O D^{or.} Hollandez redobrou de instancias comigo para que fôsse ser seu

hòspede, e eu de certo teria aceitado hospitalidade tão franca e

cordialmente offerecida, se não tivera uma promessa de M^{r.} Turner, de

ter um quarto para mim no dia immediato.

N'esse dia, 14 de Fevereiro, e terceiro de estada em Pretoria, acabavam

de se resolver as minhas difficuldades.

O telègrapho tinha levado longe a noticia da minha chegada áquella

cidade, e o telegrapho tinha trazido ordens, de Sir Bartle Frere, de Sir

Theophilus Shepstone e do Consul Portuguez no Cabo, M^{r.} Carvalho, a

meu respeito. Tinha a maior assistencia do govêrno Inglez; e o

Portuguez, representado pêlo Consul do Cabo, ia àlém do estrangeiro.

A minha gente disse-me estar optimamente em casa do Rev. Gruneberger, e

M^{r.} Turner dàva-me um quarto.

Verdadeiramente não era um quarto, era uma casa tôda e independente,

pròximo do Café Europêo.

Comecei a respirar e a achar-me á vontade, mas tinha ainda um ponto

nêgro, um pesadêlo que me perseguia sempre, e era não saber o que fazer

das mãos.

Andava sempre a procurar a carabina, e tal era a fôrça do hàbito, que

mais de uma vez cheguei a sahir á rua com ella, com grande espanto dos

transeuntes.

N'esse dia remunerei Low e o endiabrado Christophe, que resolvêram

partir no dia immediato, apesar de a mão de Low não apresentar sensiveis

melhoras.

Mandei por Low uns pequenos presentes a sua avó, a velha megera do

acampamento Böer, e a suas irmãs, as duas bonitas raparigas que

cosinhavam cebôlas.

Retribui e despedi tambem o Betjuana Farelan, que tão bons serviços me

prestou de Soul's Port a Pretoria, e por elle escrevi a M^{r.} Gonin, o

bom missionario Francez do Piland's Berg.

Fui em seguida ao _Cape Colonial Bank_, onde depositei a somma do meu

dèbito a M^{r.} Taylor de Shoshong, que, continuando as suas delicadezas

para comigo, ainda a esse tempo não tinha feito apresentar a lêtra para

o aceite.

Em seguida a estes passos, fui para minha casa, d'onde escrevi ao

Governador de Moçambique, participando-lhe a minha chegada a Pretoria, e

pedindo-lhe para mandar expedir de Aden um telegramma que lhe enviei,

dirigido ao Govêrno de Portugal.

Continuavam os favôres que não cessavam de dispensar-me as principaes

pessoas de Pretoria, e eu quasi não tinha occasião para comer no Café

Europêo, tantos convites recebia.

A 15 de Fevereiro, tive uma larga conversação com M^{r.} Fred. Jeppe, o

sabio geògrapho Transvaaliano, e pêlas informações que elle me deu,

combinadas com o que me havia dito o Governador interino e M^{r.} Swart,

vi que a guerra dos Zulos era um embaraço á continuação da minha viagem.

Èra-me quasi impossivel ir a Lourenço Marques, como eu queria, e mesmo o

caminho da costa Ingleza estava difficil, porque depois da derrota de

Isandhlwana, os Zulos estavam apenas contidos por o bravo Coronel E.

Wood,[15] entrincheirado em Utrecht, e tôdas as communicações se faziam

pêlo Estado Livre do Orange, por Harrismith, triplicando o caminho e as

difficuldades.

Logo que estudei a questão, decidi mandar a minha gente para Natal pêlo

caminho de Harrismith com as bagagens, incorporada na primeira caravana

que largasse Pretoria, e eu sòzinho e escoteiro ir em linha recta pêlo

theatro da guerra. Dispuz pois as coisas n'esse sentido, e fiquei

esperando o ensejo desejado.

O dia 16 foi tôdo consagrado a M^{r.} Fred. Jeppe e em sua casa fiz as

observações para determinar as coordenadas de Pretoria. M^{r.} Turner

tinha a meu pedido fabricado um grande bloco de gêlo, com o qual pude

verificar os _zeros_ dos meus thermòmetros e hypsòmetros.

D'essas observações, so existem as hypsomètricas, porque as astronòmicas

perdêram-se não sei como. Sei que as não encontrei registradas em

Maritzburg quando as quiz calcular, e lembra-me que calculei a latitude

mesmo em casa de M^{r.} Fred. Jeppe, e que encontrei para ella o mesmo

nùmero que vem no almanach do mesmo S^nr., creio que do anno de 1878,

determinada por um official da marinha Ingleza.

Fui n'esse dia procurado por um homem que se devia unir áquelles que na

cidade Transvaaliana se execedêram nos favôres que me dispensáram.

Foi elle Mr. Kish, membro da Sociedade Real de Geographia de Londres.

Madame Kish, Madame Imink e a Baroneza Van-Levetzow enchiam-me de

favores, e nunca lhes poderei agradecer tudo o que por mim fizéram.

No dia 19 recebi um convite para jantar, dos officiaes do regimento 80.

Não posso deixar de narrar um episòdio d'este jantar, que me commoveu em

extremo. Eu continuava a usar os mesmos trajes, e apenas tinha feito uma

absoluta reforma de roupa branca. Eu não possuia dinheiro meu, e aquelle

que saquei sôbre o govêrno era destinado ás despêsas necessarias da

expedição, e não ás minhas necessidades particulares; por isso não

comprava roupa por não ter com que a comprar, e só o fiz em Durban

quando encontrei quem me emprestasse dinheiro a mim como particular. Por

esta razão os meus andrajos continuavam a cobrir-me, e n'aquelle jantar

destoavam completamente dos brilhantes e esplendidos uniformes que

vestiam os officiaes do 80 e os convidados. O jantar correu alegre como

entre officiaes que estam em campanha devia ser.

Eu estava de excellente humor, e ria de uma ou outra anecdota picante,

quando umas duzias de estalos vieram mostrar que os criados faziam

saltar as rôlhas do espumante champagne. Enchêram-se os copos, esses

pires de cristal sustentados por um problemàtico pe perfurado, d'onde

sobe sem cessar uma fervura gelada, tão grata á vista como é grato ao

paladar o lìquido dourado em que ella se forma.

O Major Tyler, que presidia á mêsa, levantou-se, e tomando o copo,

pronunciou essa palavra, que, nos mais ruidosos jantares Inglezes, impõe

o mais profundo silencio. Major Tyler disse, com a sua voz forte e

sonora:

"Gentlemen!"

"Gentlemen, a Sua Magestade El-Rei de Portugal."

Nós tôdos de pe ìamos corresponder á saúde, quando a mùsica do regimento

rompeu o hymno d'El-Rei D. Luiz, que foi escutado de pe no meio do maior

silencio.

Não é possivel pintar as sensações que experimentei ao ouvir aquella

mùsica, aquelle hymno patriòtico tocado em terra estranha, aquella

homenagem prestada ao meu paiz na pessôa do seu soberano.

Se devi muitos favôres e muita amizade ao Major Tyler, agradêço-lhe

acima de tudo a sorprêsa que me deu n'aquelle momento.

A affinidade de vida levàva-me tôdos os dias ao acampamento das tropas

Inglezas, onde eu, se não jantava, almoçava, prendendo-me verdadeira

amizade a muitos dos officiaes, um dos quaes se tornou meu inseparavel.

Era elle o bravo Capitão Allan Saunders. Da mesma idade e encontrando um

no outro idènticas inclinações e gôstos, o tempo que eu não passava com

Saunders passava-o elle comigo. Tôdas as tardes ás 4 horas nos

encontràvamos em casa da Baroneza Van-Levetzow, onde apparecia tambem ás

vezes o Major Tyler, e onde se reunia uma distincta sociedade de

elegantes e formosas damas.

A Baroneza dàva-nos um òptimo e exquisito café, que era servido por sua

filha, uma encantadôra criança loura e azougada.

Sabendo-se da minha ligação com Saunders, ja eu não recebia convite sem

que elle fôsse convidado tambem, e assim passámos muitas horas

deliciosas em casa de Madame Kish e de Madame Imink e outras.

Aquillo era um ceo aberto, e em quanto eu não tinha mais que fazer do

que esperar os acontecimentos, so pensava em passar o tempo o mais

agradavelmente que podia.

¡Se eu tinha trabalhado e soffrido tanto!!

Fui avisado de que um comboio de vagons deveria partir para a cidade de

Durban no dia 22, e tratei de contratar com os conductôres o transporte

da minha gente e bagagens. Este comboio devia gastar de 35 a 40 dias no

caminho, e por isso deixàva-me largas para me demorar ainda em Pretoria

algumas semanas, porque eu calculava gastar apenas seis dias para

alcançar o mar.

No dia 21, estava eu preparando umas caixas em que deviam ir uns

pàssaros, que eu trouxera e que tinham sido cuidadosamente arranjados

por M^{r.} Turner, em que deviam ser acondicionadas as pelles, despojos

das minhas caçadas, e uns insectos que pude aproveitar, porque dos

muitos que apanhei ao sul do Zambeze, so chegáram a Pretoria pernas,

cabêças e corpos separados, sendo impossivel ao mais versado

entomològico dizer a que cabeças pertenciam aquelles corpos, a que

corpos pertenciam aquellas pernas. Estava eu arranjando aquillo,

estupefacto com o prêço que me custava cada bocadinho de tàbua, que é o

gènero mais caro que encontrei em Pretoria, onde tudo é caro; quando me

viéram chamar a tôda a pressa, dizendo-me, que tudo em casa do Rev.

Gruneberger andava n'uma poeira, com a minha gente, que ja havia mortos

e feridos e não sei que horrôres mais.

Corri a casa do Missionario.

Houvera e havia um caso grave de insubordinação contra o dono da casa,

que eu reprimi n'um momento, mas desgraças creio que apenas os queixos

de um criado partidos com um bofetão de Augusto.

Eu tinha sempre tido um presentimento que alguma cousa aconteceria se se

desse a confiança que se deu a prêtos d'aquelles.

M^{r.} Gruneberger mostrou-me que era inconveniente continuarem em sua

casa, e muita razão tinha elle n'isso, depois dos disturbios que elles

ali fizéram. Como deveriam partir no dia immediato, pouco cuidado me deu

este incidente; mas desgostou-me em extremo, pêlo que elles fizéram

n'uma casa em que tinham sido tão bem acolhidos.

No dia immediato, sube que os vagons so partiam no dia 26, e por isso

accommodei os prêtos o melhor que pude na casa que habitava.

M^{r.} Swart, o Thesoureiro do Transvaal, continuava a obsequiar-me e eu

ia repetidas vêzes a sua casa, onde sentia um prazer immenso em brincar

com as suas filhas, duas formosas crianças.

Eu nunca gostei muito de pequenos. Sempre os achei importunos e pouco

interessantes; mas depois da minha viagem, comecei a sentir uma

verdadeira paixão por crianças louras e bonitas, e em Pretoria eu

passava horas com as filhas de M^{r.} Swart, ou com as de M^{r.} Kish.

Talvez a lembrança de uma filha de quem eu estava separado produzisse em

mim aquelle gôsto de brincar com as innocentes creaturas. Talvez a vida

rude e severa que eu tive n'uma tão fadigosa jornada, precisasse de uma

antìthese, que eu encontrava nas caricias da pequenada.

Ia assim passando a vida em Pretoria, quando um dia fui procurado por um

homem que trazia uma carta para mim.

Recebi o desconhecido, que tinha ares de sertanejo Inglez.

Era um rapaz ainda nôvo, de mediana estatura, sympàthico e de

physionomia enèrgica, vestido de uma camisa grosseira, e umas calças

prêsas com um forte cinto de couro.

Dirigio-me a palavra em Francez, d'aquelle que se fala no Boulevard dos

Italianos, e apresentou-me a carta. Conheci pêla letra do sobrescripto

que era de M^{r.} Coillard.

Abri-a pressuroso, e vi que era carta de apresentação do portador.

Não era preciso a recommendação de M^{r.} Coillard para eu cortejar com

respeito e estender a mão com sympathia áquelle homem. O seu nome, bem

conhecido nos sertões da Àfrica do Sul, era recommendação bastante.

Era M^{r.} Selous, o atrevido viajante e ousado caçador Inglez.

M^{r.} Selous esteve tres dias em Pretoria, e conversámos muito sôbre a

Àfrica. Elle havia entrado ao Norte do Zambeze em uma direcção parallela

ao Cafuque, e a leste d'elle, e fez-me d'esse paiz as mais interessantes

descripções.

Ali encontrou muitos Portuguezes, entrados por Quilimane, e entre outros

citou-me um Joaquim Mendonça, que tinha como seus empregados três

antigos soldados do Batalhão da Zambezia, chamados Manuel Diogo, Joaquim

da Costa, e Antonio Simões. Pêlo que elle me disse, e combinando as

datas, penso que seriam estes os _Muzungos_ de que tanto se falava no

Barôze durante a minha estada em Lialui.

M^{r.} Selous deu-me um esbôço grosseiro da sua viagem ao norte do

Zambeze, de que eu me não servi na minha carta de Àfrica Tropical

Austral, por não me julgar autorizado a isso sem a sua prèvia licença,

que me olvidei de pedir.

Eu dei-lhe as indicações que elle desejava para uma nova expedição

venatoria nos arredores de Linianti, e fiquei de lhe mandar um esbôço do

paiz, que depois lhe enviei para Shoshong.

No dia 23 fui almoçar com Monseigneur Jolivet, o illustrado Bispo de

Natal, que então se achava em Pretoria, dirigindo as construcções do

importante estabelecimento Cathòlico que ali se ergeu depois da

dominação Ingleza; que é de certo a mais importante escola de educação

do Transvaal, e onde muitos Protestantes, M^{r.} Swart por exemplo, e

outros, enviam as suas filhas. Monseigneur Jolivet, homem sabio e de

respeitabilissimo caracter, conversou muito comigo, e percebi que não

era muito affecto aos Portuguezes.

Pensa elle, que nós não somos muito bons Cathòlicos. Procurei

demonstrar-lhe o contrario, mas creio que o fiz de balde, porque

Monseigneur vinha sempre com a historia de um padre, o Rev. Bompart, que

tendo ido a Lourenço Marques, não lhe foi permittido ali celebrar,

apesar de todas as instancias que fez.

Não o pude convencer de que, se o Rev. Bompart se apresentou sem

auctorização legal, era natural não lhe deixarem exercer o seu mister;

assim como não o pude convencer, de que quem governava na Igreja do

Oriente era o Arcebispo Primaz das Indias. O honesto Bispo, tinha tão

profundamente arraigadas no espìrito opiniões e malquerenças contra nós,

que ficou na sua, dizendo-me sempre que nós somos os peiores dos

pedreiros livres do mundo. Uma tia velha que eu tive, tambem dizia o

mesmo depois da exstincção das corporações religiosas.

Ora o facto verdadeiro é que Portugal é um dos paizes mais religiosos

que eu conheço, que é muito bom Catholico, mas entende que religião e

alta politica sam duas cousas differentes, aprendeu esta heresia com o

Marquez de Pombal, e desde então se os padres misturam religião com

politica, zanga-se com elles.

Monseigneur Jolivet que me perdôe, se ainda continúo a insistir em que

somos dos melhores Cathòlicos do mundo, e que ainda o seriamos se nos

levantassemos forte e energicamente contra os ministros da nossa

religião, que traindo os deveres sacrosantos da sua missão nobre e

sagrada, fossem fazer propaganda polìtica em deterimento nosso e em

favor de estrangeiros na terra da Patria, que terra da Patria é tôda a

terra onde se hastea a bandeira de Ourique, seja qual fôr o ponto do

glôbo em que ella tremule.

É tempo de dizer duas palavras de Pretoria, tal como eu a vi em

Fevereiro e Março de 1879. Começarei por descrever a cidade pêlo seu

lado material.

Pretoria era uma cidade nascente, á qual a dominação Ingleza não tinha

imprimido ainda o seu cunho nacional.

As ruas largas e espaçosas dão accesso ás casas, pêla maior parte

terreas, mas bem construidas e elegantes. Abundam ali os jardins, e em

algumas ruas as casas elevam-se no meio d'elles.

A cidade assenta sobre um plano inclinado que na parte mais elevada tem

abundantes nascentes de àgua que a banham. Esta àgua, ao tempo que ali

vivi, corria nas ruas em valêtas lateraes profundas e descobertas, que a

escuridão da noute convertia em verdadeiros precipicios. Recòrdo-me de

mais de uma vez ter cahido n'ellas, chegando a casa completamente

molhado.

Em alguns quintaes e jardins ha àrvores muito grandes e frondosas.

As ruas estavam por calçar, e com as chuvas eram incòmmodos atoleiros.

Tem alguns templos decentes, uma modesta casa de tribunal, e muitos

estabelecimentos commerciaes onde é facil encontrar tôdo o necessario, e

mesmo o supèrfluo, que ja ali ha luxo.

Na parte elevada estàvam-se construindo os vastos quartéis para as

tropas, que então estavam em grande parte acampadas em barracas, em

tôrno de três casernas ainda mal acabadas.

O caminho da cidade para os quartéis era medonho, e perigôso de noute,

porque as chuvas cavavam rêgos profundos, e produziam atoleiros enormes,

onde nos enterràvamos, e onde por vêzes arrisquei quebrar as pernas.

Ha na cidade alguns pontos muito bonitos, como é o chamado as _fontes_,

e uma das sahidas coberta por chorões enormes, e onde uma azenha dá um

cunho pintorêsco á paizagem.

Os arredores sam despidos de arvorêdo, e um pouco monòtonos, havendo

apenas aqui e àlém uma ou outra fazenda de Böers a quebrar a monotonia

natural.

Pretoria deve ser um dia uma das mais bellas cidades da Àfrica do Sul, e

tal como eu a vi ja apresentava um aspecto geral agradavel e buliçôso.

Como em todas as terras, de nôvo occupadas pêla Inglaterra, Pretoria

estava cheia de gente nova, que vinha procurar fortuna, e que não a

encontrando facil, se alistava nos regimentos de voluntarios, onde como

soldados tinham uma paga de cinco xelins diarios.

O meu amigo Allan Saunders era o chefe da secretaria dos corpos

voluntarios, e não lhe sobejava o tempo para fazer alistamentos.

Os negociantes sam Hollandezes ou Inglezes, e como a cidade em si mesma

ja tem necessidades, não é so o tràfico com o interior, e com o indìgena

que ali representa uma parte importante no movimento commercial.

Disse-me o D^{or.} Risseck, que o clima é bom, ainda que em certas

èpochas do anno não é isento de febres de caracter benigno. Sendo os

arredores de Pretoria abundantes em forragens, é facil ter ali cavallos,

e quasi tôdos os moradores t[~e]m um _dog-cart_ ou uma _victoria_, em

que passeiam ou vam tratar os seus negocios.

[Figura 139.--Betjuanas. (De uma photographia de M^{r.} Gross.)]

Tal era Pretoria quando la passei algumas semanas em 1879.

Um facto que me produzio uma certa impressão foi ver que muitas mulheres

gentias dos arredores vinham á cidade vender os seus gèneros, cobertas

com os trajes gentìlicos, isto é quasi nuas, assim como as representa a

gravura junta a esta pàgina; gravura cuja historia vou contar, porque

ella representa uma lição áquelles que na Europa se afiguram ser facil

realizar em Àfrica cousas facìlimas no velho mundo.

Ha em Pretoria um magnìfico photògrapho Suisso, M^{r.} Gross.

Eu travei conhecimento e tinha em breve relações de amizade com elle.

Um dia, vendo um grupo de mulheres que vinham vender capata, chamei-as e

propuz-lhes comprar toda a capata que ellas traziam se se deixassem

photographar. As mulheres hesitáram, e eu comecei a fazer-lhes as mais

bellas offertas.

Tentadas pelas minhas promessas, seguíram-me a casa de M^{r.} Gross.

Deixei-as á porta e entrei.

Logo que expuz ao photògrapho o meu intento, elle fechou as mãos na

cabêça e disse-me que, não fazìamos nada, porque muitas vêzes tentara em

vão a mesma cousa. Insisti, e M^{r.} Gross para condescender comigo, pôz

mãos á obra.

Introduzi as mulheres no _atelier_, não sem gastar n'isso bôa meia hora,

porque, chegado o momento de entrarem em casa do photògrapho, augmentou

a sua hesitação.

Ahi estam ellas no _atelier_, mas recrescem as difficuldades ao

collocal-as em posição defronte da màchina. Estam em foco, e quando o

photògrapho vai introduzir na corrediça a chapa sensibilizada, duas ou

tres fogem espavoridas e outras deitam-se de cara no chão. Nôvo trabalho

de paciencia e outra meia hora perdida e uma chapa inutilizada. A mesma

scena ainda se repete, até que em fim se pôde obter um negativo, em que

tôdas mexêram tanto, que nos deixa em dùvida se sam macacos ou bonzos as

imagens reveladas. Outras tentativas t[~e]m o mesmo resultado, e perdido

o dia e gasta a paciencia, ellas vam-se.

Eu, apesar d'isso, sempre teimoso em querer a photographia das prêtas,

cumpri o contrato indo àlém das promessas feitas. Ellas tambem me

promettêram voltarem, e d'ahi a dois dias estavam á minha porta.

La vamos para casa de M^{r.} Gross, que ja tremia de me ver com as

prêtas. Eu lembrei-me de me pôr ao lado da màchina e de lhes dizer que

olhasem para mim, ellas assim fizéram, e eu encarei-as tão fito, com um

olhar tão pertinaz, que ellas perturbáram-se, tivéram esse momento de

fascinação que produz a immobilidade, M^{r.} Gross descubrio a

objectiva, e o grupo estava apanhado.

Quizémos ainda tirar outro, mas o encanto tinha-se quebrado, e não foi

possivel obter mais nada d'ellas.

Assim essa photographia custou-nos dois dias de trabalho, uma avultada

quantia, e uma incalculavel paciencia.

No grupo, as mulheres que t[~e]m uma franja por tanga sam solteiras;

aquellas que t[~e]m uma pelle, casadas.

No dia 25 de Fevereiro, vèspera do dia em que deviam partir os meus

prêtos e as minhas bagagens, para Durban, seriam 4 horas da tarde,

quando eu me dirigi a casa da Baronesa Van-Levetzow, a pedir-lhe uma

chàvena d'esse òptimo café que ella tão delicadamente offerecia aos seus

amigos; quando em caminho me sorprendeu um movimento desusado na cidade.

Perguntei a um transeunte, o que havia de nôvo? e elle respondeu-me, que

os Zulos estavam ás portas de Pretoria, e que dentro em pouco a cidade

seria saqueada. Corri ás informações, e para ir a bôa fonte, fui á casa

do govêrno.

Ali soube que, de facto, os Zulos não estavam ainda em Pretoria, mas

muito perto, e a cidade seria atacada dentro de poucas horas. As

informações eram officiaes e certas. Indaguei em que ponto elles estavam

e voltei a casa. Mandei logo Verissimo, Augusto e Camutombo á

descoberta. Fiquei a pensar no caso, e, com o meu conhecimento de Àfrica

e de prêtos, concluí que tudo aquillo era um absurdo disparate.

Sahi a visitar vàrias pessôas, e se algumas encontrei possuidas do

pànico geral, outras estavam descançadas e não acreditavam como eu no

ataque dos Zulos. Algumas damas tinham-se ido refugiar no acampamento

das tropas.

Eu fui prevenir Monseigneur Jolivet do caso, dizendo-lhe o que havia,

que não acreditava, mas que ás vêzes as cousas mais absurdas aconteciam,

e por isso era bom estar prevenido para pôr a salvo as Irmãs de

Caridade.

Voltei a casa, e ao cahir da noute chegavam, com pequenos intervallos os

meus três enviados, afiançando-me, que no logar designado não havia um

so Zulo, nem d'elles havia noticia no Transvaal. Eu, que me fiava mais

nas informações de Verissimo, Augusto e Camutombo do que em tôdos os

relatorios officiaes, deixei os prêtos em casa, e fui ver o que faziam

os meus amigos Major Tyler e Capitão Saunders.

Ao chegar ao acampamento, um terrivel e desusado "Quem vem la?" de uma

sentinella, provou-me que ali estavam em pe de guerra. Respondi,

"Amigo," e pude entrar. No campo havia grande reboliço. Fortificavam-se

e entrincheiravam-se com os vagons.

Não me foi difficil encontrar o commandante militar de Pretoria, o Major

Tyler. Vestido com o esmero e luxo que sempre usa, as mãos calçadas em

apuradas luvas brancas sem a menor sombra, o pé mettido em elegante

botina, tal em fim como entra nas salas em que é tão querido, o bravo

commandante do regimento 80 estava com tôda a placidez e socêgo, dando

acertadas ordens, e pondo o campo em estado de defêsa formidavel.

Cheguei-me a elle e disse-lhe que o ataque esperado era uma verdadeira

comèdia. Elle respondeu-me, que sempre assim o havia pensado; mas que,

tendo recebido communicações officiaes, não podia deixar de fazer o que

estava fazendo; e que àlém d'isso, não desgostava d'aquelle rebate, para

avaliar o que eram os seus homens, e saber com o que poderia contar n'um

caso sèrio.

Dei razão ao elegante official, e fui-me em busca do seu immediato, o

meu amigo Saunders. Andava elle de outro lado dirigindo as manobras,

rindo sempre, sempre contente. Saunders pareceu-me acreditar nos Zulos,

o que lhe não tirava nada do seu bom humor habitual. Foi-me logo mostrar

duas metralhadôras, para as quaes estava a olhar pasmado um alferes

qualquér a quem as haviam entregado. Depois d'isto disse-me elle, que

estavam muitas damas recolhidas no campo, e convidou-me a ir vel-as.

Fomos passar uma minuciosa revista, e vimos que o Major Tyler, como

melhor relacionado com o bello sexo, tinha cedido o seu quarto pêlo

menos a duzia e meia. O quarto de Saunders tambem não estava vazio, mas

deve dizer-se, em abono da verdade, que aquelles eram os dois ùnicos

quartos do quartel, vivendo o resto dos officiaes em barracas.

Saunders lembrou, que em tempo de guerra era bom beber qualquer cousa, e

fomos á sala dos officiaes.

Na sala estava so um homem. Fardado, e armado, estava sentado n'uma

poltrona com tôda a commodidade, tendo diante de si um copo de _brandy_

e soda.

Era o tenente Cameron do regimento, que disse a Saunders: "Meu capitão,

eu cá estou á espera dos Zulos, e em quanto elles não v[~e]m, vou

bebendo."

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo · 第 19 / 23 段