como a do
capitão que nos venha dar um abraço quando vimos de longe...
--Assim será, meu contra-mestre, mas quando essa filha vem de luto,
devendo vir vestida de côres alegres; quando ella nos vem dizer com a
voz abafada em lagrimas e soluços--a mamã morreu!--não me parece que
seja muito para invejar, meu rude celibatario, que não tens outro
affecto senão pela tua galera e pelo mar, a quem confiaste a tua
mocidade e a quem confiarás um dia o repouso do teu corpo!
* * * * *
De sorte que aquelle momento tão appetecido pelo capitão foi-lhe
amargurado pela noticia da morte da mulher que elle extremecia devéras.
Eram quatro os affectos do capitão: a mulher, a filha, a _Cigana_ e a
sua bonita e garbosa galera.
O primeiro affecto desapparecêra, restavam-lhe ainda os tres; não tinha
muito que se queixar do destino: a galera ali estava capaz ainda de
arrostar com sessenta viagens, a filha dependurava-se-lhe do peito amplo
e largo, cheia de viço e de adoravel meiguice, e aos pés de ambos,
rojava-se latindo baixo a _Cigana_, acariciando-os com os olhos onde
havia o indefinido das vagas, e como que um lampejo humedecido de uma
ternura doce e humana.
A filha de Navarro, depois de haver chorado no seio do pae, abaixou-se e
passou a mão pela cabeça da cadella.
--Quando partir de novo, papá, deixe-me a _Cigana_, sim? A mamã era tão
amiga d'ella!
A _Cigana_, parecendo comprehender aquellas palavras, endireitou-se, e
pousando as patas no collo da menina, beijou-lhe carinhosamente as
mãos...
Quando Navarro chegava do Brazil e ia passar algum tempo a Lessa com a
familia, levava sempre em sua companhia o seu querido animal! Imagine-se
como este seria amimado, festejado e cheio de affagos quando souberam
que uma vez no alto mar...
* * * * *
Não sei quantas milhas devorava n'esse momento a galera.
Era meio-dia, fazia um sol de rachar, os marinheiros á prôa comiam o
rancho, e na tolda não estava senão o capitão, a _Cigana_, e o homem do
leme.
O piloto fôra buscar ao seu beliche um mappa que o capitão lhe pedira, e
demorara-se mais que o tempo necessario. Navarro ergueu-se do banco de
vime e encostou se ás grades da ré.
Como foi aquillo? Vertigem? Congestão cerebral?
Foi elle encostar-se á grade, estar alli cousa de dous ou tres minutos,
e de subito borcar-se-lhe o corpo nas ondas...
O homem do leme viu aquillo, e afflictivamente exclamou:
--Jesus! acudam!
E quando os passageiros correram ao tombadilho e a tripulação veiu saber
o que succedera, o piloto, pallido e assustado, mandou colher todo o
pano; podia vêr-se ao longe em meio das aguas, que faiscavam e
transluziam os raios do sol, um ponto negro e que pouco a pouco parecia
affastar-se, affastar-se...
Os dous escaleres da ré foram descidos ao mar, e dentro d'elles os mais
robustos dos tripulantes.
--A modo que elle não estava bom! disse o homem do leme. Que eu só
reparei n'elle quando o vi no ar...
--Deitem-lhe a boia! gritou o contra-mestre.
N'aquelle momento de anciedade, procurou-se a boia e não se encontrou.
O contra-mestre estava desesperado, as pragas mais violentas sahiam-lhe
em borbotões por entre os dentes, que apertavam estreitamente o tubo
fumoso do cachimbo.
O navio afrouxára a sua marcha, comtudo os escaleres ainda iam bastante
longe do ponto negro que todos julgavam ser o capitão.
--Lá bom nadador é elle, dizia o contra-mestre, mas se ha tubarões
assim! e reunia os dedos em pinha.
Estendia os braços, dependurava-se da grade da pôpa, e com gestos
anciosos tentava animar os marinheiros dos escaleres.
--Força, rapazes!
No rosto de todos os passageiros lia-se um grande terror e uma pena
profunda.
Era impossivel escapar. O capitão apesar de bom nadador já estava velho
e cançado, depois os tubarões...
Os marinheiros contavam casos horrendos que haviam presenciado, e em que
figuravam esses assanhados tigres do mar.
--Valha-nos o senhor de Mattosinhos! conclamavam n'um grito lancinante
aquelles homens, que tantas vezes tinham luctado heroicamente contra as
colericas sanhas da tempestade, e que adoravam o bondoso velho, o seu
capitão.
O ponto negro ia-se distinguindo mais nitidamente: ás vezes
afundava-se, outras vezes immergia-se; e emquanto os escaleres voavam, o
contra-mestre continuava a gritar, posto que as suas vozes já não
pudessem ser ouvidas pelos que iam em salvamento de Navarro.
Quando o vulto vinha a distancia de uma milha o contra-mestre exclamou,
affirmando a vista:
--Ou eu me engano, ou o capitão não vem sósinho... esperem! é a _Cigana_
que traz a reboque o patrão!...
Era a _Cigana_ effectivamente. Quando o velho cahira ao mar, o animal
atirara-se logo atrás, e mergulhando conseguira apertar nos dentes as
roupas do capitão, e desde esse instante nunca mais o largára.
Quando os escaleres se aproximaram dos dous, a pobre _Cigana_ estava
quasi exhausta e sem forças.