Por uma bella noite de agosto é que eu executei o horrivel designio,
cujo exito devia decidir do meu destino. Não sei que hora era; mas,
havia muito que as estrellas radiavam na face do céo a sua suave
claridade. Abri a ultima janella do primeiro andar da minha casa
contigua á de Fanny, fixei a persiana contra a parede, e resvallei pela
rampa; pendurei-me do varão sutoposto á baranda da casa visinha; fixei
um pé na goteira da sacada, depois o outro pé, e saltei. Estava em casa
d'elles.
Fiquei immovel a escutar o silencio, interrompido apenas pelas
precipitadas pulsações do coração. Perto de mim, uma janella alumiada
como um grande quadrado de luz, branqueava de clarão baço, a parede
innegrecida da casa. Baixando-me sobre os joelhos, enxerguei que esta
janella não estava de toda fechada. As beiras das portadas tocavam-se,
mas deixavam coar uma resteasinha de luz. Duas cortinas de cassa branca,
pendentes diante das vidraças, deixavam-me vêr todo o quarto através
d'um alvadio de leite que esfumava um pouco os objectos.
Lembra-me tudo isto. No fundo do quarto havia um grande leito, e sobre
este, uma corôa de ebano lavrado donde pendiam cortinas de estofo escuro
que contrastavam com a brancura dos lençoes. Á esquerda da cama, um
tapete estreito, á direita, uma commoda; ao pé da chaminé uma poltrona
de espaldar muito alto. Que sei eu? Creio que outros moveis estavam lá,
mas eu não reparei. Ao principio, não vi ninguem no quarto, alumiado
desigualmente, por um grande candieiro de cobre, coberto de quebra-luz,
que dardejava sobre o pavimento os raios, deixando o tecto escuro. O
leito ficava assim cortado longitudinalmente pela zona luminosa. Como
quer que eu me chegasse á vidraça para examinar se elle estava occupado,
uma sombra passou lenta entre o candieiro e a janella, desenhando-se nas
cortinas brancas. Pulsou-me o coração mais rijo. Agachei-me rente com a
sala, recuando um pouco.
Reconhecio-o. Era elle. Ainda o vejo. A viração tepida da noite de
agosto, suspirava á volta de mim na folhagem; cantava um passaro entre
os arbustos; a terra vaporava odores balsamicos; mas eu não via, não
sentia, não investigava senão elle. Alongando o pescoço para ajustar os
olhos á entre-aberta da janella, vi-o, com espasmo mudo, como se fosse
para mim coisa extraordinaria vêl-o de pé n'um quarto de sua casa. Tinha
os pés nus em amplas moiras de marroquim amarello; afivellava nos
encontros uma larga calça branca de flanella. Despeitorado, arregaçado o
colleirinho, arremangada a camiza, ia e vinha pelo quarto, fumando um
charuto, dando corda ao relogio, mirando-se ao espelho, e esticando os
braços. Assentou-se depois na grande cadeira encoirada, cruzou uma perna
sobre o joelho da outra, e bamboando-a deixou cahir a chinela. D'onde eu
estava, via-lhe perfeitamente a sola do pé nú levantada ao nivel dos
meus olhos, e o braço carnudo descançado sobre o encosto da cadeira. O
outro braço subia e baixava do joelho para o rosto, quando levava aos
beiços o charuto, cujo fumo odorifero se exhalava até mim.
De repente, voltou a cara para uma porta que eu não tinha devisado,
collocada ao pé do leito. Esta porta estava aberta, e no inquadramento
obscuro que ella cortava no fundo do quarto, vi, duvidoso da minha
razão, uma fórma vaga alumiada em rosto por um castiçal que ella trazia.
Potestades do céo! Era ella! Oh Deus! por que me não fulminaste
n'aquelle momento!
Entrou vagarosamente, depoz o castiçal sobre a commoda, e, atravessando
longitudinalmente o recinto, foi direita a elle, que a observava
tranquillo, e sem levantar-se.
Fanny estava meio vestida com aquelle desleixado traje que eu lhe vira
algumas vezes pelas manhãs, quando, ao sahir da cama, passeava no jardim
com os filhos. Era um chambrão muito farto de cachemira azul aberta no
peito, entre flocos de cambraia, deixando vêr o começo dos seios.
Sahiam-lhe das largas mangas os braços nús. Trazia desmanchados
negligentemente os cabellos, apanhados sobre as faces lizas, e apertados
por grossos tufos sobre a nuca. Aquelle eterno porte de placido pudor,
lá o apparentava no semblante.
Mas que vinha ella fazer alli a tal hora? quem lhe pedira isso? Não póde
a recordação do amante retêl-a no limiar d'aquella porta? Dir-se-hia que
ella nem se quer se lembrava de ter jurado, nem lhe passava pela mente a
existencia d'algum homem para ella, senão aquelle que alli estava
sentado, encarando-a, sereno como ella.
Fuzilou-me na alma um relampago de esperança, mas foi relampago.
Abaixado sobre os joelhos e as mãos, embaciado o vidro pelo meu bafo,
senti oscillar-me os braços como se o balcão estremecesse debaixo de
mim. Suor de agonia, acre e frio, me banhava a face e os membros;
rangiam-me os dentes, cahi, desfallecido, como arvore tombada ao ultimo
golpe do machado. Mas ouvi palavras; e, repuchando quantas forças tinha,
ergui-me sobre os joelhos e punhos.
Via-a andar mansamente d'um para o outro lado do quarto. Tocava,
vagamente, e como em distracção nos objectos de sobre os moveis, tal
qual costumava fazer em minha casa. E o marido tendo-a sempre d'olho.
Fallavam; mas a minha commoção só me deixava ouvir um murmurinho.
Rodeava-o ella, socegada e perfida, com os seus azues e suaves olhos, e
apparencias de simpleza vaga. A instantes, sorria um sorriso
melancolico. Quiz vêr n'esse rir, que lhe dilatava os labios sem
illuminar-lhe o olhar, alguma coisa forçada. Não se mostrava pensativa,
nem contemplativa, nem commovida. Estava perfeitamente á sua vontade,
natural e tranquilla. Bem sabia ella que a sua grande magia era a
irritadora tranquillidade.
O marido riu tambem, por sua vez. Vi-lhe o brilho dos seus alvos dentes.
Dava mostras de defender-se ingenuamente d'uma accusação que ella fazia,
sem cólera, mas como uma malignidade gracejadora, que não era isempta de
desdem e altivez. Discutiam tão pacificamente que pareciam nenhum
acreditar na realidade da sua disputa familiar. A final, debaixo da
testa quadrada do marido, brilharam mortiços os olhos; e, quando ella
perpassava diante d'elle, rossando-lhe com o vestido o pé, a decisão foi
prompta; calçou a moira; e tirando brandamente pela cintura da mulher,
sem resistencia, fêl-a assentar no seu joelho.
Saltaram-me as lagrimas então, lagrimas ardentes, que as palpebras não
podiam reprezar, e desceram silenciosas pelas faces até aos labios.
Emfim, comprehendia tudo; via a profanação, posto que a não quizesse
vêr; affirmava que não era sonho aquillo, e queria duvidar. Não posso
exprimir o que então se apartava de mim, o melhor de minha essencia, e o
mal que me fazia vêr aquella mulher, que eu adorava, nos braços d'outro.
Fanny continuava sentada com as mãos cruzadas sobre os joelhos, e com os
olhos no marido, conversava serenamente. Nada ha ahi mais casto que a
simplicidade da sua attitude, a pureza do seu perfil, e aquella
expressão dos olhos azues. No entanto elle, comprimindo-a cingida pela
cinta, amimava-lhe a face com a mão livre. A final, Fanny lançou-lhe por
sobre o hombro o braço esquerdo, e pendeu para elle langorosamente.
Vi-lhe então as costas, cobertas de tranças dos cabellos, e o vestido
fazia roda por largo espaço com impudor esplendido. Oh! como a
abominavel creatura cheia de graça e lascivia se aconchegava d'aquella
espadua robusta!
--É impossivel aquillo!--gritei eu em minha consciencia.--Não ha-de ser
assim!--Mas elle abraçou-a, collando a boca espessa ás puras faces
d'ella, e não sei o que lhe disse a meia voz. Fanny fez um gesto
negativo com a cabeça, muitas vezes, sem córar. Elle, por cortezia,
insistiu sorrindo, e ella, resistindo, pouco e pouco se rendia! Mulher
scelerada! como ella prolongava o meu supplicio! O debate mudo, durou
algum tempo. Não sei como foi que o sinto se lhe despregou, e rolou nas
dobras do vestido. E eu chorava sempre. Levantou-se ella em fim, aquella
mulher de resplendores e flôres, e, por um só movimento de braços e
hombros, fez escorregar o chambre até aos pés. Eu cahi de joelhos, e
ergui as mãos, como a exorar piedade. Ella tirou com afan, os pés do
monte de estofos, e, um tanto pallida, mas em silencio, caminhou para o
leito, achegando ao peito as ultimas coberturas. Quantas vezes a vira eu
assim impallidecer! Cravei as unhas no rosto. O marido ia depós ella,
vagarosamente.
E eu sem uma arma! Eu queria immediatamente estrangulal-a, espedaçal-a,
ingolphar meus braços nas entranhas d'aquella mulher estupida. Com todo
o sangue d'ella, não se apagaria o ardôr da minha tortura. Arquejante
como o tigre, que vê a garra do leão cravada na sua preza, ergui-me a
prumo, ferrei as unhas contra os dentes, escorria-me o suor da face,
soluçava, como em arrancos de morte, estrebuchava, e via os horrores
d'aquelle quarto.--Piedade! piedade!--foi o meu grito! E furioso, e
perdido, avançara um passo! mas os cabellos heriçaram-se-me, e os olhos
saltavam-me das orbitas, e a minha vista acerada entrou como um punhal
nos cortinados sombrios, e vi... vi tudo! Quiz ir ávante, e não pude. A
punição pregava-me os pés á balaustrada, e de minha bôca sahiam
gargalhadas de demonio. Que horror! Eu testemunha d'aquelle espectaculo,
a rir, como um doudo, a comprazer-me d'um jubilo que não tem nome nas
linguas humanas! Tentei de novo avançar, por que ouvira suspiros, e
queria saber qual das duas bôcas os exhalavam. Por um esforço prodigioso
dos meus musculos todos, cheguei a despregar o hombro da parede, e dei
ainda um passo; mas por que ao coração intumecido me refluira todo o
sangue, perdi o equilibrio, e cahi como um pezo inerte sobre o balcão.