rei Lobossi a seu respeito, mas que em 10 ou 12 dias estaria de volta; e
por isso me pedia, que fôsse esperar o seu regresso para Lexuma, onde me
esperava sua espôsa Madame Christine Coillard; e só então poderìamos
discutir maduramente o que convinha fazer de futuro.
Resolvi seguir para Lexuma no dia immediato; porque queria determinar a
posição d'aquelle ponto, e fazer um certo nùmero de observações.
Durante a noute tive um violento accesso de febre, e de manhã sentia-me
muito mal.
O D^{or.} Bradshaw não me quiz deixar partir sem tomar algum alimento, e
por isso só as 10 horas pude deixar a margem do Cuando. O doutor e seu
companheiro deviam abandonar aquelle ponto no mesmo dia, e irem para
Lexuma, porque as scenas dos dias antecedentes aconselhavam-n-os de
evitar o contacto com aquelle gentio malèvolo.
Eu parti por um calor de 40 graos centìgrados, n'um terreno arenoso,
onde o caminhar era difficil. A febre tirava-me as fôrças, e mais me
arrastava do que caminhava. O terreno era coberto de arvorêdo, e
elevava-se logo a partir da margem do rio. Depois de cinco horas de
marcha lenta e penosa, encontrei um pequeno còrrego, onde pude saciar
uma sêde ardente. Só duas horas depois cheguei a Lexuma. Eram 6 da
tarde.
N'um estreito valle de oitenta metros de largo, enquadrado em montes
pouco elevados e de vertentes suaves, cresce uma herva grosseira e
rachìtica. Uma bella vegetação arbòrea guarnece as montanhas que
enquadram o pequeno valle, que se estende na direcção N.S. Na encosta de
E. algumas barracas agglomeradas formam o estabelecimento de um
sertanejo Inglez, M^{r.} Phillips.
Em frente a Oeste, duas aldeias abandonadas sam a feitoria de George
Westbeech.
Ao N. das aldeas de M^{r.} Westbeech, uma forte palissada cerca um
terreno circular de 30 metros de diàmetro, onde havia uma casinha de
côlmo, dois _wagons_, ou carrêtas de viagem, e uma barraca de campanha.
Era o acampamento da familia Coillard, era Lexuma emfim.
Entrei ali no recinto velado pêla alta estacaria de madeira, com o côrpo
extenuado pêlo cansaço e o espìrito abalado pêla commoção violenta que
sentia.
Diante de mim, á porta da casinha de côlmo, estavam sentadas duas damas,
bordando a côres em grossa talagarça.
Ao ver aquellas damas ali, no centro d'Àfrica, a minha commoção foi
indescriptivel.
[Figura 121.--Acampamento da familia Coillard em Lexuma.]
A recepção que me fez Madame Coillard foi aquella que faria a um filho,
se esse filho fôra eu. Com uma delicadeza extrema, pôz-me logo
perfeitamente á vontade, e disse-me, que ainda não tinham jantado,
porque esperavam por mim para pôr-se á mêsa. Convidou-me a entrar na
barraca de campanha, onde uma mêsa coberta de fina e alva toalha
sustentava um serviço modesto, contendo um jantar succulento. Defronte
de mim sentava-se Madame Coillard; ao meu lado Mademoiselle Elise
Coillard, sobrinha d'ella, de olhos baixos e physionomia rubra de pudôr,
por ver um estrangeiro desconhecido entrar tão de golpe na sua vida
ìntima e velada, espalhava em tôrno de si esse perfume de candura que
cerca e envolve a mulhér formosa aos desoito annos.
[Figura 122.--Interior do campo de Monsieur Coillard em Lexuma.]
Madame Coillard multiplicava-se em cuidados extremosos, e pêlo fim do
jantar eu comecei a provar uma sensação estranha. Aquellas damas, o
jantar, o serviço, o chá, o assucar, o pão, tudo enfim se me baralhava
na mente com traços mal definidos. Cheguei a não poder formular uma só
idéa, e a recear, que a cabêça enfraquecida não podesse supportar as
impressões d'aquelle momento.
Não tenho a consciencia de ter terminado aquelle jantar, sei apenas que
me achei só na barraca. Então um abalo violento sacudio tôdo o meu
côrpo; um soluço tolheu-me o ar na garganta, e as làgrimas saltáram
ardentes dos meus olhos desvairados, banhando-me as faces que queimavam
de febre. Chorei e chorei muito, não me envergonho de o dizer, e creio
que aquellas làgrimas fôram a minha salvação.
Se eu não tivesse chorado, teria talvez enlouquecido.
Que se riam aquelles que acharem ridìculas as làgrimas n'um homem; pouco
me importa o seu motejar estòlido. Infeliz de quem não encontra nos
sentimentos do coração o pranto que vem marejar nos olhos, e o soluço
que estrangula a fala, mais verdadeiras provas da gratidão sentida, do
que as frases mais eloquentes em protestos fervorosos.
Eu, por mim, não me envergonho de ter chorado, e feliz serei se podér
ainda chorar em iguaes trances.
Quanto tempo estive n'aquelle estado de excitação não o sei eu; mas,
muito tempo depois, entravam as damas na barraca e preparavam-me uma
cama com cuidados extremos.
A apparição das duas carinhosas senhoras veio trazer nova perturbação ao
meu espìrito. Eu não sabia que dizer-lhes, e creio que só lhes dizia
disparates.
Foi mesmo sem consciencia do que fazia que eu lhes narrei um boato
ouvido de manhã em Embarira, que apregoava ter havido um grande incendio
no Quisseque, nas casas do chefe Carimuque, e terem sido ali prêsa das
chamas as bagagens do missionario.
Deitei-me e creio que dormi.
Ao alvorecer da manhã seguinte, as scenas da vèspera desenhavam-se
confusamente na minha imaginação enfraquecida.
Parecia-me sonho tudo o que se passava n'aquelle sertão longìnquo.
Levantei-me, e ao ver que era realidade o que me cercava, o meu espìrito
volveu de nôvo a um deploravel estado de perturbação.
Machinalmente, sem a menor consciencia dos meus actos, por um poder
filho do hàbito, dei corda e comparei os chronòmetros, fiz as
observações meteorològicas, e registei tudo no meu diario.
Pouco depois, Mademoiselle Elisa, com a sua touca e avental branco,
entrava risonha na barraca, e vinha cuidar dos aprestes da mêsa para o
almôço.
Madame Coillard continuou envolvendo-me dos maiores desvelos.
Não posso ainda hôje explicar porque produziam em mim, espìrito forte,
uma tal impressão aquellas damas; mas é certo que a sua apparição
produzia-me logo uma especie de delirio.
Passáram dois dias que eu não sei como fôram passados; no fim d'elles
succumbí. A febre apossou-se de mim com violencia assustadôra, e com
ella veio o delirio. O meu estado era grave, mas dois anjos velavam á
minha cabeceira.
A 30 de Outubro, o delirio deixou-me um momento de lucidez. Conheci que
a vida estava apenas prêsa por um fio a um côrpo despedaçado pêlas
fadigas e fomes da jornada, e pensei que não me levantaria mais.
N'esse dia entreguei a Madame Coillard os meus papéis, pedindo-lhe que
os fizesse chegar com segurança ás mãos do Governo de Portugal.
O D^{or.} Bradshaw fizera-me repetidas visitas durante os dias
antecedentes, e empregara tôda a sua sciencia mèdica para me salvar.
Contudo a febre não cedia, e o estòmago não supportava medicamento
algum. Decidi eu mesmo tentar um ùltimo esfôrço, e comecei a dar
repetidas injecções hypodèrmicas com fortes doses de quinino.
A 31 fiquei espantado de ainda estar vivo, e redobrei a dose do quinino
pêla absorpção hypodèrmica. O D^{or.} Bradshaw aconselhou-me e fêz-me
tomar uma forte dose de laudanum. A 1 de Novembro, começáram a
manifestar-se as primeiras melhoras.
Nunca estive cercado de tão extremosos cuidados como ali.
As melhoras continuáram ràpidas no dia seguinte, em que ja me pude
levantar um pouco. Pareceu-me perceber que não sobejavam muito os
vìveres, e isso tirou-me um pouco o sono durante a noute. Na madrugada
seguinte, quando ainda tudo dormia no campo, levantei-me cauto e fui
chamar os meus prêtos.
Sahi com elles cambaleando ainda nas pernas debilitadas, e internei-me
na floresta, sem que alguem desse fé da minha escàpula. Pêla tarde
voltei com os meus homens curvados ao pêso da caça que tinha môrto.
Madame Coillard estava afflicta, pensando que eu havia abandonado o
campo para sempre, e fui recebido com a maternal censura de quem ralha
em familia.
Como em todas as minhas doenças graves, não tive convalescença, e a
minha forte organização fêz-me passar do estado valetudinario ao
perfeito estado de saude, em transição ràpida.
Com a robustez do côrpo veio o socêgo do espìrito, e só então pude
encarar reflectidamente a posição em que o destino me collocara. Pêla
conversação repetida com Madame Coillard, pude perceber que não
sobejavam recursos ao missionario. O meu marfim, bem pago, mas pago em
fazendas a que os agentes da casa Westbeech and Phillips déram subido e
exageradissimo valor, pouco produzio. Madame Coillard só via um meio de
sahirmos do apuro em que estàvamos, e êsse era, o de nos não separarmos,
por não ser possivel dividirem comigo os poucos recursos que tinham.
Contudo, esperàvamos a volta do missionario, do Quisseque, para tomar
uma resolução definitiva.
A idéa de ficar com elles aterrava-me.
Havia ali uma formosa criança, que impressionava a cada momento a minha
imaginação ardente de Portuguez.
¿Ser-me-hia possivel, n'um viver tão ìntimo, n'um isolamento tão grande,
impedir que uma fala escapada n'um momento de loucura, um olhar vibrado
n'um lampejo de delirio, fôssem offender a casta menina, descuidosa na
sua innocencia càndida?
Tremia por mim e por ella.
Decidi, pois, fazer um estudo de mim mesmo até á volta do missionario, e
calcular bem até que ponto eu seria capaz de ser honrado.
Passei três dias atribulados no estudo que fazia do meu espìrito.
¿Poderia eu namorar-me d'aquella meiga criança? De certo não; e a
lembrança sempre viva de uma espôsa idolatrada, era segura garantia aos
meus sentimentos.
Mas, se o coração estava defendido, não o estava a imaginação fèrvida, e
podia, n'um momento de desvario, com uma phrase imprudente, cometter uma
infamia--porque infamia seria fazer subir o pejo ao rôsto d'aquella em
cuja casa eu tinha sido recebido com a intimidade de um filho.
Àlém d'isso, o meu devêr era ainda maior. Era preciso evitar a tôdo o
custo, que a fama das proêsas que os meus de mim apregoavam; que a
posição, um pouco romàntica, em que eu me achava entre aquella familia;
não fôssem impressionar a novél imaginação dos desoito annos de uma
mulhér.
¿Poderia eu sustentar durante mezes o papél de uma reserva absoluta, na
grande intimidade da vida que ia levar?
Um dia pensei que era capaz de o fazer, e desde êsse dia tracei a minha
conduta futura, de que não arredei um só passo.
Muitos mezes depois eu tinha sido comprehendido por uma mulhér, que
soube ler no meu ìntimo com essa fina perspicacia que só ellas possuem
para ler nos arcanos da alma os mais recònditos sentimentos; e não
hesito em dizer, que fui comprehendido por Madame Coillard, porque, na
vèspera da nossa separação, ella escreveu no meu diario um versìculo do
Psalmo 37, que me revelou o seu pensamento.
Estava resolvido a ficar com elles, quando más novas chegáram do
Quisseque.
M^{r.} Coillard confirmava, em uma longa carta escrita a sua espôsa, o
boato do incendio a que ja me referi.
Tudo quanto elle tinha em casa do chefe Carimuque fôra prêsa das chamas,
e isso vinha ainda complicar a situação, diminuindo o seu haver.
Àlém d'esta, outra noticia veio consternar mais a bondosa espôsa do
missionario. Dizia elle que Eliazar, o homem que estava em Quisseque e
de quem ja falei, fôra atacado de um accesso de febre de mao caracter, e
estava em perigo.
Madame Coillard muito affeiçoada áquelle Catechista, que fôra outrora
seu servidor, ficou desde êsse momento em cuidados extremos.
Dois dias depois, a 6 de Novembro, uma nova carta do missionario veio
augmentar a tristeza que reinava no acampamento de _Leshuma_. Eliazar
estava peior e receiava-se que não podesse salvar-se.
No dia 7, eu tinha ficado levantado até tarde da noute, por ter a fazer
observações astronòmicas; ficando comigo as duas senhoras, em conversa
cujo assumpto era o missionario e a doença de Eliazar.
Madame Coillard disse-me, que tinha um forte presentimento de que seu
marido chegaria n'aquella noute. Propuz-lhe irmos ao seu encontro, e
tendo sido aceite o alvitre pelas duas corajosas damas, pozémos-nos a
caminho de Embarira.
A um kilòmetro do acampamento, eu que caminhava adiante d'ellas,
preveni-as de que sentia rumor de gente na floresta; mas julgáram ser
engano, porque ainda um kilòmetro àlém ninguem encontrámos. Contudo, eu
sabia não me enganar, porque mais de uma vez um rumor mal definido e só
perceptivel a ouvidos de sertanejo, tinha chegado até mim. Sem isso não
teria animado aquellas damas a esperar n'uma floresta povoada de feras,
e onde me sentia pouco á vontade pêla responsabilidade que tomava.
Pelas onze e meia, o rumor que por vêzes percebi tornou-se distincto
para os meus ouvidos, e não duvidei affirmar que gente calçada caminhava
no trilho que seguìamos. Pouco depois alguns vultos aparecêram na
sombra, e o missionario, acompanhado de dois ou três prêtos, estava
diante de nós.
Madame Coillard procurava em vão alguem junto de seu marido. Esse alguem
faltava. Mais uma sepultura tinha sido cavada no alto Zambeze, mais uma
lição estava dada aos imprudentes que se arriscam n'aquelle paiz da
morte.
Voltámos tristes e silenciosos ao campo de Lexuma.
No dia immediato tive uma larga conversa com M^{r.} Coillard. O que eu
previa ja era realidade. O missionario, falto de recursos, não me podia
dar o sufficiente para eu fazer a viagem até ao Zumbo.
Discutímos largamente todos os alvitres, e a ùnica possibilidade de
èxito era não nos separarmos e seguirmos juntos até ao Bamanguato, onde
eu poderia obter meios de seguir avante. Elle tinha pressa de partir,
porque àlém de não sêrem fartos os meios para uma espera qualquér,
Lexuma era-lhes fatal. Duas sepulturas de dois dos seus mais fiéis
servidôres tinham sido abertas ali.
Contudo, eu queria ir visitar a grande cataracta do Zambeze, e ficou
combinado que elle me esperaria até ao regresso, o que importava uma
demora de 12 a 15 dias.
Ficou decidido que eu partisse para Mozioatunia no dia 11, e Madame
Coillard, com maternal sollicitude, começou logo a tratar dos meus
aprestes de viagem.
No dia 10, uma forte tempestade cahio sobre nós, e sobreveio-me um
accesso de febre. Verissimo tambem adoeceu com febre. Este estado de
tempo e de doença continuou no dia 11, impedindo-me de realisar o
projecto de seguir n'esse dia para as cataractas.
No dia 12 eu estava melhor, mas o Verissimo tinha peiorado, sendo
necessario renunciar á partida ainda n'esse dia.
Então o missionario propoz-me seguirmos todos a 13 para o kraal de
Guejuma, e d'ali seguir eu ao destino projectado.
Effectivamente, ás 10^{h.} e 20^{m.} da noute de 13, deixámos o campo de
_Leshuma_. Era difficil o jornadear por entre a floresta com os pesados
_wagons_. A cada passo um tronco de àrvore ou um penêdo travava as
rodas, e era preciso cortar o tronco ou remover a pedra. O meu Augusto,
usando da sua força athlètica, fazia verdadeiros prodìgios.
Só ás 6 horas da tarde do dia 15 podémos alcançar o kraal de Guejuma,
tendo jornadeado noute e dia apenas com pequenos descanços, para os bois
pastarem e nós repousarmos. Não ha àgua entre estes dous pontos, e ainda
que tìnhamos uma escaça provisão para nós, os pobres bôis passáram três
dias sem beber. Por isso, logo que chegámos a Guejuma, êlles faziam
esforços inauditos para se libertarem dos jugos e correrem ás lagôas de
pèssima agua, que abastecem aquelle kraal, estabelecido pêlos sertanejos
Inglezes para repousar e têrem os gados, que não podem guardar em
_Leshuma_ por haver ali a terrivel môsca zê-zê.
O nosso caminho fôi por uma planicie arenosa e hùmida, onde os _wagons_
se enterravam dando grande canceira aos bôis.
Apesar do mao estado da minha saúde, determinei seguir no dia immediato
para as cataractas, e Madame Coillard não deixou um momento de se
occupar das minhas provisões de viagem.
Não me foi possivel encontrar um guia, mas apesar d'isso, não vacillei
um instante em partir.
CAPÌTULO II.
MOZIOATUNIA.
Viagem ás cataractas--Tempestades--A grande cataracta do
Zambeze--Abusos dos Macalacas--Regresso--Patamatenga--M^{r.}
Gabriel Mayer--Tùmulos de Europêos--Chêgo a Deica--A familia
Coillard.
Logo na manhã do dia 16 fiz os meus preparativos de viagem, e bem pouco
trabalho tive, porque Madame Coillard ja tinha preparado a parte mais
importante d'elles, a dispensa; tendo eu mesmo de entrevir, para mostrar
a impossibilidade de levar tudo o que ella queria que eu levasse, pois
que não tinha como carregadores mais do que dois homens, Augusto e
Camutombo.
Comigo deveria partir toda a minha gente que eu não quiz deixar em
Guejuma, receioso de que algum fizesse disparte na minha ausencia.
Ficáram apenas as minhas bagagens, a minha cabrinha Córa e o meu
papagaio Calungo.
Para a Àfrica não serve muito o rifão Europêu que diz, "quem tem bôca
vai a Roma;" mas sim outro se pode inventar para ali, e é elle, que
"quem tem bùssola vai a toda a parte."
Monsieur e Madame Coillard estavam verdadeiramente afflictos por me
verem partir sem guia e a pe. Mal sabiam elles quanto me era socia a
floresta Africana e como eu sabia andar n'ella.
Outro motivo de afflicção para elles era, a dùvida em que estavam de que
me não viesse a faltar àgua no caminho, por eu não ter meio de conduzir
nenhuma, e ser o paiz em extremo sêco. Tranquillisei-os como pude,
assegurando-lhes, que não contava morrer de sêde.
Como eu devêsse demorar-me de 12 a 15 dias n'aquella excursão, ficou
combinado, que elles partiriam para o kraal de Deica, onde eu deveria ir
encontral-os.
Finalmente, depois de mil demonstrações da mais afectuosa amizade, parti
ás 10 horas, sendo acompanhado durante um kilòmetro por M^{r.} e Madame
Coillard, que então se despedíram de mim, e voltáram ao kraal.
Segui sempre ao Norte na planicie, e uma hora depois encontrei uma
emmaranhada floresta, em que me embrenhei, para não alterar o meu rumo.
Depois de caminhar por quarenta minutos na mata, deparei com uma pequena
lagôa de àgua cristalina, e parei junto d'ella para deixar passar as
horas de maior calor. A esse tempo uma trovoada longinqua fuzilava ao
norte, deixando mal ouvir o rebombar dos trovões.
Deixei aquelle ponto ás 2 horas, a tempo que se formavam em tôdas as
direcções trovoadas ameaçadoras. Ás 4 horas, encontrei um trilho de caça
muito seguido de frêsco, e indo por elle á descoberta, fui dar a um
grande charco lodôso, habitual bebedouro de feras. Acampei ali, e
tratámos de construir abrigos contra a chuva que ameaçava cahir em
abundancia.
Os pedòmetros annunciavam a marcha de nove milhas geogràphicas.
Na manhã seguinte, parti ás 6 horas, e sustentei marcha de 4 horas,
interrompida apenas por uma pequena demora, proveniente de um forte
chuveiro que cahio pelas sete horas e meia. Parei para comer junto de
uma lagôa que dá nascensa a um riacho correndo a E.S.E.
Ao meio-dia, segui a N.N.E., mas tive que sustar a marcha ás 3 horas,
porque os meus ja não podiam dar um passo, tendo os pés despedaçados,
pêla pedra miúda e sôlta que encontràvamos desde a 1 hora, no terreno ja
bastante accidentado.
Eu mêsmo, doente e fraco, ja não podia soportar as grandes marchas que
antes fazia.
Durante a ùltima parte da marcha atravessei três pequenos riachos, que
correm a S.E. em leitos basàlticos.
As montanhas pedregosas, mas cobertas de vegetação arbòrea, correm
tambem a S.E., e não apresentam elevações, acima dos valles, maiores do
que 50 metros.
Acampei junto a um pequeno depòsito de àguas pluviaes.
Na manhã seguinte continuei a jornada, sempre em terreno pedregôso e
accidentado. Atravessei florestas muito espêssas, mas onde se não
encontram os gigantes vegetaes peculiares á flora intertropical.
Ainda n'essa manhã passei dois còrregos correndo a S.E.
Desde a vèspera caminhava eu em terreno de formação vulcànica. Passou
por ali uma revolução enorme, que deixou profundamente assignalada a sua
passagem com traços indeleveis, em gigantêscas obras de basalto.
No leito dos ribeiros e na escarpa das montanhas, o sol dardejando os
seus raios sôbre a pedra côr de fôgo, faz parecer, que ainda ali correm
ondas de lava.
Eu achava-me em bôa saúde, mas os meus difficilmente podiam caminhar
descalços, por sôbre a pedra cortante. Fiz apenas marcha de quatro
horas, e fui acampar junto de um ribeiro; tratando logo de construir
abrigos para nos acolhermos de uma tempestade imminente.
O sitio do meu acampamento era lindissimo. Um ribeiro d'àgua cristalina
correndo ao N., ficàva-me por oeste. Um còmoro coberto de frondoso
arvorêdo embelezava a leste a paizagem.
No limitado valle, àrvores enormes de muito differentes proporções das
que até ali encontrara, cobriam o meu campo formado de quatro pequenas
barracas.
Do norte, muito ao longe, o vento trazia um ruido semelhante ao ribombo
de mil longinquos trovões. Era Mozioatunia no seu bramir eterno.
Sahi a caçar e encontrei profusão de francolins, de que fiz bôa
provisão.
Matei tambem uma lebre, muito differente das da Europa nas côres do
pello, menor em tamanho, mas igual em fórmas. Tornàva-se muito
distincta, por ter o dôrso e as orêlhas quasi prêtas, e o ventre e
cabêça de um amarello d'óchre muito carregado, e pintado de manchas
nêgras.
De volta da caça, observei no meu campo um caso muito singular.
Vi milhares de termites trabalhando ao ar livre, e sem o menor cuidado
de cobrirem o seu caminho, ja nas àrvores ja na terra. Passei uma òptima
noute, depois de um bom jantar de perdizes.
No dia immediato, logo á sahida, passei um pequeno ribeiro que corre a
N.O., e depois de se juntar áquelle em cuja margem acampei, corre como
elle ao N. Segui sempre o curso d'esse ribeiro n'um valle pedregoso e
àrido, e depois de três horas de marcha parei, para descançar e comer o
resto das perdizes mortas na vèspera. Segui ao meio-dia, mas, uma hora
depois, tive de parar.
Muitas trovoadas, que desde manhã fusilavam perto do horizonte em todas
as direcções, subíram aos ares e viéram estacionar sôbre mim. Uma chuva
torrencial cahia, ou antes batia, sobre nós, tocada por um vento rijo de
N.N.E. Os nimbus espêssos e nêgros, pairavam perto da terra e despediam
das suas entranhas carregadas de electricidade, torrentes d'àgua e
torrentes de fôgo.
[Mappa de Mozioatunia]
Como eu disse, o sitio em que caminhava era um valle profundo despovoado
de àrvores. Montìculos de rocha terminados por vèrtices ponteagudos,
atrahiam o raio que os abrasava com o seu fôgo potente. Uma faísca veio
esmigalhar um penêdo a pouca distancia de mim.
Era um espectàculo tremendo e horroroso. Vi ali pêla primeira vez o raio
dividir-se. Uma faízca separou-se pròxima da terra em cinco, que
partíram quasi horizontalmente a ferir cinco pontos differentes; algumas
vi separarem-se em quatro, em duas, e três, quasi tôdas.
Ziguezagues de fôgo cruzavam os ares em todas as direcções, e abrasavam
a atmosphera. É preciso ter-se assistido a uma trovoada nos sertões da
Àfrica Austral, para bem se fazer idéa do que seja uma tempestade
medonha.
A minha gente prostrada por terra, horrorizada e escorrendo em àgua,
estava tranzida de frio e mêdo. Eu gracejava com elles e procurava
animal-os, mostrando uma tranquillidade que estava mui longe de ser
verdadeira.
Uma hora depois a tormenta, como que fatigada do seu pelejar insano, foi
diminuindo de intensidade, e eu pude pôr-me a caminho ás 2 horas e meia.
Ás três horas tive de parar, obrigado por uma forte chuva que não se
demorou muito em passar.
Pelas 5 horas passava em frente da grande cataracta e acampava a
montante d'ella, aproveitando umas barracas que ali encontrei e
reconstruí.
Durante a noute uma nova tormenta cahio sôbre o meu campo, e muitas
àrvores fôram derrubadas pêlo raio. A chuva torrencial inundou as
barracas, apagou os fogos e molhou tudo e a todos. Durou esta tempestade
até ás 4 horas da manhã, hora a que cessou quasi de repente.
Foi aquella uma noute cruél. Ali ja ao estampido dos trovões se juntava
o bramir da cataracta, e era qual produziria sons mais roucos e
medonhos.
O dia amanheceu chuvoso, e até ás 9 horas foi impossivel sahir das
barracas.
A essa hora rasgou-se o ceo nublado, e o sol veio illuminar a esplèndida
paizagem. Contudo era difficil caminhar n'um terreno encharcadissimo e
lodôso.
Uma forte apprehensão me perturbava o espìrito. A chuva da noute
estragava o pão e mais provisões dadas por Madame Coillard. Os
mantimentos chegariam ainda para dois dias, mas não podiam ir mais àlém.
Eu tinha contado com dois recursos, a caça e os Macalacas da outra
margem, que me venderiam massango.