XLV

Que farei para apasigual-a?--Tal foi a ignobil pergunta que eu me fiz,

ao amanhecer do dia seguinte.

Escrevi-lhe uma longa carta tão submissa que não pude revêl-a sem pejo.

Rasguei esta carta, comecei outra, mas tão acerba de estylo que devia

exasperar quem eu queria commover. Não a conclui, e andei uma hora a

passear phreneticamente em todas as direcções no meu quarto. Primeiro

tive ideias de rompimento immediato; depois desvaneceram-se. Rebentou em

chamas o furor e o ciume; depois apagaram-se. Por fim, comprehendi que o

procedimento a que eu quizera impellir Fanny, era um crime, o qual,

consumando irremediavelmente a desgraça d'uma familia inteira, devia

tornar-nos desgraçados para sempre. Era-me pavoroso pensar que, a ter-me

ella attendido, durante a nossa existencia toda, viriam interpor-se

entre ella e mim as imagens de seus filhos abandonados.

Mas ao mesmo tempo escasseava-me força para o resgate. Affizera-me ás

minhas dôres, e não ousava trocal-as por dôres desconhecidas. É preciso

ter sido, como eu fui, o tudo nas ternuras e affeições d'uma mulher, o

coração que incessantemente regia os movimentos d'outro coração, para

poder comprehender os horrores da solidão que segue um rompimento. Eu

delirava de raiva e dôr. Por fim, commovi-me, erguendo os olhos para o

retrato de Fanny.

--Que mal me fez ella?--dizia eu. Chorei; e, indeciso, vesti-me, e sahi.

Fanny: estudo · 第 58 / 94 题