Como epigraphe a elle faça-se uma advertencia. O maninho total de Cintra

abrange dez milhões de braças quadradas: os pedregaes aforados teem

quatrocentas e sessenta de comprido sobre cento e cincoenta de largo. A

mutilação é horrivel. Os requerentes declaram que esta área abrange uma

grande parte da serra.

Quando Sancho Pança, o aldeão manchego, se persuadiu de que subira às

solidões do espaço, e mirara das alturas o nosso planeta, disse que lhe

parecera a terra do tamanho de uma avellan, e os homens mais pequenos

que carneiros. O bom Sancho era um typo!

Pondera-se a escaceza de lenhas nos arredores da serra. Qual é o

remedio? É impedir que n'um angulo d'ella sejam semeados pinhaes ou se

façam plantios de outras arvores. O alvitre é infallivel e sobretudo

logico.

Na historia, na litteratura, nos documentos, achareis testemunhos

frequentes e irrecusaveis de um facto. Cintra foi por seculos a montanha

das selvas. Onde estão estas? Cahiram sob o machado da imprevidencia. Os

estevaes seguiram-nas. Agora revolve-se o chão para arrancar algumas

raizes. Que arrancarão as gerações futuras? Pedras? Christo converteu-as

em pão: mas os moradores d'aquelles contornos não teem absoluta certeza

de que seus filhos e netos serão capazes de maravilhas analogas: de as

converter em combustivel.

E que teem elles com seus filhos e netos? Elles que pertencem a uma

epocha profundamente caracterisada pelo egoismo?

No requerimento figuram os operarios indo ao domingo buscar lenha á

serra, por não poderem dispensar um dia de semana para esse mister, o

que prova evidentemente não ser licito aforar sessenta e tantas mil

braças quadradas de terreno n'um baldio de dez milhões d'ellas.

Depois, os mesmos trabalhadores apparecem de mãos cruzadas por falta de

trabalho, mandando os filhos arrancar matto para viverem, prova de egual

força e de uma concordancia admiravel com a antecedente. Estes

jornaleiros, occupados e desoccupados, são pobres e miseraveis que

possuem ovelhas, vaccas, eguas, etc., situação na verdade só comparavel

à dos operarios de Bethnal-Green, symbolo e resumo da miseria industrial

ingleza. Por fim invocam-se as leis; leis modificadas pela

jurisprudencia administrativa moderna; leis promulgadas em epochas, nas

quaes ou eram desconhecidos os verdadeiros principios de economia

agricola, ou estes eram ignorados pelos legisladores; leis que, se o uso

não houvesse obliterado uma grande parte das suas disposições, iriam

lançar nas garras do fisco muitos d'esses tractos de cultura chamados

vulgarmente _tomadas_, que se encontram hoje onde só existiam, ha um ou

meio seculo, extensos maninhos, e em cujo aforamento os homens

laboriosos que os desbravaram se viram sempre combatidos pelo ciume do

vulgo, que não pode tolerar irem-lhe encurtando os dominios da

indolencia, romperem-lhe um só lanço da barreira mais forte, que se

oppõe ao verdadeiro progresso agricola.

Isto não se discute. Pelo menos a nós fallecenos o animo para tanto.

Como demonstrar que dous e dous são quatro a quem quer que sejam cinco?

Deploramos o abandono em que se deixa a intelligencia do povo:

deploramos que a classe media, que tem a força porque está organisada;

que tem a força porque possue a riqueza; que tem a força porque é

illustrada, não vote uma parte dos seus recursos a allumiar os rudes, os

homens de trabalho, que são seus irmãos, e que teem direito não só ao

pão do corpo mas ao do espirito, ou antes que sem este não chegarão

nunca a minorar as difficuldades com que luctam para obter aquelle, nem

a rodear-se dos confortos que são compativeis com a sua condição.

Deploramos, sobre tudo, o talento naturalmente nobre quando sacrifica ás

conveniencias transitorias verdades que, em outra situação, proclamaria

sem hesitar; deploramol-o n'esses momentos aziágos, em que se esquece de

elevar-se acima das antipathias ou sympathias pessoaes. Quando se tem um

passado de independencia e de probidade politica, é generoso não

vacillar ante a viciosa vergonha de fazer justiça aos que se crêem

poderosos, embora essa justiça haja de remontar até um rei.

A questão dos maninhos de Cintra é a questão perpétua dos pastos

communs, que tem agitado todos os paizes, e que em toda a parte está

resolvida em theoria e em practica, menos na Peninsula. Submettida essa

questão ás discussões da imprensa, mal haveria intelligencia que não

vergasse na tentativa de defender o baldio; o baldio no que elle tem de

mais nocivo e absurdo. Confundiram-se idéas que importa distinguir;

estabeleceram-se proposições que julgamos contrarias ao melhoramento da

agricultura, inconvenientes ao bem estar futuro do homem de trabalho,

aos seus interesses reaes. Persuadidos de que as nossas opiniões na

questão geral, que ess'outra particular veio suscitar, podem ser uteis,

accrescentaremos n'um subsequente artigo[1] algumas reflexões sobre a

distribuição e applicação dos maninhos.

A GRANJA DO CALHARIZ

1851

Este nosso Portugal que em tantas cousas é uma terra de maravilhas,

maravilhas na verdade bem tristes ás vezes, offerece uma das não menos

curiosas na primeira, na mais grave questão de progresso material que se

pode agitar entre qualquer povo, e sobretudo entre nós. Falo da questão

das reformas agricolas. É rara a semana em que não se tracta na imprensa

litteraria, e ainda na imprensa politica, um ou outro ponto da arte ou

sciencia de cultivar, considerada debaixo d'este ou d'aquelle aspecto.

Escriptos ha no meio de tantas publicações que estão revelando em seus

auctores vastidão de conhecimentos theoricos; poucos onde se exponham e

discutam os systemas de agricultar nacionaes, que nem todos, nem em tudo

são maus; raros onde se nos mostrem verificadas pela practica propria as

doutrinas dos livros estranhos. Entretanto é incontestavel que se

escreve muito ácêrca da agricultura, e traduz-se ainda muito mais. Mas

quando se forceja tanto por espalhar _novas_, e, talvez no maior numero

de casos, _melhores_ doutrinas entre os agricultores, quando todos falam

na creação de granjas experimentaes; quando os proprios lavradores e

pessoas affeiçoadas ás cousas do campo já pensam, até, em formar

associações, não para agiotar com a agricultura, mas para discutir as

reformas rasoaveis, que se pódem tentar, não é admiravel que exista no

paiz, a cinco leguas da capital, uma granja modelo dirigida por um

cultivador habil theorico e distincto practico, o snr. Gagliardi, sem

que os homens competentes annunciem esta boa nova, sem que, visitando

uma e muitas vezes aquelle magnifico estabelecimento, dêem conta aos

interessados n'estas questões dos factos que ahi observaram, dos

resultados das innovações ahi levadas a effeito? Em vez de

subministrarem aos cultivadores portuguezes as razões scientificas,

(para a maior parte d'elles inintelligiveis) pelas quaes se lhes

aconselham como preferiveis taes systemas, taes methodos ou taes

especies de cultura, não seria melhor, mais perceptivel para todos pôr

ao lado da regra o exemplo, ao lado da theoria o facto, mas o facto

positivo, concludente, irrecusavel, porque é d'esta terra, está aqui,

onde todos o pódem verificar? Não valeria isto tanto como as mais uteis

paginas de Thaer, de Dombasle, ou de Gasparin, bem ou mal traduzidas,

bem ou mal soldadas, mas quasi sempre obscuras para uma população rural

pouco illustrada na sua generalidade? A mim parece-me que similhante

trabalho, emprehendido pelos homens profissionaes, seria um dos

melhores, talvez o melhor serviço que poderiam fazer ao adiantamento

agricola de Portugal. Quem sae de Lisboa e fala com lavradores,

d'aquelles mesmos que são instruidos, sabe que a repugnancia a alterar

os systemas de longos annos seguidos no paiz é geral. Esta repugnancia,

contra a qual tanto se tem escripto, não é nem um capricho estolido, nem

unicamente afferro irreflectido ás usanças do passado. Nasce em boa

parte de causas legitimas. O agricultor vive da sua industria: um erro,

uma experiencia com mau resultado, uma confiança desacautelada em

qualquer theoria erronea, que se lhe inculque n'um livro ou n'um jornal,

não tem para elle por consequencia unica uma mortificação de amor

proprio: leva-lhe o pão que ha de comer; leva-lhe o pão de seus filhos.

A natureza é tão implacavel como as antigas leis do talião e da

revindicta: em agricultura, quem comette erros paga-os. Os agronomos que

tanto bradam contra os preceitos inveterados, e que até certo ponto e em

certos casos teem razão, deviam reflectir n'isto. Depois, crê-se que

todos os nossos cultivadores hão sido surdos á voz da imprensa? Não, por

certo. Tem-se adoptado, não um, mas cem, mas mil conselhos dados por

ella. Foram, porém, bons todos esses conselhos? Tambem não, por certo. É

necessario confessar que muitas vezes se tem discursado em materias

agronomicas sem consciencia, e que muitas mais o camponez tem sido

illudido pelos escriptores, illudidos tambem pelos livros de fóra,

feitos para outros climas, para dirigir os amanhos de propriedades

rusticas diversamente constituidas, e cujo systema de cultivação é

determinado por differentes circumstancias economicas, como procura de

productos variados, facilidade de transporte, abundancia de mercados,

preço do trabalho, frequencia de capitaes disponiveis, etc. Essas

illusões são fataes. O cultivador, que, movido pelas decisivas

doutrinas, pelas promessas magnificas, pelas invectivas acerbas do

jornal ou do livro que lhe chegou ás mãos, tentou em certa escala, na fé

da _letra redonda_, uma revolução no seu systema de agricultar, e que

tira em resultado d'isso uma perda irreparavel, pragueja contra a

sciencia por culpa da insciencia, e fecha-lhe para sempre a porta.

Depois não teem faltado enthusiastas, que, arrastados pela poesia

bucolica, não rara em muitos livros de agricultura, e deslumbrados como

o Triptolemo de Walter-Scott pelas dissertações dos Columellas e Varrões

modernos, se arrojam impetuosos á conquista de descommunaes riquezas,

que se lhes promettem, olhando com soberano desprezo os methodos mais

sensatos dos seus visinhos, mudam tudo, revolvem tudo, gritam contra a

_rotina_, e os _rotineiros_ e obtêm no fim de trez ou quatro annos uma

gloriosa... mendicidade. Estes exemplos (e prouvera a Deus que, de

quinze annos a esta parte, elles fossem apenas cinco ou dez ou vinte)

ainda são mais fataes. Aquelle espectaculo aterrador, aquelle fructo

amargo do estonteamento e da imprudencia é para os animos atemorisados a

condemnacão irrevogavel de toda a sciencia, de todo o progresso. E, á

vista dos factos, ao menos considerados superficialmente, como os

consideram em geral os habitantes do campo, podemos acaso negar que

esses a quem se dá desdenhosamente a alcunha franceza de _rotineiros_,

teem até certo ponto razão?

D'aqui a necessidade absoluta de espectaculos, de exemplos contrarios:

d'aqui a necessidade extrema de estribar a doutrina escripta com a penna

na doutrina escripta com a charrua, com a enchada e com o alvião. Não

seria bom que se usasse de uma reserva prudente em propagar a parte

especulativa e sobretudo os requintes da sciencia, cuja utilidade é

contestavel ainda em paizes mais adiantados, emquanto essa parte não

estiver confirmada entre nós pela apreciação practica em maior ou menor

escala? Parece-me que sim.

E todavia, repito, tal apreciação, feita já sobre muitas questões

agronomicas na vasta propriedade de Calhariz, é desconhecida do publico.

Alguns curiosos, alguns lavradores, alguns agronomos teem visitado

aquelle estabelecimento, que talvez já podemos chamar o nosso instituto

de Grignon ou de Roville, e que decerto lh'o poderiamos chamar dentro de

quatro annos, se a morte não houvera privado este paiz de um animo

grandioso e amigo do progresso da patria, o defuncto duque de Palmella.

Mas esses curiosos, esses lavradores, esses agronomos teem-se contentado

com uma admiração esteril. Se procederam a inqueritos severos sobre os

resultados das diversas culturas experimentadas n'aquelle

estabelecimento, sobre machinas, adubos, rotações, sobre todas as

cousas, em summa, de que dependem os bons ou os maus systemas de

agricultar; se mais que tudo, em cada genero de cultura compararam o

custo com o valor venal do producto, que é a suprema questão agricola,

não o sei eu; mas é certo que até agora nada se publicou a este respeito

que eu saiba. E comtudo, o fazel-o seria mais util do que repetir

opiniões peregrinas, sem sancção de experiencia, e quem sabe se

accommodadas sempre a este solo e a este clima?

Eu não posso fazel-o: sou n'estas materias um curioso. Faltam-me os

elementos scientificos para ser agronomo. A direcção dos meus estudos

foi outra. Amo, porém, ardentemente o progresso moral e material da

terra em que nasci; e vejo que elle deve sobretudo vir do

desenvolvimento da agricultura, da solução racional das questões

scientificas, economicas, e até juridicas e politicas que pódem ter

relação com a primeira das industrias, primeira em todos os paizes, mas

que entre nós está immensamente acima de quaesquer outras, e praza a

Deus que o esteja sempre. É por isso que escrevo isto, não como

desempenho do dever que incumbe a outros, mas como incitamento aos mais

habeis. Faço-o tambem para practicar um acto de justiça. Emquanto a

imprensa, durante quinze annos, clamou debalde aos governos a favor dos

institutos agricolas, sem os quaes está demonstrado até á saciedade que

não haverá progresso real na maxima industria portugueza, um simples

particular tentava com sacrificio de avultados cabedaes uma empreza que

os governos não ousavam tentar, ou que esqueciam, enlevados na

edificação de theatros, de jardins, de praças, de monumentos, em

manifestações luxuarias, indispensaveis para provarmos ao mundo que

nadamos em ouro, e para darmos sabida á superabundancia dos lucros dos

nossos quasi unicos contribuintes, os cultivadores, que não saberiam a

que applicar o seu immenso superfluo, se o tributo os não alliviasse

d'elle para comprarmos esse luxo das creanças barbadas da inclita

Lisboa. Faço-o, digo, porque a imprensa devia á memória do fallecido

duque de Palmella um testemunho de gratidão pela sua nobre devoção á

patria, devoção que só com o decurso do tempo podia ser apreciada

devidamente; porque era practicada sem ostentação nem ruido.

Este testemunho, que eu me atrevo a dar em nome do paiz, é insuspeito.

Nunca procurei a intimidade do duque, nunca traduzi em convites para a

acceitar os signaes de benevolencia, a distincção immerecida com que

sempre me tractou, quer em publico quer em particular, quando

casualmente nos encontravamos. Confesso mais: pensava mal d'elle em

muitas coisas; tinha-lhe esta especie de antipathia inoffensiva que

tenho á maior parte dos homens politicos do nosso paiz. Nem na emigração

nem na patria fui nunca isso a que se chamava _ser palmellista_. Começo

a sel-o desde que visitei o Calhariz; desde que examinei o que alli se

tem feito, e sobretudo desde que vi a correspondencia do duque com o

snr. Gagliardi, correspondencia que não era destinada, que não podia

sel-o, a vêr a luz publica. O desapego do ouro para ordenar experiencias

custosas, de resultado incerto, e a que elle punha uma só condição, a

_de poderem redundar em proveito do paiz_, é evidente n'essas cartas,

que corrigiram as minhas ideas ácêrca do homem que as escreveu.

Dou graças a Deus de ter visitado tão tarde a granja do Calhariz. Hoje

as minhas palavras vão murmurar sobre um tumulo, em volta de pobres

cinzas, que não teem poder para a recompensa e nem sequer voz para o

agradecimento. N'este seculo de grandes corrupções falta muitas vezes

esforço para fazer justiça, quando se pode suspeitar de venalidade ou

lisonja o que não passa de um tributo de admiração legitima.

PROJECTO DE DECRETO

1851

Senhora!

O alvo do presente projecto de decreto é abrir o caminho ao homem de

trabalho para o goso puro e legitimo que nasce do sentimento de

propriedade, pôr-lhe nas mãos o mais efficaz, o mais seguro instrumento

de prosperidade, a terra, habilital-o, emfim, para sem temor do futuro

acceitar as doçuras e os encargos de chefe de familia, facilitando-se

assim um desenvolvimento vigoroso de população.

Senhora! No meio d'este grande lavor de transformação social em que a

Europa se debate, a braços com as ideas tempestuosas que agitam os

espiritos e com os males economicos que a devoram, e que, se não

legitimam as ideas de reformas absurdas, legitimam pela sanctidade de

uma agonia profunda a agitação das classes laboriosas, o povo tem dado

mais de uma vez documentos de ferocidade e bruteza repugnantes e

terriveis. Em mais de um paiz o proletariado sempre crescente, ruge de

contínuo ameaças contra a paz e ordem publicas e contra a patria, porque

o pobre não sabe o que é patria, não a ama, ou antes não a tem, visto

que não ha um forte laço moral que o ligue a ella por affectos ou por

esperanças. É n'estes corações chagados que alguns espiritos ardentes

illudidos e fanatisados pela propria imaginação, e ao mesmo tempo muitos

especuladores ambiciosos instillam theorias destructoras da sociedade,

que tendem a lançar as multidões n'um cháos de desordem, em que a

propriedade e a familia sejam completamente annulladas.

Em Portugal, Senhora, o atrazo industrial do paiz, a sua civilisação

comparativamente pequena, são garantias contra os graves perigos que

rodeam outras sociedades onde a condição das classes pobres é

incomparavelmente peior, porque o capital abuza da sua força immensa

para as opprimir. Mas cumprirá acaso que para nos premunirmos contra os

riscos do futuro fechemos a porta á civilisação? Não romperia quaesquer

diques esse oceano de progresso que invade todas as regiões do velho e

do novo mundo? O augmento da industria fabril, a concorrencia, mil

factos economicos nascidos mais da natureza das cousas, que da vontade

dos homens, teem trazido essa collisão fatal entre o que possue e o que

não possue, entre o trabalho e o capital, collisão que forma hoje o

supremo, o tremendo problema politico e social das nações mais

adiantadas. Deixariamos por isso de proteger a nossa industria fabril;

combateriamos a concorrencia, esse maximo incentivo da actividade

humana; annullariamos as consequencias de certos factos que d'ahi

nascem? Deveriamos, ou poderiamos fazel-o? Seria preciso negar a

liberdade individual, contrariar os principios politicos e economicos

mais incontestaveis e voltar, como pretendem alguns espiritos fracos,

aterrados pelas manifestações das classes laboriosas, á theocracia ou ao

feudalismo dos seculos de barbaria, para adoptarmos prevenções de

similhante natureza.

Que ha, pois, a fazer? Encarar com frieza o futuro, estudar as

complicadas causas que trouxeram gradualmente a esta penosa situação uma

grande parte da Europa, e evitar o perigo, sem entrar em um combate

desigual com a civilisação cuja victoria final é sempre certa. Complexas

e variadas em si, essas causas enfraquecem-se por diversas maneiras;

previnam-se os seus desastrados effeitos com medidas adequadas;

aproveitem-se para isso as custosas experiencias dos outros povos, de

modo que nem as consequencias das phases economicas sejam tão fataes,

nem venham tão rapidas que criem embaraços insoluveis. As nações mais

atrazadas teem, na falta de outras vantagens, a de saber com antecipação

as difficuldades prácticas do progresso material e de poderem proceder

com prudencia.

Quem observar, Senhora, a marcha de certas ideas de desorganisação,

ha-de notar que ellas predominam onde ou a industria fabril tem

accumulado em breves limites populações numerosas de obreiros, que

possuem apsnas o salario de um trabalho mal retribuido, ou onde a terra

pouquissimo dividida ou cultivada transitoriamente por colonos

oppressos, não consente ao homem do povo o sentimento da propriedade. Em

todos os paizes os districtos mais pacificos e onde as classes

inferiores não pensam em dissolver a sociedade são os districtos ruraes,

e sobretudo aquelles onde o solo retalhado e possuido com segurança

pelos pequenos cultivadores, tem creado para elles uma patria; porque a

patria para as comprehensões vulgares e rudes e até certo ponto para

outras mais elevadas, é o logar restricto a que as prendem os

interesses, o longo habito e os affectos profundos, que só a familia e a

propriedade sabem inspirar.

Favoreçamos a industria fabril, porque ella é uma necessidade da epocha

e da civilisação; mas forcejemos ainda mais por desenvolver a população

agricola, que subministrará a essa industria, no seu excedente, braços

robustos, organisações cheias de seiva e de vida. Façamos caminhar de

frente as duas industrias; porque cada uma d'ellas é a grande

consumidora dos productos da outra; mas procuremos sobretudo dilatar o

espirito de familia e o amor da propriedade pela agricultura. O que

rodeou com sebes um campo, o que o roteou e semeou pelas proprias mãos e

pelas mãos de sua mulher e de seus filhos, será forçosamente um homem de

paz, um defensor da ordem publica. As revoluções sociaes podem

comprimir-se com o ferro; mas só se ferem de morte quando se removem as

suas causas reaes, e se faz sentir practicamente ao povo que as

exaggerações dos estouvados ou dos ambiciosos, são falsas ou ridiculas.

Não é necessario, Senhora, dizer que a presente proposta de decreto terá

dous resultados principaes: levar a cultura a uma grande porção de

terrenos incultos, e fomentar poderosamente a divisão da propriedade.

Basta lêl-a para se ver que n'ella predomina esse pensamento. Mas

presidiram á sua elaboração tantas outras considerações de conveniencia

publica e de progresso material e moral, que os ministros de V.

Magestade teem por dever seu explanal-as, para que seja possivel avaliar

se elles comprehenderam ou não, n'esta parte, as maternaes intenções e

os vivos desejos de V. Magestade, em tudo o que respeita a futura

prosperidade do paiz.

Adoptando o principio geral de libertar temporariamente dos tributos

directos os tractos de terra inculta que se arroteassem, o governo

procurou tornal-o verdadeiramente util e prolifico, modificando-o por

condições essenciaes. A divisão do solo pela emphyteuse, e a preferencia

de protecção dada a certas culturas, são no entender do governo as

provisões mais importantes do decreto sob este ponto de vista.

Considerado em relação ao Estado esse principio tem a vantagem de

produzir o bem sem gravame do thesouro. Os maninhos que se desbravarem,

não offerecem actualmente materia tributavel: reduz-se, portanto, tudo a

suppor que esta situação, que aliás só pode acabar rapidamente por meio

de exempções valiosas, continua em relação ao imposto directo a

subsistir por um periodo maior ou menor, segundo a categoria da cultura

a que for destinado este ou aquelle terreno. Em relação, porém, ao

imposto indirecto é obvio que o augmento de producção e consumo, effeito

necessario da lei, trará desde logo por esse lado um accrescimo

progressivo da renda publica.

A emphyteuse, favorecida por este decreto é, não só um grande meio para

facilitar a applicação do capital á terra, porque não sendo necessário

applical-o á acquisição antecipada, digamos assim, da materia prima,

pode operar em maior escala sobre a producção, mas tambem, e

principalmente pela sua tendencia natural a tornar-se parcellaria, como

effeito da maior protecção que a esta sua modalidade a lei concede, o

instrumento mais poderoso que se pode empregar para trazer o

proletariado á propriedade, e que portanto produzirá todos os resultados

politicos e moraes cujo influxo benefico na paz futura do paiz, não pode

ser duvidoso para a alta penetração de V. Magestade.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 07 · 第 2 / 13 段