rio pediam taes exorbitancias por pequenos pratos de massango, que me
não era dado adquiril-os.
Ao meio-dia cheguei á extremidade oeste da grande cataracta. O Zambeze
duas milhas a montante da queda corre a E.N.E., e vai encurvando a E.,
direcção que leva no momento de encontrar o abismo em que se precipita.
¿_Mozi-oa-tunia_, ou _Mezi-oa-tuna_? Não sei, e ninguem o sabe. No paiz
uns dizem um nome, outros o outro.
Antes que os Macololos tivessem invadido o paiz ao norte do Zambeze, os
Macalacas chamavam _Chongue_ á grande cataracta.
Viéram os Macololos e pozéram-lhe um nome da lìngua Sesuto que elles
falavam.
Os Macololos desapparecêram e o nome ficou, como ficou aos povos
conquistados a lìngua dos invasores.
Um pouco corrompido, é verdade, mas sempre subsistindo, o Sesuto é a
lìngua official do Alto Zambeze.
_Mezi-oa-tuna_ quer dizer em Sesuto "a àgua enorme," e ainda que a
phrase parêça um pouco disparatada, esta composição é vulgar entre as
linguas bàrbaras da Àfrica Austral, para exprimir uma idéa, que a
pobrêza das lìnguas só poderia exprimir por uma longa phrase. Assim
pois, pode bem ser que seja _Mezi-oa-tuna_, o nome posto pelos Macololos
á grande cataracta.
[Figura 123.--Mozioatunia. A queda de oeste.]
Eu contudo inclino-me á opinião de Madame Coillard, que conhece a fundo
a lìngua Sesuto, de que seja _Mozi-oa-tunia_, o nome dado outróra pelos
guerreiros de Chebitano á maravilha do Zambeze.
Effectivamente, _Mezi-oa-tuna_ era uma phrase nova, uma composição de
palavras feita expressamente, ao passo que _Mozi-oa-tunia_ é uma phrase
ja feita, quotidiana, vulgar na lìngua dos Basutos. Quando o marido
volta a casa e pergunta á mulhér se a comida está ao fôgo, ella
responde-lhe "mozi-oa-tunia," "o fumo se levanta." Assim pois é mais de
supor que fôsse este ùltimo o nome dado pelos estrangeiros á cataracta,
por ser phrase vulgar entre elles, e ser bem apropriada á idéa.
Mozi-oa-tunia não é mais do que uma longa cova, um sulco gigantêsco,
aquillo para que se inventou a palavra abismo, mas abismo profundo e
immenso, onde Zambeze se precipita n'uma extensão de mil e oitocentos
metros.
O corte das rochas basàlticas que formam o paredão norte do abismo, é
perfeitamente traçado na direcção E.O., e tem uma extensão de mil e
oitocentos metros.
Parallelo a elle, outro enorme paredão basàltico distanciado na parte
superior, ao mesmo nivel, de cem metros, forma o outro muro do abismo.
Os pes d'estas moles enormes de basalto nêgro, formam um canal por onde
o rio corre depois de se despenhar, canal que é de certo muito mais
estreito do que a abertura superior, mas cuja largura é impossivel
medir.
No paredão do sul, proximamente a três quintas-partes d'elle, a Àfrica
foi rasgada por outra fenda gigantêsca perpendicular á primeira; fenda
que primeiro se encurva a oeste, e vergando depois pêlo sul a leste, vai
conduzindo em caprichôso ziguezague o rio, que ella la no fundo aperta
em estreito abraço de rochêdos.
Na cataracta o grande paredão do norte onde o rio se despenha é em
partes perfeitamente vertical, apresentando apenas as saliencias e
escabrosidades das rochas.
Uma enorme convulsão vulcànica fendeu ali a terra, e produzio aquelle
abismo enorme, em que se veio precipitar um dos maiores rios do mundo.
De certo o trabalho potente da àgua ja modificou muito a superficie das
rochas, mas não é difficil ao ôlho observador, o perceber bem, que
aquellas escarpas profundas, distanciadas hôje, fôram despegadas umas
das outras.
O Zambeze, encontrando no seu caminho aquella voragem, abìsma-se n'ella
em três cataractas grandiosas, porque duas ilhas, que occupam dois
grandes espaços no paredão do norte, o dividem em três ramos.
A primeira cataracta é formada por um braço que passa ao sul da primeira
ilha, ilha que occupa no rectàngulo que desenha a forma superior da
fenda, o extremo oeste.
Este braço precipita-se por isso no pequeno lado oeste do rectàngulo.
Tem sessenta metros de largo e oitenta de queda vertical, cahindo em uma
bacia d'onde a àgua vai procurar o fundo do abismo e unir-se ás outras
em ràpidos e cascatas quasi invisiveis pêla espêssa nuvem de vapôr que
envolve tudo lá em baixo.
A ilha que separa aquelle braço do rio é coberta de vegetação frondosa,
vegetação que se estende até ao ponto onde a àgua se despenha,
produzindo uma paizagem sorprendente.
É esta a menor das quedas, mas é a mais bella, ou antes a ùnica que é
bella, porque tudo mais em Mozi-oa-tunia é horrivel. Aquella voragem
enorme, nêgra como é nêgro o basalto que a forma, escura como é escura a
nuvem que a envolve, teria sido escolhida se fôsse conhecida nos tempos
bìblicos, para imagem do inferno, inferno d'àgua e trevas, mais terrivel
talvez que o inferno de fôgo e luz.
Para augmentar o sentimento de horror que se experimenta diante
d'aquelle prodigio, até é preciso arriscar a vida para a poder ver.
¡Vel-a! impossivel; Mozi-oa-tunia nem se deixa ver.
Ás vezes, lá no fundo, por entre a bruma eterna, percebem-se formas
confusas, semelhando ruinas medonhas.
Sam pontas de rochêdos de enorme altura, onde a àgua, que os açouta,
partindo-se em glòbulos se torna nuvem, nuvem eterna, que constantemente
alimentada tem de pairar sobre o rochêdo em que se formou, em quanto a
àgua cahir e o rochêdo se erguer ali.
Em frente da ilha do jardim, no meio de um arco-iris, concèntrico a
outro mais desvanecido, vi eu por vêzes, ao ondular da bruma,
desenharem-se confusamente, uma serie de picos, semelhantes aos
miranetes de uma cathedral phantàstica, que a um lado lançava aos ares
uma frecha de enorme altura.
Continuando a examinar a cataracta, vemos o comêço do paredão N. logo em
seguida á queda de oeste, ser occupado em uma extenção de duzentos
metros por uma ilha, aquella de que ja falei, que separa o braço do rio
que vai formar a primeira queda. Ali é o ùnico ponto em que se vê tôdo o
paredão, porque n'aquella extensão de duzentos metros o vapor não chêga
completamente a encobrir o fundo.
Foi n'esse ponto onde eu fiz as primeiras medições, e por meio de dois
triàngulos, achei para largura superior do corte 100 metros, e 120 para
altura vertical do paredão.
Esta altura vertical é superior mais a leste, porque o fundo do sulco
desce até ao corte que encana o rio ao sul. N'esse ponto tambem obtive
elementos para medir a altura.
Nas primeiras medições eu tinha por base o lado 100 metros, achado para
largura superior do sulco, mas era preciso ver o pé do paredão, e tive
de arriscar a vida para isso.
Tirei os pannos ao meu Augusto e ao meu muleque Catraio e amarrei-os.
Estes pannos de zuarte pintado e ja muito usados, não me offereciam uma
grande segurança, mas não tinha outro meio de me suspender no abismo.
Passei o fragil amparo em volta do peito, para me ficarem as mãos
livres, e tomando o sextante debrucei-me na voragem. Seguravam as
extremidades o meu Augusto e um Macalaca da povoação das quedas. Elles
tremiam com mêdo e faziam-me tremer, levando eu por isso muito tempo a
medir o àngulo. Quando lhes disse que me puxassem, e me pude equilibrar
sôbre as rochas, foi como se tivesse acordado de um pesadêlo horrivel.
Li no nonio 50° 10', e logo que registei a medida, comecei a
horrorizar-me do que tinha feito. Um excesso de vaidade mal-cabida, o
querer apresentar com a maior aproximação a altura da cataracta, acabava
de me fazer commetter a maior imprudencia que commetti em tôda a viagem.
Medir e triangular ali é difficilimo, e começa por faltar terreno onde
se possa medir uma base com algum rigor.
Eu apenas pude medir 75 metros, e isso com trabalho enorme.
Só posso suppor que os triàngulos feitos pêlo D^{or.} Livingstone da
ilha do Jardim, fôram resolvidos só com os àngulos; porque lados não
podia d'aquelle ponto medir nenhum. Pena é que não ficasse a fòrmula. A
medição da altura com um cordél e uma pedra atada na ponta, acho-a
tambem extraordinaria; porque as escabrosidades da rocha deveriam soster
o prumo, e àlém d'isso, da ilha do Jardim apenas se vê, na voragem
profunda, uma espêssa nuvem que tudo encobre, sendo impossivel divisar
nada lá em baixo, ainda que o Doutor atasse á pedra tôda uma peça de
algodão branco, em logar de um farrapo de 60 centìmetros, como elle diz
que fez. Fôsse como fôsse, elle foi mais feliz e mais esperto do que eu,
que pouco fiz, dispondo para isso de melhores instrumentos e mais
recursos.
[Figura 124.--Mozioatunia. Maneira pouco còmmoda de medir àngulos.]
Em seguida á primeira ilha onde fiz as medições, vem a parte principal
da cataracta, e é ella comprehendida entre essa ilha e a do Jardim. Ali
é que a maior porção d'àgua se despenha n'uma compacta massa de
quatrocentos metros de extensão, e ali é que o abismo atinge tôda a sua
profundidade. Vem, em seguida, a ilha do Jardim, de quarenta metros de
face sôbre a fenda; e depois a terceira queda, formada por dezenas de
quedas, que occupam tôdo o espaço entre a ilha do Jardim e a extremidade
leste do paredão. Esta terceira queda deve ser a mais importante no
tempo das cheias, logo que as pedras que na estiagem lhe dividem as
àguas fôrem cobertas, e não existir mais do que uma ùnica e enorme
cataracta.
A àgua que cae das duas primeiras quedas e parte da terceira junto da
ilha do Jardim, correm a leste, o resto da terceira a oeste, e
encontrando-se, unem-se em choque immenso, e voltam ao sul n'um referver
medonho, correndo ràpidas no fundo do abismo, em canal pedregôso, que as
entala nos seus caprichosos ziguezagues.
No ponto onde as àguas, ja em um canal ùnico, se dirigem ao sul, fiz uma
experiencia que narrarei em capìtulo separado d'este, e que me permittio
obter uma altura muito aproximada da maior profundidade do abismo. Não
me foi possivel fazer mais, e duvido mesmo que mais se possa fazer, a
menos de se ir expressamente preparado para estudar a cataracta; e creio
que para isso será possivel inventar algums meios apropriados para
trabalhar ali, debaixo de uma chuva eterna, e no meio de um vapôr denso
que nada deixa ver.
[Figura 125.--O Rio depois da Cataracta.]
Ilhas, bordas da cataracta, rochêdos mêsmos, tudo é coberto de uma
vegetação esplèndida, mas de um verde-nêgro triste e monòtono, embora um
ou outro grupo de palmeiras tente quebrar a melancolia do quadro,
fazendo sobressahir as suas palmas elegantes ás copas dos arvorêdos que
as cercam.
Uma chuva eterna molha sem cessar as proximidades do abismo, onde rola
como que uma trovoada sem fim.
Mozia-oa-tunia não se pode desenhar, e excepto a sua extremidade oeste,
tudo ali é nuvem de vapôr, que encobre uma paizagem medonha.
Não é dado visitar esta sobêrba maravilha sem que um sentimento de
terror e de tristeza se aposse de nós.
¡Que differença entre a cataracta de Gonha e Mozi-oa-tunia!
Em Gonha tudo é risonho e bello; ali tudo é soturno e triste!
Ambas sam attrahentes, ambas sam verdadeiramente grandiosas; mas Gonha é
attrahente e bella como a virgem formosa coroada das flores da
innocencia, arrastando o alvo vestido nas ruas do jardim, embalsamadas
pelas auras perfumadas da manhã de estio: Mozi-oa-tunia é grandiosa e
imponente como o salteador requeimado pêlo sol de verão e pêlo gêlo do
inverno, o trabuco na mão, o crime na idéa, entre os fraguêdos da serra,
por noite escura e triste.
Gonha é bella como a manhã bonançosa da primavera; Mozi-oa-tunia é
imponente como a noute tempestuosa do inverno.
Gonha é bella como o primeiro sorrir da criança nos braços da mãe;
Mozi-oa-tunia é imponente como o ùltimo arquejar do ancião nos braços da
morte.
Gonha é o bello na sua mais sublime expressão da formosura;
Mozia-oa-tunia é o bello na sua mais expressiva revelação da grandeza e
magestade.
Depois da contemplação da mais prodigiosa maravilha natural do
continente Africano, voltei ao meu campo fortemente impressionado pêlo
que acabava de ver. O tempo melhorara, mas conservava-se encoberto.
N'essa noute fui assaltado por nuvem de mosquitos, que não me deixáram
um momento de repouso.
Logo de manhã, parti para a cataracta, que visitei de nôvo, concluindo
os trabalhos começados na vèspera, e que me entretivéram o dia tôdo. De
volta ao campo, apparecêram ali uns Macalacas com massango, pedindo-me
quatro jardas de fazenda por um prato d'elle, que não continha meio
litro de grão.[6]
Ainda que muito necessitado de adquirir vìveres, não quiz abrir um tal
exemplo, e recusei comprar.
Então o Macalaca disse-me, que a fazenda e a missanga não se comia, que
eu teria fome, e então lhe daria tudo o que elle quizesse por um prato
de comida.
Fui-lhe dando logo dois pontapés. Chegou o dia 22 de Novembro, dia que
eu tinha fixado para o regresso, mas a minha posição era crìtica.
Tìnhamos apenas comida para dois dias, e não lograriamos alcançar Deica
antes de seis.
Era impossivel partir sem ter feito provisões de mantimentos.
Não esperando ja obter nada dos Macalacas, fui caçar apesar do mao
tempo.
Pouco distante do acampamento, pude atirar a uma malanca, e voltava ás
barracas para a mandar esquartejar e trazer ali; quando chegou o chefe
das povoações das quedas, que pêla primeira vez eu via, e me vinha
visitar.
Com elle vinham muitos prêtos, que fôram ajudar a conduzir a malanca que
eu havia môrto. Uma tão importante peça de caça fez logo diminuir no
mercado o prêço dos vìveres. O chefe foi á sua povoação d'onde trouxe
quantidade de mantimentos e duas gallinhas, pedindo-me por tudo a pelle
da malanca e o meu cobertor. Necessitado de partir, e não querendo fazer
questões, aceitei o contracto, e elle retirou-se satisfeito.
Lá foi o meu cobertor! socio de tantas noutes mal dormidas n'aquelles
sertões Africanos.
Pude enfim deixar Mozi-oa-tunia, e fui pernoitar nas mêsmas barracas que
tinha construido na tarde do dia 18.
No dia immediato deixei o caminho que seguira até ali quando demandava a
cataracta, e endireitei ao sul. Não me tinha sido difficil encontrar a
grande cataracta do Zambeze que de longe se annuncia; mas encontrar um
ponto que não existe nas cartas e cuja posição eu tinha calculado por
informações vagas, não me era facil.
N'um paiz como aquelle, despovoado e virgem, eu poderia bem passar perto
do kraal de Patamatenga sem o ver, nem dar d'elle conta. Contudo, pelos
meus càlculos, Patamatenga devia-me ficar ao Sul verdadeiro, e eu
endireitei para la, dispôsto a não alterar aquelle rumo por nenhum
motivo que fôsse.
Depois de marcha de quatro horas, fui acampar junto de um còrrego em
sitio medonho. Nem uma àrvore, nem uma herva. Só penedias nêgras
formavam a paizagem, escurecida ainda por um ceo carregado de pesados
nimbus.
Um silencio profundo reinava n'aquelle pequeno valle da tristeza.
No caminho d'êsse dia encontrei alguns leões, que evitei com cautela.
Vem a propòsito falar aqui de certa mania louca que ataca quasi sempre o
explorador noviço. É tal o seu enthusiasmo por afrontar os perigos, que
chêga a creal-os onde elles não existem.
A Àfrica offerece cada dia, a cada passo, taes estôrvos ao viajante,
taes perigos ao caminheiro, que sam elles de sobra para fazer abortar a
maior parte das expedições que tentam devassar os seus segrêdos.
A prudencia deve ser o guia de tôdas as acções do exploradôr; o que não
quer dizer, que ella mesma não aconsêlhe, em outra dada circunstancia,
um excesso de temeridade, quando essa temeridade fôr precisa á salvação
commum.
Uma das maiores loucuras em Àfrica é caçar feras. A pòlvora vale no
sertão tanto como o ouro, e o tiro dado em uma fera é um tiro
desperdiçado, é o resultado de uma expedição arriscado, é ás vêzes a
salvação de tôda uma caravana, que será perdida sem chefe, posta na
balança do acaso, unicamente por satisfação de uma vaidade pessoal.
Em quasi tôda a minha viagem, obrigado a caçar para viver, tive muitas
vêzes de affrontar as feras; o que não me teria acontecido se, dispondo
de recursos sufficientes, me podesse ter dispensado da caça. Uma fera
morta em defensa propria e em encontro fortuïto, é um obstàculo
destruido; um leão procurado e môrto por o exploradôr geògrapho é um
obstàculo creado, é uma imprudencia commettida, é e deve ser um remôrso
na sua existencia.
Eu commetti algumas faltas d'essas, e sempre depois tive o
arrependimento sincero.
Hôje se voltasse á Àfrica em viagem de exploração ou encarregado de
outra qualquer missão importante, não arriscaria o fim principal, para
me dar um prazer que é fumo, porque apenas vem um momento lisongear o
amor-proprio.
Ja pensava assim, quando de volta da cataracta evitava os leões, que
fugiam de mim como eu fugia d'elles.
Não havia lenha perto do sitio onde decidi ficar, e o meu Augusto foi
procural-a longe. Trouxe alguns troncos de àrvores sêcos, que, ao
partir, deixavam apparecer nas rachas escorpiões enormes. No caminho
mesmo, e ainda ali, haviam innùmeros dos repugnantes articulados.
N'esse dia, uma violenta tempestade vinda do S.S.E. passou sôbre nós, e
durante duas horas despejou copiosa chuva.
Durante a noute, soprou rijo o vento S.E., que muito nos incommodou,
tendo por abrigos, como tìnhamos, apenas um ceo nebuloso. A 24 de
Novembro, segui sempre ao Sul por caminho difficil.
As montanhas corriam a S.E. e por isso nós subìamos e decìamos
continuamente, em terreno pedregoso, e àrido. Depois de cinco horas de
fatigante caminhar, encontrei um pequeno charco, junto ao qual acampei.
Subindo a um outeiro que me ficava pròximo, avistei ao sul uma planicie
enorme, onde não pude divisar os menores signaes de àgua, por mais que a
perscrutei com o meu òculo potente.
Receei muito que me faltasse a àgua d'ali em diante. É verdade que
n'aquelle paiz abunda o _Mucuri_, e onde elle existe não se morre á
sêde. O _Mucuri_ é um grande auxilio do viajante nas florestas
ressequidas da Àfrica Austral. É elle um arbusto de 60 a 80 centìmetros
de altura, que produz na extremidade das suas radìculas, uns tubèrculos
esponjosos, ensopados de um lìquido insìpido que sacia a sêde.
Não é facil porem encontrar os tubèrculos logo que se encontra a planta.
Crescem êlles nas pontas de pequenas radìculas que, irradiando das
raizes principaes, vam muito longe do caule alimentar e desenvolver
aquellas excrescencias extraordinarias. O melhor meio de os encontrar é
o empregado pêlo gentio Africano, de se collocarem junto á planta e ir
descrevendo cìrculos concèntricos a passos lentos, batendo o terreno com
um pao. Onde a terra dá um som ôco e surdo ahi estam os tubèrculos, que
t[~e]m de 10 a 20 centìmetros de diàmetro e affectam a forma
pròximamente esphèrica. Fiz bôa provisão d'elles no dia immediato antes
de deixar o sitio em que passei uma pèssima noute.
Sustentei marcha de sete horas, ja em planicie coberta de àrvorêdo e
altas gramìneas. De àgua nem signaes.
Pêla tarde parámos extenuados de fadiga, e resolvia acampar, quando
sôbre a minha cabêça, na àrvore a que estava encostado, ouvi o arrullar
das rôlas Africanas.
A àgua devia estar perto, porque aquella era a hora das avezinhas
bebêrem, e sem bebedouros pròximos as rôlas não estariam ali. A rôla em
Àfrica é indicio de haver àgua perto do sitio onde se mostra de manhã e
á tarde, porque aquella ave não passa sem beber duas vêzes ao dia.
Mandei logo Verissimo e Augusto explorar os arredores, e uma hora depois
voltava Verissimo tendo encontrado uma pequena nascente um kilòmetro ao
N.O.
Fui acampar ali ja por noute escura.
Pêlos mêus càlculos no dia immediato deverìamos chegar a Patamatenga.
Amanheceu o dia 26 de Novembro, e puz-me em marcha. Logo á sahida do
ponto em que acampei, encontrei uma espêssa mata que me levou 20 minutos
a transpôr.
Ao sahir d'ella, um ribeiro bastante volumoso corria em leito de pedra,
e àlém d'elle um kraal magnìficamente construido, mostrou-me, por sôbre
a sua forte palissada o tecto ponteagudo de muitas casas.
Eu tinha dôrmido junto a Patamatenga sem o saber, e tinha passado uma
pèssima noute ao relento, quando poderia ter dormido em òptima cama e no
conchêgo de uma bem construida casa.
Um Inglez, cujo nome ignorava, veio buscar-me ao rio e levou-me ao
kraal, principiando logo, antes de mais conversa, a dar-me de comer. Ás
onze horas ja eu tinha comido não sei quantas vêzes, e êlle veio
annunciar-me que se estava fazendo um petisco. Tinha ali um òptimo
cosinheiro Europêu. Não consentio que eu seguisse para Deica, sendo o
seu argumento, que deveria passar o dia com elle, porque o devia passar.
Escrevi um bilhete a M^{r.} Coillard, a participar-lhe que estava de bôa
saúde, e que chegaria a Deica no dia immediato.
O Inglez, logo que vio a minha resolução em ficar, mandou matar o seu
melhor carneiro, e convidou-me a ir ver o seu quintal. Fomos, e elle
começou a fazer barbaridades. Destruio um batatal nôvo, só para tirar
umas seis batatas.
Apanhou quantos tomates, cebolas, e pimentos ali haviam.
Não pude impedir aquelle furor de destruição para me dar a comer de tudo
quanto tinha, e até creio que tudo quanto tinha se eu me demorasse em
sua casa. O quintal era magnìfico e muito bem tratado, mas n'aquella
èpocha do anno pouco podia offerecer. Ainda assim o meu Inglez voltou
triumphante com seis batatas, dezaseis tomates, alguns pimentos e muitas
cebollinhas que foi entregar ao cozinheiro para o jantar. ¡Jantar!... Eu
não sei que nome deverei dar áquella comida! Pelo nùmero devia ser muito
mais do que ceia, pêla hora menos do que _lunch_!
Pude soster o furor do meu hospedeiro em dar-me de comer, e consegui ir
com elle dar um passeio nos arredores do kraal.
Encontrámos no caminho cinco montìculos de pedras que marcam as
sepulturas de cinco Europêos, adormecidos ali para sempre, e deitados ao
lado uns dos outros á sombra do arvorêdo, n'essa mesma terra que lhes
infiltrou no organismo, pêlo ar que deu a respirar, o veneno que lhes
deveria cortar as existencias, com prematuro passamento.
¡Quantos tùmulos como aquelles não t[~e]m um logar incerto, no meio
d'êsse continente enorme, e não escondem o segrêdo da sepultura de
homens, que deixáram longe affeições e ternuras, que nem podem ter o
amargo prazer de derramar uma làgrima sôbre a terra que occulta um ente
estremecido!
Os cinco tùmulos de Patamatenga encerram os despojos de cinco homens
cujos nômes vou citar, e se algum amigo ainda se lembrar d'elles, terá
ao menos o conhecimento do canto da terra onde repousam para sempre.
O primeiro tùmulo encerra Jolly, môrto em 1875; o segundo Frank Cowley,
o terceiro Robert Bairn, ambos mortos em 1875; o quarto Baldwin, e o
quinto Walter Carre Lowe, mortos em 1876. Em Abril do anno de 1878,
morreu tambem ali perto o Sueco Oswald Bagger, que está enterrado em
Lexuma.
[Figura 126.--Os Tumulos em Patamatenga.]
Depois de visitar aquelle cemiterio improvisado no meio do sertão
longìnquo, voltei ao kraal de Patamatenga, onde fui obrigado a comer
vàrias ceias.
Na conversação com Gabriel Mayer, o meu hospedeiro, eu fugia de narrar
qualquer episòdio passado da minha viagem em que figurasse a falta de
vìveres, porque ao ouvir taes narrativas, o bom Inglez entrava em furor
e mandava logo pôr a mêsa, mêsa que ja me mettia tanto mêdo como por
vêzes me tinha mettido a fome.
No dia seguinte, depois de ter almoçado duas vêzes, antes das 7 horas da
manhã, parti a essa hora, tendo de levar vàrios petiscos para o caminho,
porque Gabriel Mayer não consentio que eu partisse sem essa condição.
Depois de cinco horas de marcha a leste, alcancei o acampamento de
Deica, onde a familia Coillard me esperava, e onde fui recebido com as
maiores demonstrações de simpathia.
D'aquelle lado não tinha chovido como em Mozi-oa-tunia, e ficámos em
grande embaraço para partir, porque encontrariamos o deserto sêco, e
impossivel nos seria atravessal-o antes de cahirem as chuvas necessarias
para encher os charcos onde deverìamos encontrar a àgua precisa.
Nos dias 28 e 29 de Novembro, percebemos que haviam trovoadas muito ao
longe ao Sul e S.S.E., e isso animou-nos a partir, esperando que ellas
tivessem despejado alguma chuva no deserto.