pesca, e fui com as damas Coillard pescar a uma lagôa que nos ficava uns
duzentos metros a oeste do campo. Conseguímos pescar muitos peixes
miudos, e eu tive um verdadeiro prazer por ver o gôsto que gozavam
aquellas senhoras n'um divertimento nôvo para ellas, quando sentiam a
ligeira canna vergar ao pêso de um peixe que se estorcia na ponta da
linha, prêso ao anzol que a sua imprudente voracidade lhe fizera morder.
No dia 30 resolvémos partir a 2 de Dezembro, ainda que corriamos o risco
de não encontrar àgua logo nos primeiros dias de viagem, mas uma
importante consideração nos levava a não differir a partida. Èramos
quinze pessôas, e a provisão de mantimentos pequena. D'ali ao Bamanguato
não poderìamos obter vìveres, e em Deica mêsmo nenhuns podìamos haver.
Era pois preciso caminhar sôbre Xoxom (_Shoshong_) o mais depressa
possivel, para alcançar a cidade do rei Khama antes que viesse a fome.
Ficou por isso resolvido que partìssemos no dia dois, resolução que foi
apoiada pêla chuva que cahio nos dias 30 do mez e 1 de Dezembro.
Antes de emprehender a narrativa d'essa aventurosa viagem atravez do
deserto, preciso dizer duas palavras á cerca dos meus companheiros.
Que elles me perdôem pêlo que vou escrever, se a sua modestia for ferida
pelas minhas palavras; mas é preciso que se saiba o nome e os feitos de
alguns d'esses obscuros trabalhadores Africanos, que deixam a Europa e a
vida civilizada, para irem longe da patria trabalhar tenazmente na
grande obra da civilização do Continente Nêgro.
No paiz do Basuto, paiz que confina ao sul e leste com as colonias do
Cabo e Natal, e ao norte e oeste com o estado livre de Orange, fôram, ha
cincoenta annos, estabelecer-se alguns missionarios protestantes
Francezes. Estes homens, cujo nùmero augmentava de anno para anno,
conseguíram domar um pôvo bàrbaro de canibaes, e eleval-o a um estado de
civilização e de instrucção a que ainda não chegou pôvo algum da Àfrica
Austral.
Hôje as escolas Christãs do Basuto contam os discìpulos por milhares, e
uma grande parte da população sendo Christã, abandonou a polygamia e os
costumes bàrbaros dos seus antepassados.
Os missionarios acháram o campo ja pequeno para o seu nùmero, sentíram a
necessidade de expansão, e fôram estabelecer os seus cathechistas para o
norte do Transvaal junto ao Limpôpo.
Quizéram ir mais longe, e uma expedição foi organizada, tendo por chefe
um joven missionario, com destino ao paiz do Baniais ou Machonas,
situado entre o Matabele e as terras Natuas. Esta expedição foi infeliz.
Entrando no Transvaal, soffreu insultos dos Boers, que a
impossibilitáram de seguir ávante, chegando até a serem prêsos em
Pretoria o missionario e seus homens de cathechese.
Foi então que M^{r.} François Coillard, director da Missão de Leribé,
foi encarregado de dirigir a expedição que falhara. Partio de Leribé,
ponto situado perto do rio Caledon, affluente do Orange e a oeste do
Mont-aux-sources, e com sua espôsa e sua sobrinha e seus cathechistas,
caminhou ao Norte, e por entre innùmeras difficuldades, que só uma
vontade tenaz pode vencer, conseguio alcançar o paiz a que se destinava.
Muito bem recebido pelos Machonas, deu comêço aos seus trabalhos, quando
foi atacado por uma fôrça de Matebeles, que o fizéram prisioneiro e o
conduzíram com tôda a expedição perante o seu chefe, Lo-Bengula.
O que o missionario e aquellas pobres damas soffreram durante o tempo
que estivéram em poder do terrivel chefe dos Matebeles é uma historia
triste e compungente.
O chefe, que pretende ter direitos sôbre o paiz dos Machonas,
exprobou-lhes o terem ido ali sem a sua prèvia licença, e não lhes
permitio voltar lá.
Retrogradou pois até Xoxon, capital do Manguato, e não querendo deixar
sem resultado tão dispendiosa e fadigosa jornada, deliberou fazer uma
tentativa sôbre o Barôze. Tinha a vantagem de falar a lingua do paiz,
bem como os seus cathechistas, que, Basutos de origem, podiam trabalhar
facilmente em um paiz onde se falava a sua propria lìngua.
Não foi feliz no Barôze, e ainda que bem recebido e cheio de promessas
do astuto Gambela, não lhe consentíram o accesso àlém de Quisseque.
Fôram estes, que exponho muito resumidamente, os motivos que leváram a
familia Coillard ao Alto Zambeze, e que occasionáram o nosso encontro
n'aquellas remotas paragens.
M^{r.} Coillard e sua espôsa, á èpocha do nosso encontro, estavam em
Àfrica havia ja vinte annos!
M^{r.} Coillard é homem de quarenta annos, sua espôsa tem a idade que
tem tôdas as damas casadas logo que passam dos vinte e cinco, não tem
idade.
O missionario nutre uma grande paixão pelos indìgenas, á civilização dos
quaes votou a sua vida.
Sempre tranquillo em gesto e palavra, não se altera nunca, e só tem na
bôca o perdão para todas as faltas que vê commetter.
François Coillard é o melhor e o mais bondoso dos homens que eu tenho
conhecido.
A uma intelligencia superior reune uma vontade inquebrantavel, e a
teimosia precisa para levar a cabo qualquer emprehendimento difficil.
Muito instruido, o missionario Francez tem uma alma moldada para
comprehender os mais sublimes sentimentos, e é mesmo poéta.
Procurando e glorificando-se de encontrar qualidades bôas nos indìgenas
Africanos, não vê ou não quer ver as más.
É um grande defeito êsse, mas tem elle ampla escusa na sublimidade dos
sentimentos que o dictam.
Madame Coillard, como seu marido, é de uma bondade extrema.
Não se chêga a ella o necessitado sem ir satisfeito, o triste sem ir
consolado.
Para elles tudo sam irmãos, e tanto estendem a mão ao indìgena como ao
Europêu, ao pobre como ao rico, logo que indìgena, Europêu, pobre e rico
precisam d'elles.
Eu, por mim, não lhes poderei nunca agradecer os serviços que me
fizéram, serviços que me obrigáram tanto mais, quanto maior foi a
delicadeza com que fôram feitos.
O correr da narrativa mostrará quem sam estas gentes de quem falo agora
muito lacònicamente, e que deviam ser meus socios na longa viagem que
ìamos emprehender a traves de um deserto desconhecido, porque, deixando
o caminho das caravanas, ìamos traçar uma nova estrada.
CAPÌTULO III.
TRINTA DIAS NO DESERTO.
O Deserto--Florestas--Planicies--Os Macaricaris--Os Massaruas--O
grande Macaricari--Os rios no deserto--Morte da Córa--Falta de
àgua--O ùltimo chá de Madame Coillard--Xoxom (_Shoshong_).
A 2 de Dezembro, começáram logo de manhã os preparativos de partida.
Um vagom de viagem em Àfrica do Sul é uma pesada construcção de madeira
e ferro, de 6 a 7 metros de comprido por 1,8 a 2 de largo, assente sobre
4 fortes rodas de madeira, e tirado por 24 a 30 bôis, junguidos a fortes
cangas, prêsas a uma corrente longa e grossa, fixa á ponta do cabeçalho
no carro.
Esta especie de casa ambulante, é carregada com as bagagens e fazendas
do viajante, e disposta de modo a offerecer-lhe tôdas as comodidades
caseiras.
O vagom de M^{r.} Coillard era uma verdadeira maravilha.
Construido expressamente para aquella viagem sôb as suas vistas e com a
sua experiencia de viajeiro, tinha commodidades que nunca vi em outro.
A minha bagagem foi arrumada com a da familia Coillard no fundo do
vagom, ficando apenas á mão aquillo de que eu poderia precisar a miúdo.
Elles faziam prodigios para darem logar a todos os meus volumes de
carga, como, durante a viagem, se encolhiam para me dar logar a mim
mêsmo.
Uma partida depois de 15 dias de descanço é sempre muito demorada.
Ha muita cousa que arrumar, e no momento de partir descobre-se sempre,
que ha uma canga quebrada, que faltam as pitas aos chicotes, que os
cubos das rodas precisam ser untados, mil cousas emfim que fazem
retardar de algumas horas o momento prefixo.
Depois de essas precauções tomadas por M^{r.} Coillard, e dictadas por
uma longa experiencia de tal modo de viajar, conseguímos deixar Deica
pelas 2 horas da tarde, e endireitámos ao sul.
O nosso comboio compunha-se de quatro vagons, dous pertencentes a M^{r.}
Coillard, e dous outros de M^{r.} Frederick Phillips, de quem falarei
mais tarde.
Depois de uma jornada de três horas e meia, encontrámos àgua em uma
pequena lagôa, recentemente cheia pêla chuva dos dias anteriores, e
pernoitámos junto d'ella.
No dia immediato seguímos a S.S.E., e depois de duas horas de viagem
parámos hora e meia, para dar descanço aos bôis.
Foi de três horas a segunda parte da jornada, e ainda fizémos uma
terceira tirada das 7 ás 9 da noute.
Sendo explorados os arredores do sitio em que acampámos, encontrou-se
àgua um kilòmetro a E.N.E.
No dia 4 só podémos partir ás 4 e meia horas da tarde, para darmos tempo
aos bôis de bebêrem durante tôda a manhã: e n'esse dia a nossa jornada
foi apenas de duas horas e meia, porque, encontrando uma lagôa de òptima
àgua, acampámos junto d'ella, ainda que os prêtos de M^{r.} Phillips
diziam haver ali a terrivel môsca zê-zê, o que me parece precisa
confirmação.
Contudo, por prudencia, no seguinte dia partímos logo de madrugada, e
viajámos por sete horas e meia, em três andadas, a ùltima das quaes
findou ás 9 da noute. Junto do ponto onde pernoitámos não appareceu
àgua. A viagem d'êsse dia foi difficil, por entre emmaranhada floresta,
onde os vagons corréram grande perigo de partir as rodas de encontro aos
troncos de àrvores colossaes.
A 6, de manhã, jornadeámos por duas horas a S.E., encontrando no fim
d'ellas uma lagôa de àgua permanente, a ùnica àgua que no tempo sêco se
encontra de Deica até ali. Chama-se Tamazêze.
Descansámos por sete horas, e seguímos ás 3 da tarde; indo acampar, ás
6, junto de outra bella lagôa tambem permanente, a que os Massaruas
chamam Tamafupa.
A jornada d'aquêlle dia foi por entre florestas lindissimas, onde
abundam espinheiros brancos. O solo é coberto por uma espêssa camada de
arêa. Junto á lagôa um formôso tapête de relva cobre o terreno,
levemente accidentado.
Mas no meio d'aquella relva viçosa cresce uma planta herbàcea de que os
bôis sam àvidos, e da qual é preciso desvial-os com cuidado, porque é
mortal peçonha para êlles.
Estive n'essa noute até tarde levantado, para fazer observações
astronòmicas, e talvez ahi tivesse origem o violento accesso de febre
que me atacou no dia immediato.
Por algumas horas o delirio tirou-me a consciencia, e só ao recuperar a
razão pude dar tino dos cuidadosos desvelos que me eram dispensados pêla
familia Coillard.
O dia seguinte foi ainda passado no mais angustiôso soffrimento, e só ao
terceiro dia nos pozémos em viagem, indo eu em deploravel estado. Foi-me
arranjada uma cama no vagom de M^{r.} Coillard, e rodeado da familia,
que redobrava em affectuosos cuidados, cercando-me de tôdas as
commodidades que a si tiravam, fiz uma jornada que pouca consciencia
tenho de ter feito. Sei que a 10 de Dezembro estàvamos acampados em um
logar que uns chamam Muacha e outros Nguja.
Ali, com o caminho seguido pêlos negociantes Inglezes, devìamos deixar
um d'elles, que, como ja disse, era nosso companheiro de viagem desde
Deica.
M^{r.} Frederick Phillips, o companheiro de viagem que ìamos deixar, é
um _Inglez de Inglaterra_. Homem de fina educação, affecta uns modos
grosseiros e semi-selvagens, que não podem encubrir as suas bôas
maneiras originaes.
É este um dos seus fracos.
O outro elle mesmo o define em algumas palavras que lhe ouvi. "Quizera,
me disse elle, que tudo o que existe no mundo, que tudo o que cobre a
terra, fôsse marfim, e eu só senhor d'elle."
Se eu não tivesse a certeza de que M^{r.} Phillips era Inglez, pêla
fòrmula do desejo julgàra-o nascido em Tarbes.
M^{r.} Phillips, de elevada estatura e robusto em proporção, tem um
rôsto enèrgico e sympàthico, que dizem ter feito uma profunda impressão
na irmã do terrivel Lo-Bengula, o rei do Matabelle, que tem feito as
mais altas diligencias para o desposar. É no Matabelle que êlle tem a
sua principal residencia Africana, e se eu o encontrei no Zambeze, foi
porque a ausencia ali de M^{r.} Westbeech seu socio, o obrigou áquella
viagem por interesses commerciaes.
M^{r.} Phillips, que encontrei em Lexuma, fêz-me offerecimentos, pondo á
minha disposição um dos seus vagons, para eu continuar a minha viagem
para o sul, e se os não devi aceitar, não deixo por isso de lhe tributar
muita gratidão.
Depois de nos despedirmos de M^{r.} Phillips em Nguja, partímos ao Sul,
e jornadeámos por três horas e meia, indo acampar, ás 7 e meia, em sìtio
onde não havia àgua.
No dia seguinte, depois de duas horas e meia de caminho, parámos em um
logar chamado em lìngua Massarua Motlamagjanane, palavra que quer dizer,
muitas cousas que se succedem umas ás outras, e isto por se dar êsse
caso com uma sèrie de pequenas lagôas que encontrámos estanques.
A floresta toma ali um nôvo aspecto, e ás àrvores meãs succedem ja
verdadeiros colossos vegetaes, assombrando com as elevadas copas um mato
denso de emaranhados arbustos, difficìlimo de transpôr.
Seguímos ás 4 horas, e duas horas depois, atravessàvamos a mais sobêrba
e bella floresta virgem que encontrei em Àfrica.
Logo ao anoutecer, tivémos de parar, porque era impossivel proseguir em
tão densa floresta sem arriscar os vagons a um accidente sèrio.
N'essa noute eu começava a achar-me completamente restabelecido, e a
febre tinha cedido a doses diàrias de quatro grammas de quinino.
Meia hora depois de partir, no dia immediato, atingìamos a orla da
floresta, e encontràvamos àgua n'um pequeno charco lodôso. Diante de nós
estava a planicie descoberta, àrida e sêca; essa planicie, que foi pêla
primeira vez atravessada dois graos a Oeste por Livingstone, ainda um a
oeste do meu ponto por Baines, e um grao e mais leste por Baldwin,
Chapman, Ed. Mohr e outros; essa planicie arenosa e inhòspita, o Saara
do sul, o Calaari emfim.
Ainda jornadeámos por espaço de duas horas, indo dar descanço aos bôis
ás 11 e meia, junto a uns rachìticos e pequenos espinheiros, que com a
sua vegetação mesquinha faziam sentir mais a nudêz do deserto.
Algumas trovoadas formávam-se pelo Norte, e ás duas horas aproximávam-se
de nós, deixando cahir de nêgros nimbos grossas gôtas de chuva tèpida.
Desde o Zambeze até ali o terreno é arenôso, sendo o sub-solo formado
por uma camada argilosa muito plàstica de côr castanho-escura. A
espessura da camada de arêa branca e fina que forma o solo varia entre
10 e 50 centìmetros.
Àgua apenas aparece aqui e àlém na estação das chuvas, nas depressões de
terreno. Algumas vêzes, como n'aquelle dia ao sahir da floresta, era
ella uma lama espêssa e fètida. Tôdo o paiz até ao ponto em que o
deixámos n'aquella manhã, é coberto por uma floresta, que vai
progressivamente augmentando em espessura e no pompôso da vegetação, ao
passo que se afasta do Norte.
O que mais se vê sam ainda leguminosas, e uma immensa variedade de
acacia cobre o solo. Flôres do mais variado e brilhante colorido, das
formas mais mimosas e delicadas, ao passo que encantam a vista,
embalsamam o ar com os seus suaves perfumes. Viajar ali é difficilimo.
Abrir caminho para o carro, de machado em punho; ás vêzes, durante 10 e
mais kilòmetros, haver um solo de cincoenta centimetros de area, onde as
rodas dos vagons se enterram profundamente; fazer uma milha em quarenta
minutos, tal é o viajar n'aquellas brenhas, quando se viaja bem.
A esse enorme terreno, comprehendido entre o Zambeze e o Calaari, chamei
eu nas minhas cartas o Deserto de Baines.
Foi uma homenagem ao trabalhador infatigavel, o primeiro que devassou
aquellas paragens inhòspitas, e cuja vida foi tão deserta de gôsos e de
glòrias, como aquêlle paiz é deserto de gentes.
Do ponto em que parámos de manhã, seguímos ás 4 horas da tarde, logo que
a tormenta passou, e jornadeámos até ás 8 da noute, parando n'um matagal
de espinheiros baixos, onde foi difficil acampar no meio das hervas e
entre os abrolhos.
Durante a noute, chacaes e hyenas déram-nos um concêrto infernal, vindo
vocalizar um côro orpheònico, em tôrno do sitio onde chegava a claridade
dos fogos do campo.
De manhã choveu, e nós seguímos ás 5 horas e meia, sahindo logo dos
espinheiros, que poderìamos ter evitado sem umas trevas profundas que na
vèspera nos tinham impossibilitado de escolher outro caminho.
Sustentámos uma caminhada de cinco horas, apenas com um pequeno
descanço, encontrando uns charcos produzidos pêla chuva da manhã, que de
nenhum proveito nos fôram a nós, por serem de àgua salgada, mas que,
ainda assim, servíram aos bôis sedentos, que os esgotáram em pouco
tempo.
Era preciso encontrar àgua, e seguímos ainda por quatro horas, parando
no fim d'ellas sem termos logrado o nosso intento. Pude fazer n'essa
noute uma bôa observação do reapparecimento do primeiro satèlite de
Jùpiter.
Logo ao alvorecer, caminhámos por hora e meia no deserto arenoso e
àrido, onde as rodas dos vagons se enterravam profundamente.
No fim d'este tempo de jornada, encontrámos o leito sêco de um rio cuja
margem direita seguímos por uma hora, passando-o no momento em que elle
encurvava a S.O., e por isso nos desviava do rumo a seguir. As escarpas
do sulco arenôso eram de três metros e muito inclinadas. Foi medonho o
precipitar dos vagons n'aquelle fôsso, e compungente o trabalho dos bôis
para desenterrarem aquellas enormes màchinas de transporte, e
fazèrem-n-as subir nas contra-escarpas.
Acampámos logo.
No leito arenôso do rio algumas lagôas deixavam ver pequenas massas
d'àgua lìmpida e cristallina, que alegrava os olhos cançados da aridez e
secura do deserto. Corrémos pressurosos a ellas, mas aos primeiros
tragos bebidos a alegria converteu-se em angustia cruciante. Aquella
àgua era tão salgada como a do mar.
Contudo, alguns poços cavados muito fundo, longe das lagôas, déram uma
àgua quasi potavel. Era preciso tiral-a a baldes para a dar aos pobres
bôis ja sedentos e cançados. Aquelle rio, ou antes aquelle leito sêco,
era o do Nata, que no seu curso inferior, quando corre, toma o nome de
Xua (_Shua_).
Foi decidido que ficàssemos ali dois dias, por ser o immediato ao da
nossa chegada um domingo, e a familia Coillard não gostar de fazer
viagem em tal dia. Preparou-se para isso um melhor acampamento, podendo
obter-se ramos de àrvores nas margens do rio, ja povoadas da vegetação
que o paiz carece ao Norte.
Pêlo meio-dia estava prompto um kiosque, e estabelecido o campo.
As damas Coillard andavam n'uma labutação activa. Faziam o pão e
preparavam tudo o que os poucos elementos de que dispunham lhes
permittiam, para a festa do Domingo.
Depois da minha ùltima febre, e dos mil cuidados e carinhos de que eu
tinha sido alvo, o contacto ìntimo com aquellas damas a que a doença me
tinha obrigado, modificou profundamente o meu espìrito, e senti em mim
uma alteração profunda.
Até ao momento de as encontrar, eu havia esquècido, no meio dos
selvagens com quem só vivia, o que fôssem carinhos e afagos.
O viver entre aquellas damas veio trazer-me á memoria que no mundo ha
anjos, rosas perfumadas que embalsamam o caminho espinhôso da vida,
frêscos oasis em que o caminheiro repousa das fadigas do deserto àrido.
A lembrança de uma espôsa estremecida, e de uma filha adorada, veio
estar sempre presente ao meu pensamento, avivada pêla vista constante
d'aquellas duas senhôras, instrumentos innocentes e inconscientes de um
soffrimento atroz que me causavam.
Quantas vêzes, fatigado e doente, eu me sentava ao pé d'ellas, e por um
momento era feliz, não pensando que eram para mim dois entes estranhos,
lançados no meu caminho por o mais extraordinario dos acasos!
Quantas vêzes inconsciente não ia curvando a cabêça aturdida, em busca
de um regaço de mulhér adorada, e cahia em mim, e levantava-me e fugia!
Ah! como eu as odiava então!!
Este soffrimento constante, sempre alimentado pêla vista d'ellas, e
exacerbado pêlos seus carinhos, traduzio-se n'um mao humor que me não
deixava um momento.
Perdi tôdas as formas sociaes de delicadêza, e transformei-me na imagem
da mais brutal grosseria.
Bastava Madame Coillard dizer uma palavra, para ser logo grosseiramente
contrariada. Um dia em que eu tinha subido para o vagom bastante
fatigado, ellas priváram-se de quantas almofadas tinham para se
encostarem e amortecer os choques violentos de um carro sem molas, para
me fazêrem um leito commodissimo.
Achei-me tão bem que adormeci em caminho, velando ellas pêlo meu sono, e
não cessando de arranjarem uma ou outra almofada desaconchegada pelos
solavancos do carro.
Madame Coillard estava contente com a sua obra. Tinha de certo tido uma
viagem tormentosa, mas eu tinha estado bem, tinha dormido.
Era tal a sua satisfação que não pôde deixar de me perguntar se eu havia
estado còmmodamente, certa de que eu só lhe poderia responder com um
agradecimento expressivo. Pois não foi assim. Disse-lhe, que o seu vagom
era um vagom infernal, que eu nem mesmo havia podido dormir um momento,
e que tinha passado o dia incommodadissimo.
Depois d'esta brutalidade insòlita, encarei com ella, e vi làgrimas a
querer marejar-lhe nos olhos. Fiquei tão furiôso que fugi para longe.
Casos idènticos repetiam-se a miüdo, e no correr da narrativa
apparecerám ainda.
Hôje custa-me a comprehender como no meu espìrito se pôde fazer uma tal
alteração, e como eu cheguei a commetter taes barbaridades.
Os dois dias passados na margem do Nata não fôram dos peiores para mim.
Tinha observações a fazer, trabalhos atrazados a completar, e um paiz
curiôso a estudar; e isso era agradavel diversão ao meu viver monòtono
do deserto.
Creio que n'êsses dois dias não fui tão grosseiro como de costume.
O Deserto do Calaari, nas partes em que tem àgua, é frequentado por uma
população nòmada. Sam os Massaruas, a que os Inglezes dam o nome
genèrico de _Bushmen_. Os Massaruas sam selvagens, mas muito menos do
que os Mucassequeres, que encontrei junto aos confluentes do Cuando, por
15 de latitude Sul e 19 de longitude E. Greenw. Os Massaruas sam muito
prêtos, t[~e]m os ossos molares muito salientes, olhos pequenos e vivos,
e cabêllo pouco.
Viéram alguns ver-nos, e eu dei-lhes tabaco e pòlvora. O seu
contentamento foi grande. Voltáram de tarde, a offerecer-me um cabaz de
peixe frêsco, que tinham ido pescar nas lagôas para mim.
No dia seguinte, em uma excursão que fiz, visitei o seu acampamento.
Vi que tinham panellas em que cozinhavam, e outros, ainda que poucos,
indicios de uma civilização rudimentar.
Vi uma vasta provisão de tartarugas terrestres, que elles muito apreciam
como manjar. As mulheres cubriam a sua nudez com algumas pelles, e
enfeitavam-se de missangas, bem como os pequenos.
T[~e]m por armas azagaias e pequenos escudos ogivaes. Usam ao pescôço um
sem-nùmero de amulêtos, e trazem nos braços e pernas manilhas de couro.
Rapam o cabêllo junto das orêlhas, deixando no alto um cìrculo que vem
tangente á testa. Falam uma lìngua bàrbara muito notavel pêlo modo
porque nos fere o ouvido, dividindo as palavras com um estalo dado com a
lìngua, a que chamam _cliques_.
A 16 de Dezembro partímos, seguindo a margem esquêrda do rio, e parámos
junto d'ella, depois de cinco horas de jornada.
Os Massaruas, que chamavam Nata ao rio no ponto em que passámos o
Domingo, ja lhe chamam Xua (_Shua_) ali onde acampámos, a cinco horas de
caminho.
Andámos sempre na margem d'êlle com os rumos de S.O., S.E., S.S.E.,
S.S.O. e S., o que deu um rumo medio de sul, e não resta a menor dùvida,
que o Nata e o Xua sam um e o mesmo rio, que, como quasi todos os rios
de Àfrica, tem diversos nomes em diversos trôços do seu curso.
Esta parte do deserto é coberta de uma herva curta e rachìtica, e só
aqui e àlém se vê uma ou outra àrvore solitaria.
Com tudo, nas bordas do rio ha alguma vegetação, e de espaço a espaço
não deixa de ser amena esta ou aquella païsagem que se nos apresenta á
vista.
A àgua dos poços cavados no leito do rio nem sempre é potavel, e a das
lagôas é completamente saturada de saes.
O terreno do deserto apresenta pequenas clareiras onde nada vegeta, e
onde o solo é coberto por uma espêssa camada de saes, depòsitos de àguas
evaporadas.
As informações dos Massaruas a respeito de falta de àgua eram
assustadoras, e nós resolvemos não avançar mais n'aquêlle dia, para
aproveitarmos o mais tempo possivel alguma bôa que ali se encontrou em
poços cavados profundamente.
Desde que percorrìamos aquelle bôrdo do Calaari, notava eu que um
fortissimo vento de leste soprava rijo nas primeiras horas da manhã;
sendo que do meio dia para a tarde uma brisa suave de oeste durava
algumas horas.
Eu atribuo aquêlle phenòmeno constante, á influencia na atmosphera do
enorme deserto arenôso que nos ficava a oeste.