Por que me não esmagou elle com as suas rodas?--exclamei, com a morte na
alma, retirando-me, e caminhando ao acaso como um ebrio.
Passava uma sege de praça; entrei--onde quer ir?--diz o boleeiro,
embrulhando-se no seu capote--onde quizeres, ao Bosque, onde quizeres. E
senti-me arrebatado d'aquelle sitio funesto.
A chuva escorria sobre as vidraças corridas. Encolhido n'um angulo da
sege, com os braços cruzados, e a face encostada á almofada, vi de lado,
ao clarão dos relampagos, estorcerem-se as arvores atormentadas pelos
furacões. A intervallos, resalteavam no ar as astilhas dos coriscos. E
eu dizia: Esta tormenta não os aterrará? Não sei que tempo passei
blasphemando, rasgando o peito com as unhas, chorando, dentro dessa sege
que corria atravez das arvores do bosque, ao clarão avermelhado dos
relampagos. Sentia-me abafar. Desci os vidros e a chuva batia-me na cara
e nas mãos. Encostei-me ao rebordo da portinhola, com a face deitada nos
braços. Tomou-me uma sensação horrivel de frio. Tinha febre. «Quer que
recolhamos?» dizia de espaço a espaço o boleeiro cançado.
--Quero--disse eu, fatigado já tambem.