Quando cobrei o alento, estava a janella fechada e apagada a luz. Corri
as mãos sobre os vidros impenetraveis. Corri a baranda em toda a sua
extenção; tudo apagado, tudo fechado, dormia tudo. Dominava-me uma raiva
glacial. Á custa de tudo, eu queria remirar esta mulher que eu detestava
com o coração, com a alma, com os sentidos, com todo o meu ser. Mas ir
até ella, como? Pendurei-me na rampa, e deixei-me cahir ao jardim.
Rodiei vinte vezes a casa, empurrando todas as portas; mas a minha
fraqueza não podia com ellas. Finalmente, atirei-me ao chão, e ahi, com
o rosto entre as mãos, desafoguei-me em soluços.
--Trahido! trahido!--bramia eu, com monotonia desesperadora.--E o céo
impassivel!--De subito ergui-me, e, sem idéa fixa, atravessei as trévas,
rapido como se me viessem perseguindo assassinos. Precorri a tapada;
saltei o muro, atravessei a estrada, entrei nos campos, e a correr
sempre, com a cabeça nua, chorando e fallando sósinho, atirei-me como um
attribulado gamo, que foge com os dentes de matilha feroz incravados nos
flancos.
Onde ia eu? não sabia. Fugia áquelle espectaculo. Salvava-me a todo o
correr, para o mais longe possivel, para não vêr a imagem horrenda que
me ficara nos olhos. Trahido! Trahido! era o grito que me esporeava, e
excitava a fuga. Despenhei-me em barrancos. Levantava-me ferido, coberto
de suor e lama, e corria de novo, sem destino, por escuridade pavorosa.
Lancei-me desamparadamente em cancellos insilveirados; deixava-lhes os
meus vestidos a pedaços, e caminhava. Esgalhos de arvores batiam-me no
peito, raspavam-me a face e os hombros os tojos lacerantes; parava a
chorar e depois caminhava. Atravessei as ruas dezertas das aldeias, que
resoavam sob os meus passos; campos cultivados, cujas searas me
ondulavam nas pernas como vagas; collinas, bosques, regatos, atalhos,
estradas que desfilavam á roda de mim, como se o solo fosse arrastado
commigo no arremeço d'um sorvedouro immenso. Faltava-me a respiração, e
eu corria ainda, chorando, chorando sempre.
--Ó minha mãe!--bradei eu.--Se soubesses quanto eu soffro!
De repente, achei-me com os pés em agua. Ante mim, distendia-se um vasto
espaço negro, uniforme, entranhado nas trevas, d'um lado e d'outro, com
grandes e mysteriosos zunidos. A lua dardejando de viez o seu reflexo
argentino, sobre esta superficie luzente, parecia serpente enorme
assanhada contra mim, para engulir-me. Involvia-me o nevoeiro. Avancei
tropeçando nas pedras, mas os jactos d'agua da torrente rapida,
embargavam-me o passo. Horrida tentação me assaltou. Contemplei o céo
sereno, onde brilhava, entre nuvens immoveis, o dôce astro dos amantes;
puz a mão sobre o coração, e caminhei. Dava-me a agua pelos joelhos, mas
sentia sempre o chão lodento em redor dos meus pés que escorregavam. Não
podia mais. Vergado á fadiga e á commoção, soluçando como as mulheres,
cahi, e fui arrastado na torrente que marulhava em sua marcha obscura.