Um dos rapazes que fôra condiscipulo de Sebastião em Braga, voltando-se
para este, disse:
--É verdade, ó Sebastião, aquelle velhinho que uma vez te acompanhou á
mala posta, e que eu vi a chorar como uma creança na rua da Conega
quando se despediu de ti, era teu avô? Muito gostei eu do velhinho.
Parece que o estou a vêr a acenar-te com o lenço, correndo com as suas
pernas tropegas e cansadas atraz da carroagem, a dizer: O Senhor vá na
tua companhia!
Sebastião avincou o rosto, um rubor subito incendiou-lhe as faces, e
partindo uma noz, respondeu:
--Esse velho era caseiro de uma quinta que meu pae comprou quando esteve
ultimamente em Portugal.
O tio Sebastião voltou-se para o brazileiro. Estava livido, tinha os
labios apertadamente unidos, os olhos injectados de sangue. Esteve um
segundo, com os olhos fitos nos do cunhado, sem poder articular uma
palavra, bamboleando a cabeça, respirando offegantemente pelas narinas
palpitantes e dilatadas; depois cahiu nos braços do cunhado e prorompeu
n'um soluçar dilacerante e pungitivo:
--Ingrato! ingrato!
* * * * *
Quando o tio Sebastião chegou á sua aldeia, vinha pallido, desfeito,
parecia desenterrado.
A velha Joanna assustada perguntou-lhe:
--Que foi? que foi? E o menino?
--Morreu!
O ANNEL DO DIPLOMATA
--Parecia que vendia saude... tão forte que era!...
--É verdade! quem o havia de dizer!
--Era uma creança ainda, pouco mais tinha de setenta annos, volveu outro
que, pela figura e pelo andar tropego e vacillante, denotava ter os seus
oitenta, bem puxados.
--E olhe que era um bom homem! Você não viu como a filha chorava quando
o pozemos em cima da cama? Cortava o coração, coitadita!
--E honradinho! Eu sei cá! Poucos se topam por ahi com tão bons
sentimentos e com cara tão limpa...
--Lá isso!...
--Não, que quem sahe aos seus não degenera!
--Era muito amigo da pobreza! tartamudeou uma velha.
--Ó Christo! era o pai da pobreza, é o que vossemecê deve dizer, tia
Joaquina.
--E depois olhe que era o melhor letrado d'estas oito leguas em redondo.
--Aquillo era um _selvage_...
Assim fallavam alguns individuos pertencentes a diversas cathegorias da
pequena sociedade da villa de X***, descendo as escadas da casa do
advogado Vasconcellos que cahira mortalmente fulminado por uma congestão
cerebral, no momento em que defendia calorosamente um individuo que
n'uma allucinação brutal de ciume assassinára a mulher e dous filhitos.
* * * * *
O advogado Vasconcellos morrêra pobre, sorte de todos os causidicos de
provincia, que logram vencer, quando muito, por mez, o que qualquer dos
collegas de Lisboa e Porto dá aos seus agaloados trintanarios.
Filho segundo de uma casa de bom nome na provincia do Minho, cursava
canones e leis na Universidade, no anno de 1828, emigrando n'esse mesmo
anno, e vindo terminar o curso mais tarde, depois de ter defendido a
causa da liberdade, de parceria com outros condiscipulos, que tão
assignaladamente se distinguiram depois na politica, nas armas e nas
lettras.
Depois de formado, recolheu-se á sua villa natal, e não podendo contar
com a mezada que seu irmão lhe arbitrára, visto que os rendimentos da
casa mal chegavam para a alimentação e sustento do primogenito, abriu
banca de advogado, dependurando de um dos lados da estante de pinho,
encimada pela pasta verde e encarnada de quintanista, a lata com os seus
pergaminhos de bacharel _in utroque_, e de outro lado a farda impregnada
da polvora de vinte combates e varada pelas balas dos servidores
d'el-rei nosso senhor, no cerco do Porto.
A formosa irlandeza que o acompanhára no exilio, e que lhe foi denodada
companheira nas asperas provações da vida, morreu-lhe pouco tempo
depois, deixando-lhe dous filhos, um rapaz e uma menina.
Tanto um como outro eram educados com sollicitude e esmero, que para a
educação dos dous não se forrava aquelle pae amantissimo nem a despezas
nem a trabalhos.
O rapaz foi para Coimbra, e a menina para o convento das Salesias em
Lisboa, de onde recolheu quando o irmão entrava para o primeiro anno
juridico.
--É preciso estudar, Antonio, olha que se eu não tivesse aquellas
cartas, tinha de andar a cavar nas hortas de meu irmão, ou de esmolar
nas escadas ignobeis das secretarias um logar de porteiro ou de
amanuense, e isto ainda assim, apresentando como documento dos meus
serviços aquella farda...
Não eram necessarios estes conselhos. Antonio de Vasconcellos foi sempre
um sisudo moço, estudioso, o que não quer dizer que aquella mocidade
fosse bisonha e avessa ás ridentes alegrias dos vinte annos.
Pobre da arvore que ao sorrir da primavera se não estrelleja de flores,
e em cujos ramos folhudos e a revêrem seiva não cantam as toutinegras e
não assobiam os melros!
* * * * *
Recolhia-se á sua casa, em Coimbra, o moço estudante, alegre e contente
de si por ter correspondido bizarramente, n'uma sabbatina, ao alto
conceito em que o curso o tinha, quando lhe entregaram uma parte
telegraphica.
Rasgou alvoroçadamente o sobrescripto, leu e empallideceu horrivelmente.
--Meu querido pae! murmurou, e curvado sobre a sua mesa de estudo deixou
cahir a cabeça nos punhos fechados. Pobre pae! pobre pae! que me não
chegou a ver bacharel!
Na manhã do dia seguinte entrava por casa dentro, ao passo que descia as
escadas o caixão em que vinha mettido o pae.
Quizeram-no affastar, esconder-lhe aquelle espectaculo lutuoso, mas elle
resistiu, e abraçado ao cadaver do pae chorava como choram os que de
repente sentem que o braço amoravel que os guiava n'esta vida enfraquece
e esfria para sempre, deixando-os na mais desconsolada e algida das
solidões.
Amparado nos braços de um amigo da infancia, entrou no aposento em que a
irmã pallida e desfeita expedia gritos clamorosos e hystericos.
--Sósinha, repetia a misera, sósinha!
--E eu, minha querida Francisca? Não te lembraste do teu irmão? disse o
moço engulindo as lagrimas, e fazendo-se forte para dar coragem á
desgraçada menina.
Assim no alto mar quando o temporal arripia e ennovela as ondas, e o
velame bate nos mastros com o ruido molhado das azas de uma ave que se
afoga, e a marinhagem assustada grita e pragueja ante a morte proxima e
inevitavel, o capitão que tem filhos e esposa, longe n'uma pequena
aldeia á beira-mar, dá ordens com voz tranquilla, e commanda a manobra
com a serenidade de quem vê perto as aguas quietas e espelhadas do
ancoradouro.
* * * * *
Volvidos alguns dias, desceu o estudante ao escriptorio. Examinou as
gavetas e os moveis, a vêr se o pae havia feito as suas ultimas
disposições. Não encontrou senão minutas, autos, libellos em principio,
considerações juridicas.
--Parece-me que o estou vendo! A ultima vez que o vi, estava aqui
sentado e perguntou-me a rir se eu sabia o que era um libello!--disse o
moço para a irmã, que o acompanhava.--Respondi-lhe, e elle tornou:
--Caspité! Pois olha, que quando deixei Coimbra não o sabia. A minha
universidade foi esta banca. Aqui é que se aprende, deixa lá! E depois
tu verás!
Mal sabia elle que eu nunca havia de vêr isso...
--E porque, Antonio?
--Porque? porque estamos pobrissimos. O pae morreu honrado, mas sem
recursos. O que nos resta, filha, são umas cincoenta moedas, que a nossa
velha Joanna ajuntou com as soldadas ganhas no serviço da casa de nossos
avós, e n'esta... casa que é hoje d'ella, porque é ella que nos tem
sustentado desde que nos faltou o nosso querido amigo...
Bateram n'este momento á porta do escriptorio, Antonio de Vasconcellos
foi abrir. Appareceu no limiar da porta um lavrador que disse,
desbarretando-se:
--Queria dar uma palavra ao sr. doutor...
--Meu pae falleceu esta semana...
--O que! E eu que o vi ainda ha dias tão fero e rijo! Em nome do Padre e
do Filho... É o que nós somos n'este mundo... Que Deus o tenha na sua
gloria, que era um homem ás direitas... Então queira perdoar.
E sahiu emquanto os dous com os olhares atados um no outro, perguntavam
n'aquella muda linguagem, o que seria d'elles desamparados e sós
n'aquelle temporal, que tão a subitas lhes escurecera o azul sereno da
vida.
* * * * *
Alguns amigos do advogado e um parocho d'aquellas circumvisinhanças,
reunidos n'um sagrado pensamento, ajustaram entre si dar uma mensalidade
a Antonio de Vasconcellos, que a rogos da irmã acceitou aquelles
adiantamentos como uma divida que satisfaria mais tarde.
Temos o nosso estudante formado e prompto. Logo que se viu senhor dos
titulos alcançados pelo seu estudo e applicação, foi á villa natal
agradecer aos que o haviam tão evangelicamente amparado, e, por
conselhos de um condiscipulo, dirigiu-se a Lisboa, onde fixou
residencia, e entrou a frequentar o escriptorio de um dos advogados de
mais renome no fôro da capital.
Ir para a provincia trabalhar como um mouro, estudar como um
benedictino; para que? O resultado conhecêra-o elle, que o exemplo lhe
fôra mais que manifesto na propria familia. Em Lisboa encontraria campo
mais dilatado onde desafogar as suas altas aspirações.
O peior seria o primeiro anno e ainda o segundo, mas depois acudiriam os
clientes, e o seu nome adquiriria a gloriosa reputação com que outros
de menos talento se ufanavam.
--Ao principio, Francisca, dizia o moço doutor, não correrá tudo á
medida dos nossos desejos, mas tu has de ter muita coragem, não é assim?
Quando eu entrar em casa, e vir um sorriso na tua boca, verás como me
lanço ao trabalho com vontade e com intrepidez...
Pobre creança!
* * * * *
N'aquella época chegara a Lisboa um individuo que fôra o mais perdulario
dos _leões_ da Lisboa de ha trinta annos, e que presentemente occupava
um elevado lugar diplomatico em uma côrte estrangeira.
Contavam-se d'este homem excentricidades que fariam morrer de inveja o
mais fastiente e _spleenetico_ dos _lords_. Batera-se vinte vezes e por
motivos diversos, por questões de jogo, por questões de mulheres, e por
questões de politica.
Espirituoso, valente e rico, passou pelo mais bem acabado producto do
seu tempo e do seu meio.
Agora velho mas sempre original e taful, era estimado por todos, querido
nas salas, temido ainda na imprensa e respeitado pelos politicos a quem
asseteava com o acre azedume de quem já mourejou nos bastidores da
politica, e lhes conhece de sobejo os fumosos mysterios.
Estava Antonio de Vasconcellos no Chiado, conversando com um
condiscipulo, quando o diplomata se apeou de um trem, e se deteve a
conversar alguns instantes com umas senhoras que iam passando.
--Sabes quem é aquelle sujeito? perguntou-lhe o condiscipulo.
--Não.
--É Jorge de Alvim. O velho mais moço que passeia n'esta cidade
sorumbatica e sôrna...
--Esse nome não me é estranho. Foi condiscipulo de meu pae que o
estimava e tinha em grande conta, e até se me não engano, queimei uma
larga correspondencia travada entre aquelle homem e meu pae. A elle
pessoalmente não conhecia, mas é sympathico.
--E homem de grande influencia politica.
N'este momento o cavalheiro F. e o ministro L. que passavam,
acercaram-se do diplomata e demoraram-se com elle em palestra em que
pareciam enlevados.
--Repara tu como elles o tratam! concluiu o condiscipulo de Vasconcellos
ao dar-lhe o aperto de mão de despedida.
* * * * *
--Sempre me decido, Francisca.
--Pois vae, Antonio, vae que não deshonra pedir trabalho e protecção...
--Receber-me-ha elle bem?
--Quem te não ha de receber bem, tôlo? vae que eu fico a pedir a Deus
por ti!
Antonio de Vasconcellos foi e fallou com o velho amigo de seu pae, Jorge
Alvim. Contou-lhe toda a sua vida trabalhosa, as luctas obscuras, as
miserias que affrontára, descreveu-lhe a núa e triste agua-furtada em
que viviam, elle e a irmã, as longas e plumbeas noites mal dormidas, a
costura mal remunerada, a dureza dos senhorios.
E no gabinete cheio de conforto e de luxo aquellas palavras tristes,
desesperadas e expirantes soavam lugubremente como um grito de agonia
nas alegrias de um noivado...
--V. ex.ª não sabia de uma cousa que lhe vou agora dizer. Seu pae
salvou-me da morte uma vez no cerco do Porto, eu salval-o-hei custe o
que custar das... garras da...
--Miseria, disse o moço com o rosto ligeiramente carminado.
--Pois seja assim! Começaremos a combater o monstro hoje mesmo. Para
isso é preciso que V. Ex.ª envergue as armas proprias para combates
d'esta ordem. Em vez do arnez, do broquel, das cannelleiras e do elmo,
aconselho-lhe que se vista com elegancia igual á sua gentileza, porque
vae combater a féra no salão da mais elegante senhora de Lisboa, e ante
a presença das nossas mais acentuadas celebridades politicas e
litterarias. Até logo, não é assim? disse o velho estendendo com uma
graça adoravel a mão a Antonio de Vasconcellos que desceu as escadas
enceradas com o coração cheio de sol e de alegria.
* * * * *
--Não estejas triste, a casaca fica-te bem, não está muito nova, mas
ninguem repara. Põe este botão de rosa na casa. É bonito. Vaes mesmo um
taful--dizia a irmã de Antonio de Vasconcellos recuando e examinando
amoravelmente o moço.
Depois, com um gesto impregnado de um mixto singular de protecção e de
doce auctoridade, continuou:
--Prohibo-te que estejas com essa cara desconsolada. Digo-te eu que és
o mais bonito que lá apparece. Depois m'o contarás.
E conversando e rindo n'um abandono divino e infantil, aquelles dous
camaradas na adversidade, edificavam castellos de ventura, esquecidos de
que o padeiro n'aquelle dia recusara fiar-lhes mais pão. Oh mocidade!
* * * * *
Jorge de Alvim n'aquelle dia parecia exceder-se a si proprio, tão
brilhantes eram as suas respostas, tão finas as suas ironias, tão cheias
de sal as anedoctas com que encantava os conselheiros, ministros e
jornalistas que estavam á mesa da elegante condessa de X***.
Fallou-se em diamantes. Jorge de Alvim desde logo entrou a historiar
casos e anedoctas a tal respeito. Narrou as aventuras de diamantes que
se tornaram celebres pelas peregrinações em que andaram, e assim
precisou com uma erudição graciosa a historia do _Sancy_, diamante que
foi de Carlos o Temerario, e que das mãos d'este passou para as de um
Duque de Florença e depois para o poder do Prior do Crato, que o
empenhou ao intendente das finanças em França, Harley de Sancy, de onde
lhe proveio o nome.
--Ainda aqui não pára, minhas senhoras, a odysséa d'esta pedra. Harley
de Sancy quando Henrique IV de França antes de ser reconhecido se achou
em grandes apuros de dinheiro, mandou vender esse diamante aos judeus de
Metz. O homem encarregado de tão preciosa missão, cahindo nas mãos de
uma quadrilha de bandidos, e receiando que lhe roubassem o thesouro que
levava, engulira a pedra...
--Ora essa! disse a dona da casa.
--Verdade pura, minha senhora. O cadaver foi descoberto passados tempos
no bosque de Dôls, e aberto o ventre, acharam o diamante que foi vendido
a Jacques II de Inglaterra, de cujo poder passou para o de Luiz XIV.
--E depois? disse uma das senhoras. Não póde parar ahi esse longo
peregrinar de que V. Ex.ª está sendo um Fernão Mendes...
--Minto?... pois seja assim. O que posso afiançar a V. Ex.ª é que esta
pedra, depois de varias e encontradas vicissitudes acabou por onde
acabou a esposa de Meneláu... Foi roubada, e hoje pára nas mãos dos
Russos.
--Justamente o que mais dia menos dia succederá ao seu magnifico annel,
Sr. Jorge de Alvim, tornou a mesma interruptora, dardejando um olhar
guloso e felino á pedra do annel...
--E é verdade que é lindissimo e de appetite o seu annel; deixa-m'o ver,
Sr. Alvim? disse uma das senhoras que estava ao lado de Antonio de
Vasconcellos.
O annel foi passando de mão em mão crivado de admirações e de quentes
cobiças...
A conversação tomára outro rumo; era o momento dos _toasts_, e então
Alvim explicou uma usança que lá fóra estava agora muito em moda nos
jantares da alta vida, a _taça da amizade_.
Ia a descrever este costume elegante quando a senhora que estava á
esquerda de Vasconcellos soltou um grito.
--Ah!
--Que foi? O que foi? repetiram em roda.
--Tinha aqui o annel e desappareceu-me!
Levantaram-se pratos, arredaram-se cadeiras, houve varias conjecturas.
--Estaria aqui? talvez estivesse ali...
E sempre debalde.
Ergueram-se todos, sem cerimonia, turbulentamente, como da mesa de um
hotel...
O annel não apparecia.
Um dos convivas, celebre no fôro, começou a examinar o rosto de cada
criado, como quem tenta descobrir o author de um crime.
--Uma joia tão rica!
--Não está alli por menos de duzentas libras, affirmou um banqueiro.
--Ora, pelo amor de Deus, meus senhores, volveu o velho casquilho. O meu
annel que julgo não tem ainda por ora aventuras, ouvindo as minhas
narrativas de ha pouco encheu-se de brios, e quiz provar aos incredulos
que tambem lhe estão reservados altos destinos... Vou propôr a V.
Ex.ᵃˢ uma cousa que lhes parecerá excentrica, mas que me relevarão,
já que em Lisboa passo por um ente singular e extraordinario. Ahi vai a
singular excentricidade que me passou pela cabeça: ao sahir d'esta sala
hão de todos deixar-se revistar pelos donos da casa. Rejeitam ou
approvam?
Ouvindo aquella proposta exquisita e quasi que offensiva, alguns
sorriram, indignaram-se outros, franzindo os sobrolhos, e um pesado
silencio constrangido cahiu n'aquella sala ha pouco tão sonora de vozes,
de risos e do fino tilintar da prata e dos crystaes.
--Peço perdão, mas opponho-me e rejeito essa proposta!
Quem assim fallava era Antonio de Vasconcellos. Estava pallido como a
morte, tentava sorrir, mas os dentes cerravam-se-lhe nervosamente, e os
cabellos empastavam-se-lhe na testa gotejando suor.
--Seria elle? disse a dona da casa baixo, e fitando-o tristemente.
E toda a gente que o ouvira como que por instincto affastou-se do pobre
moço.
Podia ser, que fosse elle. Era pobre, pois não viam isso claramente?
Os olhos de todas as mulheres que alli estavam começaram então
desapiedadamente a analysal-o por miudo, e passavam-lhe em revista a
casaca cossada, a pouca finura da camisa, a gravata branca ligeiramente
encardida, as joelheiras luzidias das calças pretas.
--E não é feio rapaz!
--Pois sim, mas Lacenaire tambem não era feio, volveu outra menos
caridosa e mais letrada.
Antonio de Vasconcellos approximou-se de Jorge de Alvim, e baixo com voz
concentrada disse lhe:
--Uma palavra, Sr. Alvim, desejo dar-lhe uma palavra...
--É melhor mais tarde... depois..., replicou desdenhosamente Jorge de
Alvim.
Repararam todos na insistencia de Antonio de Vasconcellos, e as
suspeitas mais e mais se enraizaram no espirito dos convivas.
O pobre rapaz, que conhecia a falsa posição em que se collocara com a
sua phrase, sentia-se humilhado e como que vendido n'aquelle meio.
Os proprios criados olhavam-no com manifesto desprezo.
Vasconcellos disse ainda ao diplomata:
--Sr. Jorge de Alvim, pela ultima vez, quer ouvir-me?
--Homem, já sei; é pobre, teve uma fascinação, já li isso não sei
aonde... Ah! já sei... n'um conto de Balzac...
E voltou-lhe as costas.
N'esse instante uma voz entaramellada e rouca echoou na sala:
--Peço que me escutem! como sou o unico pobre que aqui está, e como
todas as circumstancias são em meu desfavor, podem julgar que fui eu que
roubei esse annel. Se não consenti na proposta feita pelo Sr. Jorge de
Alvim,--e na pallidez do seu rosto destacavam-se duas rosas de
pejo,--foi porque, se me revistassem, encontravam-me no bolso isto que
eu furtei para levar á minha irmã que não come desde hontem... disse o
mancebo tirando da algibeira um pão.
* * * * *
Houve um grande e profundo silencio angustioso. A condessa foi a
primeira a rompel-o adiantando-se para Vasconcellos.
--Pobre rapaz!...
E com o movimento que fez, um objecto brilhante faiscou nas franjas do
seu vestido.
--Permitta-me V. Ex.ª, condessa, disse o banqueiro abaixando-se e
desprendendo das franjas o objecto que reluzia e chispava: aqui está o
annel.
* * * * *
Antonio de Vasconcellos occupa hoje com geral applauso e com grandes
creditos o lugar de secretario, na embaixada de que é ministro seu amigo
e cunhado Jorge de Alvim.
A ESCOLHA DE GASTÃO
Fez verdadeiramente o que se chama _escandalo_, em todas as salas da
alta roda, o casamento do filho do visconde das Lagôas.
O visconde, cujo nome primitivo era João do Moinho Novo, e que depois
não sei porque artes se appellidava João Silveira, fôra para o Brazil
muito moço, creio que com dezoito annos, e voltára de lá com cincoenta e
archi-millionario.
_Rosnava-se_ muito ácerca das origens d'esta nebulosa e extraordinaria
fortuna.
Uns fallavam de escravatura, alguns de contrabando, todos de negocios
pouco lisos e pouco licitos. No fim de contas, porém, o principal é que
uma pessoa seja muito rica.
Lá o _como_ e _porquê_ são questões secundarias, com que se preoccupam
muito os invejosos, e um pouco os escrupulosos.
O resto das pessoas, e já se vê que são muitas, essas nem para ahi
voltam os olhos.
Acham este esmiuçar impertinente das vidas alheias além de enfadonho
pouco aristocratico.
O visconde passava o verão na provincia do Minho, n'uma povoação perto
de Vianna, onde comprára um velho palacio, cuja frontaria ennegrecida
elle mandára cuidadosamente caiar.
O portão do palacio era encimado pelo brazão d'armas da familia
arruinada a que pertencêra. O visconde, que não quizera conservar mais
nada intacto, teve a caridosa lembrança de o conservar a elle.
Mandou-o limpar das hervas e dos musgos damninhos que se tinham
introduzido entre as fisgas da pedra, e dos ninhos que a phantasia
errante das andorinhas alli armára no estio.
Depois de limpo pareceu-lhe um ornato sympathico e nada contradictorio
com os seus gostos plebeus, e deixou-o alli ficar, com tenção firme de o
cobrir de crepe, no caso de lhe morrer algum dos seus.
Foi depois d'isto que se decidiu a pedir ou por outra a comprar, dos
poderes publicos complacentes o seu titulo de visconde.
O mais modificou-o e transformou-o á sua vontade.
Detestava as ruinas por instincto.
As vastas salas apainelladas e forradas de custosos pannos de Arrás,
mandou-as estucar á moderna, de côres claras e alegres, vendendo a um
amador de curiosas velharias,--o mais caro que poude, já se
entende--aquellas colgaduras ennegrecidas e esfiadas, cujo merito não
havia nunca logrado perceber.
Vendeu igualmente a velha mobilia, que punha como que um perfume de
grandeza extincta no arruinado casarão, as credencias marchetadas, os
tremós de espelho partido ao meio, e em cuja moldura dançavam estranhas
figurinhas, as cadeiras abbaciaes de couro e pregaria amarella, os
cofres de pau santo, os tamboretes de carvalho, as reliquias d'um mundo
que desabára.
Os dominios do visconde depois de transfigurados pelo seu opulento
proprietario perderam aquelle aspecto desolador, saudoso e melancolico
que os recommendava aos artistas e aos... morcegos.
Ninguem por mais phantasioso e poeta que fosse, seria capaz de evocar na
sombra dos longos corredores claustraes, uma d'aquellas figuras que são
a graça mysteriosa do passado.
Uma castellã pallida e esguia, sustendo nas suas mãos de marfim o missal
de ricas illuminuras... Um pagem louro e namorado, embevecido no sonho
de longinquas aventuras e de impossiveis amores... Um vulto de abbade
austero e glacial, trazendo para o meio do mundo a gelida mortalha da
sua piedade monastica...
Nenhuma d'essas visões podia agora evocar-se.
Foram derrubadas as arvores silvestres cuja sombra envolvia o palacio
n'uma austera solidão; arrancaram-se as heras possantes que cobriam com
o manto vigoroso da sua folhagem verde-negra os muros gastos e
esburacados; calçaram e ladrilharam os pateos por onde a herva crescia
indomada e livre, e onde fontes enormes choravam dia e noite com uma
triste e somnolenta melopeia.
Um jardineiro inglez veio de proposito cortar as moitas de buxo espesso
do jardim, onde umas estatuas de pedras mutiladas e musgosas pareciam
ainda relembrar no desamparo da sua nudez friorenta, uma vida inteira
que o passado abysmára.
Aquella desolação das ruinas e aquelle indomito luxo da natureza
entregue a si, foram substituidos por todas as graças e coquettismos da
moderna jardinagem.