O nosso artigo foi provocado. Não tinhamos atacado o jornal realista.

Apreciaramos n'um artigo nosso o espirito das reformas de D. Pedro

comparando-o com o espirito que caracterisou a reacção de 1842. Era uma

questão estranha ao partido realista. Na verdade alludimos então

accidentalmente ao absolutismo; mas imaginavamos que a _Nação_,

reservando para o seu partido a nacionalidade, considerava o

absolutismo, cujo predominio no paiz, durante certos periodos da nossa

historia, é incontestavel, como uma aberração, um abuso da constituição

primitiva do paiz, constituição assaz livre, posto que não tão

democratica como o indicariam algumas provisões d'essas côrtes, a que a

_Nação_ foi buscar duas linhas para lenda da sua bandeira, se táes

côrtes houveram existido. Imaginavamos que a _Nação_ comprehendia nos

seus affectos esses seculos de nobre recordação, em que este cantinho do

mundo se governava com garantias e liberdades singulares para o povo; em

que o feudalismo não transpunha as nossas fronteiras, em quanto, a bem

dizer, toda a Europa gemia debaixo do seu jugo de ferro. Imaginavamos

que a _Nação_ se recordava das nossas admiraveis cartas de

municipalidade, dos nossos parlamentos, d'essas duas heranças de

liberdade romana e de liberdade germanica, que nossos avós haviam

salvado atravez da edade media. Enganava-mo-nos. A _Nação_ regeita tudo

isso: a _Nação_ cifra todo o passado nos seculos mais recentes. Da

comedia monastica das côrtes de Lamego salta á comedia real das côrtes

de 1641. Para ella a velha monarchia não é a dos primeiros Affonsos, de

D. Diniz, de Affonso IV, de D. Fernando, de João I ou de Affonso V: é o

absolutismo, comparativamente moderno, na sua forma pura, exclusiva. Só

depois vimos isto; só depois vimos que os tempos anteriores ao

estabelecimento do poder real sem limites, estavam tanto fóra da

communhão realista, eram tão hereticos para a sua monarchia orthodoxa,

como estes tempos liberaes, que, em nossa profunda ignorancia,

suppunhamos estribarem a sua legitimidade historica nas tradições

primitivas. Sem o saber tinhamos blasphemado do credo realista: do

sancto, do legitimo, do divino absolutismo. Mas a ignorancia do credo de

uma egreja alheia, não devia concitar o anathema contra o ignorante. A

_Nação_ devia ter advertido com caridade a nossa rudeza, conforme manda

o evangelho. Era uma obra de misericordia. Em logar d'isso fustigou-nos

duramente. Foi um proceder ferino.

Irritamo-nos tambem. Poderiamos discutir com a _Nação_ sobre as formulas

da liberdade. Talvez muitas d'aquellas com que a monarchia cresceu e

vigorou fossem, accommodadas á civilisação de hoje, preferiveis ás

actuaes: era uma questão de doutrina disputavel. Acceitar como base de

controversia a negação completa da liberdade humana, o predominio de um

homem sobre a humanidade, a sciencia certa e o poder absoluto

individual, como fundamento do direito; eis o que a consciencia, a

dignidade do homem, o seu espirito immortal, não consente á

intelligencia que dispute com placidez. O absolutismo como theoria

politica é a nossos olhos um insulto feito a Deus e ao genero humano.

Isto é, para nós, uma verdade de consciencia. Seguimos o impulso da

indignação; porque só a indignação póde corresponder a essa theoria a um

tempo immoral e feroz. N'um artigo de jornal, escripto a correr, talvez

haja uma ou outra phrase mais ou menos inconveniente: retiramol-a. Mas

as idéas, nem uma, por mais violenta que os nossos adversarios a

supponham; porque a verdade não se retira diante da apotheose da

corrupção e da tyrannia.

No meio, porém, da cólera não esquecemos a cortezia de jornalistas.

Evitámos tudo que fosse pessoal aos redactores da _Nação_; lançamos até

á conta do seu partido a deslealdade da sua argumentação. E não

respeitámos só os redactores; procurámos não ferir individualmente

ninguem. Nas increpações a um partido a responsabilidade que se lança

sobre elle reparte-se em tantas quotas, que o valor de cada uma é

inapreciavel. A _Nação_ dirigiu-se ao individuo, aproximou escriptos

cujo tom, cujo caracter era diverso, e que, a haverem sido similhantes,

ella se teria prostituido discutindo alguns e elogiando-os em parte.

Falou no _Raio_ e no _Rabecão_, n'esses papeis abjectos, que insultavam

os individuos e penetravam na vida particular; n'esses papeis que

apparecem em toda a parte em que reina a liberdade de imprensa, a

liberdade da idéa e da palavra; n'esses papeis que não provam outra

cousa senão uma verdade sediça, senão que se abusa ás vezes das coisas

mais legitimas e uteis. Era, porém, ao orgão do absolutismo que tocava

fazer allusões d'estas? De que epocha são o _Mastigoforo_, o _Cacete_, a

_Besta-Esfolada_, e centenares de publicações analogas? Eram essas

publicações hediondas como aquellas que alludis, especulações torpes de

alguns miseraveis que exploravam o escandalo para viver? Não. Eram

composições de homens que vós elevaveis ao episcopado; eram obra de

sacerdotes, que iam consagrar a hostia ao cordeiro, e prégar o evangelho

(sabe Deus o que elles prégavam) com os labios escorrendo em fel, com as

mãos immundas de tincta que elles sabiam se havia de converter em

sangue. E era isso um abuso da liberdade de escrever, que vós tão

largamente aproveitaes, embora seja invenção diabolica dos

liberdadeiros? Não. A censura, a auctoridade, o poder publico,

inexoravel, frio, grave, calculado, lá estava. Esses sacerdotes iam com

os seus libellos subir as escadas do desembargo do paço, onde se

enfileiravam as solemnes cabelleiras dos bons tempos, ou bater á cella

onde curtia os periodos do Larraga, o sabio de então, o frade ou o monge

pedante. E o desembargador, ou o frade, ou o monge liam pausadamente o

libello, e a injuria torpe, calumniosa, pessoal, sanguinolenta, descia

para os prélos legitimada pelo tribunal, sanctificada pelo convento,

irreplicavel, fulminante; porque o magistrado e o frade lá tinham nas

mãos o açamo para impedir a retaliação, para obstar ao gemido da

victima. Liberdadeiros detestaveis, que fizestes libertando a palavra e

o pensamento? Para vossa vergonha eterna ahi tendes o _Rabecão_ e o

_Raio_.

Nós chamámos as coisas pelo seu nome: chamámos prostituição á

prostituição; mas remontámos os seculos; buscámos nas gerações,

extinctas ha muito, os nossos exemplos. Sabeis, e se não sabeis

perguntae-o em segredo aos vossos compartidarios, que não precisavamos

de remontar muitas decadas, ou andar muitas leguas, para irmos encontrar

debaixo dos freixos de um parque, espalhadas no chão, as folhas avulsas

do capitulo 26 do livro XI dos Annaes de Tacito. Vós accometteis os

vivos, insultaes quem não se póde defender, porque só o faria

envilecendo-se, cuspis nas faces de uma mulher, vilipendiaes a

sanctidade da fraqueza, quando nós vos davamos o exemplo do respeito

pela sanctidade da proscripção e da desgraça. Cavalleiros portuguezes

antigos, erguei-vos das vossas camilhas de pedra; vinde contemplar as

gentis façanhas dos defensores do passado!

Que a _Nação_ prosiga em vinte columnas com que nos ameaça, refutar as

nossas seis columnas cuja extensão a espantaram. Esperamol-a. Depois

nós. Veremos se saindo dos accidentes vem aos factos: se acceita a luva

que lhe atirámos. Se nos prova a justiça, a conveniencia, a moralidade

das prestações foraleiras, dos dizimos, da soltura clerical e monastica,

dos gravames sobre a pesca; emfim, de todas essas vergonhas de que D.

Pedro nos libertou, pelo que a sua memoria nos é cara.

III

Os sete seculos

Agora nós.

Defensores do absolutismo, vós escrevestes um livro a proposito de um

artigo do _Paiz_, que tinheis provocado, e atulhastes com elle não

sabemos quantas columnas do vosso jornal. É que esse artigo vos feriu

profundamente. As nossas ignorancias, as nossas falsidades, as nossas

faltas de logica e de estylo, as nossas loucuras, o nosso orgulho

insensato, todas as miserias do espirito humano, epilogadas em nós, que

deveriam despertar a compaixão d'essas almas catholicas e pias,

fizeram-vos proromper em rugidos de uma cólera essencialmente heretica,

pagã, selvagem. Atirastes-nos com os thuribulos, com as galhetas, com os

flabellos, com os tocheiros, com as sacras, com os missaletes.

Apinhastes-vos á porta da sacristia a gritar, a vociferar, a quererdes

saltar uns por cima dos outros. Os remoques, os vituperios, as

maldições, as pragas choveram por dias sobre nós, que de braços cruzados

e com as lagrimas nos olhos, contemplavamos compungidos a vossa

resignação christã.

Defensores do absolutismo, isso não é bonito! Tanto fogo, tantas

descargas cerradas sem ordem nem disciplina, não prestam para nada. Uma

carga de bayoneta vale mais que tudo isso. Granadeiros do Mindello,

conforme nos chamaes, sabemos como o simples reluzir das bayonetas era

efficaz comvosco. Ficastes sempre um pouco milicianos. Gastaes muita

polvora; mas atrapalhaes-vos demasiado ao desfechar, e as balas zumbem

apenas por cima da cabeça dos inimigos.

Caricatura de Eumenide, a _Nação_, ahi estava ha uns poucos de annos a

descompor, não a podridão de vicios e de corrupções, com que o

despotismo de tres seculos envenenou a seiva da sociedade; não a herança

de envilecimento que o habito de tremer diante dos frades inquisidores,

ou dos cabelleiras da inconfidencia e da intendencia, severos e puros

como os accusadores da filha de Helcias, legara aos que vieram antes de

nós, e estes á geração que vae acabando; não a abjecção aprendida nas

ante-salas da nobreza, do alto clero, dos magistrados venaes, dos

cortezãos que mercadejavam nas mercês regias, mas sim a liberdade, a

civilisação, o progresso, que são leis de Deus, reveladas nas aspirações

de todos os homens, nos caracteres dos seculos, no desenvolvimento

invencivel do espirito humano; a liberdade, a civilisação e o progresso,

que se conteem no Evangelho de Christo e não no Evangelho dos Phariseus,

e que hão-de ir lentamente desbaratando esse _caput mortuum_ de

depravações e baixezas, que os despotas passavam de mão em mão para

dominarem pela desmoralisação e pelo terror. Eumenide de roca á cinta, a

_Nação_ ahi estava aguentando nas costas gibosas, a canastra cheia de

parches fetidos com que a hypocrisia da côrte, dos tribunaes, das

sacristias, cobria as chagas purulentas do corpo social, flagellado,

rasgado, exhaurido de forças pelos vampiros defensores do throno e do

altar: ella ahi estava resmoninhando improperios contra a dignidade e os

fóros do homem, e apregoando a panacea para todos os males, na immunda

trapagem da canastra absolutista. Não lhe diziamos nada: não lh'o

diriamos talvez nunca. Tentou-a porém o peccado um dia, para vir lançar

á nossa porta o seu ridiculo pregão. Fez-nos asco a mumia ambulante, e

com o bico da bota atirámos-lhe a canastra ao ar. Os parches

espalharam-se no chão, e quem passava tapou o nariz e os olhos; era um

espectaculo hediondo e repugnante. A velha ficou embaçada, absorta na

dôr e na colera. Depois tornou a si, arrancou mãos cheias de cabellos

desgrenhados: careteou, rugiu, babou-se: e, Messalina desdentada e

tonta, fincando os punhos engelhados nos quadris angulosos, epilogou em

si a Ribeira-Nova e blasphemou, blasphemou, blasphemou quatro dias.

Grita, Eumenide de farça; grita, que te ouçam todos! Tens razão, pobre

velha, a bota impia estragou-te a mercadoria. Apanha essas rodilhas

esfarrapadas das commendas e prebendas, e concerta outra vez a canastra.

Vitupera esta raça maldicta dos liberdadeiros, que não querem sentir os

ossos a estalar no potro, ou vêl-os queimar nas fogueiras da

sancta-inquisição; que não querem que os desembargadores durmam

impunemente no thalamo nupcial, o somno do adulterio em nome do livro

5.^o; que não querem dar cem mil cruzados a cada successor dos descalços

apostolos, para fundarem morgados á parentella, nem grossas prebendas

aos monsenhores, conegos e beneficiados _in quocumque_, para atulharem

de legitimações os livros da chancellaria, e fazerem apparecer uma

edição annual do _Cosinheiro Moderno_. Apanha a canastra e os fedorentos

emplastros, e continua a apregoar os teus _recipes_, sacudindo de vez em

quando esse latego imaginario com que, na tua tonteira, pensas castigar

a civilisação, por ter enterrado a sentina do absolutismo nas ruinas das

taipas e páus podres de que era construida.

Vinde cá, defensores do absolutismo, quem vos deu o direito de falardes

d'esta nobre terra de Portugal nos tempos em que era livre? Em Portugal

o despotismo é que é moderno, e a liberdade antiga. Cerrae de todo os

olhos, vós os que amaes curvar-vos ante um senhor dos vossos bens e das

vossas cabeças. Não vos deslumbre o brilho dos quatro primeiros seculos

da monarchia! As gerações d'essas eras sacrosanctas não vos pertencem;

são as dos nossos antepassados: os vossos acham-se nas que viveram de

joelhos á porta da inquisição, do palacio-monstro de D. Manuel e do

convento absurdo de Mafra.

Defensores do absolutismo! A historia dos tempos das commendas e

prebendas por que vós choraes, começa n'uma usurpação e acaba n'outra: a

primeira a da liberdade do povo, a segunda a do throno legitimo. Entre

estes dous horisontes, cerrados e negros, está contida apenas a longa

decadencia, a lenta agonia de uma nação pequena pelo numero, mas grande

pelo esforço, grande sobretudo pela sua actividade agricola, commercial

e maritima; grande pela politica dos seus principes populares; grande

por um energico e tenaz amor dos seus fóros; grande pela sabedoria

comparativa das suas instituições e leis, no meio do atrazo politico da

Europa; grande, não pelas virtudes das classes privilegiadas, mas sim

pelas dos villãos, pelas de nossos avós; grande pela alliança estreita

entre a monarchia e a democracia, contra as oligarchias que nascem da

indestructivel desegualdade humana e que, segundo os tempos, se chamam

patriciado, fidalguia, agiotagem, e cuja manifestação suprema se exprime

constantemente por duas palavras unicas: violencia e rapina.

Defensores do absolutismo e da legitimidade! Os actos politicos dos

tempos que vos pertencem e que vós defendeis, constituem apenas uma

serie de illegitimidades: mais do que isso, uma serie de attentados

commettidos contra o povo, pelos principes pervertidos, por uma

fidalguia que, tão orgulhosa d'antes, se declarara vencida ao ver rolar

algumas cabeças sob o cutello do algoz, e que achára em fim ser mais

commodo servir, enganar, e comer, comer muito; pervertidos pelos

jurisconsultos que tinham ido beber nas escholas estrangeiras as

doutrinas de direito publico dos tyrannos de Roma, como vós nos accusaes

de termos ido beber as ideas de liberdade, que estão escriptas no

coração do homem, nos livros dos impios d'este e do precedente seculo.

Defensores do absolutismo e do direito divino! Em que dia desceu este do

céu sobre a cabeça d'el-rei D. Manuel, para ordenar aos seus escribas

que rasgassem centenares de pactos constitucionaes, onde estavam

escriptos os fóros e liberdades d'esta terra; centenares de pactos

municipaes, onde estavam consignadas as liberdades e garantias das

cidades e villas do reino? Em que dia desceu o direito divino a

sanctificar a conversão em simples leis fiscaes, dos codigos em que se

continham as immunidades e franquias populares, cujo espirito sempre, e

cuja lettra muitas vezes provam, que esses codigos eram rigorosos

contractos politicos, livremente offerecidos e acceitos? A reforma que

os povos pediam á corôa era acaso a morte das suas liberdades, ou era a

cessação dos abusos que a nobreza, a magistratura real e o clero tinham

introduzido, pouco a pouco, em contravenção com o direito publico

municipal, base do direito politico do paiz? Respondei.

Respondei, defensores do absolutismo! Que eram os nossos parlamentos até

1480, senão as assembléas onde o povo protestava sempre, ameaçava não

raro, e castigava algumas vezes cerrando as bolças, as quebras do que,

na linguagem imperfeita d'aquellas eras, chamava seus privilegios, e que

nós hoje chamamos direitos e garantias politicas? Que eram esses

parlamentos (concedei-nos o uso d'esta palavra liberdadeira e

revolucionaria, de que já usavam nossos avós, os malhados do seculo XV)

senão uma aferição solemne entre os actos do governo, o exercicio do

poder real, por si ou por seus delegados, e as regras do direito

constitucional com que crescera e vigorava o paiz?

Respondei, se o sabeis, e se o não sabeis ide estudal-o em documentos um

pouco mais graves e authenticos, do que esse rol de tolices bernardas a

que chamaes côrtes de Lamego. Elles estão patentes para vós como para

nós. Mentistes quando dissestes que fizeramos monopolio d'esses titulos

da legitima e verdadeira gloria d'esta nação, que se constituiu e

cresceu á sombra da liberdade, porque só assim as nações se constituem e

crescem. Mentistes para encobrir a vossa incapacidade e preguiça. Para

os buscar, estudal-os e comprehendel-os, é necessario o sacrificio do

tempo, dos prazeres, da saude, dos interesses materiaes; é necessaria a

abnegação da existencia exterior, no que ella tem mais grato, para

viver, anno após anno, de uma vida interior que nos devora, de uma idéa

que nos illumina. É esta idéa que vos foge, que não cabe no vosso

espirito, enlevado na visão beatifica e longinqua das commendas e das

prebendas, apoquentado pela saudosa imagem d'aquelles pescoços anafados,

roliços, torneados em roscas atoucinhadas, dos bons tempos patriarchaes,

canonicaes e monachaes. Esses tempos, essas saudades, essa religião da

gula, do luxo, dos vicios hypocritas; essa contemplação continua da

corrupção absolutista, é que não vos deixa erguer os olhos para os

pulverulentos archivos do reino, cujo exame nos lançaes em rosto como se

fôra um crime! Não! Vós não podeis vêr os pergaminhos cobertos de pó.

Esse pó que repousa sobre elles, vôa para os ares quando se lhes toca: o

lodo do charco em que tendes os olhos fitos é que nunca se alevanta da

terra, e as vossas palpebras de servos estão atrophiadas; os vossos

olhos esqueceram o movimento com que os dos homens livres olham para o

que está elevado, para o ar e para o céu.

É por isso que quando a verdade inexoravel vem esmagar os embustes em

que estribaes a tyrannia, achaes mais simples negar essa verdade, e

accusar de falsificadora a mão que a atira ás faces sem pudor do

absolutismo. O homem de bem quando diz a outro homem--falsificaste,

inventaste, deturpaste, sumiste os documentos de um, ou de muitos

factos,--traz sempre na mão as provas de uma accusação, que importa um

crime perante as leis moraes e perante as leis civis. Sem isso a injuria

não deshonra o accusado, deshonra o accusador. Discipulos do denunciante

do illustre Damião de Goes; discipulos do padre Simão Rodrigues; beatos

filhos de Sancto Ignacio, bem se vê que respeitaes as tradições da vossa

ordem, e que estudaes a moral pelos livros dos Busembaus, dos Lessios,

dos Tamburinis, os quaes vos aconselham, que _se quiserdes deitar a

perder qualquer pessoa, convém que comeceis por espalhar calumnias para

a difamar, porque, acreditando-se mais facilmente o mal que o bem,

sereis cridos, com o que o calumniado perderá a força que lhe dá a boa

reputação, e sereis vingados_. O que é ter no bahú a roupeta, á

cabeceira as camandulas, e haver estudado por bons livros! E que demonio

podieis vós fazer senão calumniar sanctamente, em quanto não deixamos o

nosso _monopolio_, e não se faculta o uso dos archivos á vossa sede de

instrucção, ao vosso amor da verdade, ao vosso extremado afferro pelas

instituições primitivas?

Defensores do absolutismo, como assim? Engrifaes-vos para defender

contra os salteadores do Mindello a _vossa propriedade_, as prestações

foraleiras, os dizimos, os benesses das capitanias-móres, e metteis ao

mesmo tempo no peitilho da roupeta, os sete seculos da monarchia? Isso

não vale: isso não é para mãos bentas. Largae quatro seculos que não são

vossos: guardae os tres que vos pertencem. Antes d'elles, não cançaremos

de vol-o repetir, o povo portuguez era livre, não n'um latinorio piegas

de frade bernardo, mas na realidade dos factos, e pelo mechanismo da

sociedade politica.

Essa liberdade não se consubstanciava inteira na existencia das grandes

assembléas nacionaes. Pelo contrario, as côrtes eram a sua manifestação

mais incompleta. Ahi o povo, a villanagem, que vós sabeis, nobres

senhores, empregava, ainda ameaçando e reprehendendo, formulas cortezes

para com o monarcha, analogas, até em phrases, ás que emprega a

villanagem ingleza de hoje para com os seus reis. No que era novo, nas

medidas administrativas, ou nas leis civis que a civilisação mostrava

uteis ou justas, o povo limitava-se a discutir a sua conveniencia; mas

no que feria o pacto fundamental das cidades e villas, ou aquella parte

do direito consuetudinario, homologado conjunctamente com a carta

municipal, e que representava direitos politicos, oppunha-se tenazmente

á innovacão. A monarchia n'esse caso curvava a cabeça e reconhecia a

sanctidade dos principios. Nunca um rei de Portugal livre ousou dizer

aos seus concelhos: «quebrei as vossas immunidades, os vossos fóros,

porque assim aprouve á minha sciencia certa, poder real e absoluto.»

Quando as accusacões dos povos apontam a offensa das garantias, a

reparação, ou a promessa solemne d'ella não falha, porventura, uma só

vez, nas actas das côrtes dos antigos tempos.

Assim a liberdade popular estribava-se não tanto nos parlamentos como

nos foraes, e a garantia dos principios contidos n'estes, era a

estructura robusta dos corpos municipaes. Os concelhos eram a

organisação da democracia contra os poderosos, que só entravam n'esses

gremios politicos por concessões raras, condicionaes, difficeis de

obter, sobretudo nos tempos primitivos. Essa organisação dava os meios

de repellir as violencias dos tyrannetes privilegiados: dava uma

terrivel solemnidade aos aggravamentos dos povos. Os cavalleiros

villãos, os bésteiros municipaes, a peonagem armada lá tinham o ferro

para o desaggravo, se o rei não cumpria o seu dever. A força estava

atraz da doutrina; porque a força e só ella mantem solidamente o

direito. É um axioma que vós acceitaes largamente. E senão, pedi aos

vossos amigos de Roma, da Austria, da Prussia, da Russia e da Turquia,

que mandem para casa os seus milhões de soldados, e nós vos daremos em

breve, novas da boa-saude do direito divino.

Que fez a monarchia do seculo XVI e dos que se lhe seguiram, dos nossos

velhos concelhos? Entregou-os amarrados aos fidalgos, aos padres e aos

agentes do poder real. Substituiu gradualmente um exercito permanente á

democracia armada, a essa democracia que tão leal fôra aos antigos reis,

que os tinha ajudado a conterem nos limites do seu direito os dignos

barões, avós de vossas excellencias reverendissimas. D. Manuel, que

subiu ao throno, cuspindo nas nodoas de sangue de seus irmãos

assassinados, enlevado dos descobrimentos e conquistas feitas pelos

corações generosos, pelos homens ousados que os ultimos dias de

liberdade legaram aos primeiros de tyrannia, acabou a obra do seu

antecessor. Os foraes em vez de se cunharem de novo com os seus

primitivos caracteres politicos, ficaram desde a sua reforma lettra

morta para as franquias do povo, lettra morta como padrões

constitucionaes, e só viva e bem viva para as extorsões do fisco.

Algumas formulas externas que restavam nos costumes apagaram-se pouco a

pouco; mas o espirito de liberdade morreu e o absolutismo assentou-se

tranquillamente sobre o paiz.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 07 · 第 5 / 13 段