nos olhos, que fiquei extàtico diante d'essa mole immensa de àguas
azuladas que se confundiam ao longe, para este, com o azul dos ceos.
N'êsse momento não pude deixar de dizer a mim mesmo, com certo orgulho:
"Atravessei a Àfrica, este é o mar Ìndico."
Voltei á realidade depois de alguns minutos de abstracção, e percebi que
devia ir procurar um hotel.
Eu ja sabia, que em tôdas as cidades da Àfrica Ingleza ha sempre um
_Royal Hotel_, e pedi que m'o indicassem.
Depois de vàrias consultas entre o estalejadeiro e sua espôsa, foi
decidido que me dariam um quarto no fundo de um pàteo. Tomei posse
d'elle, e quando estava a fazer o meu _toilette_ para o jantar, viéram
dizer-me, que me procurava o General.
Eu ja por vêzes tinha ouvido falar no general, quando o meu hospedeiro
combinava com a mulhér sôbre que quarto me daria, e percebi então, que o
general occupava uma grande parte do Hotel, e que era preciso não o
incommodar.
Recebi o general, que era um homem ainda nôvo e sympàthico, e me disse,
que tendo sabido da minha chegada, me vinha convidar a jantar.
Era elle o General Strickland, commissario em chefe do exèrcito Inglez.
Fui jantar á sua sala particular, onde conheci á mêsa um exército de
_reporters_, enviados por os jornaes Inglezes, Francezes e Americanos,
para darem noticias da guerra. Foi ali que conheci alguns d'esses
homens, que, simples correspondentes de jornaes, t[~e]m sabido fazer
conhecer o seu nome no mundo inteiro; foi ali que conheci os S^{nrs.}
Forbes, Francis-Francis e outros, que se t[~e]m immortalizado como o seu
collega Stanley, que, antes de ser o primeiro dos exploradores
Africanos, foi o primeiro dos _reporters_ Americanos.
O general Strickland dispensou-me as maiores attenções e finezas, e fui
seu conviva em quanto estive em Durban.
No dia seguinte, fui procurar o Consul Portuguez, M^{r.} Snell, que têve
para comigo muitas attenções, arranjando-me logo local, em sua propria
casa, onde eu podesse accommodar os meus prêtos e as minhas bagagens.
Contudo, de casa do Consul Portuguez sahi muito triste, por uma noticia
que elle me deu.
O paquête para a Europa tinha partido n'esse dia!
Era um mez! era um mez que eu tinha de esperar n'aquella terra, onde
nada me prendia; era um mez que eu tinha a esperar mais para poder
abraçar os meus, para poder ver o meu Portugal.
Resignei-me, e no dia immediato pude assistir á chegada dos meus prêtos,
das minhas bagagens, do meu papagaio e da minha cabrinha.
Installei-os em casa do Consul Portuguez, M^{r.} Snell, que continuou a
dispensar-me os maiores favôres.
Depois d'isto comecei a esperar que passasse um mez!
Os meus trabalhos, sempre em dia, não me deixavam ao menos o recurso de
trabalhar.
Nos primeiros dias encontrei em que passar as manhãs sem sahir de casa.
A casa de banho do Royal Hotel era do outro lado da rua, e os hòspedes
tinham de fazer uma caminhada para irem a ella. O Hotel estava cheio de
officiaes, que chegavam tôdos os dias de Inglaterra. Logo de manhã
começava uma procissão, entre a casa de banho e o hotel, de homens de
tôdas as idades e feitios, em trages muito ligeiros, levando cada um uma
toalha e uma esponja enorme. Divertio-me aquella scena burlêsca por dois
dias, mas aquillo durava apenas uma hora de manhã, e eu não sabia que
fazer no resto do dia.
Comecei a aborrecer-me muito, e acirrado pêla contrariedade que me
causava a demora, comecei a soffrer.
Sentia em mim um vazio enorme. Habituado a um trabalho de ferro, a uma
vida tão activa, a uma tensão de espìrito constante, á idéa de alcançar
um fim, tinha chegado á meta, e sentia uma falta que não podia superar.
Adoeci, e pêla primeira vez na minha vida tive mêdo de morrer.
A guerra preoccupava tôdos os espìritos, e no meio d'aquelle mundo em
que vivia não tinha uma so affeição.
Um dia, no leito onde me tinha prostrado a doença, e onde nem uma
amizade me vinha trazer uma palavra de confôrto, tinha so na idéa a
saudade de uma espôsa adorada e de uma filha estremecida, quando me veio
á lembrança essa criança que eu tinha visto em Maritzburg e que tanta
impressão me tinha feito--a filha do Capitão Allan Saunders.
Em miseravel estado de saude, sahi de casa, tomei o caminho de ferro, e
segui para a capital da Natalia.
Logo que me estabeleci no Royal Hotel, parti para casa de Madame
Saunders.
Fui recebido com a maior affabilidade por aquella dama, e com muitos
beijos pêla pequena Didi, que eu levei a jantar comigo ao hotel.
Eu ja tinha dinheiro meu, que me tinha sido emprestado sôbre a minha
assignatura particular, e ja comprara um vestuario decente.
Uma boneca e uma caixa de amèndoas fizéram de Didi minha amiga ìntima, e
sôbre tudo uma tartaruga enorme que me déram no hotel e que eu lhe dei,
tornara aquella amizade em verdadeira paixão.
Outro motivo não era de certo estranho ao amor d'aquella criança.
Madama Saunders, para me ser agradavel, deixàva-me a sua filha ja em sua
casa, ja na minha, e Didi encontrava n'esta liberdade o meio de nunca ir
á mestra. Esta consideração devia pesar tanto como a tartaruga e a
boneca, na sua affeição por mim.
Ao mesmo tempo, M^{r.} e Madama Furze, o Coronel Mitchell, o Coronel
Baker, o Capitão Whalley e outros, faziam-me encontrar n'elles
verdadeiros amigos, que me enchiam de favôres; mas Didi, aquella linda
criança de nove annos, preenchia um vàcuo na minha existencia de então,
com as suas meiguices, e ás vêzes com os seus amuos e perrices.
Sem esta criança, eu teria talvez succumbido ao tèdio que me ganhou e
que me prostou ao comêço em perigosa doença.
Pietermaritzburg é uma bonita cidade, tem magnìficas casas e sobêrbos
templos, em um dos quaes ouvi por vêzes a palavra eloquente, arrebatada
e cheia de fôgo, do sabio Bispo Colenso.
Ha ali formosos jardins e mimosissimas flôres, sendo as damas de Natal
muito dadas á floricultura, e concorrendo muitas vêzes a certames nas
exposições locaes. Tem um magnìfico parque, onde á tarde circulam muitas
e brilhantes equipagens.
No tempo que ali passei, apresentava a cidade um aspecto desusado e um
movimento consideravel, consequencias da guerra dos Zulos. Os hotéis
estavam cheios de militares, os quartéis regorgitavam de soldados, e
muitos acampavam fora d'elles. No _Royal Hotel_, que diziam ser o
melhor, o serviço era mao, devido isso talvez ao excesso de hòspedes que
ali havia. Havia tambem, em geral, um grande abuso nos prêços de tudo, e
isso era consequencia de o govêrno pagar sem regatear.
O estabelecimento Cathòlico de Maritzburg é muito importante, e tido com
a maior ordem, goza de grande crèdito na colonia.
O Consul Portuguez, M^{r.} Snell, escreveu-me, que tinha chegado o
paquête 'Danúbio', da _Union Steamship Company_, que devia seguir para
Moçambique e Zanzibar no dia 19 de Abril.
Parti, por isso, de Pietermaritzburg a 14, depois de ter feito saudosas
despedidas aos amigos que ali deixava.
Dirigi-me ao _Royal Hotel_, e não pude obter um quarto. Então M^{r.}
Snell tratou de me arranjar alojamento, e pôde obter um quarto de banho
no Club de Durban, onde me fizéram uma cama no chão.
Os officiaes que chegavam, cada dia, não tendo onde se metter, armavam
barracas de campanha nos pàteos e nas ruas em volta dos hotéis e do
Club.
Por o mesmo paquête em que eu devia partir para o Norte tinha chegado o
infeliz prìncipe Napoleão, que tão caro devia pagar a sua ousadia e
coragem. Conheci-o, e não pude deixar de me afeiçoar, no curto convìvio
que tivémos, a esse joven sympàthico, intelligente e illustrado, a quem
uma morte ingloria e estùpida cortou tão prematuramente uma existencia
brilhante.
Quantas vêzes eu lhe repeti o meu principio fundamental da vida
Africana, "de desconfiar em Àfrica de tôdos e de tudo, até que provas
irrefutaveis não nos fizessem confiar em alguem ou em alguma cousa."
A sua natureza ardente, a inexperiencia dos seus poucos annos, a sua
coragem leonina, e esse descuido peculiar á juventude cheia de illusões
e crenças, causáram a sua perda. Só quem o não conheceu o não lastimará;
que n'elle havia o germem de um grande homem, havia uma attracção
indefinivel para captar tôdos os corações.
Estranho á polìtica da França, n'estas poucas linhas lavro um testemunho
de saudade ao mancêbo desterrado que foi meu amigo, e não ao prìncipe
que representava um principio, e faço-o tanto mais desassombradamente,
que vi os seus proprios adversarios lastimarem aquella grande
catàstrophe.
Nas vèsperas da partida, travei relações com M^{r.} e Madame Du Val, e
recebi d'elles muitos favôres, e finalmente, a 19 de Abril, embarcava
com os meus prêtos e as minhas bagagens n'um pequeno vapor que me devia
conduzir ao _Danubio_, ancorado fora, porque em Durban ha apenas uma
pequena enseada, fundeando os grandes vapôres na costa limpa.
O mar estava um pouco picado e custou a atracar ao _Danubio_.
M^{r.} e Madame Du Val iam comigo, porque M^{r.} Du Val, chefe da
Companhia Hollandeza em Àfrica Oriental, ia passar em revista as
feitorias de Moçambique.
A passagem das bagagens do pequeno vapor para o _Danubio_ foi difficil,
pêlo mao estado do mar, e uma das minhas caixas cahio, sendo esmagada e
desfeita entre os dois vapôres.
Caixa e conteúdo fôram ao mar, mas o Commandante Draper fez arrear logo
um escalér, e pôde conseguir salvar algumas das cousas que ella continha
e que fluctuavam, outras afundáram e estavam irremediavelmente perdidas.
Deixámos Durban, e não foi sem uma sensação de infinito prazer que eu
senti o espadanar das àguas em tôrno do èlice poderoso, que a cada
rotação me impellia no caminho da Patria.
Em Lourenço Marques foi pouco o tempo para receber favôres, e a maior
parte d'elle foi passada com o meu velho amigo Augusto de Castilho, e
com os meus amigos Machado, Maia e Fonceca.
A bordo, o Commandante Draper não cessava de me obsequiar.
Cheguei finalmente a Moçambique, onde fui encontrar tôdas as autoridades
na cama. O Governador Cunha, o seu secretario e os seus ajudantes,
estavam abrasados em febre.
Fui logo visitar o Governador, ao seu quarto de cama, e apesar do seu
melindroso estado de saude e do cuidado que lhe dava o estado de sua
espôsa, prostrada pêla febre tambem, Sua Excellencia deu as mais
terminantes ordens para facilitar o meu regresso á Patria com a gente
que me acompanhava, fazendo-me os mais subidos favôres.
Fui d'ali procurar um velho amigo da guerra da Zambezia, o Coronel
Torrezão, em cuja casa me hospedei, com os meus amigos Du Val.
Dois dias depois, partia para Zanzibar, onde esperava encontrar Stanley,
mas com o qual me desencontrei, tendo partido na vèspera da minha
chegada.
O D^{or.} Kirk, Consul Inglez em Zanzibar, deu-me um jantar, e subidos
fôram os favôres que recebi d'elle e de sua espôsa.
Tôdos os Europêos porfiavam em me obsequiar, distinguindo-se os
officiaes da guarnição do _London_.
O Commandante Draper, logo que soube que o vapor de Aden só partiria
dentro de oito dias, não consentio que eu fôsse para terra, dizendo-me
(com razão) que as hospedarias ali eram pèssimas, e por isso fiquei
vivendo a bôrdo, sempre com um escalér ás minhas ordens.
Travei ali relações com um joven Suisso, T. Widmar, que devia ser meu
companheiro de viagem para a Europa.
Depois de uma semana de demora, em que cada dia foi assignalado por
novos favôres de M^{r.} Du Val e do Commandante Draper, deixei Zanzibar
n'um pequeno vapôr, do _British India_, onde recebi muitos favôres do
seu Commandante Allen.
Em Aden, como a carreira do _British India_ tivesse uma demora de oito
dias, eu e Widmar tomámos passagem a bôrdo de um vapor da Lloyd
Austriaca que nos conduzio a Suez, seguindo d'ali no primeiro trem para
o Cairo.
Eu tinha adoecido gravemente, e foi Widmar o meu enfermeiro, tendo por
mim cuidados de um velho amigo.
Ainda convalescente, fui ás piràmides com elle. Eu tinha visto o Zaire e
o Zambeze; não queria voltar á Europa, sem saudar a velho Nilo; e do
alto do sarcòphago do rei Cheops, d'esse monstruoso monumento levantado
ha quatro mil annos pêlo orgulho dos Pharaós, eu vi-o correr plàcido e
sereno, banhando as ruinas da outrora sobêrba Memphis.
Pouco depois, deixava o Cairo, sobêrba e ardente, cidade de ouro e de
miseria, e ia em Alexandria fazer novos amigos e receber novos favôres.
O Conde e a Condêssa de Caprara acima de tôdos, fizéram-me taes
obsèquios, que mais pareciam amigos de annos do que conhecidos de dias.
O Consul geral de Portugal, o Conde de Zogueb, tambem me fez
offerecimentos na vèspera da minha partida, quando soube que o _Crédit
Lyonnais_ de Paris me tinha aberto um crèdito no Egypto, com dinheiro
meu, mandado de Lisboa pêlo meu amigo Luciano Cordeiro.
Esquècia-me dizer, que por um mal-entendido das ordens do govêrno de
Portugal, eu estive no Egypto sem dinheiro, gastando da bôlça de Widmar
e da do Conde de Caprara, e podendo gastar de outras muitas estranhas
que se me offereciam, e que não pensavam que eu fôsse um cavalheiro de
industria; porque não ignoravam que Portugal tivesse enviado á Àfrica a
expedição de 1877, e que d'essa expedição o Major Serpa Pinto voltava á
Europa pêlo mar Ìndico.
Segui de Alexandria para Nàpoles, e d'ali por terra para Bordeos, onde
fui altamente obsequiado pêlo nosso Consul, o Barão de Mendonça.
A 5 de Junho, deixava Pauillac, e a 9, em Lisboa, pisava a terra de
Portugal, no meio dos amigos mais dilectos que eu tantas vêzes pensei
não mais ver.
Na vèspera haviam chegado os meus prêtos, e o meu papagaio.
Estavam pois a salvo os trabalhos, e os restos de um dos ramos _da
expedição Portugueza ao interior da Àfrica Austral, em 1877_.
CONCLUSÃO.
Vou concluir o meu trabalho apresentando as minhas ùltimas observações
astronòmicas e meteorològicas, e ajuntando a ellas um vocabulario de
lìnguas Africanas, limitarme-hei a dizer poucas palavras mais.
O resultado das observações astronòmicas, calculadas por mim em Àfrica
durante a viagem, fôram recalculadas em Londres por M^{r.} S. S. Sugden,
e apresentando, como apresento, as observações iniciaes, podem ser ainda
reverificadas.
Em tôdos os pontos onde me demorei mais de um dia, tive o cuidado de
estudar as marchas dos chronòmetros, que, àlém d'isso, me eram reveladas
pelas comparações diàrias, e pelas observações dos eclipses e dos
reaparecimentos do primeiro satèlite de Jùpiter.
N'esta parte de minha viagem, tive uma sorprêsa que me tirou algumas
noutes de sono. Foi ella a da grande differença que encontrei na posição
de Shoshong (_Xoxom_) em longitude, e mesmo em latitude.
Homens distinctos e sôbre todos Ed. Mohr, passáram ali e determináram
aquella posição. Fiquei pois sorprendido, vendo que a minha determinação
importava uma differença de mais de 60 milhas!
Durante a minha estada em Shoshong, estudei cuidadosamente as marchas
dos chronòmetros, e conheci que se conservavam sem a menor alteração.
Continuando a viagem, o meu ùnico cuidado era chegar a ponto onde
podesse reverificar os chronòmetros por uma longitude conhecida.
Assim fiz, e as segundas observações que apresento no quadro fôram
calculadas dos estados dos chronòmetros, encontrados em Soul's Port e
Heidelberg.
O ùltimo reapparecimento que observei do 1^o satèlite de Jùpiter, na
noute de 13 de Decembro, e a verificação feita em Heidelberg, não me
deixam dùvida de que a minha posição deve ser muito pròxima da
verdadeira, em quanto á longitude; e em quanto á latitude, não tenho a
menor dùvida em a garantir a 30" de approximação.
Aqui, como ja fiz antecedentemente, apresento as observações iniciaes
hypsomètricas para a determinação do relêvo do meu caminho.
Empreguei no càlculo d'ellas a temperatura constante de 23 graos para o
nivel do mar, por ser ella a mèdia das temperaturas sôb a pressão de 760
milimetros n'aquellas latitudes.
É minha opinião, que ali, não havendo occasião de fazèrem-se observações
simultàneas, deve ser aquella a temperatura empregada nos càlculos.
A fòrmula que empreguei para calcular as altitudes foi a seguinte, que é
perfeitamente empìrica:
A = (100 - H)(284.95 + 3.1 {A/1000}).
Esta fòrmula não é mais do que a antiga fòrmula de Laplace, em que se
não leva em conta a constante 18,382 = 18,336 (1 + {1/400}) que diz
respeito á diminuição do mercurio na vertical produzida pêlo pêso, uma
vez que nos hypsòmetros se não dá essa circunstancia.
Assim, pois, as tabuas que empreguei, sam construidas da formula:
A = 18,382 log {760/B} + {1/6,366,200} (18,382 log {760/B})^2,
e cujos nùmeros obtidos sam reduzidos de 1/400, e da tàbua das tenções
do vapor construida por M^{r.} Regnault.
Quem dér uma certa attenção ás observações meteorològicas que publico,
verá que as alterações atmosphèricas n'esta parte de Àfrica, influem
pouco ou nada na pressão, que se conserva a mesma no meio das mudanças e
variações mais sùbitas.
Assim, pois, os resultados das observações hypsomètricas apresentam uma
certa garantia de approximação.
As localidades a que se referem as observações meteorològicas não estam
designadas, mas facil é encontral-as, porque, pêlo diario e pêlo quadro
das observações astronòmicas, sàbe-se onde eu estava nos dias
designados.
Quiz juntar a este trabalho uma collecção de têrmos das lìnguas Hambundo
e Ganguela, faladas de Benguella ao Zambeze, e fui á obra de Gamito
buscar os termos correspondentes em uma outra lìngua falada nas mesmas
latitudes na costa de Este, para que se podesse fazer uma comparação
entre ellas, e effectivamente encontramos ali muitos termos communs.
Esta parte da minha viagem do Zambeze ao Transvaal, não apresenta aos
geògraphos o mêsmo interesse da parte de Benguella ao Zambeze, porque
àlém do caminho de Deica a Shoshong, é ella mais ou menos conhecida.
Assim, pois, não me deterei aqui a acrescentar ao que ja disse nada
mais, àlém de duas palavras a respeito d'êsse traço de Deica a Shoshong,
e sôbre tudo da região dos lagos salgados; e isto porque ja vi a
asserção de um explorador eminente, de que o Grande Macaricari derivava
àguas para a costa de Este pêlo Xua (_Shua_) e Nata.
Não posso, nem dêvo, admittir tal hypòthese.
A poucas milhas de distancia, o Xua e Nata apresentam um desnivelamento
de 24 metros, e bastava que a àgua subisse no Macaricari metade d'esta
altura para alagar o deserto tôdo.
Àlém d'isso, verifiquei, que o terreno se eleva muito para leste do
Macaricari, e que tôdos os rios que descem ao lago apresentam
desnivelamento grande.
A primeira àgua que encontrei correndo a este foi a que nasce na altura
de Linocanin, cujas vertentes oeste deitam àgua a oeste no Deserto.
Assim, pois, instrumentos na mão, e càlculos á vista, rejeito a idéa de
que, do Grande Macaricari transbordem àguas para o mar Ìndico; e que me
perdôe o meu illustre colega se o contradigo, e se não posso deixar de
sustentar a minha opinião estribada em observações e càlculos que não
falham. Perdoe-me, e se ha n'isto a menor teimosia, é ella da
matemàtica, que tem ás vêzes as suas brutalidades.
Lembrei-me de juntar ao livro três facsìmiles, de pàginas do meu diario,
dos meus livros de càlculos, e do meu albo de cartas, para mostrar os
originaes dos meus trabalhos Africanos, e com isto concluo a relação
d'êsses trabalhos, que eu devia ao meu paiz e ao pùblico em geral.
[Três Facsìmiles, de pàginas do Diario, dos Livros de Càlculos, e do
Albo de Cartas]
*Observações Astronòmicas feitas da Confluencia do rio Cuando ao
Transvaal*.
+--------------+---------------------------+---------------+-------------+
| Anno de | Logares onde | Hora dos | Estado para |
| 1878. | observei. | Chronòmetros. | Greenwich. |
+--------------+---------------------------+---------------+-------------+
| | | H. M. S. | H. M. S. |
a|Outubro 22 | Embarira | 0 7 0 |+ 4 3 49 |
b| " " | " | 3 16 36 |+ 4 3 49 |
c| " " | " | --- | --- |
d| " 25 | Lechuma | 9 2 36 |+ 4 4 19 |
e| " 28 | " | 9 27 26 |+ 4 4 50 |
f| " " | " | 5 37 18 | --- |
g|Novem. 5 | " | --- | --- |
h| " " | " | 9 34 40 |+ 4 6 11 |
i| " 7 | " | --- | --- |
j|Dezem. 6 | Tamafupa | 9 25 0 |- 1 45 0 |
l| " 13 | No Deserto | 6 5 50 | --- |
m| " 14 | Margem do rio Nata | 4 0 34 |+ 4 9 46 |
n| " 15 | " " | 17 8 0 |- 1 48 0 |
o| " 16 | " " | 6 28 0 |- 1 48 0 |
p| 1879. | | | |
q|Janeiro 1 | Shoshong | 6 30 0 |- 1 48 0 |
r| " 2 | " [A]{| 3 54 37 |+ 4 13 0 |
s| " " | " {| 3 54 44 |+ 4 13 0 |
t| " " | " | 7 16 0 |- 1 48 0 |
u| " 7 | " [B]{| 3 48 45 |+ 4 12 18 |
v| " " | " {| 3 50 10 |+ 4 12 18 |
x| " 23 | Confluencia do Ntuani | 9 10 58 |+ 4 16 15 |
z| " " | " " | 9 15 35 |+ 4 16 15 |
0| " " | " " | 9 14 25 |+ 4 16 15 |
1| " " | " " | --- | --- |
2| " 26| Limpopo (Adicul) noite | --- | --- |
| | dos leões | | |
3| " " | " " | 4 7 59 |+ 4 16 41 |
4| " " | " " | 4 11 19 |+ 4 16 41 |
5|Fevereiro 1 | Cornocopia | 0 25 46 |+ 4 17 37 |
6| " " | " | 0 22 32 |+ 4 17 37 |
7| " 4 | Soul's Port | --- | --- |
8| " 5 | " | 9 1 32 | --- |
9| " " | " | 9 2 17 | --- |
A|Março 10 | Heidelberg | --- | --- |
B| " " | " | 3 57 49 | --- |
+--------------+---------------------------+---------------+-------------+
*Legenda*:
[A] Estado para esta longitude foi calculado pelas marchas anteriores, e
é referido á observação do reapparecimento do 1^o satèlite de Jùpiter a
13 de Dezembro.
[B] Estado para esta longitude foi calculado pelas marchas posteriores,
e é referido á longitude de Heidelberg.
+---------------+---------+--------+--------+------+---+-----------------+
| Natureza | Dupla | | | | | |
| da |altura do| [A] | [B] | [C] |[D]| Resultados. |
| Observação | astro. | | | | | |
+---------------+---------+--------+--------+------+---+-----------------+
| | ° ' "| ° ' "|H. M. S.| ' "| | ° ' |
a|Amplitude Mag. | --- |17 49 0| -- | -- |---|Variação 20 39 O.|
| 2° 5' | | | | | | |
b|Chron. [*-] | 99 45 10|17 49 0| -- |- 0 50| 1 |Long. 25 23 E.|
c|Alt.Mer. [+] |115 17 0| --- | -- |- 1 0| 1 |Lat. 17 49 S.|
| Markal ([a] do| | | | | | |
| Pegaso) | | | | | | |
d|Chron. [*-] | 89 54 40|17 56 0| -- |- 0 30| 3 |Long. 25 25 E.|
e| " | 78 13 30|17 56 0| -- | " | 3 | " 25 25 E.|
f|Reap. do 1^o | --- | --- | -- | -- |---|Estado |
| satèlite de | | | | | | 4^h. 4^m. 50^s.|
| Jùpiter | | | | | | |
g|Alt. Mer. [-)] |140 22 0| --- | 1 45 0|- 1 0| 1 |Lat. 17°56'S.|
h|Chron. [*-] | 75 7 23|17 56 0| -- |- 0 40| 3 |Long. 25 24 E.|
i|Alt. Mer. [*-] |118 55 0| --- | 1 45 0|+ 1 0| 1 |Lat. 17 57 S.|
j| " |101 0 2| --- | 1 45 0|+ 6 0| 1 | " 19 19 S.|
l|Reap. do 1^o | --- | --- | -- | -- |---|Estado |
| sat. de Jùp. | | | | | | 4^h. 9^m. 40^s.|
m|Chron. [*-] |125 7 10|20 10 0| -- |+ 1 30| 3 |Long. 27° 0'E.|
n|Alt. Mer. [-)] | --- | --- | -- |+ 2 30| 1 |Lat. 20 10 S.|
o|Amplitude Mag. | --- |20 10 0| -- | -- | 1 |Variação 21 14 O.|
| 3° 45' | | | | | | |
p| | | | | | | |
q|Alt. Mer. [-)] |105 55 30| --- | -- |- 0 45| 1 |Lat. 23 1 S.|
r|Chron. [*-] |121 2 53|23 1 0| -- | " | 3 |Long. 27 24 E.|
s| " |121 33 40|23 1 0| -- | " | 3 | " 27 20 E.|
t|Alt. Mer. [-)] | 96 49 30| --- | -- | " | 1 |Lat. 23 1 S.|
u|Chron. [*-] |117 31 26| --- | -- | " | 3 |Long. 27 19 E.|
v| " |118 30 33| --- | -- | " | 3 | " 27 20 E.|
x| " | 91 33 33|23 42 6| -- |- 0 30| 3 | " 27 39 E.|
z| " | 90 58 13|23 42 0| -- | " | 3 | " 27 39 E.|
0| " | 91 30 40|23 42 0| -- | " | 1 | " 27 39 E.|
1|Alt. Mer. [+] |122 10 0| --- | 1 50 0| " | 1 |Lat. 23 42 S.|
| Canopus ([a] | | | | | | |
| do Argus) | | | | | | |
2|Alt. Mer. [+] |122 59 40| --- | 1 50 0|- 0 50| 1 | " 24 6 S.|
| Canopus | | | | | | |
3|[+] Aldebaran | 77 42 10|24 6 0| -- | " | 1 |Long. 27 32 E.|
| ([a] do Touro)| | | | | | |
4|[+] Aldebaran | 76 40 50|24 6 0| -- | " | 1 | " 27 32 E.|
5|Chron. [-)] | 74 22 40|24 38 0| -- | " | 1 | " 27 38 E.|
6| " | 73 57 33|24 38 0| -- | " | 3 | " 27 37 E.|
7|Alt. Mer. [)-] | 80 4 10| --- | 1 51 0|- 0 40| 1 |Lat. 25 10 S.|
8|Chron. [*-] | 95 6 10| --- | 1 51 12| " | 3 |Estado |
| | | | | | | 4^h. 18^m. 14^s.|
9| " | 94 45 17| --- | 1 51 12| " | 3 | 4 18 14 |
A|Alt. Mer. [*-] |134 47 30| --- | 1 56 0|+ 1 65| 1 |Lat. 26°29'S.|
B|Chron. [*-] |109 13 20| --- | 1 56 0|+ 2 30| 3 |Estado |
| | | | | | | 4^h. 23^m. 16^s.|
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*Legenda*:
[A] Latitude Sul.
[B] Longitude em tempo.
[C] Erro do instrumento.
[D] N^o. de Obs.
[*-] símbolo do sol por cima da barra
[)-] símbolo da lua por cima da barra
[-)] símbolo da lua por baixo da barra
[+] símbolo de estrela
[a] Letra grega "Alpha"
*Quadro das Observações Hypsomètricas feitas de Lexuma a Heidelberg,
para determinar o relêvo do caminho seguido pelo Major Serpa Pinto*.