LXVII

Por uma bella noite de agosto é que eu executei o horrivel designio,

cujo exito devia decidir do meu destino. Não sei que hora era; mas,

havia muito que as estrellas radiavam na face do céo a sua suave

claridade. Abri a ultima janella do primeiro andar da minha casa

contigua á de Fanny, fixei a persiana contra a parede, e resvallei pela

rampa; pendurei-me do varão sutoposto á baranda da casa visinha; fixei

um pé na goteira da sacada, depois o outro pé, e saltei. Estava em casa

d'elles.

Fiquei immovel a escutar o silencio, interrompido apenas pelas

precipitadas pulsações do coração. Perto de mim, uma janella alumiada

como um grande quadrado de luz, branqueava de clarão baço, a parede

innegrecida da casa. Baixando-me sobre os joelhos, enxerguei que esta

janella não estava de toda fechada. As beiras das portadas tocavam-se,

mas deixavam coar uma resteasinha de luz. Duas cortinas de cassa branca,

pendentes diante das vidraças, deixavam-me vêr todo o quarto através

d'um alvadio de leite que esfumava um pouco os objectos.

Lembra-me tudo isto. No fundo do quarto havia um grande leito, e sobre

este, uma corôa de ebano lavrado donde pendiam cortinas de estofo escuro

que contrastavam com a brancura dos lençoes. Á esquerda da cama, um

tapete estreito, á direita, uma commoda; ao pé da chaminé uma poltrona

de espaldar muito alto. Que sei eu? Creio que outros moveis estavam lá,

mas eu não reparei. Ao principio, não vi ninguem no quarto, alumiado

desigualmente, por um grande candieiro de cobre, coberto de quebra-luz,

que dardejava sobre o pavimento os raios, deixando o tecto escuro. O

leito ficava assim cortado longitudinalmente pela zona luminosa. Como

quer que eu me chegasse á vidraça para examinar se elle estava occupado,

uma sombra passou lenta entre o candieiro e a janella, desenhando-se nas

cortinas brancas. Pulsou-me o coração mais rijo. Agachei-me rente com a

sala, recuando um pouco.

Reconhecio-o. Era elle. Ainda o vejo. A viração tepida da noite de

agosto, suspirava á volta de mim na folhagem; cantava um passaro entre

os arbustos; a terra vaporava odores balsamicos; mas eu não via, não

sentia, não investigava senão elle. Alongando o pescoço para ajustar os

olhos á entre-aberta da janella, vi-o, com espasmo mudo, como se fosse

para mim coisa extraordinaria vêl-o de pé n'um quarto de sua casa. Tinha

os pés nus em amplas moiras de marroquim amarello; afivellava nos

encontros uma larga calça branca de flanella. Despeitorado, arregaçado o

colleirinho, arremangada a camiza, ia e vinha pelo quarto, fumando um

charuto, dando corda ao relogio, mirando-se ao espelho, e esticando os

braços. Assentou-se depois na grande cadeira encoirada, cruzou uma perna

sobre o joelho da outra, e bamboando-a deixou cahir a chinela. D'onde eu

estava, via-lhe perfeitamente a sola do pé nú levantada ao nivel dos

meus olhos, e o braço carnudo descançado sobre o encosto da cadeira. O

outro braço subia e baixava do joelho para o rosto, quando levava aos

beiços o charuto, cujo fumo odorifero se exhalava até mim.

De repente, voltou a cara para uma porta que eu não tinha devisado,

collocada ao pé do leito. Esta porta estava aberta, e no inquadramento

obscuro que ella cortava no fundo do quarto, vi, duvidoso da minha

razão, uma fórma vaga alumiada em rosto por um castiçal que ella trazia.

Potestades do céo! Era ella! Oh Deus! por que me não fulminaste

n'aquelle momento!

Entrou vagarosamente, depoz o castiçal sobre a commoda, e, atravessando

longitudinalmente o recinto, foi direita a elle, que a observava

tranquillo, e sem levantar-se.

Fanny estava meio vestida com aquelle desleixado traje que eu lhe vira

algumas vezes pelas manhãs, quando, ao sahir da cama, passeava no jardim

com os filhos. Era um chambrão muito farto de cachemira azul aberta no

peito, entre flocos de cambraia, deixando vêr o começo dos seios.

Sahiam-lhe das largas mangas os braços nús. Trazia desmanchados

negligentemente os cabellos, apanhados sobre as faces lizas, e apertados

por grossos tufos sobre a nuca. Aquelle eterno porte de placido pudor,

lá o apparentava no semblante.

Mas que vinha ella fazer alli a tal hora? quem lhe pedira isso? Não póde

a recordação do amante retêl-a no limiar d'aquella porta? Dir-se-hia que

ella nem se quer se lembrava de ter jurado, nem lhe passava pela mente a

existencia d'algum homem para ella, senão aquelle que alli estava

sentado, encarando-a, sereno como ella.

Fuzilou-me na alma um relampago de esperança, mas foi relampago.

Abaixado sobre os joelhos e as mãos, embaciado o vidro pelo meu bafo,

senti oscillar-me os braços como se o balcão estremecesse debaixo de

mim. Suor de agonia, acre e frio, me banhava a face e os membros;

rangiam-me os dentes, cahi, desfallecido, como arvore tombada ao ultimo

golpe do machado. Mas ouvi palavras; e, repuchando quantas forças tinha,

ergui-me sobre os joelhos e punhos.

Via-a andar mansamente d'um para o outro lado do quarto. Tocava,

vagamente, e como em distracção nos objectos de sobre os moveis, tal

qual costumava fazer em minha casa. E o marido tendo-a sempre d'olho.

Fallavam; mas a minha commoção só me deixava ouvir um murmurinho.

Rodeava-o ella, socegada e perfida, com os seus azues e suaves olhos, e

apparencias de simpleza vaga. A instantes, sorria um sorriso

melancolico. Quiz vêr n'esse rir, que lhe dilatava os labios sem

illuminar-lhe o olhar, alguma coisa forçada. Não se mostrava pensativa,

nem contemplativa, nem commovida. Estava perfeitamente á sua vontade,

natural e tranquilla. Bem sabia ella que a sua grande magia era a

irritadora tranquillidade.

O marido riu tambem, por sua vez. Vi-lhe o brilho dos seus alvos dentes.

Dava mostras de defender-se ingenuamente d'uma accusação que ella fazia,

sem cólera, mas como uma malignidade gracejadora, que não era isempta de

desdem e altivez. Discutiam tão pacificamente que pareciam nenhum

acreditar na realidade da sua disputa familiar. A final, debaixo da

testa quadrada do marido, brilharam mortiços os olhos; e, quando ella

perpassava diante d'elle, rossando-lhe com o vestido o pé, a decisão foi

prompta; calçou a moira; e tirando brandamente pela cintura da mulher,

sem resistencia, fêl-a assentar no seu joelho.

Saltaram-me as lagrimas então, lagrimas ardentes, que as palpebras não

podiam reprezar, e desceram silenciosas pelas faces até aos labios.

Emfim, comprehendia tudo; via a profanação, posto que a não quizesse

vêr; affirmava que não era sonho aquillo, e queria duvidar. Não posso

exprimir o que então se apartava de mim, o melhor de minha essencia, e o

mal que me fazia vêr aquella mulher, que eu adorava, nos braços d'outro.

Fanny continuava sentada com as mãos cruzadas sobre os joelhos, e com os

olhos no marido, conversava serenamente. Nada ha ahi mais casto que a

simplicidade da sua attitude, a pureza do seu perfil, e aquella

expressão dos olhos azues. No entanto elle, comprimindo-a cingida pela

cinta, amimava-lhe a face com a mão livre. A final, Fanny lançou-lhe por

sobre o hombro o braço esquerdo, e pendeu para elle langorosamente.

Vi-lhe então as costas, cobertas de tranças dos cabellos, e o vestido

fazia roda por largo espaço com impudor esplendido. Oh! como a

abominavel creatura cheia de graça e lascivia se aconchegava d'aquella

espadua robusta!

--É impossivel aquillo!--gritei eu em minha consciencia.--Não ha-de ser

assim!--Mas elle abraçou-a, collando a boca espessa ás puras faces

d'ella, e não sei o que lhe disse a meia voz. Fanny fez um gesto

negativo com a cabeça, muitas vezes, sem córar. Elle, por cortezia,

insistiu sorrindo, e ella, resistindo, pouco e pouco se rendia! Mulher

scelerada! como ella prolongava o meu supplicio! O debate mudo, durou

algum tempo. Não sei como foi que o sinto se lhe despregou, e rolou nas

dobras do vestido. E eu chorava sempre. Levantou-se ella em fim, aquella

mulher de resplendores e flôres, e, por um só movimento de braços e

hombros, fez escorregar o chambre até aos pés. Eu cahi de joelhos, e

ergui as mãos, como a exorar piedade. Ella tirou com afan, os pés do

monte de estofos, e, um tanto pallida, mas em silencio, caminhou para o

leito, achegando ao peito as ultimas coberturas. Quantas vezes a vira eu

assim impallidecer! Cravei as unhas no rosto. O marido ia depós ella,

vagarosamente.

E eu sem uma arma! Eu queria immediatamente estrangulal-a, espedaçal-a,

ingolphar meus braços nas entranhas d'aquella mulher estupida. Com todo

o sangue d'ella, não se apagaria o ardôr da minha tortura. Arquejante

como o tigre, que vê a garra do leão cravada na sua preza, ergui-me a

prumo, ferrei as unhas contra os dentes, escorria-me o suor da face,

soluçava, como em arrancos de morte, estrebuchava, e via os horrores

d'aquelle quarto.--Piedade! piedade!--foi o meu grito! E furioso, e

perdido, avançara um passo! mas os cabellos heriçaram-se-me, e os olhos

saltavam-me das orbitas, e a minha vista acerada entrou como um punhal

nos cortinados sombrios, e vi... vi tudo! Quiz ir ávante, e não pude. A

punição pregava-me os pés á balaustrada, e de minha bôca sahiam

gargalhadas de demonio. Que horror! Eu testemunha d'aquelle espectaculo,

a rir, como um doudo, a comprazer-me d'um jubilo que não tem nome nas

linguas humanas! Tentei de novo avançar, por que ouvira suspiros, e

queria saber qual das duas bôcas os exhalavam. Por um esforço prodigioso

dos meus musculos todos, cheguei a despregar o hombro da parede, e dei

ainda um passo; mas por que ao coração intumecido me refluira todo o

sangue, perdi o equilibrio, e cahi como um pezo inerte sobre o balcão.

Fanny: estudo · 第 79 / 94 题