As plantas que constituem estes prados, tanto regados como s

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Tejo and edited by Rita Farinha (Biblioteca Nacional

Digital--http://bnd.bn.pt).

OPUSCULOS

*OPUSCULOS*

POR

A. HERCULANO

SOCIO DE MERITO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE LISBOA

SOCIO ESTRANGEIRO DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE BAVIERA

SOCIO CORRESPONDENTE DA R. ACADEMIA DA HISTORIA DE MADRID DO INSTITUTO

DE FRANÇA (ACADEMIA DAS INSCRIPÇÕES) DA ACADEMIA R. DAS SCIENCIAS DE

TURIM DA SOCIEDADE HISTORICA DE NOVA-YORK, ETC.

*TOMO VII*

*QUESTÕES PUBLICAS*

TOMO IV

1.^a EDIÇÃO

LISBOA

TAVARES CARDOSO & IRMÃO--EDITORES

_5, Largo de Camões, 6

1898

Typ. da Empreza Litteraria e Typographica

Rua de D. Pedro, 184--Porto

ADVERTENCIA

O inedito em forma de projecto de decreto insérto n'este volume com a

data de 1851, e de certo modo os estudos que o volume encerra relativos

ao concelho de Belem, relacionam-se com factos pouco conhecidos da vida

do auctor, e por isso expomos sobre elles os seguintes esclarecimentos

para sua melhor intelligencia. Em 1851 combinara A. Herculano collaborar

com o ministerio que subiu ao poder em 23 de maio d'esse anno, em um

vasto plano de reformas destinadas a melhorar o estado economico,

politico e administrativo do nosso paiz. Com esse proposito se prestou a

entrar em varias commissões não remuneradas para que foi nomeado,

entregando-se desde logo á sua patriotica empresa. Mas este pacto tão

esperançoso para o paiz, apenas pôde manter-se por alguns dias, antes da

recomposição ministerial de 7 de julho do mesmo anno, cessando de todo

quando ella occorreu. Dos trabalhos de que o historiador se encarregara

e em que n'aquelle breve espaço de tempo pozera mão, ainda por morte

d'elle se conservavam nas suas pastas apontamentos e manuscriptos em

diversos estados de desenvolvimento; e foi entre esses vestigios de um

formoso sonho patriotico, que achamos aquelle projecto que, pela materia

de que tracta, nos pareceu dever ser incluido no presente volume. Com

esse projecto pretendia A. Herculano promover em grande escala a cultura

dos nossos terrenos maninhos, especialmente a dos que eram vinculados,

facultando a alienação do dominio util d'estes ultimos, por meio de

emphyteuse, e interessando na acquisição d'elles o povo do campo e na

cessão os administradores de vinculos. No preambulo, como o

apresentâmos, faltam algumas considerações com que o auctor o precedeu

ácerca do alcance economico dos decretos dictatoriaes de D. Pedro IV,

pois que do respectivo manuscripto apenas apurámos fragmentos truncados;

mas a omissão não o prejudica quer na redacção quer na doutrina, quanto

ao seu essencial objectivo, sendo certo que o assumpto de taes

considerações está largamente tractado pelo auctor no seu estudo sobre

vinculos publicado no vol. IV d'esta collecção. Com o conhecimento

d'este estudo facil nos foi deduzir da leitura de um dos referidos

fragmentos, que A. Herculano attribuia ao seu projecto a vantagem de

poder obstar a que os maninhos que se tornassem allodiaes pela extincção

dos vinculos, viessem a accumular-se, malbaratados e incultos, nas mãos

de poucos e já abastados proprietarios, á similhança do que succedera

com muitos dos bens territoriaes que as leis de D. Pedro libertaram para

o dominio do estado. A extinccão dos vinculos viria depois, com maior

proveito de todos os interessados incluindo a sociedade. Em outro dos

fragmentos se lê que o governo tencionava mandar rever o decreto de 22

de junho de 1846, sobre foraes, para o reconduzir ao genuino pensamento

do decreto de 13 de agosto de 1832, sobre a mesma materia, aclarando-se

tambem as disposições d'este ultimo. Mas alguns annos depois, como se

conclue de uma correspondencia que o auctor mandou para o _Archivo

Rural_ e que fecha este volume, já elle achava tarde para se proceder a

essa revisão, attenta a multiplicidade de transacções já então

effectuadas segundo a lei de 1846.

Quanto aos estudos relativos ao concelho de Belem são do tempo em que A.

Herculano presidiu á camara municipal d'aquelle concelho, no biennio de

1854-1856, e constam de duas representações da camara, uma ao governo,

outra ás côrtes, e de um projecto de _Caixa de Soccorros Agricolas_.

Foram todos publicados em folhetos e vão reproduzidos no presente volume

apenas com leves emendas de revisão que o auctor deixou indicadas. Estes

importantes estudos e a presença do auctor na vereação do concelho,

tambem se relacionam com os factos politicos a que acima nos referimos.

A medida administrativa traduzida pelos decretos de 11 de setembro de

1852, que extinguiram o termo de Lisboa e com elle constituiram os

concelhos de Belem e dos Olivaes, estava incluida no plano de reformas

do ministerio de 23 de maio de 1851; mas o ministerio seguinte não

attendera n'estes diplomas a todas as razões de justiça em que ella

devia basear-se, succedendo que os novos concelhos ficaram privados dos

recursos a que tinham natural direito e lhes eram imprescindiveis para

prover á sua livre administração e manter a sua independencia. Como as

opiniões de A. Herculano n'esta materia e a sua intervenção n'aquelle

plano de reformas eram conhecidas de muitas pessoas influentes do

concelho de Belem, d'ahi nasceu a idea de o investirem no encargo de

vereador, para que elle viesse reclamar contra a injustiça e aclarar o

pensamento originario da medida decretada. Accresce que em 1854 o

ministerio ainda era o mesmo que referendara aquelles decretos, e d'este

modo se explica a eleição do historiador e pelo theor das representações

da camara se ajuiza de toda a questão. Porém, não foi apenas para

satisfazer aquelles justificados designios dos seus constituintes que A.

Herculano acceitou o encargo popular para que fôra eleito. Uma aspiração

mais elevada, sobrelevando quaesquer intuitos politicos, o guiou n'esse

procedimento, aspiração que se revelou em todos os actos da camara da

sua presidencia, e accentuadamente se patenteia nos estudos de que

falamos: era crear no concelho de Belem uma norma de administração local

que, tornando-o florescente, podesse servir de incentivo a outros

concelhos: era tentar a propaganda do municipalismo pelo exemplo, já que

em 1851 lhe escapara o ensejo para fazer revigorar em todo o paiz, a

grande instituição que elle tanto encarecia e que, segundo as suas

profundas investigações historicas, foi n'outras éras a base da nossa

prosperidade e força politica.

Não é para este logar a narração de como a camara presidída por A.

Herculano veio a ser dissolvida pelo governo, não conseguindo o

historiador levar a cabo a sua nobre tentativa. Os esclarecimentos que

ficam expostos são bastantes para o fim a que se destinam.

1898.

Os editores.

DUAS EPOCHAS E DOUS MONUMENTOS OU A GRANJA REAL DE MAFRA

1843

Houve entre nós um rei nascido com uma indole generosa e magnifica: foi

D. João V. Favoreceu a fortuna a grandiosidade do seu animo. Durante o

reinado d'este principe as entranhas da America pareciam converter-se em

ouro, e a terra brotar diamantes para enriquecerem o thesouro portuguez,

e o nosso primeiro rei do seculo XVIII pôde emular Luiz XIV em fasto e

magnificencia. Ha, porém, differenças entre os dous monarchas: Luiz XIV,

mais guerreador que guerreiro, malbaratou o sangue de seus subditos em

conquistas estereis; D. João V, mais pacífico que timido, comprou

sempre, sem olhar ao preço, a paz externa dos seus naturaes. Luiz XIV

levou a altissimo gráu d'esplendor as letras e as sciencias: D. João V

tentou-o; mas ficou muito áquem do principe francez. Devemos todavia

lembrar-nos de que Luiz XIV era senhor de uma vasta monarchia, e D. João

V rei de uma nação pequena. Uma litteratura extensa e ao mesmo tempo

vigorosa só apparece onde ha muitos homens. É como a grande cultura, que

só pode fazer-se em opulentas propriedades e dilatados terrenos.

D. João V teve como Luiz XIV o seu Louvre; mas um Louvre em harmonia com

o caracter, não tanto religioso como beato e hypocrita, do seu paiz

n'aquella epocha. Mafra ficou duvidosa no desenho, entre o mosteiro e o

palacio. As duas entidades architectonicas compenetram-se ahi d'um modo

inextricavel. A púrpura está lá remendada de burel; o burel alindado com

púrpura, e o sceptro do rei enlaça-se com a corda d'esparto, ao passo

que a alpargata franciscana ousa pisar os degráus do throno. Os que

sabem quão corrompidos foram os costumes em Portugal no princípio do

seculo passado, e quão esplendido e ostentoso foi o culto divino; quão

brilhante foi a côrte portugueza n'esse tempo, e por quão frouxas mãos

andou o leme do estado, não precisam vêr Mafra. Mafra é a imagem de tudo

isso.

Um grande edificio, fosse qual fosse o destino que seu fundador lhe

quizesse dar, é sempre e de muitos modos um livro de historia. Os que

n'elle buscam só um typo por onde aferir o progresso ou decadencia das

artes na epocha da sua edificação, lêem apenas um capitulo d'esse livro.

Os castellos, os templos, e os palacios, triplice genero de monumentos

que encerra em si toda a architectura da Europa moderna, formam uma

chronica immensa, em que ha mais historia que nos escriptos dos

historiadores. Os architectos não suspeitavam que viria tempo em que os

homens soubessem decifrar nas moles de pedras affeiçoadas e accumaladas

a vida da sociedade que as ajuntou, e deixavam-se ir ao som das suas

inspirações, que eram determinadas pelo viver e crêr e sentir da geração

que passava. Elles não sabiam, como os historiadores, que no seu livro

de pedra, tambem como nos d'aquelles, se podia mentir á posteridade. Por

motivo tal foi a architectura sincera.

Mafra é um monumento rico, mas sem poesia, e por isso sem verdadeira

grandeza: é um monumento de uma nação que dormita após um banquete como

os de Lucullo: é o toucador de uma Lais ou Phrine assentado dentro do

templo do Deus dos christãos, e sob outro aspecto, é a beataria d'uma

velha tonta, affectando a linguagem da fé ardente e profunda d'Origines

ou de Tertulliano.

Sem contestação, Mafra é uma bagatella maravilhosa, o dixe de um rei

liberal, abastado e magnifico; é pouco mais ou menos o que foi Portugal

na primeira metade do seculo XVIII.

Collocai pela imaginação Mafra ao pé da Batalha, e podereis entender

quanto é clara e precisa a linguagem d'estas chronicas, lidas de poucos,

em que as gerações escrevem mysteriosamente a historia do seu viver. A

Batalha é grave como o vulto homerico de D. João I, poetica e altiva

como os cavalleiros da ala de Mem Rodriguez, religiosa, tranquilla,

santa como D. Philippa rodeada dos seus cinco filhos. As mãos que

edificaram Santa Maria da Victoria, meneando as armas em Aljubarrota,

deviam ser vencedoras. A Batalha representa uma geração energica, moral,

crente: Mafra uma geração afeminada, que se finge forte e grande. A

Batalha é um poema de pedra: Mafra é uma semsaboria de marmore. Ambas,

ecchos perennes que repercutem nos seculos que vão passando a expressão

complexa, e todavia clara e exacta, de duas epochas historicas do mesmo

povo, sua juventude viçosa e robusta, e sua velhice cachetica.

O caracter de um monumento do tempo presente não póde ser por certo um

edificio gigante, um templo, ou um palacio. Onde as crenças religiosas

vacillam como a luz que se apaga, o templo seria uma pagina de historia

fabulosa: onde a pobreza extrema substitue a riqueza, um tanto estupida

e fastosa com mau gosto, o palacio esplendido seria um capitulo

anachronico. O monumento deve resumir a sociedade, e em nenhum d'esses

generos de _memoradum_ se acharia representado o actual existir.

Que somos nós hoje? Uma nação que tende a regenerar-se: diremos mais:

que se regenera. Regenera-se, porque se reprehende a si propria; porque

se revolve no lodaçal onde dormia tranquilla; porque, se irrita da sua

decadencia, e já não sorri sem vergonha ao insultar d'estranhos; porque

principia, emfim, a reconhecer que o trabalho não deshonra, e vai

esquecendo as visagens senhorís de fidalga. Deixai passar essas paixões

pequenas e más que combatem na arena politica, deixai fluctuar á luz do

sol na superficie da sociedade esses corações cancerosos que ahi vêdes;

deixai erguerem-se, tombar, despedaçarem-se essas vagas encontradas e

confusas das opiniões! Tudo isto acontece quando se agita o oceano; e o

mar do povo agita-se debaixo da sua superficie. O sargaço immundo, a

escuma fétida e turva hão-de desapparecer. Um dia o oceano popular será

grandioso, puro e sereno como sahiu das mãos de Deus. A tempestade é a

precursora da bonança. O lago asphaltite, o Mar-Morto, esse é que não

tem procellas.

O nosso estrebuxar, muitas vezes colerico, muitas mais mentecapto e

ridiculo, próva que a Europa se enganava quando cria que esta nobre

terra do ultimo occidente era o cemiterio de uma nação cadaver. Vivemos:

e ainda que similhante viver seja o delirio febril de moribundo, esta

situação violenta, aos olhos dos que sabem vêr, é uma crise de salvação,

posto que dolorosa, e lenta. Confiemos e esperemos: o nome portuguez não

foi riscado do livro dos eternos destinos.

Um dos signaes evidentes da restauração social do paiz, e ao mesmo tempo

o caracter mais notavel que distingue esta epocha é o seu movimento

industrial, industrial na mais extensa significação da palavra. Primeira

entre as differentes industrias é a agricultura, e a agricultura tem

incontestavelmente sido o nosso principal progresso.

Qual será portanto o monumento que melhor resuma este periodo de

regeneração? Será o aspecto do solo, o viço dos campos, a abundancia

substituida á escaceza na morada do homem laborioso. Arroteai algumas

geiras de terra: em um marco esculpi a data d'essa transformação: cobri

a superficie de Portugal d'estes marcos. Eis ahi, não um, porém mil

monumentos que significarão o espirito do presente.

Plantai o bosque na serrania escalvada: que elle braceje virente para o

céu, e enrede as suas raizes nas rachas da penedia. Agitada pelo vento,

a selva com o seu rugir irá contando a cada seculo que nascer as

tendencias laboriosas do nosso, que já começam a apparecer. Os cimos das

montanhas são as verdadeiras aras de Deus: é lá que oravam as nações

virgens. Sanctificai a vossa religião de patriotismo pelo culto

universal e primitivo: o bosque murmurando com o espirar da aragem é um

hymno ao Ancião dos Dias: que este hymno nos consagre a memoria ao amor

e gratidão de nossos filhos!

Ao lado dos paços monasticos de Mafra, monumento de uma era de vans

grandezas, vai-se hoje alevantando sem ruido o monumento modesto, mas

eloquente e sancto, da idéa progressiva da actualidade. Ao lado d'essas

pedras amontoadas, d'esses torreões gigantes, macissos, e pesadamente

estupidos, serpeam já os prados virentes por veigas e valles, cobertos

ainda ha pouco de abrolhos e urzes. Contrastando com os lanços de

muralhas caiádas da ochre, que amarelleja bestialmente, como um cordão

de ouropel enfiado em diamantes, por entre a côr severa dos marmores

tisnados pelo tempo, vêem-se ao longo verdejar os pinheirinhos, que

coroam as alturas ao norte e oriente d'aquelle edificio monstruoso,

hybrido, e extravagante como uma composição pseudo-poetica da

Phenix-Renascida. As folhas de terra cultivada dilatam-se pelas chapadas

e encostas, várias na côr segundo a altura das cearas, ou conforme a

qualidade do solo, nos sitios onde ainda as sementeiras não surgem no

comêço do germinar. É como um xadrez enorme, cujas casas se houvessem

repartido ao acaso n'um taboleiro irregular e immenso.

A vontade real fez apparecer o edificio: outras Vontades Reaes fizeram

nascer a granja-modelo. Para a primeira requeria-se ouro e força; para a

segunda intelligencia e amor do paiz. O sceptro foi robusto e potente

quando amontoou aquella penedia lavrada e esculpida: o sceptro é o

symbolo da paz e da beneficencia quando em vez de converter pão em

pedras, converte gandra bravia e esteril em um nobre exemplo que mostre

ao povo onde está a sua derradeira esperança, o progresso da industria e

o amor do trabalho.

Para a maravilhosa inutilidade de D. João V gastaram-se por largos annos

os milhões que de continuo nos entregava a America: o lidar accumulado

de cincoenta mil homens consumiu-se em desbastar e pulir essas pedras

hoje esquecidas, que apenas servem para alimentar por algumas horas a

curiosidade dos que passam. É uma verdade cem vezes repetida, que o

preço de Mafra teria coberto Portugal das melhores estradas da Europa;

mas nem por ser trivial essa verdade deixa de ser dolorosa. E todavia

tal preço era o menos! As maldiccões submissas dos que foram arrastados

de todos os angulos da monarchia, para esta grande anudúva nacional, e

as lagrymas das suas familias, não as pôde suffocar a adulação cortezã;

transsudaram até nós nas paginas da historia, e cahindo sobre o ataúde

dourado do principe que as fez verter, deixaram a inscripção do seu nome

manchada de uma nódoa que o tempo não gastará.

A vasta e risonha granja que viceja ao lado do negro e carrancudo

edificio não custou uma só mealha dos dinheiros publicos; não arrancou

uma lagryma. Não são maldicções o seu fructo: são bençãos dos que vivem:

serão no futuro bençãos da posteridade.

O convento-palacio, nascido sob manto de púrpura, alegre na sua

juventude e habituado a pompas de longos annos, ahi está, illustre

mendigo, assentado hoje n'um como ermo, onde a vida robusta de seculos

que lhe fadára o fundador, se vai convertendo em antecipada decrepidez.

Inutilmente com a sua grande voz de bronze elle pede que o abriguem das

injurias das estacões. As aguas do céu, filtrando-lhe por entre os

membros, lá os vão lentamente desconjuntando, o sol cresta-lhe a fronte

e faz prosperar os musgos, que lhe arrugam a rija epiderme: o vento

redemoinha atravez das suas janellas mal seguras, e bramindo n'aquellas

solidões do seu recinto, atira ao rosto das estatuas, aos acanthos dos

capiteis, á face polida das paredes de marmore, o pó que tomou nas azas

passando pelas serranias. No meio do estrepitar do mundo ninguem escuta

o gemer do gigante de pedra; ninguem se lembra de tirar do peculio do

estado a mais pequena somma para elle. E porque? Porque a sua miseria

não fala aos corações nem aos entendimentos. Memorias gloriosas? Não as

ha lá. Utilidade? Para que serve essa pedreira immensa?

A granja, porém, de Mafra nem teme as aguas do céu, nem os raios

creadores do sol: povôa os seus agros outeiros de pinhaes, a cujo abrigo

zombará em breve da furia dos ventos. Não vae pedir soccorros á

munificencia publica: util já aos pequenos e humildes, sê-lo-ha tambem

algum dia a quem a fez nascer, util em proveitos materiaes, e, o que

mais vale, em fructos de verdadeira gloria.

Ha quatro annos apenas, que os muros da cêrca ou tapada de Mafra,

estirando-se como serpe monstruosa por tres leguas, atravez de valles e

outeiros, encerravam um vasto maninho coberto de sarças rasteiras, onde

raro se via alevantar uma arvore solitaria, curva e pendida pelo açoutar

continuo das ventanias, ou algum pequeno e enfezado pinhal perdido no

meio d'aqueles mattos inuteis. Era um symbolo de barbaria ao pé d'um

symbolo de opulencia. O edificio e o parque pareciam significar no seu

conjuncto--o orgulho tendo por fundamento o nada.

Ha tres annos ordenaram SS. MM. se começassem a desbravar esses terrenos

incultos. O actual intendente das cavalheriças reaes, o Snr. A. Severino

Alves, foi encarregado de administrar as caudelarias alli estabelecidas,

e da direcção daquelle arroteamento. Obra de uma sexta parte da tapada

mais proxima do edificio destinou-se immediatamente para a cultura, e os

trabalhos principiaram. O estado em que estes se acham, comparado com as

despezas, proporcionalmente diminutas, que se tem feito, provam que

talvez houvesse quem fosse tão digno de ser encarregado de realisar o

pensamento generoso, nobre, e civilisador dos nossos Principes, mas que

ninguem por certo o seria mais que o Snr. A. Severino Alves.

O que vamos dizer não é completo; não é a historia particularisada de

tudo que examinámos com os proprios olhos; porque não queremos ser

prolixos. O nosso intento é vêr se contribuimos para o verdadeiro

progresso da terra em que nascemos. Se os grandes ou pequenos

proprietarios que abandonam os seus campos e herdades, ou que desprezam

os meios de os tornar mais productivos, se mostram surdos ao bradar da

imprensa e de todos os homens sisudos, revocando esta malaventurada

nação á actividade e ao trabalho, que se envergonhem ao menos com o

exemplo que lhes dá o throno. Em quanto os governos e os parlamentos

ponderam a conveniencia, a necessidade do estabelecimento das quintas de

estudo, em Mafra, sem ruido, sem verbosos relatorios e discursos, se vae

estabelecendo e aperfeiçoando uma granja modelo, que esperâmos faça

sentir dentro de pouco á agricultura portuguesa o seu benefico influxo.

Certos de que SS. MM. se collocarão á frente do movimento agricola do

paiz, porque o augmento da agricultura deve trazer a prosperidade aos

seus subditos, n'este jornal, que se derrama por todos os angulos de

Portugal, daremos noticia das experiencias que se forem fazendo, dos

melhoramentos que se forem introduzindo nas propriedades do apanagio da

Corôa. A nossa situação especial nos habilita para obter a este respeito

exactas informações. A utilidade que d'ahi possa resultar aos

agricultores, retribuam-n'a elles em gratidão aos Principes que souberam

ser dignos do amor dos portuguezes, e entenderam plenamente o grave e

progressivo pensamento d'este seculo.

Escolhida a porção de terreno na tapada de Mafra, que se devia destinar

á cultura, dividiu-se aquella parte em oito grandes tractos ou folhas,

cujo arroteamento se tem seguido successivamente e sem interrupção até

hoje.

O systema adoptado para este fim foi o melhor que era possivel imaginar.

Alem da cultura feita á custa da Casa Real, vão-se distribuindo aos

habitantes da villa de Mafra os terrenos que elles querem desbravar. O

inteiro uso-fructo d'estes terrenos fica pertencendo por tres annos a

quem os converte de maninhos que eram em terras araveis, e ainda que o

solo da tapada me pareça de inferior qualidade, e se achasse muito

deteriorado pelas plantas ruins de que estava coberto, todavia essa

cultura tem dado excellentes resultados. A producção da batata, planta

tão conveniente para terrenos arroteados de novo, ha sido tal, que no

anno passado se alevantaram na tapada 1:800 carradas d'este util solano,

cuja introducção na Europa tornou impossiveis as fomes espantosas, que

de annos a annos lhe desbastavam a povoação. N'essas encostas e veigas

onde, tão pouco tempo ha, os olhos esmoreciam alongando-se pelos

sarçaes, vêem-se estendidas as searas, os campos de milho e os batataes,

e nos rostos dos habitantes da villa e dos povoádos circumvisinhos, e

nos seus trajos e porte, vê-se que se o amor da taberna tem diminuido,

os habitos do trabalho, e por isso a abastança tem augmentado.

Mais de vinte egoas, mãis e filhas, e de quarenta poldros, constituem já

uma caudelaria que vai adquirindo rapido crescimento. Cincoenta vaccas

entre as de casta vulgar, torinas e de uma excellente raça asiatica, ahi

são tractadas com esmero talvez não inferior ao que se emprega na

começada caudelaria. Os estabulos e curraes, ordenados pelos melhores

methodos modernos, e com attenção a importantes considerações

hygienicas, seriam um bom modelo para aquelles que pensam reduzir-se o

tratamento dos gados unicamente a dar-lhes muito de comer, não importa

se bom ou máu.

Ainda que na granja de Mafra os animaes sejam alimentados, por via de

regra, á manjadoura, systema hoje aconselhado nos paizes mais adiantados

como preferivel por graves motivos, nem por isso deixa de haver n'este

estabelecimento agricola muitos prados pastaveis, compostos, alem da

azevem, de uma mistura de certo numero d'aquellas plantas de que

separadamente se compõem os artificiaes. Estes, porém, merecem com razão

os especiaes cuidados do Snr. Severino Alves.

As plantas que constituem estes prados, tanto regados como seccos, são a

luzerna, os trevos, branco e encarnado, o onobrychis (sainfoin), a

anafa, a cenoura, e a ervilhaca. A cultura d'algumas d'estas forragens

ainda se limita a diminutas experiencias, mas a de outras já tem

adquirido bastante extensão. Admirámos sobretudo um luzernal, onde o

methodo da transplantação produziu magnificos resultados. Cada pé de

luzerna lançando em roda os seus muitos rebentões ou filhos, fórma uma

especie de mouta robusta, que produz em cada córte muito maior porção de

pasto do que produziria uma superficie egual á que occupa, semeada de

luzerna que não fosse transplantada.

O incremento que estes prados podem ter n'aquelles, d'antes tão pobres e

tristes, hoje tão ricos e risonhos terrenos, é d'extrema importancia.

Duas enormes lagôas, uma das quaes é constantemente refrescada e

supprida por uma pequena veia d'agua perenne, foram limpas e vedadas

construindo-se canos subterraneos por onde se hajam de sangrar

convenientemente. Estas lagôas, collocadas em certa altura, podem regar

um valle extensissimo, optimo para o augmento de prados.

A silvicultura, essa parte tão interessante e tão bella da sciencia de

agricultar, tem em Mafra um terrivel inimigo--o noroeste. Este vento

sopra ahi com violencia extraordinaria. Alguma arvore silvestre, que

vivia solitaria no meio d'aquelles mattos rasteiros, vergada para sueste

na altura das arrancas, estende rachytica os seus ramos açoutados pelas

ventanias quasi parallelos com a terra. Estabeleceu-se porém um systema

d'abrigos, que deve dentro d'alguns annos tornar não só possivel, mas

até facil, a propagação de arvores de floresta e de fructo. Os

pinheirinhos bravos (_pinus maritima_) cobrem já os cabeços escalvados

que se alevantam por meio das chapadas, encostas, e valles, e os

castanheiros, carvalhos, e azinheiros bordam os caminhos: estes bosques,

quando crescidos, annullarão em grande parte a violencia dos ventos, e

então será possivel o plantio de outras arvores silvestres e

fructiferas, principalmente das oliveiras, de que já se vão preparando

extensos e bem ordenados viveiros.

Uma consideração que occorre naturalmente ao imaginar similhante

extensão de cultura, é a dos adubos, e a do modo de os fazer

progressivamente augmentar. Ácerca d'este ponto capitalissimo, daremos

brevemente curiosas e interessantes noticias, em um artigo especial.

Então teremos occasião de falar dos differentes methodos de amanhar as

terras, que progressivamente se vão introduzindo na granja de Mafra.

Os instrumentos aratorios e mais machinas do serviço agricola são

construidos no mesmo estabelecimento em officina para isso

principalmente deputada. Ahi se encontra a charrua ingleza, a araveça

grande de uma aivéca, a pequena de duas, o semeador, as grades

triangulares e de diversos feitios, o trilho de debulhar, o engenho de

traçar cevada, carros inglezes, etc., alem dos instrumentos proprios do

paiz construidos com perfeição.

Tal é o rapido quadro da transformação que apresenta uma parte d'esses

maninhos inuteis da tapada de Mafra. Importante em si, similhante

transformação muito mais o tem sido pela influencia que o exemplo produz

n'aquelles arredores: o agricultor, que por assim dizer palpa as

vantagens que resultam de um systema illustrado de agricultar, vae

abandonando as suas grosseiras usanças, que todos os discursos dos

livros não alcançariam estirpar. Mafra está sendo um fóco de luz, uma

fonte de progresso agricola. Entre os beneficios que tem produzido este

é porventura o maior. Aquella vasta granja, se proporciona a muitos

abastança, o alimento para o corpo, offerece a muitos mais as revelações

da sciencia--o alimento para o espirito.

O edificio ahi está mendigo, abandonado, canceroso já, e inutil, ao lado

da granja cheia de viço, rica, generosa, e abençoada d'esperanças. São

dous monumentos de dous seculos diversos, ambos obras de Reis. Que a

philosophia julgue um e outro, e julgue tambem as vontades e as

intelligencias que fizeram surgir um e outro.

BREVES REFLEXÕES SOBRE ALGUNS PONTOS DE ECONOMIA AGRICOLA

1849

Ajuda, 8 de março de 1849

Circumstancias meteorolOgicas extraordinarias ameaçam o nosso bello paiz

de uma colheita nulla. Perto de trez mezes de aridez, na epocha do anno

em que as chuvas são mais necessarias, têm quasi destruido as esperanças

dos agricultores. Um mez mais que dure esta situação, e o mal

tornar-se-ha intensissimo e, em grande parte, irremediavel.

Os espiritos fracos contentam-se com blasphemar ou carpir-se. Isto é

cobardia. Muitos voltam-se para Deus e imploram a Providencia. Isto é

respeitavel. Outros pensam nos alvitres para occorrer á miseria e á

fome, que pode vir a pesar sobre a população menos abastada. Isto é

generoso e nobre. Mas aquillo em que poucos pensam é em converter esta

situação assustadora n'uma lição salutar; em deduzir do mal presente

proveito para o futuro.

O nosso povo actual é um pouco similhante a seus avós, os marinheiros do

seculo XVI, que affrontavam as procellas dos mares da India e da

America. Rudes e feros na bonança, voltavam-se para o céu quando a

tempestade ameaçava submergil-os. Era d'aquelles trances que os

sacerdotes, seus companheiros de riscos e aventuras, se aproveitavam

para os revocar ás sanctas doutrinas da fé, e era ordinariamente então

que n'essas almas rudes achavam accesso o arrependimento e as verdades

da religião.

Desejariamos que a imprensa fosse tambem um pouco similhante aos bons

missionarios do seculo XVI; que nos dias da angustia dissesse algumas

verdades duras aos povos, quando mais não fosse, ao menos para

interromper a monotonia das que diariamente diz aos reis. A imprensa que

vive da publicidade, da publicidade que se estriba na bolsa do povo,

praticaria um acto de devoção mais corajosa, falando severamente aos

seus naturaes patronos, do que dirigindo-se aos principes, de quem ella

depende incomparavelmente menos para existir e prosperar.

Por isso nós a convidariamos para que, sem distincção de partidos, sem

lhe importar com a diversidade da sua missão politica ou litteraria,

aproveitasse o ensejo de temores que assaltam geralmente os animos, para

insinuar n'estes importantes verdades.

A natureza do flagello que nos opprime, as observações que fizemos n'uma

pequena excursão para o lado de Cintra, nos suscitaram estas reflexões,

a que esperamos associem outras de mais valor as pessoas competentes.

Posto que dominados por uma viva affeição á agricultura, a essa rainha

das industrias, somos apenas curiosos n'esta materia. Ha, porém, uma

certa somma de verdades iniciaes na sciencia que estão ao alcance de

todos os que as buscam, seja como estudo, seja como curiosidade.

Portugal tem uma agricultura incompleta. Se exceptuarmos o Minho,

podemos dizer que o producto do nosso sólo é exclusivamente representado

pelos cereaes, pelo vinho e pelo azeite. Por importantes, comtudo, que

sejam os dous ultimos, o principal é, como em todos os paizes, o dos

cereaes.

Mas é doutrina incontestavel que para a cultura d'estes poder prosperar

é necessaria a copia de estrumes; que para haver copia d'estes é

necessario gado; que este não existe, ou tem uma existencia precaria

onde não ha pastagens, e estas são sempre miseraveis e insufficientes

n'um paiz onde a _intensidade_, digamos assim, do systema agricola não é

proporcional á sua _extensão_; onde a arte não ajuda energicamente a

natureza a supprir a alimentação dos animaes.

Portugal não tem creações de gado: queremos dizer, não tem n'este ramo

de industria rural senão o restrictamente necessario para a lavoura,

pelo que respeita a gado grosso; e o seu gado lanigero é pouco numeroso,

imperfeito, e rareado annualmente pelos resultados de um tractamento

quasi selvagem. Porque? Porque ainda não adoptámos a doutrina

fundamental de toda a agricultura judiciosa, a creação dos animaes n'uma

larga escala, nem buscámos ainda os meios para isso adequados.

As nossas terras mais ferteis produzem de 10 a 15 sementes, e a

producção das mediocres é entre 5 e 8. Tendo a cultura adquirido uma

grande _extensão_, com esta producção acanhada o lavrador acha-se

collocado entre dous extremos deploraveis. Se o anno é mau, a limitada

proporção entre a semente e o producto torna-se ainda mais restricta, e

embora suba o preço do genero, o fabrico absorve quasi a colheita: se o

anno é propicio, a barateza no mercado vem a inutilisar a abundancia, e

o cultivador fica sempre miseravel.

A imperfeição das machinas e dos methodos, o pessimo systema, ou antes a

negação de systema nas rotações, e varias outras causas, contribuem para

este estado violento; mas a causa principal é a desproporção enorme na

distribuição do solo: o homem crê fazer para si a parte do leão, e

engana-se. Espoliando os animaes que o ajudam nas suas laboriosas

tarefas, os animaes que o vestem ou lhe fertilisam os campos, do quinhão

que lhes cabe nos fructos d'estes, torna-se desgraçado a si no meio de

uma abundancia mais apparente que real.

Na Inglaterra, o paiz modelo da agricultura, os productos de um terço,

pelo menos, da terra cultivada pertencem aos animaes domesticos. Nós

talvez não lhes reservamos um centesimo. O erro n'esta parte produz uma

infinidade de factos, que principalmente determinam a falta de progresso

_d'intensidade_ na agricultura nacional.

Um anno pouco favoravel, como o que vae correndo, descobre logo por

diversos modos a nossa situação deploravel.

De que ouvimos principalmente queixar os agricultores, quando os

interrogamos sobre os fataes effeitos d'este estio inesperado, que veio

pesar sobre nós no coração do inverno? De que esse pouco gado que

possuem morrerá á fome. Porque? Porque o lavrador põe quasi

exclusivamente as suas esperanças nas hervagens espontaneas; entrega á

Providencia o cuidado dos seus bois e das suas ovelhas. Esta confiança

nem é prudente, nem religiosa. Deus não deu inutilmente ao homem a

faculdade de reflectir, nem os braços para o trabalho. A protecção da

Providencia não vae até o ponto de supprir o desprezo da nossa

actividade intellectual e material.

Perdemos os poucos gados, que possuimos, quando o inverno é secco;

perdemol-os se é excessivamente chuvoso. Pode-se dizer que este facto

pinta e resume o estado do nosso progresso agricola.

Que prevenções faz em geral o cultivador para obviar a qualquer d'eslas

hypotheses terriveis, tão faceis de verificar-se, principalmente a

segunda? Nenhumas. Onde estão os fenos devidamente colhidos e

reservados, onde as raizes das plantas chenopodeas e cruciferas, onde os

prados artificiaes, regados pelos ribeiros, onde, emfim, todos esses

recursos, de que o agricultor dos paizes centraes e do norte lança mão

para resistir ás incertezas das estações?

O lavrador cultivou cereaes, muitos cereaes, e repousou, pelo que tocava

ao seu gado; nos dons espontaneos do inverno. O inverno negou-os. Resta

pedir a Deus que reduza á regularidade as variações atmosphericas,

variações incertas só para nós, e dependentes de leis naturaes, que

porventura os progressos da meteorologia virão ainda revelar-nos, e que

não cremos se hajam de alterar a favor da nossa imprevidencia.

Sabemos o que se costuma responder a isto: «Esses fenos, esses prados,

essas raizes fusiformes, que constituem uma alimentação abundante para

os animaes, são possiveis nos paizes humidos do norte. O nosso clima

adusto torna impossivel a applicação de um systema analogo.»

Seria longo, mas pouco difficil, mostrar sob todos os aspectos o

sophistico d'este argumento; mostral-o por factos. Impressionados pelo

que, com tristeza, acabamos de ver n'um tracto de terra de cinco leguas,

limitar-nos-hemos a algumas considerações especiaes.

E primeiro que tudo, com que direito se invoca, para defender a incuria

agricola, falta de humidade no nosso clima, quando deixamos correr

annualmente para o mar milhões de pipas d'agua pelos grandes rios e por

centenares de regatos, que podiam, muitas vezes com leve trabalho,

fertilisar os campos visinhos e alimentar prados, cuja producção

excederia quanto a cultura dos paizes do norte offerece, n'este género,

mais admiravel?

Depois, que meios se empregam para temperar pela arte os effeitos da

nossa situação meridional? Os habitos adversos a esses meios são os que

dominam entre a população campestre. É sabido que as arvores, ainda nas

noites mais seccas do estio, attrahem á terra uma grande porção de

humidade. A que deve o Minho a frescura dos seus valles, os enormes

productos do seu solo, que não soffre comparação com as nossas terras

fortes da Estremadura? A uma arborisação admiravel. O homem do sul tem

odio, litteralmente odio, não só ás selvas, mas até á arvore solitaria,

que pode assombrar-lhe algumas pavêas de cereaes, porque os cereaes são

o idolo que resume todos os seus affectos, embora a cruel experiencia

lhe venha provar, nos annos desfavoraveis á cultura das gramineas, que o

seu systema acanhado e exclusivo conduz facilmente á miseria e à

perdição.

Este ódio às mattas e arvoredos tem-se tornado n'uma especie de

contagio, que vae lavrando e ameaça as provincias septentrionaes. A

Beira ha muito que começou a ser despojada dos seus magnificos bosques,

que por partes a tornavam rival do Minho. Os effeitos, porém, do

destroço insensato dos grandes vegetaes sentem-se principalmente na

Estremadura, e sobretudo n'este tracto de terra entre dous mares, onde

se acha situada a capital. Os vapores, que as arvores, povoando os cimos

dos montes, attrahiriam para os valles, não descem á terra: os ventos do

norte, precipitando-se livres dos visos calvos das collinas, fustigam as

encostas do sul, remoinham nas planicies, e não consentem sequer que o

orvalho console á noite a vegetação devorada pelo sol do meio-dia. Na

verdade, a aridez dos campos na estação estival pouco importa ao

cultivador exclusivo de cereaes; mas quando causas desconhecidas

impedem, durante o inverno, o curso dos ventos chuvosos, quando o verão

vem substituir-se ao inverno, não sabemos se como castigo se como

advertencia, então elle maldiz essas torrentes de ventania, que produzem

mais seccura em vinte e quatro horas do que tres dias de sol ardente.

Maldil-as, sem se lembrar ou sem saber, que seus paes e elle proprio

contribuiram para a existencia de similhante flagello pela destruição

das mattas, ou, quando menos, pelo descuido no plantio d'ellas.

O ciume cego com que a menor leira de terra aravel é disputada aos

arvoredos, por causa do predominio exclusivo dos cereaes, explica

indirectamente esse furor com que são perseguidas as arvores, até nos

sitios mais inferteis; com que se lhes disputa a vida até por entre as

penedias das serras. Como a cultura das forragens é insignificante, e

enormemente desproporcionada á dos cereaes; como o céu está encarregado,

pelo commum dos agricultores, de prover á sustentação dos gados, o

baldio é o segundo artigo do credo agricola d'elles. Os pastos communs

são a cidadella da inercia e o theatro reservado pela ignorancia ás

maravilhas da Providencia. Todas as desvantagens de conservar incultos

terrenos que poderiam servir ao homem se adoptassemos um systema mixto,

ou se attendessemos ás indicações da sciencia e á natureza do nosso

clima, para promovermos a arborisação nos logares accommodados para

ella, não são comparaveis ao delicioso espectaculo de ver retouçar meia

duzia de ovelhas, vaccas, e bois hecticos, nas gandras bravias, quando,

n'um systema de cultura judicioso, conservariamos gordos e anafados

dobrado numero de animaes, unicamente com a producção da nossa

propriedade particular, _sem que deixassemos de colher n'esta a mesma

quantidade de trigo_, que nos produz o deploravel methodo da cultura

exclusiva.

A existencia dos baldios municipaes, dos pastos communs, é um dos mais

graves embaraços ao progresso da agricultura entre nós. Favorecendo a

natural indolencia do homem do campo, facilitando-lhe recursos que, até

certo ponto, supprem os defeitos de um methodo errado e incompleto de

afolhamentos, de uma cultura sem proporção nem equilibrio, elles oppõem

uma barreira, as mais das vezes invencivel, á introducção de um systema

sensato e proficuo. Ignorando os melhoramentos que as rotações

judiciosas trazem ao solo, as vantagens da estabulação, os methodos de

multiplicar em quantidade e em energia os adubos animaes, desconhecendo

a applicação dos correctivos mineraes, o agricultor baseia nos maninhos,

não só uma substituição á cultura das forragens, mas tambem um meio de

adubar as suas terras, embora os estrumes vegetaes que d'elles tira,

pessimamente preparados, dêem á terra uma alimentação miseravel. É-lhe

necessario que as urzes povoem as serras nuas de arvoredo, tanto para

ahi pascerem os gados durante uma parte do anno, como para supprirem a

carencia d'estrumes, resultado d'essa alimentação erradia do gado, em

que o cultivador, podemos dizer, lança fóra o mais rico thesouro de

principios restauradores, um dos productos mais importantes da creação

dos animaes.

Se as grandes verdades na sciencia são, em regra, ferteis de

consequencias proveitosas, os grandes erros não são menos ferteis de

consequencias fataes. Como as urzes expulsam as arvores dos terrenos

incultos, é justamente nas visinhanças de extensos maninhos onde muitas

vezes mais se experimenta a falta de lenhas, e que por consequencia os

povos mais rapidamente destroem as cepas d'esses mesmos mattos que os

supprem de pastagens e d'estrumes. Sendo esse o unico meio de obter

combustivel, e não correspondendo o desenvolvimento das raizes lenhosas

á rapidez e extensão do consumo, o resultado final é facil de prever. Ha

de chegar um dia em que a imprevidencia tenha dado inteiro o seu fructo.

Esses cabeços e gandras, rareados pela mão do matteiro, espoliados

emfim, dos ultimos fragmentos da sua triste corôa de piornos e tojos,

achar-se-hão convertidos em arneiros escalvados, onde a falta absoluta

de humus torne impossivel a vida da herva mais rasteirinha. É um facto

que, por muitas partes, se tem já verificado, e que successivamente se

vae verificando por outras. Então os effeitos dos erros agronomicos, a

que a gente do campo tem um affecto tão cégo, pesarão terrivelmente

sobre ella, vindo depois o remedio só pelo excesso do mal.

Admittindo por um pouco as suppostas vantagens dos baldios, e no

interesse d'esses mesmos pastos communs, a necessidade de dedicar uma

porção d'elles á silvicultura torna-se evidente. Em Cintra, por exemplo,

cujos antigos bosques desappareceram ha muito, e onde a cepa já começa a

escacear, como é facil de conhecer á simples inspecção do terreno

correndo os recessos da serra, os habitantes d'aquelles contornos

deviam, por muitas razões, mas sobretudo por causa do combustivel,

forcejar para que os cimos escalvados das cordilheiras se povoassem de

pinhaes ou de soutos e devesas de outras arvores, que esses magros

terrenos consentissem. Independentemente das influencias, que a nudez ou

o selvoso d'aquelles escarpados rochedos possa ter na cultura dos campos

visinhos; ainda sem attender a que Cintra perde de dia para dia, pela

devastação dos grandes vegetaes, os encantos que ahi attrahem os felizes

do mundo, e que por longos annos teem sido para os povos dos arredores

um manancial de prosperidade; ao menos a consideração de que a falta de

um dos objectos mais necessarios á vida, igualmente indispensavel para o

rico e para o pobre, vae em sensivel progresso, devia conduzil-os a

reconhecer que a arborisação da serra é reclamada talvez já pelo

interesse da geração actual, e sem duvida pelo das gerações que hão de

vir.

E todavia, um successo recente, um successo que fez certo ruido, prova

que ou todas estas idéas se desconhecem, ou se pospõem a considerações

de um egoismo, que nem sequer tem o merito de ser habil, ou que

finalmente o nosso paiz está condemnado a vêr sujeitar ao arrebatamento

das paixões politicas as questões mais estranhas, as conveniencias

economicas, os meios de progresso material, as indicações da

experiencia, trazendo-se para um campo neutro, e que para todos devêra

ser sagrado, as luctas deploraveis dos nossos bandos civis. O facto a

que alludimos foi lançado nos debates da imprensa, e por isso é hoje do

nosso dominio.

S.M. El-Rei pretendeu aforar uma porção das cumiadas da montanha de

Cintra contiguas ao parque da Pena. Aquella porção de terreno ingrato e

calvo era destinado á sementeira ou plantio de um bosque que cobrisse de

verdura e de vida uma pequena parte d'essa ossada de rochedos, que se

vão prolongando até a beira do oceano.

Muitos moradores das aldeias circumvisinhas viram, porém, n'este empenho

uma calamidade. O maninho era ameaçado nos seus direitos inauferiveis, o

dorso dos penhascos offendido na sua pudibunda nudez. Realmente o caso

era grave. Agitou-se tudo, protestou-se, requereu-se. A urze e o piorno

acharam logo advogados contra o pinheiro orgulhoso, contra o luxo da

vegetação. Isto é absurdo e incrivel. Embora. A celebre phrase «_creio

porque é impossivel_» não tem só applicação aos mysterios do céu;

tem-n'a ás miserias da terra.

Se os principios mais solidos da economia agricola não são uma solemne

mentira, a pretensão d'El-Rei era legitima; as suas intenções liberaes.

Não se tractava de constranger os povos a abandonarem subitamente o

deploravel systema dos pastos communs: tractava-se de dar um exemplo de

previdencia e de progresso: tractava-se de applicar ao solo um capital,

que só depois de quinze ou vinte annos poderia produzir um diminuto

redito: de certo não havia aqui, pelo menos, uma inspiração de cubiça.

Nenhum homem desapaixonado e que ame sinceramente o desenvolvimento da

industria agricola, pondo a mão na consciencia, deixará de qualificar a

pretensão de justa, e a intenção de progressiva.

E nós limitamo-nos a estas qualificações, porque o lyrismo em materias

economicas é um pouco sem sabor; porque nos fazem nausea os extases e as

metaphoras de velho estylo, com que se costumam sempre avaliar os actos

dos principes. Ainda não decorámos as phrases fundidas com que é d'uso

exaltar esses actos, sejam máus, indifferentes ou bons, e que só servem

de desvirtuar os ultimos. Somos pessimos cortezãos, e, demais,

incorregiveis. Mas tambem não sabemos lisonjear o povo; porque a lisonja

perde-o, como perde os principes: temos por isso bastante consciencia de

nós mesmos, para reclamar a favor d'El-Rei, que não tem o habito das

discussões publicas, que não pode vir a essa arena, a justiça que lhe

compete e a que tem tanto direito como o cidadão mais obscuro. Não

acreditamos que um homem, porque se chama rei, esteja banido do direito

commum; que, pária de nova especie, deva soffrer em silencio que lhe

calumniem uma intenção pura, que o condemnem por actos que n'outro

qualquer seriam louvados. Quando a imprensa se perturba e cega até o

ponto de assim o practicar, entristecemo-nos por ella; porque estamos

convencidos da sanctidade da sua missão, e temos os olhos fitos, não nas

paixões pequenas do presente, mas sim nas esperanças do futuro.

Consideramos aquelle aforamento em si, no seu resultado, nas idéas que o

aconselhavam. Não sabemos se, no modo de o realisar, se faltou a alguma

das solemnidades legaes. Não valia a pena. Que valesse, os agentes de

S.M. deviam ser dobradamente zelosos em guardal-as. Fizeram mal se as

preteriram. Do que porém já foi confessado em um jornal se deduz que não

aconteceu assim.

O requerimento a favor da sanctidade do deserto, da integridade do

maninho, appareceu estampado. É um monumento: não podia ser outra cousa.

Pinta o paiz.

Se os nossos governos de todas as epochas e de todas as opiniões

tivessem gastado a centesima parte do dinheiro, que tantas vezes

malbaratam, em ensinar a lêr os habitantes do campo, em inculcar-lhes as

verdades practicas com que a sciencia tem vivificado outros povos, não

appareceria, no anno do Senhor de 1849, um tal requerimento.

Opúsculos por Alexandre Herculano - Tomo 07 · 第 1 / 13 段