alguma loucura. Depois de um passeio nos arredores, voltei, e ao
aproximar-me do campo por entre os arbustos, vi Madame Coillard, que
falava com Mademoiselle Elise com modo contristado.
Não podia ouvir o que diziam, mas o que vi foi bastante para perceber do
que se tratava.
Mademoiselle Elise tinha na mão a lata do chá, Madame Coillard um pires.
Foi despejado no pires tôdo o contendo da lata, e divido em duas partes,
uma das quaes volveu para a lata, outra entrou no bule.
Era o ùltimo chá de Madame Coillard. Compungio-me tanto o ver o
sentimento que se lia no rosto de uma dama Escoceza ao servir o seu
ultimo chá, que o meu mao humor cahio por terra, e cahio para sempre,
porque não mais volveu.
Ainda n'êsse dia jornadeámos por três horas, indo acampar ás 7 e meia em
sitio sêco.
A nossa viajem foi sempre pêlos desfiladeiros de Letlôtze, onde um sulco
profundo serpea em apertadas curvas, mostrando o leito sêco de um rio do
mesmo nome. Sete vêzes atravessámos aquelle sulco, com grande risco dos
vagons que se precipitavam das suas escarpas profundas e inclinadas.
As montanhas que corôam aquelle desfiladeiro sam bellas, e a serra
apresenta um dentado original.
A 31 de Dezembro, depois de uma jornada de duas horas, entràvamos em
Xoxom (_Shoshong_); a grande capital do Manguato.
Ás 8 horas eu comprava um saco de batatas e outro de cebôlas; encontrava
um Stanley (que não é H. M. Stanley, mas de quem terei que falar muito);
e ás 11 horas comia um òptimo almôço de batatas com presunto, um
magnìfico _beef-steak_, e apertava a mão do règulo Càma, o indìgena mais
notavel da Àfrica Austral.
Madame Coillard ja tinha nova provisão de chá.
CAPÌTULO IV.
NO MANGUATO.
Doença grave--Um Stanley que não é o Stanley--O Rei Cama--Os
Inglezes em Àfrica--A libra esterlina--M^{r.} Taylor--Os
Bamanguatos a cavallo--Cavallos e cavalleiros--Despedidas--Parto
para Pretoria--Acontecimentos nocturnos--Volto a Xoxom--¿Pararám os
chronòmetros?
Com o alvorecer do dia primeiro de Janeiro vi eu começar em Àfrica um
nôvo anno.
Havia dôze mêzes que n'êsse mesmo dia eu tinha deixado Quilengues, e
feito uma grande marcha para o interior, ainda convalescente da primeira
grave doença que tive em Àfrica. Em Xoxom, um anno depois, o Dia de
Anno-Bom devia ser para mim um dia de descanço, e a vèspera da ùltima
perigosa enfermidade que me ameaçou a vida n'aquella longa e fadigosa
jornada.
Passei entre a familia Coillard aquelle dia festivo, na casa meia
arruinada que pertencêra ao missionario Mackenzie, e que nós fomos
occupar.
No dia 2, fui á cidade, ao bairro Europeo, e em uma das casas Inglezas
déram-me um magnìfico xaruto, um _puro Londres_. Ha quanto tempo eu não
via um xaruto, e com que prazer aspirei o cheiro delicioso do tabaco
Havano!!
N'êsse dia apparecêram-me os simptomas de uma febre perigosa.
A doença tomou um caracter assustador, e até ao dia 7 estive entre a
vida e a morte. Os carinhos e desvelos que me dispensou Madame Coillard
não se podem descrever, e de certo a ella devi outra vez o não ter
morrido n'aquellas inhòspitas paragens.
A 7 melhorei bastante, e pude receber a visita de Stanley. Stanley é um
fazendeiro do Transvaal. E Inglez, mas casou em Marico com uma Böer.
Viera a Xoxom vender batatas e cebôlas, eu comprei-lhe um saco de cada
coisa, e aluguei-lhe o vagom para continuar a minha viagem.
N'aquelle dia pude falar largamente com elle e concluímos o contrato.
Por esse contrato o vagom ficava ao meu serviço, bem como elle, que
seria apenas o _driver_ (conductor), devendo obedecer-me em tudo e por
tudo.
O homem tambem impoz uma condição que aceitei, e foi, a de passarmos por
sua casa, para que a mulhér o não julgasse comido pelos leões.
Stanley disse-me logo, que não iria àlém de Pretoria, porque tinha um
filho pequenino longe do qual não podia viver. Tive de transigir no
contrato com os affectos paternaes do fazendeiro Transvaaliano.
Stanley é homem de trinta annos, alto, barba e cabello muito louro,
physionomia vulgar e nada enèrgica, um typo completamente opposto ao seu
homònymo o grande Stanley. Não era sem um certo acanhamento que eu o
tratava por aquelle nome.
Depois de longa conferencia, ficou decidido que elle estivesse prompto a
partir no dia 13, retirando-se em seguida tão satisfeito comigo como eu
ficara com elle.
O Manguato, ou paiz dos Bamanguatos, occupa na Àfrica Austral uma àrea
que se não pode precisar bem, tão vasta é ella.
Ao Sul do Zambeze e ao Norte do parallelo 24, a Àfrica é dividida, de
mar a mar, em três grandes raças superiores e distinctas.
A leste, os Vatuas ou Landins, cujo chefe é Muzila. Em seguida, os
Matebeles ou Zulos, cujo chefe é Lo-Bengula.
A oeste, os Bamanguatos, cujo chefe é Cama.
Muitos, grandes e pequenos grupos, de raças inferiores, estam sujeitos a
estas três raças dominantes, e incontestavelmente superiôres ás outras.
Taes sam entre os Matebeles os Macalacas, entre os Bamanguatos os
Massaruas.
Àlém d'estas, outras castas formam aqui e àlém pequenos grupos, e as
povoações dos juncaes da Botletle, e do Ngami, sujeitas ao rei Cama, e
os Baniaes e outros povos de leste sujeitos a Lo-Bengula, sam de
differente origem.
Estes três grandes potentados sam inimigos,[8] e usam bem differente
polìtica.
Cumpre-me aqui só falar de Cama, e por isso deixarei em silencio o que
poderia dizer dos outros dois poderosos règulos, cujos paizes não
visitei.
O Manguato era, ha poucos annos, governado por um velho imbecil e
bàrbaro.
Era o pai de Cama.
Cama, Christão convicto, educado pelos Inglezes, homem civilizado, de
elevada intelligencia e superior bom-senso, não podia ter as bôas graças
de seu pai, e ainda que primogènito, e por isso herdeiro legal do poder,
soffria uma guerra sem trègua do velho imbecil, que trabalhava para
fazer seu successor a seu filho segundo Camanhane.
Cama, querendo evitar as intrigas que em Shoshong (_Xoxom_) lhe moviam
os inimigos, retirou-se prudentemente para a Botletle; mas em caminho
tôdo o seu gado foi disperso pela sêde, e reunido pelos Massaruas foi
levado a seu pai.
Cama reclamou o que era seu e lhe foi negado, tendo por ùnica resposta,
que o fôsse elle mesmo buscar a _Shoshong_, que ali lhe cortariam a
cabêça.
Elle replicou, que iria, e marcou o comêço da primavera seguinte para
isso, avisando que estivessem preparados para o receber. Effectivamente,
apresentou-se no Manguato á frente de uma respeitavel fôrça reunida na
Botletle e no Ngami, e tendo batido em differentes combates a gente de
seu pai, tomou a cidade de Xoxom pouco depois.
Foi acclamado règulo, e seu pai depôsto. Entregou a seu pai tôdo o gado
e riquêzas que lhe pertenciam; deu bôa esmola a seu irmão Camanhane,
mandando-os viver para o sul junto de Corumane.
Um anno depois, Cama chamava seu pai e seu irmão para junto de si, e
fazia-lhes os maiores beneficios.
Todavia o pai e o irmão, logo que se acháram vivendo na capital,
conspiráram contra o generoso règulo, que, desgostoso por se ver
envolvido em novas intrigas, entregou o govêrno a seu pai, e retirou-se
para o Norte.
Os Bamanguatos porem tinham apreciado o govêrno sabio de Cama, e não
podiam aturar outro règulo; o que deu logar a que fôssem em massa buscar
o filho e de nôvo deposessem o pai. Este quiz retirar-se para Corumane e
levou Camanhane comsigo, mas Cama, sabendo da pobreza em que estavam,
ainda os encheu de beneficios.
Esta ùltima scena da historia do Manguato passou-se sete annos antes da
minha estada ali, e desde então o poder de Cama consolidou-se
completamente.
Cama, nas guerras que sustentou com os seus e com estranhos, adquirio
reputação de grande capitão.
No tempo em que estive em _Shoshong_, Camanhane ja vivia ali, ainda que
não tem a menor ingerencia nos negocios pùblicos. Cama perdoou-lhe,
chamou-o para junto de si e enriqueceu-o.
Ao contrario de tôdos os governos indìgenas d'Àfrica, o de Cama não é
egoista. Antes de pensar em si mesmo pensa elle primeiro no seu pôvo.
Uma grande parte d'êsse pôvo é Christã, e tôdos andam vestidos á
Europea.
Nem um só Bamanguato deixa de ter espingarda, mas não se vê nunca um
homem armado n'aquelle paiz, fora das florestas.
Cama nunca traz armas. Vai repetidas vêzes ao bairro missionario, que
fica a dois kilòmetros da cidade, e volta por noite fora, só e
desarmado.
Não ha outro chefe em Àfrica que o faça.
Tem este règulo 40 annos, ainda que parece muito mais nôvo. É alto e
robusto, mas a sua physionomia inculca pouco.
Tem modos distinctos, e o seu trajar á Europea é apurado e de um aceio
exquisito. Como tôdos os Bamanguatos, é destro cavalleiro, bom atirador
e afamado caçador.
Quasi tôdos os dias Cama almoçava comigo em casa de Madame Coillard, e
sentava-se á mesa com os modos e distincção de um cavalheiro Europeu.
Cama é muito rico, mas a sua riqueza é partilhada pêlo seu pôvo.
Ha annos, veio um flagello aos campos Bamanguatos, e sobreveio a fome,
mas o pôvo de _Shoshong_ não a sentio.
Cama comprou cereaes em tôda a parte, só em uma semana gastou cinco mil
libras esterlinas, mas a sua gente têve de comer.
É bello ver a respeitosa amizade com que tôdos o saudam quando passa nas
ruas. Não é o cortejar a um rei, é o saudar a um pai.
Elle visita as casas dos pobres e as dos ricos, e a tôdos anima ao
trabalho.
Os Bamanguatos trabalham muito.
Nos campos ajudam as mulheres no amanho das terras, e ja empregam a
charrua importada de Inglaterra.
Àlém de grandes cultivadôres, sam pastôres e t[~e]m muitos gados.
Em casa trabalham a curtir pelles e a cosel-as com nêrvos de antìlopes,
fazendo ricas coberturas que usam no inverno.
No tempo da caça sam caçadores, e as abestruzes e os elephantes sam
perseguidos por elles.
Em tôdos êstes misteres sam animados pêlo seu chefe, que os visita, ja
nos campos, ja no labutar domèstico.
Sam muito amigos dos Europêos, e aquelle que chêga ao Manguato está tão
seguro como na Europa.
Cama anda sempre só, e quando, muito é seguido por dois criados
acavallo. Elle anda sempre acavallo.
¿Como no meio de tantos povos bàrbaros se acha um tão differente
d'elles?
Deve-se isso aos missionarios Inglezes, e não posso deixar no escuro os
seus nomes. Três homens trabalháram n'aquella grande obra.
Com a mesma imparcialidade com que até aqui tenho falado dos prêtos, vou
agora falar dos brancos, e se não deixo de convir que muitos
missionarios, e muitas missões Africanas, sam estereis, ou antes
contraproducentes, preciso admittir, por factos que vi, que outras dam
verdadeiros resultados, pêlo menos apparentes.
O homem é fallivel, e tirado do meio social em que foi creado, privado
dos confôrtos que lhe conchegáram a infancia, perdido, por assim dizer,
no meio dos povos ignaros da Àfrica, habitando um clima inhòspito,
comprehènde-se que sôffra uma profunda modificação no seu espìrito.
Esta deve ser a regra geral que tem excepções. As excepções sam os
homens verdadeiramente fortes, aquelles que apoiam a sua moral
n'aquellas _flôres d'alma_ que tão bem descriptas fôram pêlo grande
poeta da Beira, aquellas _flôres d'alma_ que dam o olvido ao mesquinho
pêlo amor trahido, que dam confôrto ao nàufrago quando a esperança de
alcançar a terra se perde, ás quaes se encommenda o monje ao soffrer o
martyrio dado pelos bàrbaros onde foi levar a civilização.[9]
Os homens que as possuem, podem, entregues a si mesmos, caminhar ávante
e attingir um fim sublime; mas estes homens sam verdadeiras excepções. A
materia é fraca, e mais fraco ainda é o espìrito humano.
Se assim não fôra, dispensavam-se as leis e os govêrnos, e a sociedade
estaria constituida em outras bases.
Bastavam as _flôres d'alma_ para governarem o mundo.
As paixões a que está sujeito o homem levam muitas vêzes o missionario,
que é homem e fraco por ser homem, a seguir um caminho errado.
A luta entre cathòlicos e protestantes nas missões Africanas sam um
exemplo d'isso, sam a demonstração incontestavel de que as paixões más
podem actuar no missionario como em qualquer outro mortal.
Os missionarios protestantes (os maos ja se entende) dizem ao prêto, que
"o missionario cathòlico é tão pobre que nem tem com que comprar uma
mulhér!" aviltando assim o homem; que tão aviltado é o pobre entre os
povos Africanos como entre os Europeus.
Por outro lado, os cathòlicos empregam toda a sorte de traça para
desvirtuar os protestantes. D'essa luta nasce a revolta, e produz-se a
esterilidade de muitas missões, onde concorrem missionarios de crenças
diversas. Falei n'isto incidentalmente para mostrar, que os missionarios
tem paixões e erram. Essa é até a regra geral.
Ao sul do tròpico o paiz está coberto de missionarios, e ao sul do
tròpico a Inglaterra sustenta uma guerra constante com as populações
indìgenas.
É porque o mao trabalho de muitos desfaz o que alguns construem de bom.
Deixemos porem em paz os maos, e falemos dos bons.
Dizia eu, que três homens trabalháram na obra da civilização relativa (e
para mim apparente) do Manguato.
Digo apparente, porque estou convencido de que o règulo que substituir
Cama, se não quizér admittir o missionario, levará com-sigo a população
inteira, que não hesitará entre a doutrina de Christo, que não entende,
e o serralho que lhe delicía a lascivia; que não hesitará entre o padre
e o règulo.
Mas essa civilização do Manguato é hôje notavel a tôdos os respeitos, e
o primeiro homem que trabalhou n'ella foi o Rev. Price, creio que o
mesmo que ultimamente foi encarregado da missão de Udjidji no Tanganika,
e que tão infeliz foi na primeira viagem. O segundo foi o Rev.
Mackenzie, o actual missionario de Corumane; e o terceiro aquelle que
ainda hôje prega o Evangelho aos Bamanguatos, o Rev. Eburn; que eu não
tive a honra de conhecer, por estar ausente em viagem de missão, mas
cujas qualidades pude apreciar pelas suas obras que vi, como pêlo
respeito que lhe tributam indìgenas e Europêos.
É com o maior prazer que cito estes nomes dignos, e merecedores de serem
apontados como exemplos aos trabalhadores da civilização Africana; é
tanto maior a minha satisfação fazendo-o, que não conheço pessoalmente
nenhum d'estes distinctos cavalheiros.
Shoshong (_Xoxom_) é a capital do Manguato.
O valle de Letlotze alarga para o sul, tomando uma largura de três
milhas, e continuando a ser enquadrado por altas montanhas. É no valle
encostada ás montanhas do Norte que assenta a cidade dos Bamanguatos,
cidade populosa de 15 mil almas, e que em tempos do pai de Cama chegou a
contar trinta mil.
As montanhas rasgam-se ali para deixar passar uma torrente que se forma
nos tempos chuvosos, e que divide um bairro da cidade. É no fundo d'essa
garganta, mesmo, por baixo das altas montanhas de rochas àridas cortadas
a pique, que os missionarios estabelecêram as suas vivendas.
O sitio foi pessimamente escolhido, porque é hùmido e insalubre.
Provavelmente, a falta d'àgua (falta d'agua, que se faz cruelmente
sentir em Shoshong) determinou aquella escôlha, fazendo aproximar os
missionarios ao leito do ribeiro, onde na estação estiva alguns poços
fornecem àgua á população sedenta da cidade de Cama.
As casas em Shoshong sam construidas de caniço e côlmo, sam cilìndricas
com tectos cònicos. Estam divididas por bairros, e um labyrintho de ruas
estreitas e tortuosas lhes dá accesso.
No bairro missionario existem as ruinas da casa do Rev. Price, a casa do
Rev. Mackenzie muito deteriorada, onde eu habitei, e a igreja
abandonada, por ser pequena para conter a multidão que concorre aos
officios divinos.
Isto a oeste, ou na margem direita do córrego. A leste, ou na margem
esquêrda, uma edificação nova, melhor situada do que as outras, é a
residencia do actual missionario. Todas estas edificações sam de tijolos
com tecto de ferro estanhado.
[Figura 128.--Ruinas da casa do Rev. Price (Xoxon).]
Do lado oppôsto da cidade, em planicie livre, está situado o bairro
Europêo, e as casas de tijolos mostram as moradas dos negociantes
Inglezes.
N'uma d'essas casas, a de M^{r.} Francis, ha um pôço que fornece àgua á
colonia Britànica.
Os Inglezes em Àfrica não sam como os povos dos outros paizes, e por
isso vam mais longe do que elles, ainda que o seu temperamento e a sua
ìndole estam muito longe de igualar a dos povos da raça Latina, em bôas
condições para resistir ao clima e associar com o gentio.
Um Inglez decide ir negociar para o sertão, mete em um vagom tôda a
familia e tôdos os havêres, e parte.
Chêga, edifica logo uma casa, rodea-se de tôdas as commodidades que pode
ter, e diz com-sigo: "Eu vim aqui para fazer fortuna, e se a não fizér
em tôda a minha vida, tenho de passar aqui essa vida. Procuremos pois
passal-a bem."
Não pensa mais na Inglaterra, esquece o passado e olha só para o
presente e para o futuro. Nostalgia nenhum tem.
Outros ha, e muitos, de classe inferior, que não querem mesmo voltar á
patria, e que se estabelecem logo para sempre.
N'isto consiste a sua fôrça colonizadôra. Outra cousa que os Inglezes
fazem logo é introduzir a libra esterlina em toda a parte.
Chêga um indìgena com marfim, pelles, pennas, ou outro gènero do
commercio, e quer pòlvora, armas, etc. Os Inglezes não entendem
permutações directas. Dam-lhe o valor em libras, e vam vender-lhe ao
outro lado do armazem o que o gentio carece.
Ao principio custa; mas o indìgena vai-se habituando, vai conhecendo a
vantagem do dinheiro, e depois ja não quer outra cousa. O negociante
assim sabe bem o negocio que faz. Ha no Manguato um negociante Inglez,
de que terei que falar muito ao diante, M^{r.} Taylor, que ja chegou a
introduzir em Shoshong o papel de crèdito.
Lêtra passada por elle é recebida pêlo chefe Cama e por muitos gentios
ricos.
Depois d'êste ràpido esbôço que acabo de fazer do Manguato, não posso
deixar de falar na minha posição em _Shoshong_, que era verdadeiramente
crìtica.
Tinha a fazer uma grande viagem para alcançar Pretoria, o ponto mais
pròximo onde poderia alcançar meios de uma autoridade Europea; tinha de
pagar dìvidas ja feitas com a sustentação da minha gente, estava sem
roupa; os meus prêtos, cobertos de andrajos, pediam-me algumas jardas de
panno para se vestirem, e eu não tinha dinheiro algum.
M^{r.} Coillard offerecia-me a sua bôlça, mas bem precisa lhe era ella
para que eu ousasse aceital-a. Queria mesmo saldar algumas dìvidas que
com elle contrahira, por saber que elle tinha a fazer ainda uma longa
viagem, e não lhe sobejarem os meios.
O meu embaraço era grande, e tristissima a minha posição.
Eram estas as minhas circunstancias, quando, no dia 8, acompanhei Madame
Coillard a fazer uma visita á familia Taylor.
M^{r.} Taylor tem sido um grande viajante, ja estêve no Zambeze, conhece
tôdo o Transvaal, a Colonia do Cabo e todos os paizes do sul d'Àfrica.
Estabelecido definitivamente no Manguato, a sua casa é uma das primeiras
casas commerciaes de _Shoshong_. Só em marfim a sua exportação orça por
trinta mil libras por anno. M^{r.} Taylor é homem sèrio e de grande
crèdito.
M^{r.} Taylor era casado, havia três annos, com uma joven e formosa
Ingleza, de cabellos e olhos prêtos.
Dotada de uma educação esmeradissima, Madame Taylor embalsama o ambiente
que a cerca com esse perfume que envolve toda a mulher de sociedade.
Junto d'ella, n'esse dia, cheguei a esquècer-me de que estava no remoto
sertão Africano, para me julgar transportado a um salão do West-End em
Londres.
A conversação estabeleceu-se entre mim, Madame Taylor, Madame e
Mademoiselle Coillard, e veio a pello falar-se da minha pròxima viagem.
Disse-se, que me era impossivel viajar n'aquelle paiz sem um cavallo, e
a propòsito d'isso, M^{r.} Taylor convidou-me a ir ver os seus. Chegados
á cavallariça, elle apontou-me para um magnìfico corredor do deserto,
castanho claro com cabos prêtos, e disse-me: "Eis o cavallo que lhe
convem para viajar e caçar."
Eu conheci logo o grande valor do animal, que pêlas cicatrizes miúdas e
redondas assignaladas sôbre os curvilhões, me mostrava ter tido a
_horse-sickness_, e estar por isso á prova, sendo o que ali se chama um
cavallo _salé_. As outras qualidades eram reveladas pelas pernas finas e
nervosas, apresentando uma musculatura desproporcional, pescôço longo e
pouco guarnecido de clinas, olhar vivo e intelligente, cabêça sêca e
elegante, e abundantissima cauda. Ficáram me os olhos n'aquelle bello
animal, e triste disse a M^{r.} Taylor, que não tinha dinheiro para lh'o
pagar. "_Yes_, me disse elle, _it is a valuable horse_" (Effectivamente,
é um cavallo de grande valor).
Voltámos á sala, e eu não pude deixar de falar ás damas do formoso
animal que acabava de examinar.
Pouco depois voltàvamos a casa, e pêlo caminho Madame Coillard mostrava
a maior afflicção pêla minha falta de recursos, em quanto M^{r.}
Coillard redobrava de offerecimentos sinceros da sua ja magra bôlça.
As noutes que passàvamos na casa do Rev. Mackenzie eram horriveis.
Aquella casa deshabitada ha muito, estava cheia de insectos asquerosos,
que nos sugavam o sangue, roubavam o sono, deformavam as feições e
atormentavam a paciencia. Eram milhões de carrapatos e milhões de
persovejos.
Umas carraças semelhantes ás dos cães no sul da Europa, castanhas e
chatas, mas que depois de saciadas tomavam a forma esphèrica e uma côr
esbranquiçada, produziam inflammações horriveis no sitio onde mordiam.
Era um supplicio indescriptivel aquelle. Depois de uma d'estas pèssimas
noutes, Madame Coillard tinha-me mandado chamar para o almôço, e ja
ìamos para a mêsa, quando se fez annunciar M^{r.} Taylor.
Dirigio-se a mim, e com esse ar frio e seriedade de tôdo o legitimo
Inglez, disse-me, que me vinha trazer o cavallo castanho que eu tinha
admirado na vèspera, duzentas libras que eram tôdo o ouro que n'aquelle
momento tinha em caixa, e me offerecia ainda o seu crèdito, tanto junto
dos outros negociantes do Manguato, como em Pretoria, se eu carecêsse
d'elle.
Declaro que cahi das nuvens com tal offerecimento nem de leve
sollicitado, e que apenas pude balbuciar algumas palavras banaes de
agradecimento; de tal modo fiquei commovido.
M^{r.} Taylor almoçou com-nôsco, e em seguida eu acompanhei-o a sua
casa.
Montava ja o sobêrbo cavallo, e sentia essa sensação de prazer que tôdo
o cavalleiro sente ao montar um formoso animal, sôbre tudo quando está
privado d'esse prazer ha muito tempo.
Falámos largamente dos meus negocios, e eu não aceitei o dinheiro,
contentando-me com o cavallo que me era muito preciso, e admittindo que
elle pagasse as minhas dìvidas ja contrahidas em despêsas de viagem, que
montavam a cento e oito libras, e sacasse sôbre mim em Pretoria, onde
contava haver dinheiro do govêrno Inglez.
M^{r.} Taylor, por um requinte de delicadeza, sacou a dois mêzes de
vista sôbre o meu aceite que devia ter logar em Pretoria.
A 10 de Janeiro acabava eu de pôr em dia os meus trabalhos, e
preparàva-me para a partida.
Não posso deixar de citar aqui os nomes de M^{r.} Benniens, M^{r.}
Clark, e M^{r.} Musson, que me dispensáram os maiores favôres e
coadjuváram a minha partida; estando eu certo de que, sem o anticipado
cavalheirismo de M^{r.} Taylor, teria encontrado n'elles o apoio
monetario de que carecia.
Em vista dos favôres que ali recebi de estranhas gentes, não pude deixar
de lançar um golpe de vista ao passado, e recordar-me de Caconda e do
Bihé.
O parallelo que estabeleci entre o apoio que encontrei nos sertões
concorridos por Portuguezes e Inglezes, veio mais uma vez confirmar a
minha opinião, sôbre a qualidade das gentes que de Portugal vam aos
sertões Africanos.
Tenho viajado muito e conhêço muitos povos. Nenhum vi ainda tão
hospitaleiro e tão bondoso como o Portuguez.