Que farei para apasigual-a?--Tal foi a ignobil pergunta que eu me fiz,
ao amanhecer do dia seguinte.
Escrevi-lhe uma longa carta tão submissa que não pude revêl-a sem pejo.
Rasguei esta carta, comecei outra, mas tão acerba de estylo que devia
exasperar quem eu queria commover. Não a conclui, e andei uma hora a
passear phreneticamente em todas as direcções no meu quarto. Primeiro
tive ideias de rompimento immediato; depois desvaneceram-se. Rebentou em
chamas o furor e o ciume; depois apagaram-se. Por fim, comprehendi que o
procedimento a que eu quizera impellir Fanny, era um crime, o qual,
consumando irremediavelmente a desgraça d'uma familia inteira, devia
tornar-nos desgraçados para sempre. Era-me pavoroso pensar que, a ter-me
ella attendido, durante a nossa existencia toda, viriam interpor-se
entre ella e mim as imagens de seus filhos abandonados.
Mas ao mesmo tempo escasseava-me força para o resgate. Affizera-me ás
minhas dôres, e não ousava trocal-as por dôres desconhecidas. É preciso
ter sido, como eu fui, o tudo nas ternuras e affeições d'uma mulher, o
coração que incessantemente regia os movimentos d'outro coração, para
poder comprehender os horrores da solidão que segue um rompimento. Eu
delirava de raiva e dôr. Por fim, commovi-me, erguendo os olhos para o
retrato de Fanny.
--Que mal me fez ella?--dizia eu. Chorei; e, indeciso, vesti-me, e sahi.