Uma estufa de plantas raras, de extranho colorido, de fórmas

phantasticas e inquietadoras, de cheiro irritante e acre; taboleiros de

_gazon_ d'uma frescura esmeraldina, camelias, rosas, trepadeiras

floridas, tudo que as tyrannias da arte teem misturado nas liberdades da

Natureza.

O visconde depois de haver-se rodeado de tudo que póde tornar aos ricos

a vida não só aprazivel o que é pouco, mas invejavel o que é muitissimo,

começou a grangear relações, e a receber com bizarra hospitalidade os

amigos que durante o inverno adquiria nas salas da capital.

Em Lisboa não era menos rica, nem menos confortavel, a habitação do

millionario.

Vastos salões ricamente mobilados, equipagens de alto estylo, criadagem

insolente e ociosa, escadarias alcatifadas, bailes e ceias onde toda a

côrte concorria tão cheia de curiosidade como de gulodice, jantares aos

quaes eram convidados os ministros, os titulares, os diplomatas

estrangeiros e os funccionarios mais influentes, tudo emfim que póde dar

á vida um aspecto opulento e principesco, tudo que constitue o orgulho

supremo dos mediocres e a inveja brutal dos ambiciosos.

De resto o dono da casa era tão pouco conhecido da maioria dos

frequentadores das suas festas, que mais d'um o tomou pelo criado de si

mesmo, e lhe pediu com desdenhosa insolencia, o paletot, ou um copo de

agua.

O visconde enviuvára antes de deixar o Brazil, e os que haviam conhecido

sua mulher, não lamentavam que a pobre senhora fosse dispensada pela

Providencia de assistir á espectaculosa _mise-en-scéne_ da vida dos que

tinham sido seus.

O visconde tivera do seu matrimonio, duas filhas e dois filhos.

Na epocha em que elle maior ostentação desenvolvia, teriam as meninas

dezoito a vinte annos.

Tinham sido educadas em casa, por uma mestra franceza escolhida pelo

pae. Vestiam-se da _Aline_, quando não mandavam vir directamente de

Pariz as suas _toilettes_ extraordinarias, e sempre muito além da moda.

Usavam tudo que havia de mais excentrico. Os chapeus mais pequenos, ou

os chapeus de mais largas abas, os vestidos que deixassem vêr o pé todo,

ou os vestidos cuja cauda roçagante lembrasse um manto de rainha... de

theatro.

Havia tempos em que usavam na cabeça o cabello de uma duzia de mulheres,

e outros tempos em que appareciam de repente de cabello cortado como os

rapazes, encaracollado e de risco ao lado.

Timbravam em não se parecer com mais ninguem.

Mas não podiam eximir-se a um defeito especial que as fazia darem muito

na vista. Occupavam-se extremamente de si.

Fallavam do seu _boudoir_, das suas _toilettes_, das meias de sêda de

tres libras ou doze mil réis--as unicas que traziam--, do elegante

_edredon_ do seu leito, das finas perfumarias do seu toucador.

Isto fazia rir com riso amarello as _amigas_ mais intimas, que diante de

gente, costumavam _puxar-lhes pela lingua_.

De resto as filhas do visconde seguiam rigorosamente os preceitos e

regras da _alta-vida_.

Tinham assignatura em S. Carlos, para serem vistas, e frequentavam

assiduamente a egreja, para se parecerem com as filhas de condes

pallidas e anemicas, cujo luxo superior é a devoção e a caridade,

diluidas ambas as cousas em pequeninas praticas de todos os dias.

Sabiam conversar pouco mais ou menos sobre tudo, sendo no fundo d'uma

crassa ignorancia ácerca de todas as cousas.

Como dissemos fôra franceza a mestra que as dirigira. Dera-lhes o verniz

da educação, e mais nada.

De linguas sabiam o bastante para conversarem com os diplomatas; de

musica, para criticarem o physico das cantoras; de artes para revellarem

a cada instante a negação profunda que tinham para o bello.

Respeitavam e invejavam todas as superioridades sociaes; o dinheiro, a

fidalguia herdada ou comprada, a posição, as honras, a formosura.

Desprezavam profundamente uma só cousa: a pobreza.

Quando viam alguem pobre, pouca ou nenhuma attenção lhe prestavam; mas

se esse _alguem_ tivesse a inaudita ousadia de apresentar uma ideia, uma

opinião, um juizo, de contrarial-as, de escarnecer alguma das cousas que

ellas acima de tudo reverenciavam viam-as então revellar um pasmo

sincero, um espanto que tinha o seu quê de tragicamente ridiculo.

Um dia ouviu alguem a uma d'ellas este aphorismo extraordinario.

_Quem é pobre não tem opinião._

E tinham um modo de levantar a voz, de alçar altivamente a cabeça, de

sublinhar vigorosamente as palavras, que mais do que tudo confirmava que

ellas como pessoas que possuiam duzentos mil réis por mez, só para os

seus alfinetes, não tinham nunca imaginado sequer a possibilidade de não

terem razão.

Era uma maneira não menos auctoritaria, porém menos correcta de dizer o

que á senhora de Stael disse um dia a duqueza de la Ferté.

_Il n'y a que moi, chère amie, qui aie toujours raison._

Ahi estão pouco mais ou menos as duas filhas do visconde.

* * * * *

O filho mais velho, que partilhara no Brazil os primeiros trabalhos e as

primeiras luctas de seu pae, adquirira com a victoria d'elle, que era

tambem sua, o mesmo ar de ingenua superioridade.

Tinham trazido do Brazil uma fortuna collossal, logo tinham o direito de

dominarem onde quer que estivessem.

Toda a gente que frequentava a casa d'elles, que lhes aturava a

impertinencia boçal, confirmava pela sua servil condescendencia esta

convicção; porque é pois que não haviam de a sentir?

O primogenito do visconde occupava-se muito, com verdadeira alegria de

seu pae, de cifras e de operações bancarias; jogava em fundos

extrangeiros, tinha a vocação mercantil pronunciadissima, e nos

intervallos que estas occupações transcendentes lhe deixavam, governava

um carro, e mandava _correr_ os seus cavallos.

Estivera em Londres, quando lá fôra deixar n'um collegio o seu irmão

mais novo, e voltara com certas aspirações a _gentleman rider_.

Fallava pouco, com ar sacudido, apressado, sentencioso.

Usava suissas e vestia d'um alfaiate inglez. Queria ser homem sério,

respeitavel, homem de pezo, e pensava n'uma candidatura como n'um

pedestal proprio para as suas attitudes.

É no meio d'esta familia admiravelmente feita para a sua epocha e para a

posição que tem, que vamos encontrar Gastão, o ultimo filho do visconde,

um phenomeno destinado a contrariar tudo que se tem dito e escripto

sobre a lei da hereditariedade.

Gastão tem vinte e um annos, é alto, delgado, d'uma constituição tão

delicada e nervosa, que ao lado de suas irmãs com o seu ar masculino e

as suas inflexões duras, elle é que parece a mulher e ellas é que

parecem os homens.

Dizem os que um dia se atreveram a chasqueal-o pelo ar timido e suave

que apparenta, que nos seus olhos azues, d'uma expressão triste e

soffredôra, passou um relampago de colera, pouco tranquilisador para os

que abusarem da sua excellente educação.

Gastão da Silveira, chegara havia pouco d'uma viagem que fizera pela

Europa, depois de concluir a sua formatura n'uma Universidade de

Inglaterra.

Da sua familia não sabia senão que era rica, e que vivia grandemente,

como elle tinha visto viver os opulentos banqueiros inglezes, nas suas

deliciosas casas dos arrabaldes da cidade, confortaveis e luxuosas.

Esta informação não lhe faltava porque seu pae, suas irmãs, seu irmão

mais velho, nunca se cançavam de lh'a repetir em todas as cartas.

Isto porém não bastava a Gastão. O que elle desejaria profundamente, era

conhecer a fundo o caracter dos seus, e o que d'esse caracter lhe

revellavam as cartas seccas e laconicas de que fallamos, teimava elle na

sua fé juvenil, em não o acceitar como prova ou como manifestação.

Tinha pelos seus amigos e condiscipulos conhecido a vida ingleza em

relação á familia, fôra convidado para passar as ferias, em casa de

ricos industriaes na companhia de alguns dos seus mais caros collegas de

estudo, e podera conceber um ideal realisavel, de paz, de conchêgo, de

conforto domestico, que anciava encontrar no seio da sua familia.

Tinham-lhe dito que seu pae ganhara pelo trabalho a grande fortuna que

possuia, e Gastão habituado a observar a actividade enorme, incansavel,

persistente, a fecunda actividade ingleza, sentira crescer o amor pelo

visconde ao saber a tenacidade com que elle trabalhara.

Intelligente, d'uma intelligencia fina e delicada, a viagem que fizera

desenvolvera-lhe o espirito, e afinara-lhe o gosto.

Voltava cheio de ideias, de factos, de noções praticas, respeitando

acima de tudo a intelligencia, e a dignidade da vida.

Como homem educado ao contacto da vida inglesa, avaliava o dinheiro mas

não como um fim, simplesmente como um meio, o mais energico e infallivel

dos meios para chegar a grandes fins.

No dia em que Gastão conheceu seu pae e seus irmãos imaginem a dolorosa

surpresa que elle sentiria.

* * * * *

No animo do visconde e de seus filhos excitou porém o apparecimento

d'aquelle bello moço de maneiras distinctas, affavelmente dignas, de

espirito superiormente cultivado, de conhecimentos scientificos

excepcionalmente desenvolvidos, a mais agradavel das impressões.

Um irmão d'aquelles, um filho de tal maneira elegante e fino, dava-lhes

honra, dava-lhes importancia e realce. Se fosse um extranho ter-lhe-hiam

inveja, mas emfim, Gastão pertencia-lhes, era d'elles, a sua graça, a

sua superioridade, a sua distincção communicava-se-lhes, _destingia_

sobre as suas pessoas.

O visconde pensava que no fim de contas o que constituia o especial

encanto do filho, a educação, fôra elle quem a comprára muitissimo cara.

Podia orgulhar-se de Gastão diante dos extranhos mas queria dominal-o,

subordinar as opiniões d'elle ás suas, mostrar lhe bem claro, que o

adorava pelo que elle transmittia a sua vida de elegante e de superior,

mas que o considerava um objecto raro adquirido por muito bom preço, e

do qual dispunha absolutamente.

As _manas_, essas não occultaram no primeiro momento de enthusiasmo que

a posse de Gastão lhes dava muito mais _chic_ do que a posse do seu

_coupé_ novo tirado por dois cavallos inglezes _pur sang_ e cujos

arreios irreprehensiveis tinham sido louvados pelo embaixador de França.

--Ora tu verás, dizia a mais velha para a outra, que as Pimentas em

vendo Gastão ficam de _fel e vinagre_. Repara bem para a cara que ellas

fazem, sobretudo se vierem acompanhadas do _mano_, d'aquelle Leopoldo,

de olhos vesgos, de quem toda gente se ri, e que ainda não acertou a

fazer uma conta de sommar.

E exhibiam o irmão pelas salas das suas _amigas_, sob pretexto de que

não tinham quem as acompanhasse, e repetiam _em segrêdo_ a todas as

pessoas do seu conhecimento:

--Não fazem ideia! O mano Gastão é um poço de sciencia. Sabe todas as

linguas. Eu creio que elle até sabe sanskrito. O papá gastou immenso,

mas que educação que elle lhe deu!

E por aqui adiante uma ladainha em que se confundiam a _sciencia do

mano_, os _gastos_ do papá, a inveja que todos tinham d'ambos, e a

gloria que a ellas provinha da inveja, dos gastos e da sciencia.

Gastão tornara-se o luxo superior da familia.

* * * * *

Foi por esse tempo que o visconde entendeu que era necessario casar o

filho mais novo, visto que o mais velho dissera com desdem supremo que

só se atiraria a esse abysmo do casamento, quando tivesse completado os

seus folgados quarenta annos.

--Quando Gastão casar, as pequenas poderão frequentar mais os bailes, os

saraus e os passeios.

Eu gosto de receber em casa; não me incommodo com isso, mas lá para

andar sempre pelo meio da rua é que não estou. E depois Gastão póde

fazer um casamento esplendido. Está n'esses casos por todos os motivos.

E foi resolvido em conselho de familia, que Gastão tomasse estado.

A casa do visconde das Lagôas tornou-se a _mansão de todos os prazeres_,

como o bom do homem dizia na praça aos seus amigos titulares e

merceeiros. Bailes, jantares, _petites sauteries intimes_, concertos, a

fortuna!

A _leôa_ d'estas reuniões, que os noticiaristas immortalisavam na secção

da alta elegancia mundana, chamava-se Clotilde de Magalhães. O pae

ambicionava um titulo que ainda não tinha podido alcançar _dos

governos_, mas que mediante um avultado donativo a não sei que

estabelecimento bafejado pelo favor da côrte, lhe fôra promettido para

muito breve.

O conselheiro Magalhães dissera porém ao seu amigo o visconde das

Lagôas, que essa promessa lhe não bastava, que o que elle queria e

alcançaria decerto, visto que ao dinheiro nada é impossivel, era um

titulo em duas vidas, um titulo que elle podesse transmittir a sua filha

e portanto a seu genro.

O visconde ouviu e comprehendeu.

Desde esse dia as duas familias acariciaram como uma esperança

lisongeira, o projecto de enlace entre Clotilde de Magalhães, a filha

unica d'esse conselheiro millionario, e Gastão da Silveira, o elegante

filho do visconde das Lagôas.

Clotilde tinha vinte e dous annos. Uma esplendida physionomia peninsular

illuminada por um par de olhos negros, dos que ateariam incendios ha

trinta annos no seio apaixonado dos tetricos trovadores.

Era intelligente o bastante para occultar o soberano orgulho, que lhe

esterilisava o coração.

Tudo quanto a educação das salas tem de mais requintado e precioso

possuia-o Clotilde em larga escala.

Manejava facilmente duas ou tres linguas, cantava com uma voz de

contralto quente e apaixonada as arias mais enervantes dos mestres

italianos, dançava com uma perfeição de attitudes que a tornavam celebre

nos salões, vestia-se bem, sem excentricidades e sem plebeismos de mau

gosto.

As filhas do visconde das Lagôas invejavam-na ardentemente

conhecendo-lhe a superioridade dominadora, mas fingiam adoral-a, porque

da frequencia de Clotilde em casa d'ellas, resultava grande animação

para as suas _soirées_.

Clotilde que era caridosa em certas horas, e que ostentava o capricho da

_protecção_, tinha em sua casa, como companheira, pupilla ou o que quer

que fosse, uma parenta pobre de sua fallecida mãe.

Muitas vezes a levava comsigo ás reuniões mais intimas talvez por um

refinado instincto de garridice.

Tão admiravel e triumphante era a belleza de Clotilde, como doce,

modesta, soffredora, era a apparencia de Angelina. D'este contraste que

a todos os olhos se impunha, resultavam sempre grandes alegrias de amor

proprio para a elegante herdeira.

Angelina tinha pois uma dupla missão, inteiramente passiva. Fazer

sobresahir a bondade de Clotilde e a sua formosura.

* * * * *

Quando Clotilde conheceu mais de perto aquelle que seu pae lhe

promettera muito brevemente para esposo, comprehendeu logo, com a rara

perspicacia que a distinguia, que o que na sua pessoa havia de mais

brilhante e admirado pouca ou nenhuma influencia exerceria no coração

d'elle.

Uma noite em que a filha do conselheiro Magalhães estivera mais rodeada

de admirações lorpas e de cultos banaes, em que, ebria d'esse grosseiro

incenso das salas, ella exhibira todas as suas raras e distinctas

prendas de mulher bonita e de mulher garrida, ousou sorrindo perguntar a

Gastão, que mais d'uma vez a tinha olhado com mal disfarçada ironia:

--Não me dirá qual é o seu ideal de mulher? Vejo-o sempre tão

reservadamente cortez com todas as senhoras, que ainda não percebi o que

é preciso ser para lhe agradar.

--Meu Deus! não ha nada mais facil--respondeu o moço fictando o olhar

limpido e honesto no altivo olhar de Clotilde.--É preciso ser uma mulher

em quem ninguem repare.

--Julguei que a mediocridade o não captivava a esse ponto--volveu

Clotilde mordendo os beiços de colera.

--Mas é que não é ser mediocre ser modesta. É que a mulher que gosta de

brilhar, não sabe o que é sacrificio e abnegação, é que para mim todos

os encantos que se apreciam nas salas, não valem um bom e candido

coração que saiba amar-me e viver só para mim.

Não se póde dizer que Clotilde adorava Gastão, mas emfim a verdade é que

gostava muito d'elle. Achava-o superior, correcto, distincto, d'uma

aristocracia innata que a encantava.

Achava-o digno de si.

Não lhe sacrificaria nenhum dos seus triumphos, nenhuma das suas

vaidades, nenhum dos seus gozos, mas sacrificava-lhe com certeza todos

os seus adoradores.

Ser mulher d'elle era para ella um sonho radioso.

Discordavam, porém, em tudo, nos gostos, nas ideias, nos sentimentos, na

maneira de entenderem a vida.

Clotilde na arte preferia tudo que é brilhante e apparatoso; Gastão

amava tudo quanto é grande e dedicado. Clotilde só vivia no meio das

opulencias sociaes; Gastão tinha a ambição das alegrias intimas e

ignoradas.

Ella gostava do incenso de todas as lisonjas por mais grosseiramente

capitoso que fosse; elle mais d'uma vez dissera que achava ignobil da

parte d'uma mulher consentir que um sujeito de casaca, engravatado e

ridiculo, tivesse a audacia de lhe declarar perto do ouvido que a estava

achando formosa e cubiçavel.

--Só digo finezas ás mulheres a quem desprezo. São as unicas que nos dão

direito de lhes dizermos o que nos passa pela cabeça.

Um homem que diz cousas ternas a uma senhora, fazendo _boquinhas_ e

phrases romanticas, insulta-a d'um modo indigno.

Como é que as mulheres são tão absurdamente educadas que não percebem

isto?

Um dia perguntaram a Gastão diante de Clotilde se gostava da musica

italiana.

--Conforme! Gosto do bom que ha em todas as escolas. N'esse ponto sou

ecletico e creio que todos o deviam ser. Agora a musica italiana das

salas acho-a ridicula e pouco decente. Uma senhora a cantar arias em que

se falla de _amor_, de _paixão_, de _extasis inolvidaveis_, etc., que

diz _io t'amo_ revirando os olhos ao primeiro sujeito que passa, perdeu

o direito a que um homem serio a escolha para sua mulher.

Desde esse dia Clotilde deixou de cantar.

Gastão não percebeu o sacrificio, ou pelo menos não mostrou que o

percebera.

Era um espirito logico e recto, e tinha o defeito de se guiar na vida

pelas opiniões que professava.

* * * * *

Dançavam todos em casa do visconde das Lagôas, e junto d'uma pequena

mesa de trabalho, no gabinete das filhas do visconde, uma figura loura e

delicadissima, inclinada sobre um album de retratos, parecia ignorada e

esquecida de toda aquella multidão que se divertia.

--Porque não dança, senhora D. Angelina? perguntou jovialmente a voz de

Gastão. Se eu lhe pedir que seja meu par, recusa-me?

--Recuso, respondeu ella docemente, e uma côr viva tingiu-lhe as faces.

Recuso por muitas razões. Em primeiro lugar é um pouco extranho dançar

quando se tem a posição que eu tenho, porque emfim eu não sou mais que

uma _dame de compagnie_, uma aia, uma governante ou como queiram

chamar-me, de casa dos meus caridosos parentes.--Ao dizer isto, talvez

involuntariamente, na voz de Angelina havia umas inflexões de amargura

resignada.

--Depois--continuou--não danço porque me faria mal. Dóe-me muito o

peito!

Gastão sentiu dentro d'alma como que a brotar subitamente, um sentimento

que lhe era desconhecido e em que havia dó, tristeza, admiração, um

enternecimento sem nome que lhe embargava a voz.

Angelina era tão delgada, tão fragil, d'uma physionomia tão

delicadamente melancolica!

Para tudo a fizera o destino, menos para combater e para luctar. A

desgraça despedaçara-a sem que ella tentasse resistir-lhe sequer.

Como seria doce protegel-a, guial-a na vida, abrigal-a no peito contra

os embates hostis da adversidade!

Era assim que Gastão havia sonhado uma adoravel e submissa mulherzinha,

com aquelle olhar largo e limpido que lembrava um lago da Suissa, com

aquelles louros cabellos ondados emmoldurando uma testa setinosa e côr

de marfim.

Trocaram mais duas ou tres palavras, e depois separaram-se de novo.

Angelina talvez ficasse a scismar, que nunca mais teria occasião de ver

postos nos seus uns olhos onde se lesse tão doce e tão honesta

sympathia.

* * * * *

O visconde das Lagôas convidou a familia do conselheiro para estar um

mez na sua quinta do Alto Minho.

Angelina acompanhou naturalmente a sua gentil parenta e protectora.

No campo estabelecem-se facilmente intimidades que na cidade parecem

inconvenientes e impossiveis.

Gastão entre aquellas duas bellas creaturas, d'uma belleza tão diversa

como diversos eram os caracteres, poude apreciar e aquilatar a alma e o

coração de ambas.

Durante um mez Clotilde foi a rainha acclamada e triumphante do solar

provinciano povoado de numerosos hospedes que alternadamente chegavam,

ou partiam.

Era ella quem organisava as festas, quem dirigia as partidas, quem

inventava as distrações e os jogos. Activa, intelligente, soberanamente

caprichosa, ser dominada por ella constituia uma seducção. Emquanto

assim era o centro da animação festiva que se notava na opulenta casa do

visconde, Clotilde empregava para captivar Gastão todos os seus

artificios de sereia.

Envolvia-o no magnetismo irresistivel dos seus sorrisos mysteriosos, do

seu espirito acerado e mordaz, da sua graça magestosa e altiva.

Punha aos pés d'elle todas as homenagens de que era objecto.

Ás vezes á noite, sentava-se á meza com o desleixo creoulo que sabia

fingir, e punha-se a desenhar, com uma _verve_ comica imcomparavel, as

caricaturas dos galans suspirosos que a cercavam. Depois, conscia de que

a sua mão valia um milhão, e sem attender aos desesperos que excitava,

offerecia a Gastão os desenhos com um gesto ironico e submisso de que só

ella possuia o segredo encantador.

Os serões animava-os com a sua presença, com a sua voz, com a sua

mestria musical, com os seus conhecimentos variados adquiridos nas

viagens e nas leituras.

Angelina voluntariamente occulta no canto mais escuro da sala, assistia

a todo este jogo brilhantissimo com a silenciosa resignação de quem se

sente para sempre expulsa de todos os prazeres da vida.

Nem sequer percebia que era para o lugar em que ella trabalhava, que os

olhos de Gastão se dirigiam constantemente, e que elle tão desdenhoso e

tão ironico para com as outras, lhe fallava sempre timidamente,

respeitosamente, como os devotos fallam com o seu Deus, como as mães

fallam com os seus filhos doentes.

Houve um dia em que uma resposta quasi insolente de Clotilde a fez

padecer muito.

Arrazaram-se-lhe os olhos de lagrimas, levantou-se e foi encostar-se á

varanda toda enredada de trepadeiras que dava sobre o jardim.

Não percebeu que a crueldade de Clotilde significava um despeito, um

ciume, talvez uma agonia profunda de amor proprio! Pensou sómente que a

herdeira rica e poderosa insultava diante da sua familia, diante do seu

noivo, a orphã desamparada, e chamou baixinho por sua mãe, pedindo lhe

que a levasse comsigo para o ceu.

Então uma voz grave, sonora e viril, a voz d'um homem de coração e de

coragem, murmurou perto d'ella:

--Quer ser minha mulher, Angelina? Ha muitos dias que tenho vontade de

fazer-lhe esta pergunta e não me atrevia!

É que se me recusar, juro-lhe que me dá um desgosto muito grande! Não

faz idéa! Parece-me que a conheço desde que nasci, que nunca vi outra

mulher, que nunca achei possivel ter outra esposa... Talvez não creia...

mas olhe... hei de fazel-a muito feliz... hei de amal-a com uma devoção

tão profunda...

Angelina não o deixou concluir. Tapou-lhe a bocca com uma das suas mãos

diaphanas, e pallida, a tremer, deixou-lhe cahir a cabeça sobre o peito

a soluçar..............................

* * * * *

A familia de Gastão quando o moço lhe participou a resolução definitiva

que adoptára, repelliu-o do seu gremio illustre com o mais indignado

espanto.

Aquelle mesquinho enlace que vinha destruir tantas esperanças pomposas,

era para todos uma vergonha.

O visconde, as duas manas, o irmão mais velho, o conselheiro Magalhães,

tudo se revoltára contra o que chamavam o _romantismo_ de Gastão.

Só uma pessoa o acceitou sem colera e sem protestos.

Foi Clotilde.

Quiz ella propria conduzir á egreja a sua juvenil protegida, e até á

ultima hora teve para com ella e para com o homem a quem um dia no

intimo do coração chamára--o seu noivo--uma attitude irreprehensivel de

serena dignidade.

Gastão e Angelina vivem n'uma deliciosa casinha em Buenos-Ayres, onde ha

dias os visitei.

Elle alcançou uma excellente collocação n'uma casa bancaria; ella tem o

singular segredo de ser economica com elegancia e laboriosa com gentil

dignidade.

São ambos felizes como dois leaes corações que se estremecem e se

entendem.

No seu gabinete confortavel e artisticamente arranjado pelas mãos de

Angelina, quantas vezes á noite no tranquillo recolhimento do serão

commum, os dois noivos não lamentam a sorte dos seus parentes

millionarios!

Clotilde não casou ainda nem casará talvez.

Apparece em todas as festas, em todos os bailes, em todos os theatros,

sempre com o seu eterno sorriso mordaz nos labios empallidecidos.

Contos e Phantasias · 第 4 / 12 段