Seriam oito horas. O calor dos ultimos dias d'agosto purpureava o céo
carregado. As trevas, semelhantes a mortalhas espargidas, desciam com a
nevoa opaca atravez das arvores da grande avenida dos campos-Elyseos. Os
passageiros davam-se pressa para fugir á tempestade que trovejava
surdamente ao longe. As estrellas brilhantes das lanternas, aqui e além,
corriam, cruzavam-se e desappareciam. Nuvens de pó sacudido pelo vento
subiam diante de mim e toldavam o espaço. A meio-caminho, quasi entre
_Rond-Point_ e o «Arco do triumpho» parei.
Era alli. Encostei-me a um tronco de arvore, levantei o rosto, e olhei.
A meus pés era a passagem das carruagens que vão do portal á avenida.
Sobre a porta estavam abertas as quatro janellas da sala. Uma só
lampada, por certo, illuminava o recinto, por que a claridade que
translusia dos vidros escassamente brilhava como um clarão duvidoso.
Nenhuma sombra passava entre a lampada e os vidros. A casa está
vasia--pensei eu--e todavia Fanny não está em _Chaville_ por que a sala
tem luzes.
Estalou, neste momento, mais forte a trovoada.
Relampaguearam os coriscos. Um bulcão rugiu na ramagem dos alamos da
avenida, remoinhando turbilhões de folhas e terra. Então vi uma sombra
de homem chegar á ultima janella, e fechal-a. As outras tres fecharam-as
mais tarde. Depois, a froixa claridade que alumiava a sala bateu nas
vidraças mais tensa e viva: havia-se accendido uma segunda lampada.
E depois, mais nada. A avenida deserta, a tempestade no céo de todo
negro, eu em pé debaixo da minha arvore, e a sala vasia com as quatro
janellas lusentes. Soaram onze horas no relogio d'uma egreja visinha.
De repente, o estrepito de rodas acceleradas, mordendo a areia, passou
ao pé de mim. Eu dera, sem saber porque, alguns passos authomaticos.
--Arreda! Arreda! gritou uma voz irritada. Saltei para a margem da
estrada. Um _coupé_ vasio passou bamboando sobre o eixo, effeito dos
sacões; depois uma grande carroça de viagem tirada por quatro cavallos,
voltou de repente sobre si mesmo, ao tempo que se abriam os dois
batentes da porta-cocheira. Remirei a carroça com assombro. Ao fundo
estava um homem, que eu bem conheci--era elle. Ao seu lado uma mulher
que lhe fallava: era Fanny. Entre elles, sobre os joelhos, e nos braços,
tres meninos de cabellos louros. Foi uma visão rapida. Não sei se me
viram. A carroça desappareceu por debaixo do arco do portal, e logo os
dois pezados batentes rodaram nos gonzos, e bateram entre si com
estrondo lugubre e cavernoso.
Acabava eu pois de me arredar para dar passagem ao meu rival que entrava
como senhor em sua casa.