Artigo 12.^o Se o administrador do vinculo preferir alienar unicamente

por contractos de emprazamento na fòrma estabelecida no artigo 2.^o,

unica admittida para os effeitos d'este decreto, o dominio util dos

predios urbanos ou dos rusticos cultivados, alienaveis em virtude do

artigo precedente, a porção d'elles será igual em valor ao capital que

corresponderia á importancia dos fóros accrescidos, considerados como

juro de dous e meio por cento; isto é, será igual em valor a quarenta

vezes a importancia dos dictos fóros accrescidos. N'esse caso o canon

estabelecido nos respectivos contractos emphyteuticos, não poderá ser

inferior a metade da renda dos predios aforados, calculada pelo

rendimento medio dos ultimos trez annos. Os fóros resultantes d'esses

contractos ficarão incorporados no vinculo.

Artigo 13.^o Se os emprazamentos facultados no artigo anterior forem

feitos por superficies iguaes ou inferiores a dez mil braças quadradas,

ao menos em metade da porção de bens alienaveis, calculada pela fórma

estatuida n'esse artigo, o administrador do vinculo poderá alienar pela

dicta fórma, ou segundo a que se faculta no artigo 11.^o, mais outra

porção de bens vinculados, igual a um decimo do fundo libertado pelas

disposições dos referidos artigos. N'esta hypothese como na outra os

fóros ficarão vinculados, e nunca serão inferiores a metade da renda

media, calculada sobre o rendimento dos ultimos trez annos.

Artigo 14.^o Se o administrador preferir um systema mixto de venda do

dominio pleno, de emprazamentos por vastas superficies, e

d'emprazamentos por superficies restringidas a dez mil braças, o computo

do fundo alienavel será proporcionado, em harmonia com as disposições

dos artigos 11.^o, 12.^o e 13.^o.

Artigo 15.^o Se o administrador do vinculo não usar da faculdade que lhe

é concedida nos tres artigos antecedentes, uma porção de bens do

vinculo, computada do modo estatuido no artigo 11.^o, ficará por sua

morte livre, allodial e exempta de quasquer encargos ou hypothecas que

pesem sobre o vinculo, por mais especíaes que sejam, regulando-se a

successão d'esses bens pelo direito commum.

Artigo 16.^o As medições a que se procederá previamente para se

verificar o disposto nos artigos 4.^o e 9.^o, dependerão da approvação

da auctoridade administrativa local, ouvido o delegado ou subdelegado do

procurador regio.

Artigo 17.^o As avaliações indispensaveis para se verificar o disposto

nos artigos 11.^o, 12.^o, 13.^o, 14.^o e 15.^o, serão feitas

judicialmente, ouvidos os successores dos vinculos, e aquelles que

tiverem acção sobre os rendimentos dos mesmos vinculos por encargos ou

por hypothecas.

Artigo 18.^o Fica revogada toda a legislação em contrario.

O PAIZ E A NAÇÃO

(ARTIGOS PUBLICADOS NO JORNAL--«o PAIZ»)

1851

I

Por falta de tempo temos deixado de dizer algumas palavras sobre as

observações fulminantes com que _A Nação_ reduziu a pó impalpavel, o

nosso artigo sobre as differenças profundas que caracterisavam o

cartismo de 1832 a 1834, e o pseudo-cartismo de 1842 a 1850.

O nosso artigo feria o absolutismo se não nas suas tradições mais

hediondas e atrozes, ao menos nas mais odiosas para o povo, nas suas

instituições espoliadoras e vexatorias; nas suas rapinas legaes com que

elle sustentava uma nobreza servil e devassa, uma côrte prostituida, uma

alcatéa de magistrados venaes, com que mantinha esses tribunaes de

inquisição, de inconfidencia, de policia, onde se passavam mysterios

horriveis, com que locupletava essa patriarchal, esses cabidos, essas

congregações religiosas, onde reinavam dissoluções sem numero e sem

nome, onde os vicios, alimentados por grossas prebendas, não faziam

differença dos que reinam nos salões e alcovas da agiotagem, senão em

serem mais hypocritas, e estarem velados pelo silencio de ferro que a

censura impunha aos animos generosos e independentes que poderiam

apontal-os ao paiz. Um gemido ou um murmurio de qualquer d'esses animos

mais audazes, bastava para sepultar nas masmorras ou repellir para o

exilio, o revolucionario que ousava apontar para as orgias clericaes,

para as corrupções cortezãs, para a venalidade dos ministros e

tribunaes, para a baixeza de uma fidalguia desmoralisada, tão abjecta

ante a tyrannia, como oppressora e orgulhosa para com o povo. Foram

víctimas e testemunhas d'esse systema de Baixo-Imperio, d'esse governo

de eunuchos immoraes, de salteadores legitimos, o padre Vieira,

Francisco de Lucena, José Anastacio da Cunha, o padre Theodoro de

Almeida, Phylinto Elysio, e tantos outros homens que a gloria vingou dos

velhacos corruptos, que reduziram esta nação livre, forte e respeitada

ha quatrocentos annos, a ser, como era já na segunda decada d'este

seculo, a fabula e o escarneo das gentes.

Vós dizeis que _O Paiz_ conta com ser o unico documento da historia

contemporanea para o futuro. Enganaes-vos. Fizestes de nós um espelho em

que se reflectia a vossa imagem. Vós é que imaginaes que a historia da

tyrannia está só escripta nos vossos hymnos insensatos á ignorancia, ao

obscurantismo, á intendencia da policia, á inquisição e aos

conventos-prostibulos de sua magestade fidelissima o muito poderoso,

virtuoso e excellente rei, o senhor D. João V, o benevolo soberano, que,

ao arrancar-se dos braços de alguma freira de Odivellas, mandava

arrastar entre linhas de soldados imbelles as populações das provincias,

para virem trabalhar na grande demencia e ridicularia de pedra e cal

chamada o convento de Mafra, onde para seu divertimento sua real

magestade queria metter uma grande manada de frades comilões e

ignorantes.

Nós não pensamos que _O Paiz_ seja o unico documento para a historia do

presente. Mas tambem não crêmos que a historia do absolutismo esteja nas

_Gazetas_ e _Relações_ de Fr. Francisco Brandão, nem nos _Mercurios_ de

Sousa de Macedo, nem nas estupendas orações jaculatorias dos fidalgos

tolos que constituiam a maioria da academia de historia, nem nas gazetas

de Montarroio e dos seus successores até o divertidissimo Lopes. Estae

certos de que o presente ou o futuro ha de estudar essas epochas

saudosas por bem diversos monumentos.

Houve um frade, membro illustre da ordem monastica mais respeitavel, da

que só talvez era respeitavel, a benedictina, que escreveu a historia

secreta e sincera dos reinados de Affonso VI e de Pedro II. Deveis

conhecel-a porque sois eruditos. Colligi todas as prostituições, todas

as villanias, todas as ladroeiras, todas as anarchias, todas as

cobardias, todas as infamias dos ultimos dezoito annos, e comparae-as

com as descriptas pelo secretario geral da congregação de S. Bento, e

depois com as dos dous livros horriveis da _catastrophe_ e da

_anti-catastrophe_, e dizei-nos quantos annos de desordem moral e

material serão ainda precisos, para formalisar uma conta corrente entre

a epocha liberal e esse pequeno periodo das eras do absolutismo?

Sois singularmente esquecidos!

Dizei-nos uma coisa. Estes homens chamados liberaes, que nos teem

roubado, mal-governado, ludibriado, traído, quem os viu nascer, quem os

educou, quem os fez homens publicos? Foi o governo liberal que creou

essa alcatéa de velhacos e salteadores? É muito moderno para isso. Longe

de nós citar nomes. Mas se os podessemos citar vêl-os-ieis approvados

era costumes e sciencia pela vossa velha universidade, despachados pelo

vosso desembargo do paço, empregados pelos vossos ministros e pela vossa

regencia nos cargos de administração e fazenda; promovidos aos postos

militares pela vossa côrte beata; recompensados com distincções

honorificas e lucrativas pelos vossos virtuosos e pios governos. Que tem

a geração nova, fervorosa nas suas crenças, ardente nas suas esperanças,

pundonorosa nos seus sentimentos, com essas fézes que ainda escorrem

sobre nós, da sentina do absolutismo?

N'este campo do jornalismo sabeis que differença ha entre nós e vós. É a

que provém da indole dos respectivos partidos. Nós combatemos com as

armas francas e leaes da sinceridade: vós com as armas, que crémos não

tomastes por vossa vontade, mas que eram as unicas que o vosso partido

vos podia subministrar, e que o deshonram mais a elle do que a vós;

combateis com as armas atraiçoadas da falta de sinceridade e de

franqueza. A imprensa independente e liberal accusa os seus homens

publicos sem disfarce, aponta francamente os defeitos das suas leis,

reforma as suas opiniões erradas, reprova os proprios actos quando,

reflectindo melhor, julga que errou; porque o partido dos impios

reconhece que é composto de homens sujeitos aos erros e paixões. Vós,

partido devoto e temente a Deus, bateis-vos debaixo dos escapularios,

dos bentinhos, das camandulas, dos agnus-dei: corações mais fidalgos,

sentis que estaes e sempre estivestes acima das fragilidades humanas: o

absolutismo e os seus desembargadores, inquisidores, esbirros e

carrascos, eram impeccaveis, omniscientes, infalliveis. Se o diabo

tivesse sido alguma vez capitão-mór, geral dos bernardos, alguazil,

monsenhor, intendente da policia, declaraveis o diabo um sancto

benemerito da monarchia.

Nas vossas instituições, nas vossas leis, nas vossas crenças, ou antes

nas vossas farças politicas e religiosas, nada ha que deitar fóra, desde

as sandices das côrtes de Lamego até ás ourinas de côres com que ha

poucos annos querieis inventar uma sancta de carne e osso, para metter

pelo chão abaixo os socarrões d'este seculo blasphemo, sancta que os

malvados maçons, professores e facultativos do hospital de S. José,

tiveram a insolencia de demonstrar que não passava de um mísero

instrumento das imposturas do beaterio e dos negociantes e pregoeiros da

tyrannia.

Vós negaes-nos o direito de denominar liberrimas as tradições de D.

Pedro, porque os decretos com que elle libertou a sua patria dos

comilões e mandriões ao divino e ao profano, que devoravam o fructo do

suor do povo, que lhe bebiam o sangue por taças de prata, assentados nos

antros escuros da hypocrisia, reclinados no collo de mulheres perdidas,

foram promulgados na epocha em que elle exercia a dictadura, em que,

empenhado n'uma lucta de morte com o despotismo, que se erguia tenebroso

e desesperado para a ultima e decisiva batalha, fizera o que sempre

practicaram os chefes dos povos, quer nas monarchias, quer nas

republicas, em circumstancias analogas; negaes o liberrimo d'essas

tradições porque D. Pedro concentrava em si todos os poderes? Essa

negativa vinda de outra parte dava materia á discussão: da vossa é uma

cousa ridicula. Podeis, estribados nos solidos fundamentos das côrtes de

Lamego, negar a legitimidade de D. Pedro; mas suppor que, como rei que

fôra, como representante de sua filha, como seu logar-tenente, como seu

tutor e protector natural, não podia temporariamente evocar a si uma

auctoridade, de que, segundo as vossas doutrinas, tinham tido direito de

usar permanentemente os seus predecessores, é uma d'aquellas finuras da

logica realista que vós inventastes para divertimento d'esta terra.

Dizei-nos: d'onde veiu a legitimidade das leis e actos governativos de

D. João VI, como principe regente, quando ainda não era rei de Portugal

e sendo viva a legitima soberana, posto que impossibilitada de exercer a

suprema magistratura? Onde estão as actas dos tres-estados que lhe

conferiram o poder absoluto de legislador? Onde as actas dos

tres-estados que deram a um principe, que respeitamos porque é

desgraçado e proscripto, o direito de usar na abrilada de poderes

magestaticos, estando o soberano vivo? A necessidade? A salvação

publica? Então concedei-nos tambem a nós o direito de vermos a

necessidade e a salvação publica, na dictadura de D. Pedro.

O liberrimo das tradições do duque de Bragança, não está na origem da

sua auctoridade; está no espirito e nas tendencias d'esses decretos com

que a posteridade lhe tecerá a sua corôa de gloria. Está em ter desfeito

e atirado para a feira da ladra, os instrumentos carunchosos e sebentos,

com que os phlebotomistas da monarchia absoluta, sugavam a melhor parte

e a mais pura, da substancia dos que trabalham; está em ter rasgado a

trapagem de instituições e leis espoliadoras, por cujo restabelecimento

os velhos sybaritas do partido realista, aquelles que choram pelas

grossas commendas e grossas prebendas, iam ha annos fazer preces ao céu,

junto do leito da sua sancta improvisada. O liberrimo dos decretos da

dictadura de D. Pedro, consiste em serem esses os látegos com que

sacudimos os vendilhões do templo, e enxotámos das vias publicas os

salteadores legaes; consiste em serem elles que tornaram impossivel uma

restauração absolutista; porque o absolutismo, que só se firmava em

abusos, não teria hoje em que se estribar. Os capitães-móres, os

dizimos, os frades, as bruxas, as milicias, os quartos, os oitavos, as

jugadas, a patriarchal, os lobis-homens, as cortes de Lamego, as alçadas

_ad hoc_, os tractos espertos, a legitimidade dos adulterios

desembargatorios, foram-se. Foram-se, pobres comilões das commendas e

prebendas, todas as coisas poeticas e sanctas, cuja irreparavel perda

deploraes, accesos em sancto amor da monarchia e da religião de nossos

antepassados.

Sois imprudentes! Porque falámos na extincção dos tributos foraleiros,

como de um dos actos capitaes da dictadura de D. Pedro, como de uma

providencia que por si só faria a gloria de um principe, redarguis-nos

com a miseria de muitas familias nobres, que ficaram privadas de

subsistencia pelo decreto de 13 de agosto.

Quereis um excellente conselho para essas familias nobres? Trabalhem. É

exactamente o que fazem os homens do povo quando teem fome: é

exactamente o que Deus ordenava que Adão fizesse, se queria comer, e

posto que a fidalguia não provenha d'esse primeiro tronco das castas

populares, aquelle exemplo biblico não é absolutamente para despresar.

Depois a queixa é mal fundada. A lei de junho de 1846, remediou até onde

era possivel o escandalo de que vos queixaes. Essa lei perfilhae-a, que

é conforme no seu pensamento ás vossas aspirações. Escandalo! Tão

escandalo como seria o de colher a policia um bando de salteadores na

sua caverna, tirar-lhes a preza já dividida entre elles, e restituil-a

aos passageiros nús, famélicos, espoliados.

A historia d'esses tributos, da sua conservação ao lado dos tributos

geraes do paiz, da sua delapidação, apesar dos protestos solemnes dos

povos, repetidos por seculos nas assembléas nacionaes, em quanto o

absolutismo não esmagou as antigas liberdades d'esta terra, é que é um

d'aquelles escandalos que ás vezes as nações apagam com sangue, quando

os principes não sabem como D. Pedro, riscal-os com o _traço de penna_

que amaldiçoaes.

Quando quizerdes que vos desenhemos aquella negra historia em largos

traços de penna, far-vol-o-hemos, ajuntando-lhe ao lado um quadro das

façanhas d'essa nobreza, cuja sorte lamentaes. Estae certos de que a

sapiencia realista ha de scismar alguns dias, antes de vos tirar das

aperturas da situação em que viestes collocar-vos. Tendes discutido

tanto o presente, que é preciso discutir-vos tambem o passado.

Não quereis que falemos da liberdade da terra, porque não falamos dos

_bens usurpados á egreja_. A que bens vos referís? Aos das congregações

religiosas? Dizei-nos: 1.^o, se ellas possuiam esses bens em virtude das

leis, se por derogações especiaes d'ellas; 2.^o, se o poder temporal

podia ou não recusar a conservação das corporações monasticas; 3.^o, se

extinctas ellas, os seus bens, possuidos em contradicção com as leis de

amortisação, caíam ou não no dominio do estado. Pensae um pouco antes de

responder. Vêde não estragueis as doutrinas dos bons tempos que já lá

vão.

Perdoae-nos: mas quando alludís aos pescadores, argumentaes com todo o

mimo e garbo da dialectica monsenhora, miliciana e dizimeira. Sois de má

fé tão exemplar, que merecieis ser feitos abbades de Lobrigos, antes

d'essa abbadia de trinta mil cruzados ser chamada á muxila por uma das

nobres familias, cobertas hoje de lucto, por verem os rombos que os

impios e demagogos fizeram no throno e no altar. Redarguis-nos que

apezar das liberdades e excepções que D. Pedro concedeu á pesca, os

pescadores andam a mendigar. Pois não era d'isso que nós nos

queixavamos? Não era justamente por ter o pseudo-cartismo de 1842 matado

a liberdade cartista de 1832, que nós bradavamos _aqui d'el-rei_?

Quereis, porém, saber um facto curioso? Quando os Cabraes, pela lei de

10 de julho de 1843, restabeleceram os vexames de que D. Pedro libertara

a pesca, estribaram-se n'uma lei miguelista de 1830. Foi d'esta lei que

partiram, foi esta lei que invocaram, ligando o absolutismo de 1842 ao

de 1828, o systema espoliador antigo ao systema espoliador recente.

Andae, que n'esta parte os Cabraes são vossos primogenitos, e por isso

não admireis que os pescadores mendiguem: é o mesmo que succedia antes

da odiosa dictadura de D. Pedro, quando estes iam a Queluz, aos duzentos

e trezentos, pedir esmola ao snr. D. Miguel.

Não consentís que folguemos da extincção dos dizimos, porque o clero

está na miseria e o systema actual de retribuição aos parochos é

inconveniente. N'este ultimo ponto estamos de acordo. Mas ahi tendes a

differenca entre a nossa lealdade e a má fé realista. Nós não nos

envergonhamos de dizer que os liberaes erraram em querer que os parochos

fossem directamente subsidiados pelos seus parochianos, e que os

resultados moraes e religiosos de um tal systema são máus; não hesitamos

em proclamar a reforma, em accusar duramente os governos que não a

emprehendem. Vós, pelo contrario, quereis remediar o inconveniente com

um mal maior, só porque os dizimos coexistiram com o absolutismo. Que

vos importa que nove decimos d'esse tributo absurdo, d'esse tributo

iniquo porque feria só uma classe, a classe mais digna de contemplação,

d'esse tributo anti-economico que recahia, não sobre o producto liquido,

mas sobre o producto bruto, fossem devorados por uma fidalguia safada e

corrompida, que só sabia arrastar-se e comer; e por bispos opulentos que

com os dizimos fundavam fartos patrimonios para todos os seus parentes,

por conegos devassos, por essa comedia ao divino, publica-fórma em

miniatura da egreja romana, chamada a patriarchal; por conventos de

frades gordos e ignorantes; por beneficíados _supplices_ e _in quocumque

statu_, por todos aquelles, e por tudo aquillo, emfim, que mais abusivo

era, que mais fóra estava do espirito do christianismo? Com que fronte

ousaes falar da miseria actual dos parochos? Nem ella é como a pintaes,

nem é toleravel que alludam a ella os defensores dos governos immoraes

que introduziram tão vergonhosos abusos, que consentiam aos padroeiros,

aos beneficiados, aos commendadores, aos conegos, que despendessem nos

banquetes, no luxo, no jogo, nos lupanares, o fructo dos suores do

lavrador, extorquido impiamente em nome de Deus, em quanto os curas de

alma só obtinham d'esses poderosos senhores, congruas de fabulosa

exiguidade.

Quereis um contracto? Temos meios de verificar quaes são as congruas

actuaes das diversas parochias do reino: tambem os temos para saber

quaes eram no tempo do absolutismo. Tomemos uma diocese qualquer, para

instituirmos a comparação entre uma e outra epocha. Se, na sua maioria,

as congruas actuaes forem inferiores ás antigas nas parochias

dizimeiras, tendes vós razão de nos accusardes de causadores da miseria

do clero curado, pela extincção dos dizimos; se porém se verificar o

contrario, haveis de acceitar a qualificação de hypocritas, pois

defendeis as instituições do passado não porque eram melhores, mas

porque rendiam mais para os agiotas do absolutismo, isto é, para os

fidalgos, para os commendadores, para os abbades nedios, para os

beneficiados _in quocumque_. Se nós fomos tão maus para o clero

aproveitae a nossa proposta. Olhae que é uma limpa veniaga.

Por ultimo increpaes-nos de que referindo-nos à suppressão do systema

vicioso das milicias e ordenanças, d'esse Potosi inexgotavel dos

capitães-móres e coroneis de _tibiquoque_, não nos lembrassemos dos

soldados, que verteram o sangue e perderam os membros ha quarenta annos

em defesa da patria, e que morreram de fome. Dirigis n'esta parte uma

increpação justa, não a nós, que não somos poder, que nunca o fomos, mas

aos governos posteriores á restauração de 1833. Todavia, que tem isso

com a extincção das ordenanças e milicias? A vossa dialectica realista

dá, na verdade, saltos mortaes. A nossa vae mais devagar. Se esses

soldados esquecidos perderam o sangue e os membros em defesa da patria,

ha quarenta annos, o esquecimento indigno dos seus serviços divide-se

por metade: vinte annos com curtos intervallos pertencem ao absolutismo,

vinte á restauração. Onde estão, absolutistas, registadas as pensões que

lhes déstes: onde é situado o hospital de invalidos que edificastes? O

unico que existe devem-no os veteranos portuguezes a uma nobre e sancta

princeza, á viuva do principe D. José, á _Tia Malhada_, que vós sabeis.

De edificações vossas não temos noticia, senão da continuação do palacio

da Ajuda, uma das primeiras necessidades do paiz, das forcas erectas na

praça nova do Porto e no caes do Sodré, de uns paredões em Carnaxide

para a egreja da Senhora da Rocha, e das formidaveis fortificações do

Tejo, com que tornastes Lisboa inconquistavel.

Talvez vos referis unicamente aos officiaes realistas separados do

quadro do exercito em 1834. Isto é mais natural, porque vós,

fidalguinhos, não curaes da soldadesca, peonagem indecente, vil relé

popular. Nós lamentamos tambem que os serviços d'esses antigos militares

se menoscabem por causa de odios politicos, que a victoria devia ter

feito esquecer. Como vós, estamos promptos para reprehender e accusar,

para deplorar e pedir; para execrar e amaldiçoar estes nossos satrapas

pseudo-liberaes, que deixam ir de porta em porta os velhos Belisarios de

Portugal. Mas, realistas, escondei sob as vossas capas de S. Ignacio

essas mãos tinctas em sangue, derrubae para o rosto o chapéu da

companhia, não vos descubram esse olhar implacavel! Entre os militares

que pendurastes das forcas; entre aquelles com que atulhastes as cadéas

e as masmorras das fortalezas, com que povoastes as praias do desterro e

os presidios de Africa, não havia nenhuns d'esses que verteram o sangue

em defeza da patria commum? Por que, durante cinco annos, mansos

cordeiros do evangelho, rosicléres ambulantes de veronicas e relicarios,

não vos veiu ao espirito um unico pensamento de perdão e de piedade?

Dizei-nos o que terieis feito de todos esses militares, se a providencia

tivesse deixado protrair-se até agora o vosso reinado? Eram para vós

inimigos politicos? É exactamente o que foram para nós os vossos

officiaes. Maldicto o liberal que ainda conserva rancores para os

vencidos: maldicto o governo que não lhes paga a divida da patria. Mas

que a justiça divina cáia tambem sobre aquelles que derramaram nos

patibulos o sangue dos valentes que já o tinham derramado por esta

terra; ou lhes fizeram verter durante cinco annos o suor da agonia sobre

as lageas dos calabouços, ou os tornaram errantes por praias estranhas,

onde lhes branquearam os cabellos as saudades da sua terra, onde teriam

acabado a vida, proscriptos e miseraveis, se o braço da Providencia e o

genio do duque de Bragança não os houveram salvado.

Collegas, deixae-vos d'estas questões de que não entendeis nada. Ide lêr

a vida do padre Anchieta, que decididamente é o sancto que fez mais

milagres n'este mundo, ou se preferis occupar-vos em outra obra pia, ide

ajudar os cabralistas a vender a bulla da sancta-cruzada, que elles

compraram a prazos, ao vosso virtuoso amigo o cardeal Antonelli. Será

uma vergonha que não haja dinheiro para o pagamento, quando elle sacar

letras sobre o escriptorio da salvação de Portugal.

II

Na viva discussão entre Proudhon e Bastiat, sobre o credito e a

legitimidade dos juros, este ultimo dizia ao seu irritado adversario na

carta com que terminou a discussão: «_Todos os gremios religiosos se

parecem uns com os outros: quando não teem razão, agoniam-se._» É o caso

da redacção da _Nação_ comnosco.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 07 · 第 4 / 13 段