os causticos, resolvi partir, e não me appareciam os dois pequenos
Böers. Fui em sua busca, e não longe, junto a um extenso paúl, a que
elles chamavam a Cornocopia, me pareceu que elles estavam pastando,
porque os vi apanharem herva e comel-a com sofreguidão. Aproximei-me
para ver o que faziam, e conheci não me enganar. Os rapazes comiam
herva. Ao abeiral-os, elles estendêram para mim as mãos cheias de uma
gramìnea, espècie de caniço fino e de um verde muito claro. Por
curiosidade peguei n'um de aquelles caniços, e provei. A minha admiração
foi extraordinaria ao encontrar n'aquella gramìnea o mêsmo gôsto da cana
de assucar.
Percebi então porque pastavam os rapazes. Era pura goloseima.
Fiz com que viessem ao vagom e puz-me a caminho.
N'aquella planicie appareciam muitas aranhas parecidas com a tarantula,
cuja mordedura (me fizéram comprehender os rapazes) é mortal. Isto creio
que deve carecer de demonstração, porque em Àfrica se diz o mesmo dos
escorpiões, e eu affirmo não ser verdade.
Depois de cinco horas de bôa jornada, parei, e logo que tratei dos meus
doentes, que continuavam mal, fui caçar, afim de arranjar de comer para
elles e para mim.
Só voltei ao vagom ás 6 horas, trazendo atravessado no arção um sobêrbo
antìlope. Parte do caminho notei que o meu cavallo, sempre fiél, vinha
inquieto, e fazendo curvêtas que não eram de uso.
Ao chegar ao campo pude explicar a razão do caso. O antìlope
(_Cervicapra bohor_) com o pescôço pendido, veio, com um dos agudos
cornos, fazendo uma larga ferida ao meu pobre Fly.
Depois de medicar os enfermos e a mim, e de comer alguma cousa, ainda
jornadeei n'essa noute por duas horas.
A 3 de Fevereiro, parti ás 4 da manhã, e parei ás 9.
Logo que acampei, avistei dois vagons de Böers que caminhavam para mim.
Tive esperanças de obter d'elles alguns vìveres, porque só tinha para
comer os restos do antìlope da vèspera.
Baldada foi a minha esperança. Eram duas familias de emigrantes que
caminhavam, só escudados na caça, e com quem tive de repartir a pouca
carne que ja tinha.
Disse-me um, que falava Inglez, que eu ia entrar em paiz sem caça, mas
que, se força-se as marchas, poderia, seguindo o trilho dos vagons
d'elles, alcançar n'essa noute a missão do Piland's Berg.
O paiz continúa, sendo uma planicie enorme, da qual se erguem aqui e
àlém ex-abrupto algumas serras.
Assim era o Piland's Berg, que eu marcava ao sul.
Resolvi pois forçar as marchas, para alcançar a missão de que me faláram
os Böers; mas, quando dei ordem á partida, apareceu-me Low consternado,
dizendo muita cousa que eu não entendia, mas fazendo comprehender, que
seu irmão Christophe faltava. A mim é que me não faltava mais nada,
senão aturar o endiabrado rapaz.
Montei a cavallo, e larguei-me por matos e charnecas a procurar meninos
perdidos. Chamei, dei tiros, corri em todas as direcções, descrevendo
cìrculos em tôrno do vagom, mas nenhum resultado tirei d'isso; e depois
de seis horas de buscas inuteis, voltei ao carro, extenuado de fadiga, e
tendo de balde cançado o meu pobre cavallo.
N'esse dia ja se não jantou, por não haver que comer.
Low chorava e arrepelava os cabellos, dizendo muita cousa em Hollandez,
e se ás vêzes imaginava que eu queria partir d'ali vinha deitar-se de
joêlhos aos meus pes, pronunciando o nome do irmão.
Eu estava verdadeiramente perplexo, e ora me enfurecia contra os Böers,
ora tinha por o estado de Low a maior compaixão.
Os meus doentes não melhoravam, mas medicamentos e dieta não lhes
faltava.
Resolvi passar ali a noute, e confesso que não deixava de entrar em
furor, ao lembrar-me do tempo precioso que perdia em circunstancias tão
graves como aquellas em que estàvamos.
Ás 9 da noute, senti grande alarido, e percebi que o Christophe tinha
chegado.
Não me entendendo com elles, só dias depois, por um intèrprete, pude ter
a explicação do facto.
Christophe, logo que o vagom parou n'aquella manhã, foi para o mato
apanhar pàssaros com visco. Entretêve-se por la até que eu o fui
procurar.
Vendo-me gritar por elle e dar tiros, têve mêdo de que eu lhe batêsse ou
o matasse; escondeu-se no matagal o melhor que pôde, e la se deixou
ficar tôdo o dia.
Veio a noute, e o mêdo dos bichos foi superior ao mêdo de mim, e o
pequeno voltou ao vagom.
Não me faltava, na minha viagem, senão aturar uma criança.
Ás quatro horas da manhã; segui viagem, e parei ás 8, porque o nosso
estado não nos permittia grandes esforços.
A leste de mim, corria N.N.O. um systema de montanhas que marginam o
Limpôpo.
Descancei até ás 11 horas, seguindo a essa hora, alcancei _Soul's Port_,
a missão do _Piland's Berg_, ás 4 da tarde.
Estabeleci-me em umas ruinas, a duzentos metros da casa do missionario,
a quem mandei um bilhête de visita.
Pouco tempo depois, entrava nas ruinas uma dama acompanhada de um
criado, que trazia uma grande bandeja de pêcegos e figos. Era Madame
Gonin, a espôsa do missionario. Seu marido estava ausente, e so chegaria
no dia immediato.
Ao passo que escutava Madame Gonin, comia pêcegos e figos com fome de
trinta e duas horas! Dei-lhe escusa do que fazia, dizendo-lhe, que tinha
fome.
A dama retirou-se, e algum tempo depois, enviàva-me uma òptima ceia.
Dois prêtos vinham carregados de comida para a minha gente.
Fui agradecer-lhe, e voltei ás minhas ruinas.
No dia seguinte, julguei livres de perigo os meus dois doentes mais
graves, Mariana e Pépéca.
Logo de manhã, fui a uma fazenda de Böers, a ver se obtinha vìveres.
O paiz em tôrno de Piland's Berg é muito cultivado, e aqui e àlém
alvejam no sopé da serra algumas casas de Böers.
Dirigi-me a uma d'ellas.
Fizéram-me entrar n'uma sala, que em tôdas as casas dos habitantes do
Transvaal desempenha o duplo fim de casa de mêsa e sala de visitas.
Aquella tinha sufficiente pé direito, era espàçosa e alegre. As parêdes,
pintadas a frêsco, representavam cupidos vendados, despedindo
traiçoeiras frechas contra corações enormes engrinaldados de rosas, isto
sôbre um fundo azul celeste, dado em àguada pouco nìtida.
O pintor não fôra nenhum Rubens ou Van Dyck, mas preciso declarar, que
ainda assim, me sorprendeu o trabalho artìstico d'aquella sala; superior
ao de umas certas salas de mêsa, de muitas casas de Lisboa, que figuram
no primeiro plano um boneco pequenino, pescando á linha n'um rio, onde
ao longe navegam dois namorados enormes tocando bandolim; ao passo que
em uma àrvore encarnada e azul, muito distante, pousa uma arara
vermêlha, maior ainda do que a àrvore, do que os namorados e do que o
pescadôr.
Ao menos, nas pinturas mytològicas da sala Böer havia uma significação,
e aquellas rosas engrinaldando os corações feridos, vinham lembrar, que
as chagas d'amor, como as rosas, t[~e]m perfumes e t[~e]m abrolhos.
Eu, se algum dia, depois de longa vivenda em Lisboa, por êsse poder de
imitação, que me faz admittir as theorias de Darwin, chegar ao requinte
de mandar pintar a minha sala de jantar por artista indìgena,
dar-lhe-hei as indicações da escola Transvaaliana.
A sala da casa Böer, àlém das pinturas das parêdes, pouco mais tinha de
notavel. Uma grande mêsa, algumas cadeiras, uns vasos com plantas
floridas nos vãos das janellas. Cortinas pendentes de guarnições de pao
despolido, feitas de caça branca, com um recorte encarnado, e cujas
extremidades inferiôres, muito longe do chão, davam ás janellas esse ar
desastrado de uma menina de quatorze annos, que, trajando vestido nem
curto nem comprido, nos deixa perplexos, sem saber se devemos cortejar
uma dama, ou beijar uma criança.
A um canto, sôbre uma pequena mêsa, o livro dos Böers, uma Biblia
enorme, com fêchos de prata, sôbre uma encadernação outrora vermêlha e
hôje de côr indefinida, pêlo uso das mãos sebentas, de três gèrações de
Böers.
Faziam-me as honras da casa duas damas Transvaalianas, vestidas, como
tôdas as do paiz, de chita, e trazendo na cabêça toucas brancas. Uns
poucos de pequenos, quasi tôdos do mesmo tamanho, agarrávam-se aos
vestidos d'ellas e trepávam-lhes aos joêlhos. O modo porque eram
recebidos, parecia mostrar-me que eram tôdos filhos de ambas as damas; o
que me causava o maior espanto, e me fazia entrever uma cousa nova para
mim.
Verissimo servia-me de intèrprete, empregando a lìngua Sezuto. Antes de
lhe dizer o que queria, perguntei-lhes ¿de quem eram filhos aquelles
meninos? Ambas, ao mesmo tempo, com esse orgulho de tôdas as mães (em
quanto os filhos sam pequeninos, e não v[~e]m, pêlo seu tamanho, revelar
segrêdos de idades que se devem occultar), respondêram: "Sam nossos."
O caso complicava-se com aquella resposta, e eu cada vez entendia menos.
Entrei em explicações e sube afinal, que os pequenos eram uns de uma,
outros de outra; mas, como ellas seguiam o costume Böer, de viverem dois
casaes na mesma vida domèstica, tôdos elles eram reputados filhos de
cada uma.
O paradoxo physiològico tinha desapparecido, mas erguia-se a meus olhos
outro psychològico não menos extraordinario.
No Transvaal dois casaes podem viver sôb o mêsmo tecto, e comerem da
mesma panella; e dois amigos combinam casar no mesmo dia e irem viver
juntos com suas mulheres; e depois com filhos e netos, para sempre. E
vivem, e sam felizes, e não ha ali intrigas e desgôstos entre elles!
Ainda, entre elles, comprehende-se; mas entre ellas! É admiravel.
A vida patriarchal dos Böers revela-se n'este traço.
Depois de me explicarem estas cousas, eu disse ao que ia. Precisava de
provisões. As bôas raparigas offerecêram-me logo dois enormes pães, e
disséram-me, que não podiam vender-me gallinhas ou patos sem estarem
presentes os seus maridos, que tinham ido para a labutação dos campos;
mas pedíram-me para esperar um pouco, porque elles não tardariam a
voltar para o almôço.
Uma desappareceu, e provavelmente foi para a cozinha, em quanto a outra
trouxe para a sala uma màchina de costura, e poz-se a trabalhar.
Eu fui dar uma volta no quintal, onde me ficáram os olhos na hortaliça,
que ali crescia cuidadosamente tratada.
¡Que fome eu tinha de alimento vegetal!
Algum tempo depois, chegáram os Böers, que me encontráram em flagrante
delicto de colher feijões que comia crus.
Voltei com elles a casa.
Logo que entrámos na sala dos Cupidos, reunio-se a familia tôda, e tôdos
se sentáram nas cadeiras junto ás parêdes.
Veio, em seguida, uma prêta com uma pequena banheira, e o mais velho dos
homens desçalçou as botas, e lavou os pes; seguio-se o outro, as damas e
os pequenos, e a prêta correu á roda da casa com a banheira.
Em seguida, fomos para a mêsa.
Veio então a Bìblia, e o mais velho leu, com profundo recolhimento,
alguns versìculos do Livro dos Nùmeros, o quarto Livro de Moisés.
Começou o almôço; eu, com o estòmago cheio de couves cruas e feijões
colhidos do pe, não podia comer nada, o que contrariava os meus
hospedeiros; mas tomei uma chàvena de pèssimo café com òptimo leite.
Depois de almôço, os bons dos fazendeiros offerecêram-me seis gallinhas
e dois patos, e nada quizéram receber por isso.
Levei de hortaliças quanto pude carregar no meu cavallo.
Logo que cheguei a _Soul's Port_, sube do regresso do missionario, por
um convite para jantar, escrito por elle, que encontrei nas mãos de
Augusto.
Fui ver logo os meus doentes, que achei melhores, sôbre tudo o pequeno
Moero, que ja se tinha levantado.
D'ali segui para a casa do missionario, onde fui cordialmente recebido.
M^{r.} Gonin, Francez e amigo de M^{r.} Coillard, exultou com as bôas
noticias que lhe dei dos amigos que tinha deixado em _Shoshong_.
Tive um jantar magnìfico, e tanto mais agradavel, que a elle assistiam
três damas, Madame Gonin e duas jovens e formosas Inglezas do Cabo,
hòspedas da casa.
Depois de jantar voltei ás ruinas onde tinha acampado, para fazer
observações, e determinar a minha partida para o dia seguinte. Ao chegar
ao vagom, uma má nova me esperava.
Low veio dizer-me, que haviam desapparecido dois bôis, e não tinha sido
possivel encontral-os. Os seis bôis que restavam não poderiam arrastar o
vagom d'ali a Pretoria.
Decidi ficar ali a procurar os bôis, e dei-as precisas ordens, para que
tôda a gente semi-vàlida logo de madrugada se posesse em campo.
Fôram baldados tôdos os esforços, e os bôis não apparecêram.
Communiquei ao missionario Gonin o meu grande embaraço, e fui logo
tranquillizado por elle, que poz á minha disposição uma das suas juntas
de bôis.
Àlém d'isso, ordenou a um dos seus criados, um Btjuana chamado Farelan,
para me acompanhar até Pretoria; servindo-me ao mesmo tempo de guia e de
intèrprete, ja para com o gentio, ja para com os Böers, porque falava
bem o Hollandez.
Dispostas assim as cousas, determinei seguir no dia 7, e depois de
agradecer a M^{r.} e Madame Gonin tantos favôres, parti ás 6 horas da
manhã, indo parar, ás 10, junto a uma casa de Böers, que me recebêram
muito bem, dando-me abundantes provisões.
Ainda n'esse dia fiz duas grandes jornadas. Dos meus doentes, a Mariana
e o Pépéca, apresentavam sensiveis melhoras, ainda que promettiam uma
demorada convalescença; Moero estava em via de restabelecimento, mas
Marcolina, a mulhér de Augusto, dava-me cuidados, porque se achava em um
estado adynàmico, com febre constante, que não cedia ao tratamento.
No dia 8, o estado de Marcolina era muito grave.
Parti ás 4 da manhã, e ás 5 encontrava o rio Quetei, pròximo da sua
confluencia com o Machucubiani.
A difficuldade da passagem foi grande, por serem muito apicadas as
margens e levarem os rios muita àgua.
Depois de três horas de trabalho violento, conseguímos transpol-o, e
acampámos na margem opposta.
Marcava meia milha a O.N.O. o Pico Bote, onde foi pelejada a ùltima
batalha entre Böers e Matebelles, sendo estes completamente batidos e
forçados a recuar para àlém do Limpôpo.
Depois de um descanço de três horas, segui avante e jornadei por oito
horas, em duas marchas.
O sitio onde acampei, junto a um riacho que corre ao Limpôpo, era
coberto de rochas, massas enormes de granito, o primeiro que encontrava
depois do Bihé.
A disposição geològica do terreno mostrava-se-me, tal qual, a parte do
planalto da Costa de Oeste entre Quillengues e Bihé.
A flora é que ali é muito differente. No planalto, costa de oeste,
apparece uma vegetação arbòrea opulenta; ao passo que, n'esta parte do
Transvaal, apenas se vê um ou outro arbusto rachìtico; mas a vegetação
herbàcea é rica, e sôbre tudo as gramìneas t[~e]m desenvolvimento
grande.
No dia 9 de Fevereiro, o estado de Marcolina era tão grave, que decidi
não continuar viagem até ver se ella obtinha melhoras. Baldados fôram os
esforços empregados para a salvar, e ao meio-dia expirou.
¡Pobre mulhér! ¡Depois de tão aturadas fadigas, depois de tão àrduos
trabalhos, veio perder a vida quando estava pròxima a encontrar o
descanço e o confôrto!
Marcolina era a legìtima mulhér de Augusto. Viera com elle de Benguella
até ali, e mesmo no tempo das aventuras galantes do marido, nunca o
abandonou, apesar dos maos tratos que d'elle recebia.
Augusto chorava como uma criança junto ao cadaver da sua companheira
fiél.
Na madrugada seguinte, Camutombo e o Betjuana Farelan, abriam uma
profunda cova, onde se enterrava a mesquinha.
Eu, de cabêça descoberta e commovido, vi cahir a terra sôbre o cadaver
frio.
Ali, na margem do ribeiro, junto a Betania, deixava eu a ùltima vìctima
da expedição Portugueza através d'Àfrica. D'ali levava uma saudade
pungente. ¡Ainda bem que aquelle devia ser o ùltimo tùmulo!
[Figura 135.--O ùltimo enterro.]
Voltando ao vagom, perguntava a mim mesmo, se a sciencia tem direito a
taes sacrificios; se o homem, no orgulho de juntar mais um àtomo de
saber ao pouco que sabe, pode dispor para isso da vida do seu
semelhante, e immolal-o cruamente a um ìdolo tão vão como os outros?
No meu espìrito não podia formular uma resposta á pergunta que fazia, e
hôje digo que isto é uma questão a debater entre o homem e a sua
consciencia.
Logo que cheguei ao vagom, dei ordem de partida, e segui adiante, para
ir visitar a missão de Betania.
Betania é uma aldeia de quatro mil habitantes de raça Betjuana, formada
de casas bem construidas, e muitas de janellas envidraçadas.
O missionario que ali encontrei, Hollandez ou Allemão, chamava-se M^{r.}
Behrens.
Appareceu-me fumando em um enorme cachimbo de louça, e uma das primeiras
cousas que me perguntou foi, ¿se eu lhe tinha trazido umas pas que me
emprestara para abrir a cova de Marcolina?
Um quarto de hora depois, eu deixava a casa do missionario, e seguia
caminho, indo parar, ás 11 horas, junto de uma aldea de Böers.
Viéram elles logo buscar-me para suas casas, e tive de entrar em casa de
tôdos. Em tôdas fui obrigado a tomar alguma cousa, e em tôdas recebi
presentes de batatas, frutas, hortaliças e gallinhas. A custo me pude
desembaraçar d'aquella bôa gente, e pude partir ás 3 da tarde.
Encontrei outra vez a margem esquêrda do Limpôpo, que subi por três
horas, para chegar a um vao conhecido do meu guia Farelan.
Junto ao vao estava grande porção de vagons Böers. O rio trasbordava, e
não dava passagem, diziam elles.
Como Farelan conhecia o vao, disse-lhe, que se metêsse á àgua e fôsse
até onde podesse. O Betjuana passou o rio com àgua pêlo pescôço. Mandei
logo tanger os bôis, e fiz entrar o cavallo na àgua, passando o rio em
um momento. Eu e os meus já sabìamos lidar com um vagom e com os rios da
Àfrica.
Os Böers ficáram pasmados, mas pasmados ficáram na outra margem, debaixo
de uma chuva torrencial que cahia.
Acampei ali. No dia immediato, os alvôres da manhã viéram mostrar-nos o
rio que tinha sahido do seu leito, e que deveria levar mais três a
quatro metros de àgua.
Os Böers que receiáram na vèspera arriscar os vagons, tinham que esperar
muitos dias para o passarem.
Eu segui viagem, e ás onze horas e meia, passava a enorme serra que
divide o Transvaal no sentido este-oeste, o Magalies-Berg.
Foi difficìlima a passagem da alta serra, e sôbre tudo a descida na
vertente do sul perigosa. O vagom, sem travão, precipitàva-se sôbre os
bôis e ameaçava despedaçar-se. Tive de pôr os doentes a pe, com receio
de um accidente.
Low cahio, e uma roda do vagom esmigalhou-lhe as phalanges da mão
esquêrda.
Fiz-lhe um primeiro curativo, e tratei de forçar as marchas, para
alcançar Pretoria, onde elle podia ser cuidadosamente tratado. O
Betjuana Farelan previne-me de que façamos provisão de lenha em uma mata
no sopé da serra; porque d'ali a Pretoria só encontrarìamos planicies
desarborizadas. Assim fizémos, continuando a jornadear dia e noite,
apenas com o descanço necessario para os bôis.
Finalmente, no dia 12 de Fevereiro, ás 8 da manhã, acampava uma milha a
N.N.O. de Pretoria, e deixando ali o vagom e os meus, entrava sòzinho na
capital do Transvaal.
[Figura 136.--Magalies-berg.]
CAPÌTULO VI.
NO TRANSVAAL.
Ràpido esbôço da historia dos Böers--O que sam os Böers--Suas
emigrações e trabalhos--Adriano Pretorius--Pretorius--As minas de
diamantes--Brand--Burgers--Juizo errado á cerca dos Böers--O que eu
vi e que eu penso.
Estou em Pretoria, a Capital do Transvaal, e antes de continuar a
narrativa das minhas aventuras, vou dizer algumas palavras da historia
d'este paiz e dos seus habitantes. Não se arreceiem os meus leitores do
caso. Ainda que um moderno historiador Francez n'um bello livro escreveu
a conceituosa phrase, "L'histoire ne commence et ne finit nulle part,"
eu prometto-lhes que o ràpido golpe-de-vista que vou lançar sôbre a
historia d'este pôvo será tão curto, como curta é ella.
Não sei quando acabará, se é que não findou ja ou está a findar, mas o
comêço da vida Böer, desde que essa vida tomou a forma de nacionalidade
autonòmica, é dos nossos tempos, é d'este sèculo.
Bartholomeu Dias primeiro, e Vasco da Gama depois, os ousados
Portuguezes que afrontáram antes de ninguem as tempestades do Cabo,
pensando só na India, como na terra da promissão, pouco ou nenhum caso
fizéram da extrema Àfrica do Sul.
Foi só em 1650 que a Hollanda--não o govêrno Hollandez, mas a companhia
das Indias--ali fundou uma feitoria, para refrescar os seus galeões em
viagem do mar Ìndico, feitoria estabelecida pêlo Doutor Van Riebeck.
Esta feitoria ergueu-se onde hôje assenta a formosa cidade do Cabo.
A companhia das Indias, que pouco se importava com a Àfrica, não pensou
em fundar ali uma colonia, e antes pôz tôdos os estôrvos á iniciativa
particular, que tendia a cultivar a terra e a commerciar com o indìgena.
Pelejavam-se então na Europa as guerras de religião, e com a revogação
do Edicto de Nantes e a perseguição dos Protestantes em França, muitos
emigráram, e entre elles alguns fôram para a Hollanda. A companhia das
Indias deu-lhes transporte para a Àfrica, e elles aceitando-o
pressurosos, fôram deixados no Cabo. Não chegava a duzentos o seu
nùmero, e se attentarmos a que, segundo diz a historia, van Riebeck não
levou com-sigo mais de cem pessôas; e dando-se mesmo o caso de que essa
população tivesse duplicado no tempo decorrido de 1650 á chegada dos
emigrantes Francezes, estes equilibravam em nùmero com a população
Hollandeza.
Faço notar esta circunstancia, porque, sendo estes dous elementos que
déram principio a essa raça hôje chamada os Böers, quero concluir, que
n'esse pôvo, a respeito do qual se tem escrito tão pouco e tão errado, o
sangue Francez, se não domina, ao menos equilibra com o Hollandez.
O governo Hollandez, desde o estabelecimento dos emigrados Francezes no
Cabo, trabalhou para lhes cortar tôdas as relações com a mãe patria, e o
primeiro golpe que n'ellas deu, foi a prohibição do uso da lingua natal,
ja na celebração do culto divino, ja nas relações especiaes com o
govêrno, e nos actos officiaes.
Custa a comprehender como o obtêve, mas é facto que lhe quebrou aquelle
laço que nas futuras gèrações os podia prender á França; e de tal modo,
que quando o General Clarke, em 1795, chegou ao Cabo com o Almirante
Elphinstone, e se apossou da colonia em nome da Inglaterra, nem um so
Böer falava ou comprehendia o Francez.
Muito antes da occupação Ingleza, que se não tornou effectiva senão em
1806, èpocha em que a Inglaterra se apossou definitivamente do Cabo pêla
fôrça, desprezando as convenções da paz de Amiens, que restituia aquella
colonia aos Hollandezes, ja muito antes os colonos fugiam aos vexames do
govêrno da Hollanda; e internando-se no continente iam longe
estabelecer-se onde encontravam bons terrenos para cultura e bons pastos
para os gados; preferindo brigar com o gentio e prover á sua propria
defêsa, a estar em relações e sôb a protecção de um govêrno que os
tornava verdadeiros escravos.
D'ahi data o nome e a vida errante dos Böers, nome bem pouco em harmonia
com tal vida, porque Böer quer dizer fazendeiro ou lavrador, o que dá
uma idéa de estabilidade, que elles não tinham nem ainda hôje t[~e]m;
sendo mais pastôres e nòmadas do que lavradôres sam.
O primeiro que nos fala dos Böers na sua vida quasi primitiva, reduzidos
como fôram a prover elles mêsmos ás necessidades da vida absoluta, é
Levaillant, que visitou o interior da Àfrica do Sul, antes da Revolução
Franceza, isto é, 14 ou 15 annos antes da primeira occupação do Cabo por
Clarke e Elphinstone. Levaillant diz muito mal d'elles nas suas relações
com as tribus indìgenas.
Trata-os de dèspotas e de abuso constante da fôrça. Devemos dar crèdito
ao que diz Levaillant, mas devemos tambem examinar sem paixão as
circunstancias em que viviam aquelles homens, duas vêzes emigrantes, e
errando sem patria n'um paiz hostil. Accusam-n-os n'esse tempo de abusar
da fôrça, quando a fraquêza estava do lado d'elles, como sempre estêve.
Tinham armas é verdade, mas os Cafres tinham o nùmero, e eu sei o quanto
vale o nùmero sôbre as armas, e sabe-o hôje a Europa, e sôbre tudo a
Inglaterra.
Os Zulos, os Cafres, e os Basutos t[~e]m lh'o ensinado.
Não devemos lançar á conta de espìrito de crueldade, represalias filhas
da necessidade de impor o respeito pêlo terrôr a tribus indomaveis e
ferozes. O que lançam em rôsto aos Böers de roubarem e dividirem entre
si os gados e as riquêzas dos povos vencidos, é hôje admittido como
direito da guerra, e a nação vencedôra impõe á vencida um tributo que
não é mais do que o que faziam os emigrantes Franco-Hollandezes, aos
Cafres vencidos; que não era differente proceder do que tivéram os
Inglezes n'aquellas mêsmas paragens no fim das guerras de 1834 e 1846.