O que decorreu depois d'isto, não sei.
Atrophiara-me um frio horrivel. Era nos ouvidos o sibilar lacerante.
Sentia abafar. Muitas vezes cheguei a ajoelhar, impellido sempre pelo
peso das aguas. Por fim, esqueci tudo; entendi que morria.
Quando me senti viver, estava na minha cama, com a cabeça em fogo. Abri
os olhos esgazeados. Tremia em todas as fibras. Sacudia-me o corpo,
desde a cabeça aos pés, uma horrivel febre. Ao meu lado, estavam dois
amigos observando-me. Fallei, e elles abanaram a cabeça. Veio um homem,
e tomou-me o pulso: encolheu os hombros, e partiu. Continuei a tremer.
Isto durou muitos dias.
Depois soube que uns pescadores me tinham, de madrugada, encontrado sem
sentidos, nas margens do Sena, com a cabeça envazada no lôdo.
Buscaram-me as algibeiras, e acharam na minha carteira uma carta, e,
guiados por ella, me trouxeram a minha casa. Delirei no caminho, e
tiveram-me em conta de doido. Estava-o, realmente.
Fanny, porém, ignorante de tudo, admirada de me não vêr, veio uma manhã;
mas o meu creado, a chorar, impediu-lhe a entrada no quarto, e
contou-lhe o que sabia. «Quiz afogar-se--disse elle--e agora está
doido»--Ella, porém, não quiz crêr no suicidio, e supplicou a entrada.
N'esse dia, um abatimento sem nome, semelhante ao dos cadaveres
prostrados em seus sepulchros, me tinha como pregado pelas costas ao
leito, com os braços alquebrados e os olhos abertos. De repente, devisei
na porta, que se abriu ao pé do meu leito, uma fórma humana, de pé e
quieta.
Não atinei logo com quem fosse aquella mulher que me vinha vêr
moribundo, adornada de trajos de estio tão elegantes e frescos, com
braceletes nos braços e flôres no chapéo: tambem não entendi por que
chegava com ambas as mãos o seu véo branco ao rosto. Os meus amigos
tinham-se retirado para o fundo do quarto, afim de respeitar, quanto
fosse possivel, um segredo que não queria ser penetrado. A mulher
adiantou-se até á minha cama, e eu ouvi-lhe o fremito do vestido.
Curvou-se-me sobre o leito, e levantou o véo. Como que senti
refrigerar-se-me a alma, de vêr sobre o meu rosto aquella face viçosa
cheia de graça, e como perfumada de saude.
Fanny! exclamei subitamente, erguendo os braços. Fanny abaixou-se a
soluçar sobre o meu peito. Mas a memoria restaurara-se com o conhecêl-a;
levei-lhe á face os punhos fechados, e repelli-a de mim, gritando
furioso «sai d'aqui!» Ella acreditou que eu estava doido, e arredou-se
chorando; mas com um resto de força que a raiva me déra, bati-lhe no
hombro, e, ao lançar-me fora da cama, cahi por terra aos pés d'ella.