Apesar de se terem internado no continente, os Böers so em 1825 passáram

o rio Orange, inclinàndo-se a N.E. para fugirem da esterilidade do

deserto que se estende ao Norte e N.O. da confluencia do Vaal.

Fôram obrigados a isso pêla falta de chuvas que então houve no paiz que

elles occupavam.

A abolição da escravatura depois da guerra de 1834 trazia os Böers

descontentes, porque perdiam com ella os braços que os ajudavam.

Sem patria, sem historia, e por isso sem amor a nenhuma terra, elles

começáram uma nova emigração em massa, e o nùmero dos fugitivos que

passáram o Orange foi avaliado em oito mil.

Elegêram então um chefe, e recahio a escôlha em Pieter Retief, cujo

primeiro passo foi, expedir uma nota ao govêrno do Cabo, na qual lhe

dizia, que eram livres e livres iam escolher um paiz para habitar.

Nessa nota havia exarada a intenção em que estavam de viver em paz com o

gentio, de não admittirem a escravatura, e de estabelecerem nìtidamente

quaes as relações que deviam existir entre amos e criados.

Receando dos Cafres, os Böers, passado o Orange caminháram ao norte, mas

fôram, nos Zulos que occupavam a margem direita do Vaal, encontrar

inimigos mais terriveis do que aquelles que evitavam.

O cèlebre Muzilicatezi, que depois se tornou conhecido como rei do

Matebeli, tentou sustar a marcha dos emigrantes, e por isso elles

tivéram de pelejar uma sangrenta batalha, em que leváram de vencida o

valente chefe Zulo.

Então Pieter Retief dirigio a caravana a leste, e tendo noticias de um

paiz magnìfico que se estendia para àlém da Cordilheira do Drakensberg

até ao mar, guiou para ali a sua horda de aventureiros.

Ao chegar ao paiz desejado, um nôvo obstàculo lhe veio tolher o passo.

Uma tribu poderosa e guerreira procurou destruir aquelle punhado de

valentes. Fôram mortìferos os combates travados entre Retief e o chefe

Cafre Dingam, e n'um d'elles a victoria dos Böers custou a vida do seu

chefe Retief, e a Gert Maritz seu immediato.

Senhores das terras de Natal, os Böers escolhêram uma posição magnìfica

para fundar uma cidade, e elegêram um nôvo chefe. A cidade têve o nome

de Pietermaritzburg, nome que foi um monumento immorredouro levantado á

memoria dos dois primeiros chefes Böers.

O homem escolhido para nôvo chefe foi Adriano Pretorius, que tempo

depois devia ser o primeiro presidente da rèpùblica Transvaaliana, e

cujo nome devia ser perpetuado como os de Retief e Maritz na futura

capital dos Böers.

De 1840 a 1842, os emigrantes vivêram tranquillos, cultivando a terra e

apacentando os gados na sua nova patria.

Pensavam mesmo ja em firmarem a sua autonomia, constituindo-se em

rèpùblica sôb o protectorado de uma nação Europea; quando Sir George

Napier, por ordem do govêrno da Metropoli, mandou occupar a Natalia por

fôrças Inglezas, fazendo saber aos Böers que a Inglaterra não consentia

que os seus sùbditos formassem estados independentes sôbre as costas

marìtimas.

Pretorius recebeu muito mal o enviado de Sir George Napier, e foi junto

a Pietermaritzburg que se trocáram as primeiras ballas entre Böers e

Inglezes. Prevenido da resistencia dos Böers, o governador do Cabo

reforçou as tropas de Natal e esmagou a insurreição. A pouca sympathia

que os Böers votavam aos Inglezes, desde esse dia converteu-se em

aversão profunda.

Começou para os emigrantes uma nova èpocha de àrdua peregrinação, e

abandonando a terra escolhida, fôram novamente procurar um paiz àlém do

Drakensberg, um paiz onde podessem ser livres e senhôres.

Ao passar a elevada cordilheira espalháram-se ao norte e ao sul do Vaal;

estabelecendo as suas residencias no terreno comprehendido entre o Vaal

e o Orange, e mesmo ao norte sôbre a margem direita do Vaal, onde

fundáram a cidade de Potchefstroom, em 1843.

Sabendo que o Govêrno Inglez considerava aquelle paiz como seu, e como

seus sùbditos os habitantes, Pretorius persuadio a muitos dos Böers o

emigrar de nôvo, e com elles caminhou ao norte. Têve de bater-se com os

Zulos, que, vencidos n'uma ùltima batalha no Pico Botes, fôram

rechaçados para àlém do Limpôpo, onde o seu chefe Muzilicatezi

estabeleceu o reino do Matebeli.

Foi então que fôram fundadas mais duas povoações, Lydenburg e

Zoutpansberg.

É preciso notar, que a cada nova emigração, muitos dos Böers se

recusavam a seguir o enthusiasmo pêla liberdade que inflammava outros, e

conservàvam-se nos paizes abandonados, tendo, por isso, de se sujeitar

ao govêrno Inglez.

Foi assim que muitos não deixáram as suas residencias entre o Orange e o

Vaal, e cortáram, por assim dizer, relações com aquelles que emigravam

sempre. Esse nùcleo que ficou, deu origem aos que hôje formam o Estado

livre do Orange, e ali fundáram a cidade de Bloemfontein, sua capital.

Lord Grey, sendo Ministro das Colonias em Inglaterra, em 1852, entendeu

que eram bastante grandes e ruinosos os dominios Inglezes na Àfrica, e

resolveu de limital-os.

Querendo, ainda assim, fazer as cousas em grande e talhar por largo, deu

ordem ao Governador do Cabo para declarar o Vaal como fronteira norte

dos dominios Britànicos, e para conceder os direitos de autonomia aos

sùbditos Inglezes que se estabelecêssem àlém d'aquelle limite.

É d'esta data o tratado feito com os Böers, pêlo qual a Grã-Bretanha os

reconheceu livres e lhes concedeu os direitos de autonomia; é d'esta

data que têve um nome o paiz comprehendido entre o Vaal e o Limpôpo; é

d'esta data que o govêrno do Transvaal se constituio definitivamente; é

n'esta data que Adriano Pretorius foi eleito presidente da nova

rèpùblica.

Os Böers insurgentes, os teimosos em fugir ao jugo estranho, acabavam de

constituir uma nação, de crear um paiz, e de estabelecer a sua

liberdade; ao passo que os Böers fiéis aos Inglezes so em 1854, mais de

um anno depois, fôram livres e podéram constituir-se em nação, formando

o Estado Livre do Orange.

É verdadeiramente admiravel ver estes grupos, onde não abundavam os

recursos de instrucção, porque o Böer so lê e so conhece a Biblia; ver

estas gentes ignorantes dos regimens governativos, a que fugiam havia um

sèculo, de repente constituìrem-se em nações, formarem um systema

governativo, elegerem assembleas nacionaes, e legislarem sensatamente!

Adriano Pretorius foi um homem a todos os respeitos notavel, e que teria

feito um nome mêsmo entre povos menos rudes do que os Böers.

Inflammado pêlo ardor da liberdade, sabia incutir o seu enthusiasmo no

ànimo dos que o rodeavam, e pertinaz n'uma idéa grandiosa, vio coroados

de èxito os seus esforços, dando uma pàtria aos seus, e fixando n'um

paiz riquissimo, tôdo um pôvo disperso.

Este grande homem apenas entrevio a sua obra, porque morreu ao

concluil-a. O suffragio geral levou ao poder seu filho, do mesmo nome,

criado nos mesmos enthusiasmos de seu pai.

O nôvo Pretorius procurou dar melhor organização aos serviços da nação,

mas o mesmo desejo de liberdade que animava os Böers a fugirem ao

dominio Inglez, fazia que muitos procurassem escapar ao dominio do

governo central da Rèpùblica. Contudo, encontràvam-se sempre que era

preciso ligar-se contra um inimigo estrangeiro, e as muitas guerras que

sustentáram para acalmar os indìgenas, sempre hostís, sam d'isso prova.

Em 1859, os Böers do Estado Livre do Orange acclamáram seu presidente a

Pretorius, que, director supremo dos negocios das duas rèpùblicas,

pensou logo em levar a effeito uma união vantajosa para os interesses

communs.

O govêrno Inglez andou de tal modo n'essa questão, que Pretorius nada

pôde alcançar, e abandonando Bloemfontein, voltou ao Transvaal, onde

tomou de nôvo a direcção dos negocios pùblicos.

D'ahi até 1867, aquelles dois povos, que apenas contavam um 15 outro 13

annos de existencia autonòmica, não fôram perturbados no seu viver rude

e pacìfico, a não ser por pequenas questões com o gentio logo acalmadas;

mas, em 1867, os Böers dos dous estados, Transvaal e Orange, fôram

sorprendidos por uma noticia que veio perturbar por um momento a sua

vida tranquilla. Nas fronteiras oeste dos dous estados, tinham sido

descobertas as suas ricas e prodigiosas minas de diamantes, e aquelle

pedaço de terreno promettia uma riqueza inexgotavel ao seu possuidor.

Naturalmente Böers do Transvaal e Böers do Orange lançáram para elle as

vistas cubiçosas.

A terra que de um momento a outro tomou tão grande importancia, e que,

como o Brazil, a California e a Australia, chamou logo a si aventureiros

de tôdas as nações, pertencia a uma tribu, os Gricuas, mestiços de

origem Böer, que a esse tempo eram governados por um tal Waterboer, que

não perdeu tempo em fazer valer os seus direitos ao terreno cubiçado.

Entre os aventureiros que o fulgor dos diamantes atrahia áquella nova

Golgonda, abundavam Inglezes, que excediam todos os outros em nùmero.

A vontade de se apossar do terreno diamantìfero so foi manifestada

claramente pelos Böers do Orange em 1870, anno em que o presidente Brand

convidou Waterboer a uma conferencia, e procurou convencel-o de que era

senhor, por direitos adquiridos, do cubiçado thesouro.

Waterboer não se deixou convencer, e retirou para o seu paiz, teimoso em

querer continuar a ser senhor d'elle.

O presidente Brand, pêla sua parte, não cedeu tambem, e publicou uma

proclamação, em que dizia ser dos estados do Orange a terra dos Gricuas,

enviando logo ali um delegado da rèpùblica para se estabelecer como

governador.

Os Böers do Transvaal a esse tempo procuravam de traçar nìtidamente as

fronteiras do seu paiz, e acabavam de referendar com Portugal o tratado

da demarcação da sua fronteira de Este, negociado, em Julho de 1869,

entre o proprio Pretorius e o Visconde de Duprat, commissionado, para

isso, pêlo Govêrno Portuguez. O tratado de 1852 definia sufficientemente

as suas fronteiras sul e su-este, mas as outras fronteiras eram

demarcadas, a Norte pêla môsca zê-zê junto ao Limpôpo, e a oeste, por

cousa nenhuma.

Entendeu pois Pretorius, que tanto direito tinha o presidente Brand como

elle á posse da terra Gricua, e mandou para ali um delegado official da

Rèpùblica, como o Orange mandara o seu.

Havia três annos que a primeira pedra d'esse carvão puro e scintillante,

a que a vaidade humana deu um tão extraordinario valor, apparecêra nos

perdidos sertões da Àfrica do sul, e ja nos terrenos saibrosos onde as

mãos àvidas de centenares de aventureiros escavavam os pequenos seixos,

se levantava uma cidade opulenta, onde formigava a vida e a civilização

da Europa.

Era Kimberley. Era uma maravilha edificada com diamantes, como S.

Francisco da California foi edificada com ouro. Era um d'esses prodigios

que brotam da terra, junto á mina que se explora, que crescem ràpidos em

grandeza e em civilização, que t[~e]m um commercio nôvo e forte, que

arroteia terreno virgem, que t[~e]m um cèrebro nôvo e inventivo, e que

nascido hôje, àmanhã desenvolvido pêlas fôrças novas que o avigoram,

effeitúa agora em mêzes e semanas, o que antes demandava sèculos e

annos.

A mina é o mais poderoso principio do desenvolvimento de uma terra

virgem.

A mina é o mais poderoso incentivo da colonização de uma terra agreste.

Scintille o diamante, fulgure a pepita do ouro, negreje o bloco de

hulha, lance a mina do seu seio cavernoso, o cobre, o ferro e o chumbo,

e ali no deserto julgado àrido, em tôrno do chumbo, ferro, cobre, hulha,

ouro e diamante, nasce a vida, cria-se a civilização, e o progresso

caminha ràpido como os seus modernos elementos, o vapor e a

electricidade.

Hontem as enxadas rudimentares dos indìgenas esgravatavam uma polegada

de terra, e hôje as locomòbiles poderosas, lançando aos ares o grito da

civilização no sibilar do apito, vam movendo arados que revolvem fundo a

terra, virgem desde a sua formação geològica, e vem trazer á superficie

em glebas recurvadas o pedaço de solo que nunca cuidou ter outro

movimento àlém do que as leis do Creador lhe marcáram no espaço

infinito.

Ali, onde hontem um rio caudaloso apresentava barreira insuperavel aos

passos do raro caminhante, hôje uma ponte construida de bocados de ferro

ligados em harmònica architectura pelas leis sublimes da sciencia, dá

facil passagem a uma população condensada, que nem sequér pensa nas

àguas revôltas que lhe correm aos pes.

O pàntano que hontem exhalava o miasma pestilento, está hôje convertido

em parque ameno, cujas àrvores modificam a atmosphera e o clima.

O ferro que, hontem elementarmente tirado da terra, apenas servia para a

imperfeita ponta da azagaia bàrbara, corre hôje nas fôrmas gigantescas,

e resfriando em forma de _rails_, vai estender-se n'essas arterias

enormes onde pulsa o sangue das nações modernas.

Do trabalho e da creação material nascem novas idéas, o cèrebro

reforça-se, as faculdades creadôras do engenho humano desprendem-se mais

e mais, e vôam longe, trazendo cada dia novos e poderosos elementos ao

progresso e riquêza das nações.

Foi assim que a Amèrica em um sèculo passou àlém da Europa, é assim que

a Àfrica um dia irá àlém da Amèrica.

Na terra Gricua, onde, em 1867, apenas cabanas abrigavam uma população

bàrbara; em 1870 elèva-se uma cidade Europea, ainda envôlta no cahos das

populações nascentes, mas sentindo em si tôdos os elementos de progresso

ràpido. N'estas condições, não podia admittir sequér a dominação de

povos tão atrazados como Böers e Gricuas.

Muito occupada de si mesmo para se poder occupar de vizinhos importunos,

apellou para a Inglaterra.

O diamante e o ouro tem o poder sobrenatural de fascinar o rei como

fascina o proletario, e se Böers e Gricuas estavam offuscados pêlo

brilho dos diamantes Africanos, a Inglaterra não deixou de se commover

ás scintillações dos seixos preciosos, e decidio logo no seu cèrebro

intelligente e cùpido, que a terra Gricua era sua e não podia ser

d'outrem.

Á proclamação do presidente Brand seguio-se uma proclamação do

Governador do Cabo, em que se dizia, pouco mais ou menos, que a terra

pertencia aos Gricuas, e que os Gricuas pertenciam á Inglaterra.

Esta proclamação precedia o proprio Governador, que entendeu dever ir ao

logar do litigio.

A recepção que lhe foi feita pêlos mineiros, foi enthusiàstica e

esplèndida.

Os Gricuas, que se sentiam fracos em presença dos Böers, uníram-se

naturalmente á Inglaterra.

Então o Governador, forte com o apoio de mineiros e Gricuas, entrou

abertamente em negociações com os Böers dos dous Estados, e fàcilmente

chegou a convencer Pretorius á desistencia dos seus direitos mais do que

problemàticos. Não aconteceu porem o mesmo com o presidente Brand, que

não so recusou a proposta de ser a questão decidida por uma arbitragem

do Governador da Natalia, pedindo que essa arbitragem fôsse de um dos

soberanos da Europa, e ainda mais, fazendo reunir uma fôrça consideravel

de Böers para empregar as armas como argumento supremo. O Governador

procurou e conseguio prudentemente soster esta manifestação guerreira do

Estado Livre, que teria sèrias consequencias n'aquelles paizes.

Ao mesmo tempo, o govêrno Inglez annexava ao Cabo o paiz diamantìfero,

sem se importar muito com o que ali se passava.

Brand todavia não desistia dos seus direitos, como Pretorius.

Este, Böer, e tendo apenas a educação rudimentar dos Böers, aprendida

nas pàginas da Biblia, vivia e sustentava-se mais pêlo nome herdado de

seu pai, do que pelas suas qualidades pessoaes. Fôra mais facil á

Inglaterra tratar com elle do que com o presidente Brand, filho da

Colonia, mas possuindo uma bella intelligencia, uma vasta erudição, e

todas as tricas e chicanas de advogado que é.

Brand foi educado na Europa, é doutor pêla Universidade de Leyde, tem

carta de jurisconsulto nos tribunaes de Inglaterra, e foi professor na

escola do Cabo. Um homem n'estas condições, e dotado de um caracter

enèrgico e forte, não se calava em presença das annexações da

Inglaterra, e continuou a gritar e a provar que a terra Gricua era sua

propriedade.

Em seis annos fez seiscentos protestos, até que um dia Lord Carnarvon, o

estadista Inglez, que melhor tem sabido comprehender os interesses

coloniaes da Grã-Bretanha, o convidou a ir a Londres tratar directamente

com elle a interminavel demanda.

Brand em Londres continuou a pugnar pelos interesses do seu paiz, e

cedeu os direitos á terra Gricua mediante uma indemnização pecuniaria de

105 mil libras.

Foi assim que Lord Carnarvon cortou de uma vez para sempre as

complicações entre os Böers do Estado Livre e as Colonias Inglezas do

Sul d'Àfrica.

Brand aproveitando a somma recebida em favor do seu paiz, tratou de lhe

dar tôdo o desenvolvimento que uma pequena nação pode ter, com uma

pequena quantia como aquella.

Mas deixemos os Böers do Orange, dos quaes falei apenas por se ligar a

sua curta historia com a do Transvaal, e voltemos a este paiz.

Como disse, Pretorius transigio logo com o Governador do Cabo na questão

da posse da terra Gricua, e isso foi motivo para se desacreditar entre o

seu pôvo.

A assemblea nacional (Volksraad) apresentou um voto de censura ao seu

presidente, e preciso foi depol-o, e escolher quem o substituisse.

Foi então eleito um Hollandez, Francisco Burgers, o terceiro presidente

da rèpùblica Transvaaliana.

Francisco Burgers, homem intelligente e illustrado, ministro protestante

da Igreja reformada, pensou, logo que assumio o poder, levantar o

Transvaal ao nivel das nações adiantadas da Europa. Tôdas as idéas do

ùltimo presidente eram nobres e elevadas, mas não podemos deixar de

admittir que elle commetteu erros manifestos de administração. Burgers

não era homem pràtico, e não conhecia sufficientemente o elemento que

governava, para saber como lhe dar o feitio que elle lhe queria dar.

É sempre melindroso falar de um alto personagem que vive, quando a

crìtica tem de analysar os seus actos, e se eu não me posso eximir a

falar do D^{or.} Burgers, porque á sua administração se ligam factos da

maior importancia, não quero de modo algum impor a minha opinião a

respeito do governo do ùltimo presidente do Transvaal.

Direi abertamente o que penso, e que formem os outros os juizos que

quizerem.

Durante a minha estada no Transvaal, não deixei de indagar, por tôdos os

modos ao meu alcance, os factos da ùltima administração Böer, e sôbre

elles edifiquei a opinião que vou expor.

O presidente Burgers, tomando conta do Govêrno, quiz caminhar mais

depressa do que devia n'um terreno tão pouco nivelado. As questões

financeiras fôram as que primeiro chamáram a sua attenção, e bem preciso

era isso, porque no Transvaal não haviam finanças.

As despezas de administração eram pequenas, é verdade, mas as receitas

geraes eram pequenissimas e mui irregularmente cobradas. Havia algum

papél moeda e pouco dinheiro Inglez.

Burgers cunhou moeda de ouro extrahido das minas de Lydenburg, e

conseguio em pouco tempo restabelecer o crèdito, muito abalado, do seu

paiz adoptivo. Para isso têve lutas ingentes e ignoradas, com um pôvo

pouco subordinado, e disseminado n'um territorio enorme, onde as

communicações eram e sam ainda hôje difficeis, e onde ainda não foi

possivel fazer um censo aproximado. Outro assumpto importante que

preoccupava o presidente, era a questão da fôrça pùblica. Elle percebia

bem que o systema de defêsa empregado até então pelos Böers, a que

chamavam o _commando_, isto é uma convocação geral para a guerra, era

muito deficiente, e não podia continuar, n'um estado que elle queria

elevar á altura dos paizes Europêos.

A questão de regularizar um exèrcito entre os Böers apresentava grandes

difficuldades, e encontrou uma sèria opposição.

Um terceiro ponto de não menos importancia a tratar, e do qual se

occupou logo o presidente, foi o da viação pùblica.

Burgers instituio os primeiros juizes, e abrio as primeiras escolas

pùblicas no Transvaal.

Isto era muito para um pôvo na infancia, e foi feito de repente.

N'isso e só n'isso commetteu um êrro o presidente da rèpùblica.

Uma especie de febre de progresso se apossou do D^{or.} Burgers, que fez

uma viagem á Europa, em 1875, com o duplo fim de arranjar dinheiro e um

pôrto de mar ao seu paiz.

Para o dinheiro foi bater á porta dos Banqueiros de Amsterdam, para

obter um pôrto foi pedil-o ao govêrno de Lisboa.

Em Amsterdam como em Lisboa foi escutado, e ao passo que obtinha um

crèdito na Hollanda, fazia um tratado em Portugal para uma ferrovia que

ligasse Pretoria ao soberbo pôrto de Lourenço Marques.

Burgers voltava triumphante ao Transvaal, onde o esperavam as maiores

decepções.

Durante a sua ausencia, havia-se renovado uma antiga pendencia com um

règulo indìgena, Secúcúni, ao qual era preciso fazer a guerra.

Burgers não hesitou, e fez convocar um _commando_ ao qual adheríram uns

dois mil Böers e outros tantos indìgenas. Elle mêsmo se poz á frente do

pequeno exèrcito e foi atacar o règulo sublevado.

Ou fôsse que Burgers não nascêra para general, ou fôsse por uma d'essas

outras causas difficeis de apreciar, que tantos desastres t[~e]m causado

ás tropas regulares Inglezas em Àfrica, o pequeno exèrcito, depois de

uma curta guerra em que poucas vantagens alcançou, têve de retirar.

A êsse tempo chegava ao Natal Sir Theophilus Shepstone, que ia de

Londres, onde Lord Carnarvon sempre na idéa de fazer uma confederação

dos estados da Àfrica do Sul, tinha feito reunir delegados das diversas

provincias para discutir tal projecto.

Parece que Sir Theophilus Shepstone levava instrucções do govêrno Inglez

a respeito do Transvaal, porque, logo que chegou a Durban, seguio para

Pretoria.

Não quero de modo algum entrar, n'uma obra do caracter d'esta, em

apreciações sôbre o facto da annexação; e por isso limitar-me-hei a

narrar os factos com a verdade que até hôje não tem sido dita. Para bem

se comprehenderem esses factos, é preciso mostrar o que era o Transvaal

á epocha da chegada de Sir Theophilus a Pretoria.

A população Böer, difficil de avaliar, mas que os càlculos mais

aproximados faziam montar a vinte-e-uma mil almas, estava espalhada n'um

territorio immenso, igual em superficie á Inglaterra e Escocia reunidas.

N'esse grande paiz três cidades apenas eram nùcleos de uma população

mais condensada, e algumas aldeas separadas por distancias enormes,

augmentadas ainda pêla difficuldade das communicações, reuniam pequenos

grupos de habitantes.

As três cidades, Potchefstroom, Pretoria e Lydenburg continham

populações, que eram tudo menos Böers. As minas do ouro haviam attrahido

a Lydenburg aventureiros de todas as nacionalidades, predominando o

elemento Inglez importado da Australia.

Pretoria era uma cidade nascente em que predominava o elemento

Hollandez, mas não Böer.[13]

Potchefstroom era de todas aquella que era habitada por maior nùmero de

Böers, mas ainda assim, elles estavam em minoria em presença dos

Hollandezes e Inglezes.

As aldeas, das quaes as mais importantes eram Rustenburg, Marico, e

Heidelberg, ja tinham a população Böer misturada com Inglezes e

Hollandezes. A grande população Böer estava disseminada em casaes, e

fugia naturalmente das cidades onde não podia fazer pastar os seus

gados.

Se era difficil fazer um recenseamento da população branca do Transvaal,

mais difficil era ainda avaliar a população indìgena. Tenho visto

càlculos que a estimam de duzentas a novecentas mil almas.

O paiz estava coberto de missões de três ou quatro differentes

sociedades de Inglaterra, de algumas Allemãs, e outras Hollandezas.

Estes missionarios exerciam a sua acção sôbre o indìgena, porque

Hollandezes tinham os seus pastores nas parochias, e Böers que sabem

tanto de Biblia como os pàrochos, até d'elles prescindiam.

A sêde do govêrno estava em Pretoria, a mais pequena das três cidades do

Transvaal, mas aquella que melhor se acha collocada.

Os homens que tinham a direcção principal dos negocios pùblicos eram

Hollandezes.

Esta era a posição da população heterogènea do Transvaal em principios

d'Abril de 1876.

Vejamos agora ràpidamente, qual era a posição moral, verdadeira ou

apparente, dos Böers.

Primeiro examinemos qual o juizo que fora d'Àfrica se fazia dos

Franco-Hollandezes da rèpùblica Africana. Era elle de certo pèssimo.

O Böer era um selvagem branco, possuindo todos os maos instinctos do

selvagem, àvido de rapina, devastando e incendiando as aldeas do

indìgena, pobre martyr da brutalidade e rapacidade de tão extraordinario

malvado.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo · 第 17 / 23 段