XLVII

Por que me não esmagou elle com as suas rodas?--exclamei, com a morte na

alma, retirando-me, e caminhando ao acaso como um ebrio.

Passava uma sege de praça; entrei--onde quer ir?--diz o boleeiro,

embrulhando-se no seu capote--onde quizeres, ao Bosque, onde quizeres. E

senti-me arrebatado d'aquelle sitio funesto.

A chuva escorria sobre as vidraças corridas. Encolhido n'um angulo da

sege, com os braços cruzados, e a face encostada á almofada, vi de lado,

ao clarão dos relampagos, estorcerem-se as arvores atormentadas pelos

furacões. A intervallos, resalteavam no ar as astilhas dos coriscos. E

eu dizia: Esta tormenta não os aterrará? Não sei que tempo passei

blasphemando, rasgando o peito com as unhas, chorando, dentro dessa sege

que corria atravez das arvores do bosque, ao clarão avermelhado dos

relampagos. Sentia-me abafar. Desci os vidros e a chuva batia-me na cara

e nas mãos. Encostei-me ao rebordo da portinhola, com a face deitada nos

braços. Tomou-me uma sensação horrivel de frio. Tinha febre. «Quer que

recolhamos?» dizia de espaço a espaço o boleeiro cançado.

--Quero--disse eu, fatigado já tambem.

Fanny: estudo · 第 60 / 94 题