cherubins louros, a unica esperança suave do seu futuro.
Sacrificar-se, esquecer-se, abnegar de si, eis o modo obscuro e sublime
pelo qual elle sabia querer!
Mas os dous pequeninos que não eram turbulentos nem crueis, tinham nas
suas caricias inconscientes o balsamo poderoso, o balsamo divino para as
chagas occultas d'aquelle coração que a vida ulcerára tanto e tanto.
XII
Desde algum tempo que Thadeu andava inquieto.
Com o seu faro finissimo de rafeiro fiel presentia no ar um perigo
desconhecido, alguma cousa de mysterioso e de sinistro, que ouvia rugir
ao longe como no fundo de uma voragem.
Na apparencia todos viviam tranquillos:
Henrique sempre bom, sério, pensativo, de uma indulgencia de forte, de
uma doçura de heroe.
Margarida sempre buliçosa, inquieta, cheia de desejos infantis, de
caprichos, de alegrias ruidosas ou de melancolias subitas que ás vezes
no silencio da sala fôfa e discreta pareciam a Thadeu um grito de alarme
na monotonia do deserto.
As criancinhas... sempre os seus mais dôces amores, aquelles de que
jámais lhe proviera uma amargura.
Quando Thadeu pensava que podia uma fatalidade qualquer separal-o dos
seus dous anjos, desatava a chorar como um perdido na solidão do seu
quarto.
XIII
Elle estava sentado ao pé da mesa. Primeiro estivera fazendo contas,
róes de casa, agora pendia-lhe a cabeça embevecido n'uma vaga scisma.
Sem saber explicar por que, n'aquelle dia lembravam-lhe tantas cousas do
seu passado!...
Sentia dentro de si uns vagos assomos de revolta, lembrando-se das
humilhações que padecêra, dos tratos com que lhe haviam enfraquecido o
corpo e atrophiado a intelligencia. Depois... na sua vida, até ali
obscura e dolorosa, surgia de repente envolta nas rendas brancas do seu
berço uma visão deliciosa, uma pequena fada, a sua amiguinha, a sua
Margarida!...
Como fôra feliz com ella e por amor d'ella...
Comtudo... pensando bem... para essa felicidade chymerica fôra elle quem
fornecêra todos os elementos. Ella nunca vira no pobre Thadeu senão um
instrumento dos seus caprichos, um escravo das suas vontades...
Em todas as delicias com que dourara a sua vida não havia uma só que
fosse nascida da vontade de ser-lhe boa, util, consoladora!...
--É verdade, murmurava o pobre doudo, é verdade! Ella nunca teve
coração!
E suspendeu-se como que aterrado d'aquella blasphemia.
N'este momento Margarida entrava pelo quarto de Thadeu, pallida como um
cadaver, com os grandes olhos dilatados n'uma expressão de
indescriptivel pavor.
Agarrou-se-lhe ao braço e disse lhe baixo, n'uma voz estrangulada e
rouca:
--Henrique chegou da quinta. Eu não o esperava. Contava que elle viesse
ámanhã. No meu gabinete ha uma pessoa que deve sahir sem que meu marido
a veja. Ouves? Estou perdida... Estava perdida mas lembrei-me de ti...
Salva-me...
Não me digas nem uma palavra, proseguio vendo que elle ia fallar. Uma
demora de segundos perde-me sem remissão.
E sahiu com o seu passo miudinho, o seu passo _chic_, aprendido de
passagem nos _boulevards_ de Pariz.
Thadeu sahiu do quarto, e quando tornou a entrar ali, acompanhava-o um
moço muito pallido, de bigode louro, cabello cuidadosamente frisado e
_toilette_ irreprehensivel.
Não trocaram uma palavra. Thadeu apontou-lhe para uma cadeira, fechou a
porta do quarto á chave e sentou-se junto da janella, que dava sobre o
jardim.
Era em plena primavera. Pela janella aberta entrava um perfume vago e
subtil, um perfume de rosas, de madresilva e de baunilha em flôr.
Ouvia-se o rir e o chilrear das duas creanças, e entre as ramarias
entrelaçadas dos grandes arbustos exoticos, Thadeu viu passar com os
seus meneios serpentinos, o seu vestido branco, a sua cabelladura
d'ouro, a figura esbelta de Margarida pendida ao braço do esposo com
quem fallava baixinho.
Foi a ultima visão que teve d'ella.
Uma visão de perfidia felina e de felina formosura.
XIV
--Deixe-se estar quieto. Não vê que não póde sahir d'este quarto senão á
noite? pronunciou a voz enrouquecida de Thadeu.
E sem dar mais attenção ao seu odioso hospede, poz-se a arranjar papeis,
uma trouxa de roupa, algumas velhas reliquias, os retratos dos seus dous
pequeninos, dos seus _netos_ como elle lhes chamava.
Depois despregou da parede as duas photographias de Henrique e de
Margarida. A d'elle beijou-a, e guardou-a com as dos pequeninos. A
d'ella... approximou-a d'uma vela que acendêra e deixou-a arder até que
ficaram só cinzas. Estava medonhamente livido.
* * * * *
Era noite: sentiu o rumor conhecido da hora de jantar, esperou que o
criado viesse chamal-o e respondeu-lhe:
--Diga aos senhores que jantem. Eu hoje estou convidado fóra, não os
posso acompanhar.
Olhou para o homem que alli estava na mudez estupida dos malvados, que
são ridiculos, e disse-lhe:
--Venha d'ahi.
Sahiram juntos.
Thadeu nunca mais voltou; não pôde.
Pediu a esmola de um agasalho á irmã de Henrique, e achou meio de fazer
n'um escriptorio cópias que lhe rendem tres tostões diarios!
D'isso come e d'isso se veste.
Fingiu-se offendido com Henrique por uma duvida mesquinha de contas, que
este nunca chegou a perceber.
Aceitou o papel degradante do ingrato que morde a mão que o soccorreu.
Ninguem pôde nunca arrancar-lhe nem uma palavra do seu segredo.
Tem 35 annos e dão-lhe setenta.
As poucas pessoas que o vêem ou o desprezam por absolutamente
insignificante ou têm por elle a commiseração que inspira um idiota.
O TIO SEBASTIÃO
I
Não havia cousa que mais alegrasse o tio Sebastião, um velhito que
conheci em uma aldeia perto de Braga, do que fallarem-lhe no filho que
estudava em Coimbra.
Sorriam-se-lhe os olhos, e um contentamento intraduzivel
espelhava-se-lhe no rosto.
Quando lhe elogiavam o caracter, o talento, a bondade e a applicação do
rapaz, elle fingia que não acreditava, dizia que não era tanto assim...
e repetia:
--Favores, meu amigo, favores...
Mas lá no intimo agradecia aquillo tudo, e tinha vontade de apertar nos
braços a pessoa que fallava com tamanho louvor do filho estremecido.
Quando elle descobria o seu fraco, era quando lhe elogiavam na presença
outro rapaz, outro estudante.
--Sim, sim, mas como o meu! Não é porque o rapaz seja meu filho, mas
disse-me o prior, e olhe que o prior não é tôlo nenhum, pois disse-me o
prior que o meu pequeno era o melhor estudante que andava nas aulas de
Braga, que lh'o tinham dito os proprios mestres. Aquillo tem uma
memoria! E então lêr! Ás vezes estava horas e horas a ouvil-o, fazia
gôsto. O talho da lettra já foi melhor, isso foi, mas o prior, a quem eu
disse isto, consolou-me, dizendo-me que todos os doutores tinham má
lettra. Assim será, mas as primeiras cartas que o pequeno me escreveu,
quando foi para o estudo, podem mostrar-se... Quer você vêr uma d'essas
cartas?...
Toda a gente da aldeia gostava do velho, e não havia uma só pessoa que
para o lisongear, ao encontral-o, lhe não perguntasse pelo filho.
--Obrigado, vae bom! e com um sorriso doce, enternecido e caridoso
envolvia o da pergunta.
O tempo das ferias, sobretudo as do Natal, que é quando se mata o porco,
e se fazem filhós, e se conversa animadamente em volta da lareira, era
anciosa e impacientemente esperado pelo velho; todas as noutes ia ao
reportorio, que tinha á cabeceira da cama, e pondo uma cruz no dia que
findára, dizia jubiloso:
--É de menos um!
Na vespera da chegada do filho, era uma azafama, um revolver as velhas
arcas de onde se exala um forte cheiro de maçãs camoezas, e um andar
tudo n'uma poeira n'aquella casa.
--Esta cama não tem roupa bastante, Joanna, dizia para a creada; vá
buscar mais um cobertor!
E alisava a colcha, endireitando a fronha da travesseirinha, e
repetindo:
--O estudante é muito mimoso, e depois faz frio que não é brincadeira!
Ia á cosinha, era preciso comprar isto e mais aquillo. Examinava os
armarios, passava revista aos frascos das compotas, e punha de banda as
garrafas de vinho antigo.
--Não que elle gosta do que é bom!
Na rua não esperava que lhe perguntassem pelo filho:
--Chega ámanhã, chega ámanhã!
As ancias eram no dia da chegada. Vinha para a porta, esfregando as
mãos, rutilante de prazer. Todo o pobre que passava tinha uma esmola,
todo o transeunte um cumprimento benevolo e affavel. Os visinhos
exploravam aquelle grandissimo e sagrado affecto.
--Com que então é hoje, hein?
--É verdade, pelo menos assim o espero. Queira Deus que lhe não succeda
alguma no caminho. Isto de rapazes...
--Ha rapazes e rapazes. O seu é uma joia...
--Sim, sim, mas ha más companhias...
--Qual! E então o juizo e o talento para que servem? Eu tenho ido com
elle algumas vezes a Braga, e bem vejo as pessoas com quem o seu menino
se dá. É tudo gente da melhor. E não lhe fazem favor. Todos me gabam a
sabedoria do seu estudante, todos...
--E eu que o diga, affirmava outro.
--Então porque não entram? Vejam se apanham um catharral! Está muito
frio. Ó Joanna, traze duas malgas d'aquelle vinho que sabes, e não te
esqueças de trazer uma talhada de presunto. Vão beber pinga de
substancia! Este é do tal que faz peito, hê, hê, hê!
--Com que então--diziam os biltres--á saude do sr. doutor!
--Que Deus fará! Tornava o bom do lavrador, com as lagrimas nos olhos.
Mas eu não tenho malga, traze-me tambem uma, que quero beber á saude
aqui dos amigos.
E bebia de um trago, valentemente, com alma.
O estudante ás vezes, na vinda de Coimbra, chegava a Braga, onde tinha
amigos e condiscipulos antigos, e ficava mais um dia. De fórma que o
velho esperava, e ia deitar-se cheio de cuidados; não pregava olho toda
a noute.
A Joanna, que bebera o mesmo leite que Sebastião, ouvindo-o gemer e
suspirar, erguia-se, e perguntava-lhe:
--Tem alguma cousa, sô Sebastião?
--Que é? O estudante chegou? Já me levanto, traze-me a candeia!
E era preciso que a velha lhe explicasse tudo, e que o emballasse
carinhosamente com aquellas doces palavras com que as mães adormecem os
filhos rabugentos.
* * * * *
O tio Sebastião, quando casou, tinha cincoenta annos, uns cincoenta
annos limpos e rijos como não ha ahi muitos trinta.
Emquanto a mãe foi viva, não lhe quiz dar nóra.
--Nada! dizia ás pessoas que lhe aconselhavam o casamento, nada! Que
lucro eu com isso? A velhinha podia não se dar com o genio da mulher que
eu trouxesse para casa e isso era o inferno para mim. Quem manda
n'aquella casa é minha mãe, e ha-de mandar em quanto fôr viva. Ella
ralha, ella grita, ella dá por paus e por pedras, por dá cá aquella
palha. Deixal-a! Quando rabuja de mais, saio de casa, e a Joanna que a
ature! São mulheres, e lá se entendem. Se eu me casasse, tinha de acudir
por uma ou por outra... Nada! boi solto lambe-se todo...
E ainda solteiro fechou os olhos da mãe que lhe morreu nos braços.
Joanna ficou senhora de tudo. Era ella que olhava pela casa, que dava
ordens, a verdadeira dona da casa emfim. Aquelle novo modo de vida,
porém, começou a pesar-lhe, entrou a ter saudades do antigo jugo, queria
receber ordens e não dal-as; a domesticidade era para ella um habito de
que não havia desacostumal-a.
--Sabe o que mais, sô Sebastião? disse ella um dia ao patrão. O tempo
das rapasiadas passou. Por que não toma estado? Moças é que não faltam.
É verdade que o mundo vai perdido de todo, mas ainda ha raparigas
perfeitas e tementes a Deus.
--Endoudeceste, Joanna! Eu caso me lá, n'esta edade! Só se fôr
comtigo...
--Lá começa elle com as tolices do costume.
Agua molle em pedra dura...
O tio Sebastião entrou um dia em casa com noiva. Era orphã de pae e
mãe, era pobre, não tinha parentes a não ser um irmão que fôra para o
Brazil, e de quem não havia noticias ha muito tempo; contava trinta e
tantos annos, mas era madrugadôra como um gallo, direita como um vime, e
valia por dous homens no amanho da vida.
Quando o tio Sebastião lhe fallou em casamento, ella fez-se vermelha
como uma papoula, hesitou um momento, e atirando com a fouce com que
andava a cegar fêno, lançou-se-lhe nos braços, e n'um amplexo formidavel
de leôa, rompeu com isto:
--Esperava esta felicidade ha dez annos. Abrace-me, sô Sebastião, que se
não fosse comsigo, não me casava senão com a cóva.
Vinha de longe o affecto d'esta mulher pelo bondoso homem.
O pae de Carlota cahiu entrevado; o tio Sebastião ao passar-lhe um dia á
porta ouviu choros e lamentações; entrou e soube que havia alli
necessidade e quasi fome; a filha unica do invalido, Carlota, tinha de
ficar á cabeceira do catre; as ultimas economias haviam-se extinguido
pouco a pouco.
O tio Sebastião soccorreu aquella gente, mandou chamar o medico a Villa
Verde, pagou os remedios da botica e por fim o enterro do infeliz.
Entre as poucas pessoas que acompanharam á egreja o modesto ataúde, ia
o tio Sebastião curvado, melancolico, com o seu rosto barbeado, e cheio
de bondade e lhaneza.
Carlota, que chorava a um canto do albergue, com as mãos atadas á cabeça
despenteada, ao vêr entrar o bemfeitor, não lhe agradeceu as esmolas com
palavras ociosas--arrastou-se para elle de joelhos, e agarrando-lhe nas
mãos beijou-as com devota soffreguidão.
Passados tempos o tio Sebastião esquecera-se d'aquelle episodio, e nem
sequer reparou que a melhor cantadeira do logar, que inquestionavelmente
era a Carlota, deixava de cantar todas as vezes que elle passava por uma
certa azinhaga...
Se elle volvesse o rosto veria no meio das hervas altas e humidas, ou em
cima dos castanheiros folhudos e entrelaçados de pampanos, um vulto de
mulher voltado para elle, a devoral-o com a vista, a seguil-o, a
banhal-o na luz cariciosa de um longo olhar enamorado.
Não deu por tal o tio Sebastião; Joanna, porém, que era amiga de
Carlota, adivinhou o segredo, e o resultado sabe-o o leitor.
* * * * *
Tres annos depois do casamento o tio Sebastião enviuvára.
Ficou-lhe um filho, uma creancinha loura e adoravel, o vivo retrato da
mãe.
O lavrador concentrava no pequeno todos os affectos, amava-o até á
insania.
O rapaz cresceu rodeado de caricias, de mimos e de ternos cuidados.
Não havia vontade que se lhe não fizesse. Era um pequeno rei despotico a
cuja voz o pae e a velha Joanna se curvavam com cega obediencia.
Ao completar seis annos, por conselho do prior, começou o pequeno a
estudar as primeiras lettras com o professor régio da freguezia.
--Temos homem, dizia o prior ao velho; o rapaz vae bem, estuda e aprende
com facilidade.
--Quando me lembro que posso morrer sem o ouvir cantar a missa nova,
parece-me que estalo de pena.
--Ó senhor prior, o meu rapaz dava ou não dava um padre de mão cheia?
Era para padre que o velho destinava o filho, sonhava todas as noutes
com a sua primeira missa, via-o com as vestimentas engommadas e duras
do sacerdocio, deante do altar da egreja da freguezia, no meio de nuvens
de incenso, emquanto os padres cantarolavam ao som plangente e arrastado
do orgão, e os sinos tangiam alegres repiques, e subiam ao ar as
girandolas de foguetes impregnando de um espesso cheiro de polvora o
adro enramilhetado de murtas...
Prompto nas primeiras lettras, foi o pequeno Sebastião para Braga onde
se matriculou no lyceu.
N'este entrementes chegou do Brazil o irmão de Carlota. Foi á aldeia
natal, procurou os parentes, e soube que todos tinham fallecido,
restando-lhe tão sómente um sobrinho.
O brazileiro era solteiro, e doente; não vinha millionario, mas tinha
mais do que o sufficiente para dar uma bonita carreira ao estudante.
--Olhe, mano, disse ao cunhado, deixe isso ao meu cuidado, eu me
encarrego do menino. O bem que desejava fazer a meus paes, que
infelizmente não encontrei, hei de revertel-o em favor de meu sobrinho.
Uma condicção exijo: não quero que o rapaz se ordene. Quero dizer, se
isso fôr da sua vontade, d'elle, não me opponho, mas deixemos o tempo ao
tempo. Cá a minha opinião é que elle deve estudar medicina. Os medicos
ganham muito dinheiro em toda a parte, e no Brazil sobretudo, onde o
mais réles tem carruagem. Está por isto? O rapaz quando acabar os
estudos em Braga vae para Coimbra?
O tio Sebastião custou a descer d'aquelle sonho em que andára tantos
annos embevecido. Mas por fim cedeu.
O brazileiro demorou-se alguns annos ainda em Portugal. A quebra, porém,
de uma casa importante do Rio chamou-o ao Brazil, para onde partiu
deixando ao sobrinho, que até então se havia portado com singular e
exemplarissimo discernimento, ordem franca para receber tudo que lhe
fosse preciso n'uma das casas mais acreditadas do Porto.
* * * * *
Um dos estudantes que mais dinheiro gastava em Coimbra por aquelles
tempos era Sebastião Alves, a quem a convivencia com os rapazes oriundos
das mais nobres familias de Portugal empavonára e envaidecêra
extremamente.
No seu quarto, que elle adornára com excessivo e inaudito luxo para um
estudante, reuniam-se todos os que sobresahiam em Coimbra pela
fidalguia, pela força, e pela estroinice.
Sebastião entrou a ser explorado; pediam-lhe dinheiro que nunca era
restituido, vestiam-lhe o fato, calçavam-lhe as botas, e comiam-lhe
ceias abundantes e regadas de vinhos caros.
Com aquella vida era incompativel o estudo e a reflexão. Deixou de ir ás
aulas. Enganava o tio e o pae, enviando-lhes certidões falsas dos
_actos_ que nunca fizera.
Havia dous annos já que não ia á aldeia, cujo viver lhe aborrecia e se
lhe figurava mesquinho e chato.
Quando os estudantes partiam para férias, contentes e alegres para os
abraços da familia, Sebastião Alves deixava tambem Coimbra, percorria as
praias, ia ao Porto, a Cintra, ao Bussaco.
Aquella vida inutil e varia era de quando em quando remordida pelo
remorso, todas as vezes que o vadio recebia as cartas do pae, que,
apesar de não terem ortographia, e de serem escriptas com uma lettra
grotesca e pesada, lhe avivavam o entranhado amor com que elle era
querido por aquelle amantissimo coração de velho.
II
O brazileiro voltára a Portugal. Em Santa Apolonia comprou bilhete para
Coimbra, mas adormecendo profundamente só acordou quando ouviu um
empregado gritar: Granja!
--É o mesmo, disse comsigo. Até é melhor. Fico no Porto, e escrevo ao
Sebastião que venha ter commigo se quer ir vêr o filho a Coimbra.
Escreveu. Se o tio Sebastião queria ir a Coimbra! N'isso pensava elle
havia semanas, porque já não podia com as saudades.
--Já cá estão dous carros e uns pósinhos, dizia elle, se não fosse isto,
quem ia vêr o rapaz era o filho de minha mãe...
O convite do cunhado alvoroçára-o de alegria e de desusado
contentamento. Ria alto, andava radiante, cantava:
Á uma hora nasci,
Ás duas fui baptisado,
Ás tres andava de amores,
Ás quatro estava casado.
--Queres tu vir d'ahi, Joanna? dizia elle para a creada que lhe
arranjava a mala.
É verdade, ó Joanna, não te lembras assim de uma cousa que o estudante
goste? Uma cousa bonita...
A creada que era gulosa, lembrava-lhe marmelada, doce de ginja, pêras de
calda...
--Upa! cousa melhor...
--Quer saber? disse a velha, com os olhos accesos de quem achou um
thesouro, e a mim que me não lembrou logo! Eu cá se fosse o sô Sebastião
comprava uma medalha de ouro como a que o sr. Morgado traz no cordão do
relogio; mettia-lhe dentro o retrato da fallecida, e levava isso ao
menino que ha de ficar no ceu ao vêr a mãesinha que Deus lhe levou.
O tio Sebastião approvou a ideia. O retrato foi tirado da parede, tinha
sido feito em Braga, logo nos primeiros tempos do casamento.
Representava Carlota vestida com uma saia de seda preta, lustrosa, cheia
de vincos, com grossas arrecadas, e uns enormes grilhões no peito largo
e afflante, os pés nús n'umas chinellas bicudas de verniz. Na mão
direita tinha um lenço cheio de bordados, tufado. A esquerda descançava
nas costas de uma cadeira, e os grossos dedos d'essa mão pendiam para a
palhinha, lanzudos, reluzentes de anneis. Nos olhos de Carlota havia o
espanto de quem vê bruxaria, uma especie de pavôr disfarçado.
O lavrador pegou no retrato, e esteve a olhar para a mulher. Não chorou,
nem teve saudades, estava absorvido por um sentimento superior.
--Ó Joanna, mas o retrato é grande e a medalha pequena. Eu não tenho
alma de degolar o retrato...
A creada sorriu-se.
--Pois leve o retrato e a medalha ao menino, e elle lá que o mande
arranjar...
Na manhã seguinte almoçava o tio Sebastião com o cunhado, e partia
n'essa mesma tarde para Coimbra, onde chegaram de noute. O brazileiro,
cheio de cansaço, adoentado, propoz que se adiasse a visita ao estudante
para o outro dia. Que eram horas d'elle estar a estudar; que não era bom
distrahil-o das suas obrigações. O tio Sebastião, porém, não se
convenceu. Disse que iria só, que não podia esperar, que não dormiria
bem sem dar um abraço no filho. Partiram ambos.
Os viajantes bateram á porta da casa de Sebastião Alves, maravilhados de
verem as janellas abertas e a casa completamente ás escuras. Ninguem
lhes respondeu.
Bateram de novo.
Uma visinha com a sua voz fina e cantada perguntou o que desejavam, e
explicou que o sr. Sebastião Alves tinha ido ceiar com uns amigos a uma
hospedaria da baixa.
Perguntou o brazileiro onde era essa hospedaria, e para lá se encaminhou
com o ancioso companheiro, que ao vel-o meditativo resmungava como que
para attenuar a extravagancia:
--Rapazes! um dia não são dias.
As ruas da alta estavam solemnemente silenciosas, os transeuntes eram
raros.
Ao passarem por uma casa, cujo primeiro andar tinha as janellas abertas,
viram um estudante com a cabeça encostada ás mãos, absorvido e com os
olhos n'uns livros...
--Aquelle tambem é rapaz, tornou o brazileiro com gesto sentencioso, mas
faz a sua obrigação. Quem vem para aqui é para estudar...
Ao subirem as escadas da hospedaria ouviram um grande rumor, vivas, e
_hurrahs_ freneticos e enthusiasticos; os creados açodados, vermelhos,
passavam com largas travessas fumegantes...
--Desejamos saber, disse o brazileiro a um dos creados, se o sr.
Sebastião Alves está aqui.
--Está, sim senhor, se lhe querem fallar, vou dar-lhe parte...
O brazileiro tirou meia corôa da bolsa de prata, e dando-a ao creado
continuou:
--Não queremos perturbar o sr. Sebastião, fallar-lhe-hemos depois. O que
desejamos é um quarto onde possamos esperar até que finde a ceia. Faça
favor de lhe não revelar que estamos aqui, é uma surpreza que queremos
fazer ao estudante; e sorriu contrafeito.
O creado conduziu-os a uma sala, separada d'aquella em que os estudantes
ceiavam simplesmente por uma porta.
O tio Sebastião tinha o coração aos pulos dentro do peito.
--Eu vou lá; dizia baixo com a voz tremula, quero vel-o.
O cunhado conteve-o.
--Espreite pelo buraco d'essa fechadura que já o vê.
O velho curvou-se e olhou.
--Lá está elle! lá o vejo. Está mais magro... aquillo talvez seja do
estudo. Coitado! Mas que chibante que elle anda! Os outros ao pé d'elle
parecem uns pobretões! Um até tem a vestea toda rota e cheia de nodoas.
Aquillo que elles trazem é assim a modo de batina de padre... pois não
é? Espera, ó mano! lá vae o meu filho levantar-se. Ó meu rico filho da
minha alma!
Sebastião levantára-se de facto para fazer um brinde.
Tinham bebido á saude das mulheres, do amor, da gloria, do talento...
Sebastião, um tanto inflammado de repetidas libações, fez uma saude a
um velho que estava sentado á meza, um pouco distanciado do grupo dos
estudantes.
O brinde foi estrepitosamente victoriado.
O velho agradeceu n'estes termos:
«Muito obrigado, meus senhores! Reconhecido pela deferencia com que me
honram, consintam que beba á saude do pae do cavalheiro que me brindou.»
O brazileiro disse:
--Tome, mano! aquillo é comsigo!
--Mas eu vou lá, vou dar um abraço n'aquelle honrado homem que se
lembrou de mim...
Os estudantes ergueram os copos.
--Á saude de teu pae, clamaram.
--Que infelizmente está longe, disse commovido pelo vinho Sebastião
Alves.
--Longe! qual longe, nem meio longe, tartamudeou o tio Sebastião, e ia
para lançar-se pelo corredor fóra, quando o brazileiro de novo o reteve.
--Espere homem! o rapaz talvez fique envergonhado se lhe apparecermos
assim de repente.
--É verdade, meus senhores, disse um dos da roda, um que passava por
orador e que gostava de fazer estylo.
«O pae de Sebastião está longe, vive em plagas distantes, em terra de
Santa Cruz n'esse paiz uberrimo, monstruoso, gigante, que se chama o
Brazil, e onde os nossos recebem uma hospitalidade tão franca e tão
generosa. Brindando ao pae de Sebastião, brindo aos nossos irmãos de
além-mar.»
--O que diz elle? resmungou o tio Sebastião, que eu estou no Brazil? Não
é má!... e atabafava o riso.