Chegava emfim o dia suspirado! Erguia-me de madrugada, e todo me dava ao
infantil prazer de arrumar eu mesmo o meu quarto. Decorava-o de novas
flôres; baixava os transparentes de brocatol côr de rosa, enramalhados
de flôres, a fim de quebrar com suavidade o brilho da luz, que os
coloria magicamente. Refegava artisticamente os cortinados de cassa e
alizava com as mãos o tapete de cadarço do meu leito. Regulava o
relogio, cujo pendulo tão moroso então me parecia. Sobre um bofete de
páo das ilhas, dispunha em bandeijas chinezas, dôce de fructa,
pastelaria, e em roda calices de Bohemia, e alguns frascos empoeirados
de Marsalla. Mandava o creado passear até á noite, e ficava eu senhor
absoluto do meu elegante recinto. Ahi todo me agitava livre como a ave
entre ramagem dos bosques desertos, arredondando e brunindo com o peito
inquieto o dôce ninho dos seus amores.
Que cuidados me não dava o prevenir os menores desejos da mulher que eu
estremecia! com minhas mãos pregava os alfinetes no pregador de veludo.
Tirava do estojo de marroquim escarlate o pente de dentes escamosos que
ella usava para alisar os cabellos descompostos pela pressão de meus
dedos tremulos. Atiçava o dôce fogo que se avermelhava entre as cinzas.
Aproximava do fogão a cadeira d'ella; trazia do divan a almofada em que
ella punha os pés, e eu os joelhos, na attitude dos devotos contemplando
seu idolo. E quando estava assim disposto tudo, quando o ponteiro
d'ouro, avisinhando-se do numero escolhido, parecia dizer-me: «Vais
ouvir soar a hora de teu prazer,» mais inquieto e agitado que nunca, ia
eu pé ante pé, da porta á janella, como vae e vem o cão fiel,
atormentado pela impaciencia, adivinhando o andar de seu dono.
E eu dizia comigo: «A esta hora, tambem ella lança a furto os olhos ao
seu relogio. Sabe que a espero. Agora, deante do espelho, aperta na
barba o broche da capa de veludo. Incaracola os cabellos rebeldes sobre
a fronte pura. Involve as espadoas no chalé escuro, e aperta-o sobre o
peito com o alfinete de camapheu. Veste as luvas, e irrita-se. Sobre os
olhos negros accumula as dobras do véo tambem negro. Atravessa as salas
desertas. Passa. Roda a chave. Sae. Desce. Corre cozida com as casas.
Vou vêl-a!
E depois, mais nada... Oh! que longo é o tempo quando se espera e
desespera! Se algum estorvo sobreviesse! uma visita, o capricho d'um
filho! Que desgraçado sou! não virá ella? Já se demora!
E, com tudo, era-me tão dôce recebel-a aqui, uma vez mais, neste quarto
tão bem disposto para ella! Tão dôce o recebel-a nos braços, no limiar
da porta, e arrebatal-a para escondel-a como um thesouro! Tão bom
tocar-lhe as mãos, os cabellos, e vêl-a emfim fitar-me com seus olhos
lindos, e ouvil-a dizer: «tu» com aquella voz muzical!