Era realmente admiravel ver esses bravos officiaes Inglezes, que morriam

rindo e descuidosos n'uma guerra ingloriosa, tão tranquillos e socegados

em frente de um perigo qualquer, como se os esperasse um baile ou uma

festa.

Nós dissémos ao tenente Cameron que não havia Zulos, e elle recebeu a

noticia com certa tristeza.

¿Quem sabe se elle, com a confiança da mocidade, não tinha sonhado

n'esse momento com os gallões de um posto superior?

Pouco depois reunio-se a nós o Major Tyler, e disse-nos, que ia ver o

que faziam os voluntarios na cidade.

Eu e Saunders acompanhàmol-o. Era meia noute e havia escuridão profunda,

a chuva cahia a torrentes, e eu apenas pude apanhar metade do

impermeavel de Saunders, que levou só o cabeção, dando-me o resto.

Tropeçando aqui e cahindo àlém, chegámos á praça, onde na igreja

parochial deviam estar os voluntarios.

Entrámos no templo, que estava cheio de soldados, e logo que o Major

Tyler deu as suas ordens, fomos tôdos três para minha casa.

Estàvamos muito molhados, e o meu primeiro cuidado foi abrir uma garrafa

de vinho velho.

Bebendo e conversando passámos ali uma parte da noute, rindo eu e

Saunders a bom rir, da seriedade do Major Tyler, que estava indignado

por ter o seu quarto cheio, não de damas, que elle é muito galante para

se queixar d'isso, ¡mas de meninos!--de meninos que choravam!

Pêla madrugada, o Major Tyler e o Capitão Saunders retiráram, e eu

fui-me metter na cama.

Eis como acabou um dos episodios còmicos, da tràgica guerra dos Zulos,

episòdio que ficaria no esquècimento se eu o não trouxesse a pùblico.

No dia immediato têve logar um acontecimento importante para mim.

A minha gente e as minhas bagens seguíram para Durban, pêlo caminho

seguro de Harrismith.

CAPÌTULO VIII.

O FIM DA VIAGEM.

A chegada do Coronel Lanyon--Parto de Pretoria--Heidelberg--Um

_dog-cart_--O Tenente Barker--Dupuis--Peripecias de uma viagem no

Transvaal--Newcastle--A diligencia--Episodios

burlescos--Pietermaritzburg--Durban--Volto a Maritzburg--Didi

Saunders--Episodios em Durban--O Consul Portuguez M^{r.} Snell--O

_Danubio_--O Commandante Draper--Regresso á Europa.

Andava tudo em reboliço. Nunca em Pretoria se tinham feito tantos gastos

de _toilettes_, nunca os lojistas vendêram tantas fitas e tantas rendas!

Os homens escovavam e preparavam os uniformes, porque tôdos mais ou

menos tinham uniformes, e os que os não tinham inventàvam-n-os. Se tudo

estava em guerra!

Cavallos e carruagens soffriam tratos de limpezas desusadas. Tudo luzia

e brilhava. O enthusiasmo era geral e chegava mesmo aos Hollandezes.

As damas trabalhavam com afan, e davam tratos ao miôlo, contido nas

cabecinhas louras e encantadoras, para melhór pregarem um lacinho, para

melhór fazerem realçar a belleza delicada.

Os homens, _elles_, diziam "É _C.B._[16] e tem a _Victoria Cross_,[17] é

o heroe da guerra dos Ashantis, é um homem de grande energia, é um dos

mais notaveis officiaes do exèrcito Inglez."

_Ellas_, ellas diziam: "Tem 36 annos o coronel, e dizem que é alto,

nobre e bonito!"

Que enthusiasmo! Eu nunca vi coisa assim! O meu cavallo ja estava

emprestado a uma dama, que queria mostrar tôda a sua elegancia de

amazona. Outras mais infelizes procuravam debalde um meio de transporte.

So eu, creio, que estava frio no meio daquella effervescencia de

delirio.

Eu ca, não ia esperar o nôvo governador, e contentar-me-hia de o ir

visitar á sua chegada.

¿Mas quem pode dispor dos seus sentimentos, e contar com o seu espìrito

no meio da effervescencia geral?

No dia 2 de Março, comecei a sentir que a febre do nôvo governador se

apossava de mim, e sahindo enthusiasmado de casa, fui comprar um chapéo

nôvo! Era uma reforma importante no meu traje.

Aquelle homem por quem se faziam tantos trabalhos de recepção aguçàva-me

a curiosidade. Os homens pareciam temel-o, as mulheres pareciam

adoral-o; e ser temido dos homens e adorado das mulheres é ter attingido

a meta da felicidade para qualquer creatura màscula.

No dia 3 devia elle chegar, e o ponto da entrevista era a nove milhas da

cidade.

Levantei-me sem mêsmo pensar em la ir, até porque, se quizesse ir, não

tinha em quê, tendo emprestado o meu cavallo.

Ás nove horas sahi de casa, mas não encontrei ninguem. Fui almoçar, e

não encontrei ninguem. Fui a casa de alguns amigos, e não encontrei

ninguem em casa. Comecei a dar ao diabo o nôvo governador. Eu ja

começava a perder o hàbito de viver sòzinho, e queria companhia.

Voltei ao Café Europêo e deparei com M^{r.} Turner. Dirigi-me logo a

elle e sem mais preàmbulos pedi-lhe um cavallo. M^{r.} Turner julgou que

eu não estava bom de cabêça. Pedir um cavallo n'aquelle dia e áquella

hora so um inconsciente o faria.

Eu insisti em querer um cavallo, e a difficuldade que se levantava era

apenas incentivo para exacerbar o meu desejo.

Depois de muito pensar, M^{r.} Turner têve uma lembrança.

Elle tinha um pôtro, ainda não montado, bravio, diabòlico.

Se eu quizesse o pôtro, elle emprestàva-m'-o. Fomos logo á cavallariça.

Para apparelhar foi uma campanha, para montar outra.

Depois de varias teimas, em que tivéram razão umas esporas enormes que

me tinha dado M^{r.} Clark em Shoshong, consegui endireitar no caminho

do acampamento. Por uma questão de hàbito eu queria ver o Major Tyler e

o Capitão Saunders, antes de ir esperar o governador. Foi uma infeliz

lembrança.

O regimento 80 estava formado em revista, e acabada ella pude falar aos

meus amigos, mas de repente a mùsica começou a tocar, e o cavallo,

espantado com o zabumba, começou a fazer taes e taes desconcêrtos que

tive de largar d'ali a tôda a pressa, atropellando as barracas de lona

do campo e fazendo até fugir de uma d'ellas alguem que la estava. Pude

ver-me a final em campo livre, e o pôtro pagou caro os seus atrevimentos

de momentos antes.

Ás duas horas eu alcançava as cavalgadas e estava entre os meus amigos,

mas estava em lastimoso estado de fadiga e cansaço.

Pouco depois, uma carruagem escoltada por alguns voluntarios de

cavallaria, chegava em sentido opposto, e apeava-se d'ella o nôvo

governador do Transvaal.

O Coronel Sir William Owen Lanyon, K.C.B., correspondia á espectativa

geral.

Era nôvo e bello, e do peito da sobrecasaca pendia-lhe a _Victoria

Cross_.

Tôdos estavam contentes, e os frenèticos hurrahs! que lhe levantáram,

eram d'isso prova. Seguímos para a cidade. O meu cavallo, no meio dos

vivas e dos outros cavallos, estava insopportavel e custàva-me a conter.

De repente espantou-se com uma carruagem, deu um enorme salto e partio.

O meu chapéo nôvo, o chapéo comprado na vèspera, cahio por terra, em

quanto eu era levado com uma velocidade enorme, n'um correr desenfreado.

Passei e em breve perdi de vista carruagens e cavalleiros.

O terreno era bom e eu deixava correr o endiabrado, que a final havia de

parar em alguma parte.

Apesar de muito distanciado da comitiva do governador, pareceu-me que

sentia um outro correr de cavallo, perto de mim, e voltando-me na sella

percebi que era seguido e ia ser alcançado em poucos momentos.

Uma gentil amazona, muito melhor montada do que eu, porque montava o meu

Fly, ria a bandeiras despregadas das minhas tribulações, e em breve

emparelhando comigo estendia-me o pobre chapéo que eu tinha perdido, e

que ella, com essa pericia de tôdas as damas das colonias do sul

d'Àfrica, que sam as primeiras cavalleiras do mundo, tinha apanhado do

chão e me vinha trazer, mofando de um cavalleiro que perdia o chapéo e o

deixava apanhar por uma dama.

Eu estava envergonhado, e sem me lembrar de que era impossivel fugir ás

pernas vigorosas e ligeiras de Fly, tentei instigar o meu cavallo a uma

fuga, a que elle ja se recusava, apresentando uma fadiga bem motivada.

Entrei em Pretoria sempre perseguido pêlos chascos da amazona azougada,

e depois de ir entregar o pôtro a seu dono, fui a pé para o Palacio,

onde esperei a chegada da festival comitiva.

Chegáram elles, sempre dando mostras do mais enthusiàstico

contentamento.

O Coronel Lanyon estava installado, e depois de um bem servido _lunch_,

retiràmo-nos.

O valente e sympàthico coronel tinha càptado tôdas as sympathias, e

desde a sua chegada, esquèceu o episòdio do ataque dos Zulos, narrado no

anterior capìtulo, para so se falar d'elle Governador.

Nos dias seguintes houvéram recepções, saraus, e _matinées_ dançantes, a

que eu não assisti, preoccupado ja com a minha sahida para Durban.

No dia 5, fui eu a uma lègua de Pretoria ver uma curiosidade em que

Inglezes e Hollandezes me falavam muito.

Era o _Wanderboom_, a àrvore sagrada. Effectivamente, é digno de ver-se

esse gigante vegetal, que os Böers mostram com admiração, e que,

deitando dos altos troncos novas raizes que viéram procurar a terra e se

convertêram ellas mesmas em caules, forma por si so uma espêssa mata.

Finalmente, depois das mais cordiaes despedidas aos muitos amigos que

tanto me obsequiáram em Pretoria, parti, no dia 8, para Heidelberg, onde

cheguei por noute fora.

Decidi demorar-me alguns dias n'aquella bonita villa, para fazer as

minhas ùltimas observações e fechar os meus trabalhos.

N'um jantar em Pretoria, em casa de Madame Kish, fiz eu conhecimento com

um sujeito chamado Goodliffe, que sabia não ser de Pretoria, mas que não

pensava tambem ir encontrar em Heidelberg.

M^{r.} Goodliffe convidou-me para sua casa e fêz-me os maiores favôres.

No dia immediato ao da minha chegada, depois de fazer as observações da

manhã, fui dar sòzinho um passeio nos arredores, e comecei a trepar

montanhas e montanhas, até que, d'um pico muito elevado, consegui

dominar a paizagem. Pareceu-me que devia estar a uma grande altitude,

porque dominava tôdas as cumiadas do Zuikerbosch-Rang.

Olhei para o meu baròmetro aneroide de algibeira, e vi que elle marcava

dois mil metros!

Decidi logo voltar la no dia immediato a fazer observações mais seguras,

e effectivamente assim o fiz.

Era na verdade aquella a maior altura a que eu tinha estado na minha

viagem, e não deixei de fazer especial menção d'ella.

No dia 11 de Março, depois de ter concluido tôdas as observações e

fechado os meus trabalhos, parti de Heidelberg, ás 8 horas da manhã, em

um _dog-cart_, que precisa de uma breve descripção pêla sua

originalidade.

Era um d'êsses carros de fàbrica Americana, ligeiros e fortes, montado

sobre duas rodas altissimas, e que, em logar de varaes, t[~e]m uma forte

lança, onde se atrella uma parêlha em troncos, e d'onde partem os

tirantes para umas sotas sôltas.

Tem dois assentos costas com costas, que podem admittir quatro pessôas.

Bagagens nenhumas pode conduzir, e apenas uns pequenos volumes na exigua

caixa.

O meu cocheiro era um mulato, creio que Gricua, chamado Joaquim Eliazar.

Os meus companheiros eram o Tenente Barker, do 5^o Regimento de West

York, e o seu impedido Dupuis.

Logo á sahida de Heidelberg, tivémos de atravessar o ribeiro que corre

ali, cujas margens quasi a pique dam difficil passagem a um carro.

A primeira foi passada sem difficuldade, mas na segunda o dog-cart

tombou-se, e o Tenente Barker cahio sôbre Dupuis e eu sôbre Barker.

Levantàmo-nos sem a menor contusão e rindo do caso. Dupuis, que tinha um

nome Francez, mas cuja nacionalidade eu nunca pude entender bem, porque

elle falava indifferentemente tôdas as lìnguas, e servia

indifferentemente tôdos os paizes, começou logo a contar varios casos de

quedas e carros tombados, que lhe haviam succedido em França, na Russia,

na Amèrica e na China.

Dupuis era homem de 55 a 60 annos, baixo, espadaüdo e robusto. Tinha

servido no exèrcito Francez na Crimea, e contava com enthusiasmo a carga

de Balaklava.

Tinha servido no exèrcito Inglez na guerra da China; na Amèrica servio

os Federaes, bateu-se depois na França pêla Allemanha, em 1870. Conheceu

na India o Major Cavagnari, e vinha de la bater-se contra os Zulos.

O seu desideratum era ser soldado enfermeiro nas ambulancias do exèrcito

Inglez; mas, em quanto o não conseguia, ia sendo camarada do Tenente

Barker.

Barker era um d'esses jovens Inglezes, loiro, olhos azues, tal em fim

como os vemos, encontramos e conhecemos em tôda a parte do mundo.

Ia cheio de enthusiasmo encontrar a columna de Sir Evelyn Wood, e

bater-se contra os nêgros de Catjuaio.

Trabalhámos tôdos quatro rudemente para pôr o carro em estado de seguir,

e uma hora depois voàvamos por sôbre a planicie, puxados por quatro

ligeiros e robustos cavallos do paiz.

Choveu bastante durante o dia, e ás 2 horas encontràvamos o rio

Waterfalls a transbordar. Era um embaraço.

Alguns vagons de Böers estavam parados junto d'elle sem se atreverem a

transpol-o.

A profundidade màxima era de dois metros. Um dos vagons de Böers estava

carregado de lenha, e apresentava do tope da carga ao chão uma altura de

mais de três metros.

Offereci ao Böer seu dono cinco xelins se elle quizesse transpor o rio,

e me deixasse ir com os meus papéis encarapitado no alto da carga.

O homem aceitou, e eu, Barker, Dupuis e os nossos pequenos havêres,

armas e cartuxos, acommodàmo-nos sôbre a lenha.

Oito juntas de possantes bôis fôram jungidos ao vagom, que, poucos

momentos depois, estava na margem opposta.

Joaquim Eliazar em pe sobre os assentos do dog-cart, com àgua pêla

cintura, e segurando as guias com destreza de um cocheiro consummado,

tambem transpoz o rio sem accidente.

Pouco depois, tomàvamos pêla quarta vez cavallos frêscos da posta, e

continuàvamos essa carreira vertiginosa em direcção ao vao de

Standerton, onde devìamos passar o Vaal.

Ás 8 da noute, ja com uma fome desabrida, entràvamos em uma modesta

estalagem de Standerton, onde tìnhamos uma pèssima ceia, e não melhor

cama.

De Heidelberg a Standerton o paiz é planicie enorme, a perder de vista,

onde não cresce uma so àrvore, e onde uma herva não muito alta serve de

pasto a milhares de antìlopes, pêla maior parte bodes saltadôres

(Springboks).

Sôbre tudo nas margens do rio Waterfalls vi innùmeros, mas muito

esquivos.

No dia immediato deixámos Standerton, ás 7 da manhã, depois de um

almôço, que nos fez lembrar, que poderiamos ter almoçado se tivèssemos

quê.

Pêla tarde d'esse dia ja começàvamos a encontrar falta de cavallos nas

casas de posta, saqueadas ou abandonadas por causa da guerra. Ao mesmo

tempo recresciam as difficuldades do caminho, porque nos embrenhàvanos

nos desfiladeiros do Drakensberg.

Não se pode fazer muito idéa do que seja viajar por montes e valles, sem

caminho nem carreiro, em um dog-cart puxado a quatro sôltas.

Ao entrar-mos nos desvios da serra, uma temerosa tempestade cahio sôbre

nós, e uma chuva copiosa alagou a terra e o carro.

Veio a noute, e uma noute medonha. Os relàmpagos alumiavam as trevas

para as tornar mais nêgras e densas.

So a muita pràtica do cocheiro podia guiar o carro por aquelles alcantis

n'um correr desenfreado.

De vez em quando, uma cova, uma rocha, um precipicio, era nas trevas

mais adivinhado do que visto, e um sonoro _All fast_ (tôdos firmes)

pronunciado por Joaquim Eliazar pùnha-nos de prevenção.

E a chuva a cahir, o trovão e o relàmpago a espantar os cavallos, e

aquelle carro sempre a correr nas vertentes este da alta cordilheira.

Tinha alguma cousa de fantàstico o quadro, e se tivesse sido visto por

outros que não nós deveria causar-lhes impressão profunda.

Dupuis tinha sempre uma historia a contar a cada solavanco do ligeiro

vehìculo. Umas vêzes era na China, outras na Amèrica, outras na Russia,

que o caso se tinha passado.

Depois Dupuis cantava, e era, ja uma canção Americana, Franceza,

Chineza, ou Hùngara, que vinha perder-se no estrepitôso rodar do carro,

ou no cem vêzes repetido echo dos trovões.

Seriam 8 da noute, quando um clarão fixo e distante me chamou a

attenção. Endireitámos para elle.

O caso não era muito seguro, mas continuar o caminho assim era peior do

que encontrar os Zulos.

Parámos a distancia da fogueira, e eu dirige-me a ella. Ao aproximar-me,

vi que entre uns vagons, debaixo de um alpendre improvisado com pannos

de lona, estavam sentados três officiaes Inglezes. Entrei ràpidamente na

zona de luz, para ser logo reconhecido e não levar algum tiro. Os três

sujeitos olháram para mim sem o menor espanto, e disséram-me

polidamente: _Good evening, sir_.

Estavam tomando chá, e eu sentei-me sem ceremonia ao lado d'elles.

"¿Toma uma chàvena de chá? me perguntou um d'elles."

"Aceito reconhecido, e até aceitava de comer, porque tenho fome."

"De comer! mas nós tambem não temos nada que comer, e so chá e um pouco

de assucar possuimos."

Tomei uma grande tijela de chá, e tôdo molhado deitei-me junto á

fogueira, onde dormi tôda a noute.

No dia immediato, parti logo de madrugada e so á noute pude matar a fome

em casa de um Böer, que me leu três pàginas da Biblia, mas que em

seguida me deu bôa ceia.

Passou sem incidentes o resto da viagem até perto de Newcastle.

Ali encontrámos o rio Newcastle a transbordar, e tivémos um verdadeiro

trabalho para o transpor, sendo preciso nadar, e molhando-se tudo o que

trazìamos.

Chegado á povoação de Newcastle, o meu primeiro cuidado foi almoçar, com

uma fome de 24 horas.

Eu em Pretoria ja tinha desaprendido a ter fome, e começava a

impacientar-me quando a sentia.

Installei-me em um hotel, onde não se estava bem nem mal, e tratei logo

de enxugar os meus papéis, e de tomar um logar na diligencia que fazia o

serviço d'aquelle ponto a Pietermaritzburg.

Separei-me ali do meu tenente Inglez, que se dirigia com o seu camarada

ao theatro da guerra; e eu, um dia depois, tomava logar na diligencia, e

partia para o meu destino.

Èramos nove no carro, oito homens e uma dama, e haviam ali so dois

logares supportaveis ao lado do cocheiro.

Um foi cedido á dama e eu quiz o outro. Èra-me elle disputado por um

tenente de voluntarios, que trazia umas esporas enormes e um uniforme

esplandecente. Cada um de nós apresentava os seus respectivos direitos

ao logar, ante o cocheiro, àrbitro supremo n'aquelle litigio.

Uma meia-libra subtilmente escorregada na mão do mulato, prevaleceu

sôbre uns poucos xelins dados pêlo tenente, dizendo o cocheiro bem alto,

que elle não era homem que se vendêsse, e por isso entregava ao tenente

uns três xelins que elle tinha feito a offensa de lhe querer dar, e

dizendo-me, que tomasse o logar cubiçado, em quanto o voluntario mavorte

subia para o interior, furioso e iracundo, o honrado cocheiro punha as

rédias em ordem e fazia estalar o chicote.

Se o tenente estava furioso, não o estava menos a dama, que podendo ter

a seu lado um elegante official, tinha por companheiro um maltrapilho

como eu.

Achegou a si o vestido para não roçar pêlos meus esfarrapados calções, e

apesar de irritada contra o cocheiro, preferio encostar-se a elle para

evitar o menor contacto comigo.

Na primeira muda, eu quiz ver se derretia aquelle gêlo, se quebrava

aquella malquerença que me affligia, e tendo encontrado uns frascos de

amendoas cobertas, comprei pressuroso um, pensando, na minha

inexperiencia em assumptos feminis, que uma dama joven e formosa devia

gostar de dôce, e ser vencida com bôlos.

Ao dirigir-me ao carro, eu ja via aquella ruga formada entre os

sobrolhos desfazer-se, ja via aquelles labios pregados em gesto irado

entreabrirem-se em sorriso benevolente, ja via um principio de

conversação; e foi com a maior confiança que lhe estendi o meu talisman,

o frasco dos confeitos. A joven dama, sem mesmo me dar a confiança de

olhar para mim, disse-me sêcamente, "Não tenho a honra de o conhecer."

N'um ataque repentino de despeito, atirei com o frasco fora, e elle foi

partir-se sôbre uma rocha, entornando as espheras coloridas que roláram

em todas as direcções.

Estavam abertas as hostilidades entre nós.

Á hora de jantar parámos em Sunday's River, onde me déram um magnìfico

serviço por dois xelins e meio.

A dama e o tenente de cavallos ligeiros, á mêsa, muito unidos

lançavam-me olhares furiosos, e de certo me rogavam tantas pragas

quantas as que cahíram sôbre o Egypto com a sua obra de destruição.

Ao subir para o carro, ignorando quem eu era, e avaliando-me so pêlos

meus andrajos e pêla minha barba desgrenhada, a joven Ingleza disse ao

filho de marte, "que a gente ordinaria ja se dava uns taes ares que

irritavam." Isto encheu-me as medidas, e eu prometti vingar-me logo que

a occasião se apresentasse.

Não tardou ella em apparecer.

N'essa noute chegámos, ás 7 horas, a Ladysmith, onde devìamos pernoitar.

A villa estava cheia de gente, e transportávam-se ali os feridos e os

doentes.

Não havia uma cama, não havia um canto onde nos mettermos.

Em uma hospedaria encontrámos quasi vazia a sala de visitas, e digo

quasi vazia, porque so la estava estabelecido um cabo de esquadra, que,

deitado no sofá, não fez muito caso do tenente de voluntarios.

A dama sentou-se em uma cadeira e o tenente sahio.

Eu travei conversa com o cabo de esquadra, e offereci-lhe de beber. A

perspectiva de uma bôa garrafa de vinho fez mais effeito no marcial

guerreiro do que os confeitos tinham feito na loura Ingleza, e o meu

homem sentou-se e travou logo conhecimento comigo.

Eu sentei-me ao lado d'elle no sofá, promettendo a mim mesmo ja não

sahir d'ali. Depois propuz ao soldado ir elle buscar a garrafa de vinho,

para o que lhe dei meia-libra.

O homem sahio, e eu deitei-me no appetecido movel.

Pouco tempo depois voltava elle com a garrafa, dois copos e cinco xelins

de trôco. Estendeu-me o trôco, que eu, com um gesto de soberano desdem,

não aceitei e que elle fez desapparecer na profunda algibeira.

Eu bebi um copo, elle bebeu sete, quando me ia a levantar, fingindo que

lhe queria offerecer a sua conquistada propriedade, elle recusou-se

terminantemente a isso, e eu estendi-me commodamente, envolvendo os meus

pes n'um pelludo cobertor e preparando-me para dormir.

O cabo, meio embriagado, sahio da sala, e não sei o que foi feito

d'elle, porque não mais o vi.

Pouco depois, entrou o tenente, que disse á dama, não ter podido

encontrar melhor logar que aquelle para passarem a noute.

Olhou para mim e eu olhei para elle. O seu olhar parecia dizer-me,

"Tenha dó d'esta dama, cêda-lhe o sofá."

O meu respondia-lhe: "Sou homem muito ordinario para ter d'essas

delicadezas."

Resignados, chegáram as cadeiras uma para junto da outra e poséram-se a

conversar. Eu que pouco me importava de ouvir arrulhos de pombos, fechei

os olhos e dormi como um justo até as 3 horas, hora a que me viéram

chamar para partir.

Ás 6 chegàvamos a Colenso, onde passàvamos o rio Tuguela em um magnìfico

fluctuador, e ás 3 da tarde paràvamos na bonita aldea de Howick, onde

uma demora de duas horas me permittio ir ver a formosa cataracta que a

torna cèlebre.

Effectivamente, é uma das mais bellas paizagens que tenho contemplado,

aquella.

Partímos, e pouco depois eu fazia parar a diligencia, para falar á minha

gente, que encontrei nos vagons em que tinham sahido de Pretoria, e que

rodavam pesadamente no caminho de Durban.

Informado de que estavam tôdos bons e que sobejavam os vìveres, segui,

dando-lhe um ponto de reunião em Maritzburg.

Eram dez da noute quando chegava á capital da Natalia e me ia

estabelecer no _Royal Hotel_, o melhor da terra, em um soffrivel quarto.

No dia seguinte, passáram os vagons com as minhas bagagens e os meus

prêtos, com quem falei e a quem prometti esperar em Durban.

Depois d'isto, fui procurar Madame Saunders, a espôsa do meu amigo

Capitão Saunders, para quem era portadôr de cartas de seu marido.

Em casa d'ella fiquei encantado com uma criança, a filha de Saunders, em

que elle muitas vêzes me tinha falado e que era encantadôra.

Quando sahi de casa d'ella ja èramos amigos, e eu promettia á pequena

Didi de voltar a Maritzburg, se não encontrasse logo um transporte para

a Europa em Durban.

No dia 19 de Março, depois de ter feito uma jornada de 23 milhas em um

ligeiro dog-cart, tomava a ferrovia, e corria sôbre os rails puidos em

direcção a Durban.

¡Que impressão profunda me não causou o ouvir o sibilar da locomotiva!

Os postes telegràphicos, armados de pára-raios, como o sam ali casas e

construcções quaesquer, faziam-me outra vez lembrar da civilização da

Europa, do progresso do nosso sèculo, da grande evolução da humanidade,

e mil idéas confusas se me baralhavam no cèrebro, quando ás 6 horas

chegava a Durban.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo · 第 20 / 23 段