Chegava ella emfim! Encostado ao alizar da porta entre-aberta, escutava
eu o fremito do seu vestido, e o ranger das botinas sobre o tapete da
escada. Entrava ella, roixa de frio, offegante, com as pestanas
lagrimosas, e, sem erguer o véo, sem dizer palavra, atirava-se-me toda
ao peito, cingia-me o pescoço, e, timorata e assustada como um
passarinho, applicando o ouvido, escutava, convulsiva, o menor rumor que
se fazia na casa ou na rua.
E, quando emfim os mêdos se aquietavam, e que ella se decidia a transpor
o limiar, era uma como visão deslumbrante que alagava em ondas de luz a
camara fechada. Os menores objectos, com a presença d'ella, eram-me
thesouros inestimaveis. Tudo parecia animar-se então, como, nos
primeiros dias da primavera, despertam as florestas que dormiam sombrias
e taciturnas.
Algumas vezes, comtudo, festivos raios do sol, coando-se pelas juntas
dos cortinados, atravessavam o espaço, e quebravam-se ao fundo da
alcova, sobre a superficie polida d'um espelho. As flôres das jarras,
postas deante das janellas, desfolhavam uma a uma, juncando o tapete das
suas frescas petalas. Segredando, de mãos dadas, palavras incoherentes,
contemplava-m'o-nos como arrobados, absorvidos n'uma commoção deliciosa
e entranhada que nos adestringia docemente o coração, e nos marejava de
lagrimas os olhos. Como nosso amor, como nossa alegria, eram infinitas
estas expansões; nossos pensamentos, porém, não ultrapassavam as paredes
discretas do quarto silencioso. Para nós o mundo todo estava alli.
E como era aquelle devorar-m'o-nos de caricias! Que suave energia a dos
braços! que avidez nos beijos! que febril tremor nos gestos em quanto eu
lhe disputava em silencio os vestidos descompostos que ella retinha ás
mãos ambas, pallida d'um vago susto! Frenetico, de joelhos, cingia-a
pela cintura quebradiça, e ella, oscillante entre os meus braços
compressores, tomava-me a face entre as suas mãos, affastava-a com
meiguice, encarava-me, e voltava o rosto como se meus olhos a
aterrassem.
E eu, como esquecido de minha dignidade, arrastava-me aos pés d'ella,
beijando-lh'os nus. Oh! se eu morrêra alli, collados os labios áquelles
pés infantinos, brancos e rosados, que ella poisava n'um tapete de
plumas de cysne, a tiritar entre seus véos como o anjo da inquietação
meio involto na plumagem de suas azas!
V
Passado o primeiro momento da vertigem, parecia-lhe a ella coisa natural
o estar alli, ao tempo que eu a comprimia com ardor feroz. E então, no
explendor de sua desordem, desatadas as tranças, nuas as espaduas, nus
os braços, frios e viscosos os labios, mais muda, mais seria, mais
enleada que eu mesmo, estava tão senhora sua como se estivesse recostada
na cadeira de veludo ao pé do fogão de sua casa. Eu não sei o que ella
não fizesse com as mais naturaes e dignas maneiras! Nada a surprehendia
nem a molestava.