A arêa reflectindo o calor solar, deveria produzir uma dilatação

atmosphèrica, que determinaria durante o calor a corrente branda para

leste; ao passo que êsse ar lentamente dilatado de dia, seria

ràpidamente retrahido pêlo frio intenso da noute, e produziria um

desiquilìbrio, que originara a fortissima corrente nas primeiras horas

do dia.

M^{r.} Coillard achou prudente partir só na tarde do dia immediato, para

saciar bem os bôis, antes de ir procurar àguas muito problemàticas; mas

eu decidi seguir só com o meu Pépéca, e combinámos encontrar-nos nas

margens do Simoane.

O meu fim era sôbre tudo visitar os lagos a que os Massaruas chamam os

_Macaricáris_.

Depois de atravessar sete milhas de Macaricáris, entrei n'uma floresta,

que percorri n'uma extensão de três milhas até encontrar um leito de

rio, com alguma àgua encharcada, que eu suppuz devia ser o Simoane.

Desci por elle até ao Grande Macaricari. Depois de um longo passeio nas

cercanias, fui procurar um sitio onde calculei que os vagons deveriam

passar e esperei.

Só ás nove da noute, e noute de trevas profundas, o meu ouvido

exercitado pôde perceber ao longe a bulha dos vagons, e caminhando para

ali fui sahir-lhes ao encontro. Madame Coillard estava em cuidados, por

me ver ausente tôdo o dia só com uma criança, e a primeira cousa que

fez, ao parar dos vagons, foi preparar-me chá, bebida de que ella sabia

eu ser àvido, e n'essa noute diz o meu diario que tomei a seguir seis

grandes chàvenas d'êlle.

Effectivamente, o gasto que eu fazia na provisão de chá de Madame

Coillard era enorme.

O ribeiro Simoane, que então era apenas uma serie de pequenas lagôas de

três metros de largo, corre a Oeste no tempo das grandes chuvas, e vai

entrar directamente no Grande Macaricari.

Tôdo aquelle paiz, e sôbre tudo a floresta entre a qual corre o Simoane,

apresentava indicios de ter chovido muito ali, e por isso as lagôas do

Simoane tinham àgua, e esta era quasi bôa.

No tempo sêco ellas secam, e em alguma que conserva pouca àgua, é esta

tão saturada de saes que não se pode aproveitar.

Desde que chegámos ás margens do Nata, em tôdos os pontos onde

paràvamos, appareciam os Massaruas sempre a pedir alguma cousa.

O que valia era fugirem se nos zangàvamos com êlles.

Aquêlles Massaruas que sam valorosos e combatem o elephante e o leão,

sam cobardes diante do homem, e sôbre tudo do branco.

Só ás 4 horas da tarde deixámos aquelle ponto, onde os bôis encontravam

um viçoso pasto e abundante àgua; e caminhando a S.O. fomos acampar, ás

8 horas e meia, em sitio sêco.

No dia 19, depois de quatro horas de jornada a S.S.E., costeando sempre

o terreno que se eleva para o Este, deparámos com o leito sêco de um rio

cujas margens alimentam uma vegetação luxuriante. Os Massaruas que

apparecêram logo, disséram chamarem-lhe Lilutela, e ser o mesmo que

outros chamam Xuani (_Shuani_) ou pequeno Xua. Este nome de Xuani deve

ter sido dado áquelle rio por gentes do sul, que falassem a lìngua

Sesuto ou algum dos seus dialectos, porque n'aquella lìngua os

substantivos formam o diminuitivo com a terminação _ani_.

O Lilutela, nome que eu lhe conservo, por ser o empregado pelos povos

nòmadas do deserto, tem o seu leito cavado entre uma floresta formada de

àrvores gigantes, mas limpa de arbustos. Esta floresta, que começou umas

nove milhas ao N. do Simoane, parece ser a orla de uma densa mata que em

terreno mais elevado corre Norte-Sul poucas milhas a leste do nosso

caminho.

O terreno desde a margem esquêrda do rio Nata é consistente, e não

arenoso como até ali. O solo é formado por uma funda camada de argila

muito plàstica, e no tempo das grandes chuvas deve ser um atoleiro

enorme.

Um dos Massaruas que appareceu ali foi mostrar uma lagôa um kilòmetro a

oeste, onde os bôis podéram matar a sêde e nós fazer provisão d'àgua.

As margens do Lilutela sam cobertas por uma espêssa camada de guano, e

na estação em que o rio leva àgua devem ser habitadas por milhões de

aves.

Seguímos no mesmo dia ás 5 da tarde, debaixo da má impressão de que não

encontrarìamos àgua no dia immediato, facto que nos foi affirmado pelos

Massaruas. Jornadeámos até ás 11 e meia da noute, sempre por entre a

floresta pomposa.

Partímos no dia 20 ás 8 da manhã, e meia hora depois, passàvamos o leito

sêco do rio Cualiba, que vai ao Grande Macaricari, correndo a Oeste.

A floresta ali é cheia de calhaos roliços trabalhados pêla àgua, e

povoada de caracoes enormes, e buzios de grandes dimensões.

Fômos acampar àlém do leito do Cualiba, para procurarmos àgua.

Aparecêram alguns Massaruas, mas não nos quizéram indicar onde faziam

provisão d'ella, coisa que elles usam com os forasteiros. Depois de

vàrias tentativas feitas no leito do rio, pudémos obter àgua n'um pôço

que cavámos um kilòmetro a jusante do nosso campo.

Partímos ás 4.25 minutos, parando logo ás 5. e 10, para dar de beber aos

bôis em um charco que encontrámos, formado pêla chuva, que cahia

torrencial desde as duas horas.

Ainda n'esse dia jornadeámos por duas horas, indo acampar ás 8, depois

de termos atravessado uma parte do grande Macaricari.

O Grande Macaricari.

N'aquelle deserto do Calaari, paiz tão notavel, onde a natureza se

comprazeu a juntar os mais disparatados elementos, onde a floresta

pomposa toca a planicie àrida e sêca, onde a arêa sôlta é continuação do

terreno argiloso ao mesmo nivel, onde a secura está, muitas vêzes, perto

da àgua; n'aquelle deserto, que por vêzes quér imitar o Saara, outras a

Pampa da Amèrica, outras os Stepes da Russia; n'aquelle deserto elevado

três mil pes ao mar, uma das cousas mais notaveis é o Grande Macaricari.

O Grande Macaricari é uma bacia enorme, bacia onde o terreno se deprime

de 3 a 5 metros, e que deve ter no seu maior eixo de 120 a 150 milhas, e

no menor de 80 a 100.

Como tôdos os _Macaricaris_, afecta a forma pròximamente ellìptica, e

tem como todos o seu maior eixo no sentido leste-oeste.

_Macaricaris_ sam, em lìngua Massarua, bacias cobertas de saes, onde a

àgua das chuvas se conserva por algum tempo; desapparecendo na estação

estiva, por a evaporação, e deixando ali outra vez depositados os saes

que dissolvêra. Sam abundantissimos os _Macaricaris_ n'aquella parte do

deserto, e eu visitei muitos, cujos eixos maiores, sempre no sentido

leste-oeste, tinham três milhas, e mais.

As bacias sam de areia grossa, coberta por uma camada cristallina de

saes, que atinge a espessura de um a dois centìmetros.

Creio que não é so chlorurêto de sòdio o sal que forma aquella camada,

ainda que é aquelle que predomina.

Os depòsitos calcàreos que aquellas àguas deixam pêla ebullição,

evidenceiam que os saes de cal tambem se cont[~e]m na camada crystallina

dissolvida n'ellas, em proporção notavel.

Fiz collecção de muitos pedaços d'aquella camada que reveste o interior

das bacias dos _Macaricaris_, mas, infelizmente, n'uma caixa que cahio

ao mar ao embarcar no vapor _Danubio_, em Durban, se perdêram êlles, com

outros exemplares preciosos que trazia para a Europa.

O grande lago recebe na estação chuvosa um volume enorme d'àguas pelos

rios Nata, Simoane, Cualiba e outros; sendo que todas as àguas que

n'aquellas latitudes cahem desde a fronteira do paiz dos Matebeles,

v[~e]m a elle, porque o terreno elèva-se progressivamente a leste até ao

meridiano 28° ou 28° e 30' de Greenwich.

Estas àguas, que formam torrentes enormes, devem encher o Grande

Macaricari em pouco tempo.

Este enorme charco communica com o Lago Ngami pêla Botletle, e o seu

nivel é o mesmo d'aquelle Lago; dando esta circunstancia logar a um

phenòmeno muito notavel. Estando os dois lagos distanciados de alguns

graos, muitas vêzes as grandes chuvas caem a leste, e o Macaricari

transborda, sem que as fontes que alimentam o Ngami tenham augmentado de

volume. Então a Botletle corre a oeste do Macaricari para o Ngami.

Outras vezes dá-se o caso inverso, e o Ngami envia as suas àguas ao

Macaricari. Este é o seu curso natural, sendo o Ngami alimentado por um

rio permanente e volumoso.

¿Mas o que succede a tôda essa àgua que de tôdos os lados corre ao

grande charco? Desapparecerá só pêla evaporação?

¿Não haverá tambem ali uma grande infiltração que por conductos

misteriosos e subterràneos vá dar nascença a êsses innumeros riachos,

que em plano inferior correm ao mar de uma e outra costa?

¿O que é feito das àguas do Cubango, rio volumoso e permanente, que

desapparece n'êsse deserto insondavel?

As àguas do Cubango, na minha opinião, chêgam ao Grande Macaricari e

desapparecem ali.

A Botletle não é mais do que o Cubango, que tem um alargamento a que

chamáram o Ngami.

Sem o Grande Macaricari, a parte da Àfrica Austral comprehendida entre o

parallelo 18 e o rio Orange, seria um paiz fertilissimo, e nas condições

climatològicas e meteorològicas que a protegem, seria um paiz de grande

futuro.

Bastava o Cubango para a fertilizar. Mas o Cubango, bem como tôdos os

rios que quizéram entrar no Calaari, encontrou no seu caminho um paiz

arenoso e perfeitamente horizontal, que lhe dispersou as àguas, como que

dizendo: "Não passareis d'aqui;" e a pouca que encontrou um esgôto, e

pensou salvar-se, foi cahir no Grande Macaricari, que a bebeu àvido, sem

que ainda assim podesse matar a sua sêde insaciavel.

Os rios que t[~e]m as suas nascentes ao sul do parallelo 18, e a oeste

do meridiano 27, ao norte do Orange, e a oeste do Limpôpo, não sam

permanentes; e, caudalosas torrentes na estação das chuvas, não sam mais

do que sulcos arenosos na estação estiva.

As àguas de quasi tôdos vam a essa linha que une o Ngami ao Grande

Macaricari onde se perdem, talvez para volverem de nôvo n'uma nova

estação das chuvas.

Algumas vêzes, como n'aquelle anno, até a Botletle mostrou aos

habitantes dos juncaes das suas margens o seu fundo arenoso e branco.

É bem digna de estudo esta parte d'Àfrica, ainda hôje envolvida em

misterioso véo, mas tão inhòspita é ella, que por muito tempo saberá

occultar os seus segrêdos aos olhos dos investigadôres scientìficos.

No dia 21 seguímos ao Sul, deixando o Macaricari ás 5 horas da manhã, e

fomos parar, quatro horas depois, junto de uma pequena lagôa de bôa

àgua, produzida pêla chuva que cahio copiosa na vèspera.

O paiz que atravessámos era coberto de vegetação arborescente, sendo o

mato formado de espinheiros que difficultavam o viajar.

Partímos ao meio-dia, alcançando pêlas duas horas o ribeiro Tlapam, que,

ao contrario do que esperàvamos, não nos offereceu uma gôta d'àgua

potavel; e por isso continuámos jornada até ás 9 horas da noute, hora em

que encontrámos uma pequena lagôa permanente, a que os Massaruas chamam

Linocanim (_o pequeno ribeiro_), porque esta lagôa dá nascença a um

pequeno ribeiro que corre a leste, provavelmente ao rio Tati.

Das 6 ás 8 horas cahio sobre nós uma horrorosa tempestade, com copiosa

chuva, que encharcou o terreno, tornando difficilimo o rodar dos carros.

Algumas cabras de M^{r.} Coillard e a minha Córa, querendo refugiar-se

da tormenta, procuráram abrigar-se debaixo dos vagons, que rodavam, e

uma foi logo esmagada pelas rodas.

A minha Córa foi a segunda vìctima. A roda passou-lhe sobre os ilìacos,

e eu, ainda que ella chegou viva a Lino Canin, supuz logo que não podia

viver muitas horas.

N'aquella noute foi morta no nosso campo uma cobra venenosissima.

Desde o rio Nata até ali, vi mais cobras venenosas do que em tôdo o

resto da viagem. Na vèspera um asqueroso e enorme sapo veio meter-se nas

peles da minha cama, e ao acordar achei-me cara a cara com tão amavel

companheiro. Escorpiões, centopeias e os mais repugnantes insectos, eram

meus socios de cama, vindo procurar junto ao meu côrpo o calor que tão

apreciado é pelos animaes de sangue frio.

É preciso um hàbito constante do deserto para se poder dormir sobre umas

pelles na terra dura em companhia de taes animalejos.

Deve comprehender-se, que estas insignificantes bagatellas, reunidas a

todas as outras causas, mantivessem o meu mao humor a uma altura

constante. O tempo chuvoso continuava persistente, e o ceo sempre

encoberto não me permittia fazer observações astronòmicas, o que

contribuia para acirrar o meu espìrito ja muito iracundo.

N'aquelle dia tôdos os meus cuidados, tôdos os meus momentos, fôram

dedicados a tratar da minha pobre Córa, que morreu pêla tarde.

¡Pobre animal! Perdi em ti a ùnica grande affeição que encontrei nas

terras Africanas, antes de conhecer a familia Europea que me recebeu no

seu seio. Perdi em ti a companheira constante dos meus dias de tristeza,

a amiga dilecta dos meus poucos momentos de alegria!

¡Pobre Córa! A sepultura que te cavei junto a Linocanim será sempre um

pensamento triste na minha lembrança, e as poucas linhas que aqui te

consagro, dictadas por a saudade que me deixaste, sam a expressão

sincera do muito que eu te queria, pêlo muito que me eras dedicada.

Agora, leitor endurecido e crìtico severo, trata-me de frìvolo pêlo

pouco que acabo de escrever de assumpto que taxarás de futil, trata-me

como quizeres de mal, que só me darás o direito a lastimar-te. Ha

bagatellas na vida que sam verdadeiros acontecimentos para o homem que

sente, meras puerilidades para aquelle a quem as paixões ja mirráram o

coração.

Se és dos ùltimos, ri-te de mim e deixa-me que te lastime.

Não contesto que me leves grande superioridade, mas eu sou de outro

feitio, e estou bem assim.

Córa morrendo deixou-me uma recordação viva n'um filho que tinha, a que

os Basutos de M^{r.} Coillard déram o nome Coranhana.

A tarde do dia 22 foi tormentosa, e das 3 horas ás 6 e meia a chuva

cahia torrencial.

No dia immediato partímos ás 6 horas, indo parar ás 9 em um logar onde

os Massaruas caváram um grande pôço, logar a que elles chamam Tlala

Mabelli (_fome de mabelli_).[7] No fundo do pôço apenas encontrámos uma

lama fètida inaproveitavel.

Ainda n'esse dia fizémos uma jornada de cinco horas e meia, sempre

debaixo de chuva copiosa.

A 24 seguímos viagem, e depois de quatro horas e meia de caminho,

encontrámos um pôsto de Massaruas, sujeitos ao rei Cama do Manguato.

Chamam aquelle pôsto a Morralana, do nome de uma àrvore que abunda ali.

Disséram-nos os Massaruas que podìamos seguir em linha recta, porque a

muita chuva cahida nos dias anteriores nos faria encontrar àgua no

caminho, sem o quê terìamos de fazer um grande desvio por leste para não

morrermos á sêde.

Ás 11 horas começou uma chuva forte que só moderou ás 2; seguímos então,

mas logo ás 4 parámos, por termos encontrado uma lagôa cheia de àgua

magnìfica, e sabermos pelos Massaruas, que só três dias depois

poderìamos encontrar de nôvo àgua aproveitavel.

¡Triste vèspera de Natal! Eu estava n'esse dia de um mao humor atroz.

Sentado dentro do vagom para me abrigar da chuva, estavam junto a mim

M^{r.} Coillard e as damas.

Elles conversavam, eu estava calado; furioso. Não sei a que propòsito

Madame Coillard falou de George Eliot.

Foi como o fôgo chegado á pòlvora aquelle nome que ouvi.

Voltando-me para Madame Coillard, disse-lhe, que George Eliot não

escrevia senão disparates, porque era uma mulhér o seu George Eliot, e

que uma mulhér só podia escrever disparates.

Madame Coillard, ferida por esta minha brutal aggressão, quiz discutir,

mas eu só lhe respondia, que as mulheres não nascêram para escritôras,

que logo que se metiam a isso não podiam deixar de escrever tolices; que

o seu mistér era governar casas, e não fazer livros.

Chegou a discussão ao ponto de eu ver a bôa dama commovida, e de fugir

d'ali.

Momentos depois cahia em mim, e avaliava tôda a extensão do meu

arrebatamento, sem poder explicar como se produziam no meu espìrito taes

alterações, logo que eu me dirigia a ella.

Eu, o maior admirador de George Eliot; eu, que reli _Romola_ e _Adam

Bede_, ficando ainda com desejo de ler aquellas obras primas da cèlebre

romancista Ingleza; eu que presto um verdadeiro tributo ao mèrito de

Staël e Sand; eu que me ufano de ter entre os primeiros literatos do meu

paiz Maria Amalia Vaz de Carvalho, a mulhér que escreveu um dos melhores

livros que modernamente se tem escrito ali; eu fazendo violencia ao que

pensava e ao que sentia, sustentava, contra a minha convicção, uma idéa

estùpida, só e só para contrariar aquella bôa dama, que me pagava as

aggressões insòlitas com mais cuidados e com mais desvelos!

Amanheceu 25 de Dezembro, dia de Natal, que, sendo dia festivo e de

descanço em tôdo o mundo Christão, para nós foi dia de trabalho rude,

porque jornadeámos por trêze horas, em três caminhadas, e só á uma hora

da noute acampámos.

Era a secura do paiz que nos forçava a alargar as jornadas, e mêsmo

assim, só contàvamos ter àgua três dias depois. N'êsse dia encontràmos

um bando de Bamanguatos, que o rei Cama mandava a M^{r.} Coillard com

bôis frêscos para os vagons. Por elles soubémos a nova das mortes do

Capitão Paterson, M^{r.} Sergeant e M^{r.} Thomas, e alguns serviçaes,

que tinham ido ao Matebelli em serviço do govêrno Inglez, e que se dizia

têrem sido assassinados por Lo Bengula.

A chuva tinha cessado, mas o ceo continuava sempre completamente

coberto. Eu fui n'esse dia atacado de um ligeiro accesso de febre, que

me quebrou as fôrças. Havia um anno que, em Quillengues, eu luctava com

a morte n'aquelle mesmo dia. Estavam então junto a mim Capello e Ivens.

¡Quanto me lembrei d'elles!

¿Onde estariam? ¿Qual teria sido o seu destino no meio d'aquelles paizes

inhòspitos? N'êsse triste dia de Natal, fatigado da jornada, abatido da

febre, quanto me lembrei tambem dos meus! De minha filha, que fazia

annos, e da festa de familia, que se fazia sem mim!

Quantas familias no mundo, n'esse dia, sentadas ás mêsas que vergavam ao

pêso das iguarias, desperdiçando vinhos e desprezando a àgua, estavam

longe de pensar, que no sêco deserto quatro Europêos fatigados seriam

felizes com alguma d'essa àgua, que por tôda a parte era desprezada!

A não ser alguns d'esses entes que de perto nos tocam e que nos não

podem esquècer, ¿quem se lembraria de nós em tal dia?

¡Ha momentos bem tristes entre tôdos os momentos sempre tristes da vida

do explorador!

No dia 26, logo de madrugada, fizémos uma primeira marcha de quatro

horas, andando em uma planicie que se eleva um pouco para o sul, coberta

de herva e apresentando aqui e àlém algumas pequenas matas. O terreno de

areia amarello-avermelhada deixava enterrar as rodas dos vagons quasi

até aos eixos, e tornava difficilima a tracção d'elles.

Ainda n'esse dia fizémos duas jornadas, uma de cinco outra de quatro

horas, sem percebermos o menor signal de àgua. Acampámos ás onze e meia

da noute, á entrada de um valle, onde o terreno nos pareceu difficil e

perigoso de transpor no meio das trevas.

Ao despertar, uma formosa paizagem, formosa para olhos cançados da

monotonia e aridez do deserto, nos veio alegrar a vista.

O pequeno valle á entrada do qual passámos a noute era verdejante e

bello. As colinas que o formavam não tinham mais elevação de 20 metros,

mas eram pintorescas.

Até meia altura deixavam ver a nu um agglomerado de pedras basàlticas

cheias de furos, e cujas arestas puidas mostram que houve ali um

persistente trabalho da àgua.

Apesar da viçosa herva que cobria o fundo do vale àgua nenhuma

encontrámos, ainda que ella deve correr ali em profusão no tempo das

grandes chuvas.

Disséram-nos as gentes Bamanguatas que se chamava aquelle sitio

Setlequane.

Os bôis dos vagons fugíram durante a noite, e sequiosos fôram ao longe

procurar àgua, que não encontráram, sendo reconduzidos ao campo por

gente que despachámos em sua busca, só ás 11 do dia.

Partímos a essa hora, e três horas depois encontràvamos o leito sêco do

rio Luale. Este rio, como quasi tôdos os d'aquelle paiz, só tem àgua

corrente na estação das grandes chuvas, mas em tôdo o tempo pode

encontrar-se alguma estagnada em alguns poços mais profundos. Todavia,

ali ha àgua permanente, e sendo a primeira permanente que lhe fica ao N.

em Linocanim, ha entre estes dous pontos uma distancia de 128

kilòmetros, distancia impossivel de transpor na estação estiva.

Homens e bôis matáram ali a sêde, e nós decidímos seguir logo avante.

Quando ìamos a partir percebémos que faltavam cinco cabras de M^{r.}

Coillard.

Fizémos seguir os vagons e as damas, ficando eu e M^{r.} Coillard com

alguns prêtos para procurar as cabras.

Eu pude por muito tempo seguir o rasto, mas perdi-o depois; e ás 6 e

meia da tarde, ja noute, decidímos ir encontrar os vagons, deixando ali

alguns prêtos para continuar as buscas no dia immediato. Partímos

sòzinhos por noute de trevas profundas. M^{r.} Coillard, sempre

descuidoso, e crente na protecção de Deos, ia desarmado, levando na mão

uma ligeira _badine_; eu, que creio em Deos, mas que tambem creio em

feras no continente Africano, levava a minha melhor carabina.

Uma hora depois de deixarmos o Luale, ouvímos pròximo de nós á nossa

esquêrda, um desagradavel côro de hyenas e chacaes, que não podémos

enxergar.

Este M^{r.} Coillard produzia ás vêzes em mim uma impressão estranha.

Ha coisas n'aquelle homem que me não é dado comprehender.

Um dia, narrando-me com tôdo o calor que o seu espìrito de poeta lhe

dava, um dos mais commoventes episòdios da sua viagem, me disse elle:

"¡Estivémos quasi perdidos!" "Mas," retroqui eu, "o senhor tinha armas,

tinha dez homens dedicados e armados com-sigo, podia, nas circunstancias

que me pinta, sahir da difficuldade fàcilmente."

"Não podia," me disse elle; "não podia sem matar um homem; e eu não mato

um homem, nem mêsmo para me salvar e aos meus."

Fiquei pasmado a olhar para aquelle homem, typo nôvo para mim, sem poder

comprehender que n'aquella organização meridional e ardente podesse

existir uma coragem de gêlo, uma coragem que não acha explicação no meu

espìrito.

Era a coragem filha d'aquellas _flôres d'alma_ que um dos maiores poetas

Portuguezes soube diffinir e descrever em phrase espressiva e bella. Era

a coragem dos martyres, que a poucos é dado entender e sentir. Eu, por

mim, declaro que a não entendo, e posso quando muito admiral-a.

Por vêzes, na minha viagem, me encontrei no meio da floresta desarmado,

ou melhor falando, sem carabina, que alguma outra arma sempre trazia; e

todas as vêzes que isso aconteceu, uma inquietação vaga, uma perturbação

ligeira me atribulava o espìrito.

Não posso, por isso, comprehender o homem que passeia nos sertões

Africanos de _badine_ na mão, vergastando as hervas do caminho. Deve ser

sublime aquella coragem, e pena tenho de a não possuir.

O caminho que eu e M^{r.} Coillard seguìamos é povoado de feras, e o

valoroso Francez dispunha-se a passal-o sòzinho e desarmado, se eu não

teimasse em o acompanhar.

Madame Coillard, em cuidados por nos ter deixado atrás, fez parar os

vagons e esperou por nós, que a encontrámos depois de três horas de

marcha.

Seguímos logo, indo acampar, á uma hora da noute, junto do ribeiro Cane.

Logo de manhã, appareceu o meu Augusto com as cabras perdidas, que elle

encontrara de noute. Seguímos ás 7 horas, a travez de um paiz montanhoso

e coberto de luxuriante vegetação, offerecendo a cada passo panoramas

lindos.

As montanhas correm a S.O., e todas as àguas, se as houvesse, deviam

correr a leste.

Depois de duas grandes jornadas, fomos acampar junto do leito sêco de um

ribeiro chamado Letlotze, onde podémos encontrar àgua n'um pequeno pôço.

Foi decidido que passarìamos ali o dia immediato, que era Domingo, dia

em que a familia Coillard não viajava.

Logo na madrugada seguinte, fomos sobresaltados por uma desagradavel

noticia.

Os bôis tinham ido de noute ao charco encontrado na vèspera, e tinham

esgotado completamente a provisão d'àgua com que contàvamos.

[Figura 127.--Os Desfiladeiros de Letlotze.]

Mandou-se á descoberta, e foi o meu Catraio quem, depois de longas e

demoradas pesquizas, encontrou alguma àgua muito longe do acampamento.

O sitio em que estàvamos era lindissimo, e passámos ali um agradavel

dia.

A 30 de Dezembro, posémo-nos a caminho ao alvorecer.

Eu, que acordei n'êsse dia de pèssimo humor, estava possuido de uma

verdadeira raiva, e nunca cheguei a sentir tanto òdio a alguem como

então senti por aquellas damas, pelo missionario, por tôdos que me

rodeavam.

Aquelle estado do meu espìrito atribulado exacerbou-se ao ouvir, que

M^{r.} Coillard desejava fazer uma grande jornada n'aquelle dia.

Effectivamente, entestámos com os desfiladeiros de Letlôtze, e

caminhámos 25 kilòmetros sem parar.

Como eu atravessei Àfrica do Atlantico ao mar Indico, volume segundo · 第 12 / 23 段