--E agora?!... perguntou no quarto escuro. O filho doido... a morte em

tôrno dela... e ninguêm, ninguêm que lhe valesse...

Lá fora a manhã subia, com pregões. Mas neste quarto, para a pobre

velha, o silêncio era doloroso como um uivo.

Meses depois, encontrei-o uma manhã em Nevogilde, sob um grande

castanheiro a desfolhar-se.

Intrigou-me ver o Veiga em pleno campo, saturando-se de outono e

solidão. Que podia fazer ali aquele idiota?

Mas quando me aproximei e o vi de perto, espantou-me a mudança que

fizera. Era outro: era um pedinte louco, de olhos meigos...

Parei a olhá-lo. Êle cumprimentou-me com maneiras untuosas de prelado...

E ficou a sorrir, chapéu na mão, como à espera de que eu fôsse falar-lhe.

--Linda manhã, senhor Veiga, não é verdade?

--Diz Vossa Excelência muito bem... Está linda.

--Então mora por aqui--por Nevogilde?

--Não, senhor... Eu não tenho casa. Gosto disto... aqui. Ha campo e mar...

--Não tem casa!... Desculpe esta pergunta: e onde dorme o senhor?...

Esteve um pedaço a fitar-me, olhos em olhos. Depois--em confidência

misteriosa:

--A Vossa Excelência sempre o digo. Eu nunca durmo...

--An?!...

--Eu nunca durmo. Não tenho tempo p'ra dormir. Quero viver! viver!...

Não posso perder nem uma manhã nem uma noite. A gente sabe lá quando tem

de deixar isto... Sabe-o Deus! Eu já perdi muito. Tenho remorsos. Quando

penso nisso... tenho remorsos... Quando eu era empregado, passava dias

inteiros sem olhar p'rò céu. Só via gente e ruas... E as noites...

tambêm as perdia. Ia p'ròs teatros, p'ròs cafés. Foi só depois--quando

morreu a minha mãe--que eu compreendi que ia mal... e resolvi viver.

Passei dias de desespero, a pensar que não gostei dela como devia... que

a não acarinhei... que a deixei ficar sozinha muitas vezes... Ia dando

comigo em doido. Depois lembrei-me--que o que me sucedeu com a minha mãe

me podia suceder com a vida toda. E mudei de rumo... Deixei o

emprêgo. Fiquei assim... pus-me a viver. Agora, se adormeço num banco

uma hora ou duas, zango-me comigo...

Por muito tempo, em palavras de gago, bipartidas, sussurou as razões da

sua vida, a sua exegese moral de vagabundo, a sua felicidade e... os

seus recursos.

Tinha amigos, pessoas que o conheceram noutro tempo, _antes de êle saber

o que era a vida_... E quando precisava de dinheiro (êle afinal de pouco

precisava: nutria-se de frutos e de pão) era muito raro recusarem-lho:

só se de todo em todo não podiam.

Notou que eu lhe fixava a andaina rôta e sorriu com meiguice desdenhosa:

--Ando assim... todo rôto. Que me importa! E podia andar bem... isso

podia. Muitas pessoas me teem dado roupa. Até fatos inteiros... e em bom

uso. Pode V. Ex.ª acreditar. Mas às vezes, de noite, pelas ruas, vêem

ter comigo às escondidas da polícia, desgraçados com fome... todos

rotos... E por boas maneiras ou à fôrça, tenho de trocar a minha roupa

pela dêles...

--Imaginam, coitados, que me roubam... Que pode isso fazer-me!... Que me

importa!...

Teve uma expressão de piedade em tôda a máscara, e gaguejou com outra

voz, comovidíssimo:

--Tenho tanta pena dêles... tanta... tanta... de todos os que foram como

eu.... No fundo... é mais triste que a fome e que a miséria... ver como

andam na vida _sem viver_... V. Ex.ª perdoe o que eu lhe digo...

Assim, nessa manhã de outono, eu conheci um outro Veiga--o que me

interessa.

Perguntei-lhe, almofadando a oferta, se precisava algum dinheiro.

Recusou. Tinha já almoçado há algumas horas... Mas como eu insistia,

tirou do bolso uma mãocheia de migalhas, e mostrou-mas como um último

argumento:

--Ficou-me ainda isto... pr'òs pardais...

Depois, com um gesto lento, precioso, em que as taras do amador

dramático automaticamente se traíam, tirou do outro bolso muitas

pétalas, e ofereceu-me algumas:

--Faz... favor. São de uma roseira que o vento desfolhou...

Ficou curvado a aspirá-las uns segundos:

--Certas manhãs de outono... os perfumes dão vontade de chorar...

Datam daqui as nossas relações. Cultivo nele com estima, com ternura, o

único panteísta que eu conheço. E tal qual o vêem pelas ruas, êste pobre

mendigo alienado anda «bêbedo de Deus», como Spinosa.

Encontrei-o ontem à noite: conversámos. E as poucas palavras que me

disse, cravaram garra em mim: não as esqueço. Êle anda agora

esquelético, a cair: o seu boemianismo panteísta tomou uma forma aguda,

convulsiva: é uma espécie de delírio ambulatório.

Como eu aludia ao seu cansaço, pedindo-lhe que não andasse dia e noite

nessa lufa em que agora o via sempre, êle, que era mais meigo de

que um cão, deitou-me bruscamente as mãos aos braços, e com uma

indizível voz de raiva e súplica:

--Por o amor de Deus... não diga isso! Olhe que eu não duro muito. Eu

sei... eu sei... E tenho fome... fome de adorar... Eu quero como a um

filho, à terra tôda...

E falou-me das árvores, do mar.

Disse-me que queria acompanhar a Noite, sem perder um segundo, um só

segundo, caminhando com ela, caminhando;--e logo, logo ao despedir-se

dela, abrir bem os seus olhos, bem abertos, ao primeiro araiar da

madrugada... E seguir depois o sol até à morte, ele e a sua sombra que

era triste--como se fôsse já uma saudade...

Era num jardim público, deserto. Caíam dos plátanos fôlhas sêcas... Êle

baixou-se, apanhou algumas com cuidado, como se fossem borboletas

estonteadas...

--Veja V. Ex.ª veja... Como estão encarquilhadas... tão sequinhas! A

minha hora chegou como a hora delas...

E como o vento as fazia redemoinhar, estremeceu e disse bruscamente:

--Passe Vossa Excelêcia muito bem... Queira perdoar... Não posso perder

tempo...

E o amante da terra o meu pedinte; não tem tempo p'rá amar, por isso

sofre; sente que ela lhe foge a cada instante, e não quer adormecer p'rà

sentir sempre, contra o seu corpo de fantoche mártir, com sobrecasacas

doutros, fraques doutros, por cujos rasgões entra o sol ao luzir dalva,

até que a noite por sua vez se engolfe neles, correndo-lhe a carne de

miséria, sensitiva, e amando-o sem nojo horas e horas...

A Morte, quando vier, vai comover-se, ouvindo-lhe na gaguez frémitos de

asas, vendo-lhe abrir os braços de esqueleto como p'ra agasalhar a vida

tôda, e oferecer-lhe nas mãos roxas e ósseas--pétalas murchas e

folhagens sêcas...

Não pode durar muito: é impossível.

Mas nas pedras da rua onde morrer, terá em torno dêle a despedir-se, o

Mar, as Árvores, a Aurora, tôda a vida da terra--sua amante...

Apercebia com uma acuidade visionária a orquestração da noite, dita em

surdina nas janelas, nas folhagens, e decompunha essa penumbra de

ruídos, complexíssima, a que chamamos vulgarmente as «horas mortas».

Quási madrugada, em Dezembro, recolhia eu estugando o passo, porque

fazia uma névoa frigidíssima, quando o cruzei numa ruela íngreme. Levei

a mão ao chapéu e fui andando, mas instantes depois êle atracou-me, a

tiritar de frio, soleníssimo, o côco erguido e o busto em reverência.

Era ainda polidez, diplomacia:

--Desculpe V. Ex.ª Teve agora a bondade de saudar-me e eu não pude

corresponder... Só depois me voltei e o conheci. É que eu ia distraído,

a trautear...

--Nada mais natural, senhor Veiga, nada mais natural...

E p'rò não despedir com brusqueria, fiz-lhe ainda esta pergunta

estúpida:

--E que trauteava o senhor com êste frio?

Fixou-me. Depois com um gesto curvo, muito vago:

--Isto... o silêncio... a névoa...

Sem frauta rústica, pobre fauno de quico e butes rotos, o Veiga não

imitava, como colegas seus de longes tempos, quando a Terra era ainda

uma criança, o rumor claro das levadas rindo espuma, mas apenas o

esgarçar dolorosíssimo de uma névoa mendiga de dezembro, que o vento ia

rasgando aos empuxões, nos beirais dos telhados, nas esquinas, esquecida

talvez de que foi mar ou o chôro das nuvens vagabundas...

E lá foi sob a grisalha a desfazer-se, ouvindo música inédita p'ra

todos, êsse mísero fauno arripiado que eu vi uma só vez com uma ninfa...

Foi à beira do rio, em Massarellos. Como era tarde e não havia

eléctrico, eu ia a pé p'rà Foz, na noite calma.

No cais, sentado em toros de pinheiro,--madeira para embarque,

certamente--havia um par em idílio, muito unido, onde fui descobrir

com grande espanto, a silhueta cómica do Veiga.

Por trás, junto a uma faia sonolenta, detive-me um instante a escutar.

Era o Veiga que falava à creatura, na sua voz gaguejada e um pouco

emfática, em que eu sentia o ex-amador dramático sob uma névoa de

lágrimas molhando-a:

--Não se aflija. Eu tenho relações. Ha-de tornar a entrar p'rà fábrica,

descanse. De que serve chorar?... Torna a entrar, torna a entrar,

digo-lho eu.

E uma voz de timbre fino, adolescente, respondia num chôro sem esperança:

--Não me querem lá mais. Que hei-de eu fazer?...

--Qual não querem! Olha a grande coisa! Mas porque foi que andaram à

pancada?

A outra voz choramingava, aos haustos:

--Eu andava na descarga do carvão... Nunca chegávamos à barca ao mesmo

tempo. Quando eu trazia o cêsto carregado, voltava ela sempre de o

largar... e dava-me encontrões e más palavras. Eu calava-me, mas já não

podia mais. Tudo isto, já se vê, por causa dum rapaz que é da Afurada e

anda a passar o povo p'rá outra banda. Hoje deu-me um encontrão com

tanta força, que me voltou o cesto na cabeça e chamou-me... ainda por

cima. Foi então que me atirei a ela como cega--que até lhe cuspi de

raiva no cabelo... Depois o inspector veio e poz-me fora. E agora...

agora...

Desatou a chorar de encontro ao Veiga. Corria um leste morno de carícia,

e êle passando-lhe as mãos magras na cabeça, gaguejava consolações, mui

comovido:

--Não chore, não chore, torna a entrar. E há-de voltar p'ra casa ainda

esta noite... Eu mesmo vou acompanhá-la... Não tenho nada que fazer. Não

me faz monta... Eu falo à sua mãe, conto-lhe tudo. Já ela lhe não

bate... então... não vê? Depois volta p'rà fábrica, verá. Eu tenho

relações, trato-lhe disso. Amanhã pela manhã...

Não ouvi mais. Nem um sôpro de desejo nessa arenga: apenas o amor por um

ser vivo, a ânsia de o erguer que êle teria, vendo um caule partido num

caminho ou uma rosa ao abandono, a desfolhar-se.

É que os nervos do Veiga, como os de certos artistas que teem génio,

vibravam de amor egual por tôda a Vida, e sentiam nas rosas e na névoa,

nas crianças e nos pobres e nas almas, a mesma ância inconsciente de

Unidade, o mesmo erguer de mãos para a Beleza.

Vi-o depois na Cordoaria uma manhã de inverno, sob o tufo scismático dos

cedros, grisalhos de névoa e de geada.

Debatia-se com grandes gestos aflitos, entre um grupo de garotos que

gritavam. Trazia um frak imenso, parecendo ter sido acastanhado, côco

preto que a grenha intonsa levantava, e na cara chorinca e acriançada,

davam-lhe os olhos rasos, mais que nunca, um ar de melodrama pífio, um

cómico angustioso de careta.

Não me sentiu aproximar. Ouvi-lhe a arenga gaguejada: compreendi.

Um dos garotos apanhara, fisgando-o à pedra, um pobre pássaro que outro

tinha nas mãos agonizante. O Veiga que passeava, interviera, e entre

insultos e risadas, reclamava com palavras patéticas, o pássaro--_para

que o não matassem._

--Se o quer, dê-me um vintém por êle, dizia brusco um dos pequenos.

--Quem?! Olha o peneira! gritava outro às gargalhadas.

Dei o vintém, mandei que lho entregassem.

Foi ao ouvir-me a voz que se voltou. Riam-lhe as lágrimas nos olhos.

Tirou-me o côco, curvado em reverência. Depois, como o garoto lhe

entregava o passarito, recebeu-o com carícia no côncavo das mãos

arroxeadas, e hirto, solene, sacerdotal, veio entregar-mo, erguendo

muito os braços, como se levasse uma píxide sacrosanta.

--É... é de Vossa Excelência... Muito... muito obrigado...

E sem que eu tivesse tempo p'ra fugir-lhe, beijou-me as mãos e deu-mo

ensanguentado.

Encontrei-o muitas vezes de passagem: de manhã, de noite, a tôda a hora.

Às vezes, esquecia-se a olhar muros de quinta, quando caem braçadas de

glicínias, e era dêstes p'ra quem o musgo núma pedra é um afago de

veludo que comove.

Uma noite, vi-o sair com um embrulho de um bazar. Vinha radiante.

Viu-me, flectiu em parábola numa vénia, e foi andando.

Cruzei-o horas depois ao vir do teatro. Seguiu-me. Vi que queria

falar-me e esperei-o numa esquina, a acender um cigarro. Abordou-me com

o cerimonial de mandarim que êle usa sempre. Supus que ia pedir

dinheiro. Mas não: era outra coisa.

--V. Ex.ª desculpe... Está frio e eu venho demorá-lo. Vem decerto do S.

João... é só um instante. É que eu devo uma satisfação a V. Ex.ª. Viu-me

hoje sair do _Bazar dos tres vintens_, não é verdade? Decerto

imaginou que eu fui lá comprar p'ra mim alguma coisa... Não fui: quero

contar-lhe...

--Ó senhor Veiga, que idea! Nem pensei nisso.

--V. Ex.ª consente? Eu vou dizer. Fui lá comprar uma boneca p'rà

Mariinha... Perdão. V. Ex.ª não sabe quem ela é. É a filhita duma pobre

que eu conheço... Tem cinco anos... É um amor de pequenina. Sou muito

amigo dela. Até me chama padrinho... A mãe ensinou-lhe. Já V. Ex.ª vê...

Era p'ra ela...

--Não era preciso dizer, eu nem notei...

--Era o meu dever. Pela consideração que V. Ex.ª me merece. Queira V.

Ex.ª perdoar. Não o importuno mais. Está fria... está muito fria a noite!

Ainda uma reverência e lá partiu.

Estranho Veiga! Como se desentranhou êste ser de hoje, do grotesco banal

que eu conheci?

Como dêsse reles títere, amoroso sovado, trapo humano, ex-amador

dramático e ex-poetrasto, saiu o panteísta vagabundo, o louco duma

misericórdia tão sentida, que eu vi salvar com os olhos rasos um pobre

passarito moribundo?...

A pobre velha, morrendo, _iniciou-o_. Nasceu da sua dor segunda vez...

Uma manhã, em Carreiros, junto à praia, depois das cortesias do costume,

pediu-me uns cobres para ir almoçar. E quando eu ia já a despedir-me,

reteve-me com um gesto, e gaguejou esta oferta, muito lento:

--Peço licença... p'ra uma pequena lembrança a V. Ex.ª Mas antes

prometa-me que a aceita... É uma insignificância, mas cuido que V. Ex.ª

a estimará...

Prometi.

Enfiou solene a mão ossuda no bolso da sobrecasaca coçadíssima, que

vestia sem camisa, contra a pele, e tirou com infinitas precauções, um

asterídeo ainda húmido, perfeito.

--Como sei que V. Ex.ª gosta do mar, pensei em dar-lha. É uma estrela do

mar... Perdoe o atrevimento...

E partiu quando eu lha agradeci, com os olhos loucos rasos de alegria.

Nunca, porém, me feriu tão fundamente o seu amor de louco à Natureza,

como nessa madrugada em que eu o vi numa rua afastada de arrabalde.

Fazia já um calor asfixiante. Estava em cabelo junto a um muro de

quintal, revestido de rosas de toucar, madre-silvas em flôr e clematites.

Todo em gestos litúrgicos, mui lentos, punha rosas a abrir na grenha

imunda, perfumava as mãos com madre-silvas, e passava-as nas fontes,

extasiado.

De quando em quando descaía os braços, descansava assim alguns

instantes, e na cara sugada, pele e osso, os olhos puros riam, muito

calmos, numa beatitude transcendente.

Havia já um grupo em torno dêle, de leiteiras que vinham p'rà cidade, de

moços de lavoura que estacavam. Olhavam-no a rir perdidamente.

Eu pensava em Ophélia, no Rei Lear, nas loucuras patéticas de

Shakespeare, ao ver êsse alienado vagabundo, êsse estranho pedinte de

olhos meigos, que trazia só pétalas nos bolsos, e em plena luz polínica

de estio, oficiava a Pan, de butes rotos, aspirando perfumes

voluptuado...

WORDS...

Words...

(DUM CADERNO DE NOTAS DE C. F.)[2]

--Ao morrer, cada um de nós deve dizer à Morte: «Deixe-me estar ainda um

bocadinho. Esquecia-me por completo de viver...»

--Xerxes chicoteou o Helesponto. Quando nós nos queixamos do Destino,

somos tão pueris como êsse rei.

--A dôr deve ser como um amante--que nos faz sofrer e em quem batemos.

--Nietzsche definiu a glória «a falta de pudor na admiração». No meu

país, é a falta de pudor na incompreensão.

--No silêncio, nascem em nós sentidos: os sentidos p'rà vida do mistério...

--Obsessão a brocar um moribundo:

«Nunca olhei, _sem outra idéa_, para o sol...

--Só a verdade é inverosimil.

--A amizade é uma hipótese divina que só os grosseiros cuidam ter

vivido.

--Avaliamos quási sempre os outros pelas opiniões que teem de nós. É por

isso que conhecemos menos--aqueles que mais julgam conhecer-nos.

--Os artistas procuram no amor, além da satisfação do instincto, a

glória,--na admiração de mãos postas da mulher. Compensa-os de não terem

público, e só tarde percebem--que quanto mais beijados... mais inéditos.

--É preciso ser feliz em família p'ra compreender a volúpia de estar só.

--Porque é que os ciprestes entristecem?... Porque, p'ra nós, são um

soluço alongado e verde-escuro. É bem possível que êles sejam muito

alegres... É por motivos dêstes que muitas coisas nos parecem tristes.

--Alguns dizem: publicar um livro é prostituir-se. Pedantes! O mar

recebe nêle os vossos corpos...

--Quem mais injustamente julga um crime? Primeiro o criminoso, que

estava _fora de si_, que já não sabe; depois os julgadores oficiais--que

estão _fóra de si_ profissionalmente.

--_Aut César aut nihil._ Podes ser um mendigo e ter na tua vida interior

êste brazão.

--Sou por tal fórma talhado para amar--que o meu amor cresce com o meu

desprêso.

--A maior parte da gente é _honesta_--em virtude da lei do menor

esfôrço.

--Há um instante na vida em que cada um de nós se julga um deus: com uma

doutrina a revelar, um calvário nos longes e um profeta...

--Quando depois de lamentar alguêm o vemos salvo, sentimo-nos _roubados_.

--A arte é o refúgio dos que não podem viver integralmente. E muitas

vezes tambêm, uma vingança.

--A mentira e o dever são irmãos gémeos.

Quando naturalmente, por instinto, nós fugimos ao código e à moral, ela

apareceu-nos, máscara doirada, para esconder a responsabilidade. Mas há

outra, a mentira criadora, que é a asa do Sonho e da Beleza. Os

filósofos chamam-lhe:--_Verdade_...

--Umas mãos, um gesto de mulher, um perfume de flôr, ou um velho estofo,

consolam bem melhor que Marco Aurélio...

--As mulheres não falam só ao nosso instinto. Falam mais: sem se

ouvirem, sem saberem... São quási sempre vazias ou banais. Mas para alêm

da frivolidade e do desejo, são verdadeiras fontes de inconsciente.

Numas pálpebras descidas, num olhar, no misterioso de milhares de

_nadas_, há sonhos e sonhos revelados, a expressão do _irredutível a

palavras_.

Elas são na sua vida interior, como crianças a assistir a uma

tragédia... Soube lá nunca a Mona Lisa que tinha tudo o que Vinci

copiou!...

--Um perfume na sombra tem uma voz de aparição.

--A renúncia é uma doença do desejo. Vem com a velhice quási sempre.

--A humildade corresponde no homem ao mimetismo dos insectos.

--Certas preferências--que nem o raciocínio nem a estesia

explicam--despertam em nós sensações de vidas anteriores: um certo

perfume, uma paisagem p'ra outros sem encanto, certa feia, uns versos

medíocres, um acorde banal...

--Recusei ontem uma apresentação a um «homem de princípios». P'ra quê?

Um «homem de princípios» é um homem conhecido: está impresso.

--_Música do mar_--Aquele violinista meu amigo foi viver, por conselho

meu, p'rà beira mar. Ia com uma grande febre de compor. Levava um

quarteto inacabado, um esbôço de sinfonia, outros projectos...

Encontrei-o na praia ontem à noite.--Então... êsse quarteto? a

sinfonia?...--Nem quarteto... nem sinfonia... nem violino... Eu já não

faço música. Pus-me a ouvir a do mar bem simplesmente.

--A moral é um lastro. Deita-se fora p'ra subir...

--Todos dizem adeus com o mesmo gesto. E êsse gesto é o das asas...

Subir é ficar só.

--Quando duas criaturas se amam, não pensam um instante em

compreender-se. Uma vaga de inconsciente submergiu-as. Só mais tarde,

morto o desejo, se reconhecem com espanto, dois estranhos.

Dizem com desespero: «Um de nós mudou. Já não somos os mesmos».

--De uma maneira geral, temos mais pontos de contacto com os nossos

inimigos do que com os nossos amigos.

Amar uma mulher, querer conseguir o mesmo fim, são causas de ódio.

--O nosso inimigo é o nosso cúmplice.

--Os programas de governo estão para a política, como os dogmas para as

religiões. Nem os primeiros interessam os partidários, nem os segundos

os crentes.

--A liturgia obliterou-se, é de uma teatralidade já sem símbolo.

Corresponde à retórica--ou arte de hipnotizar imbecis com gestos e

palavras em que se sacrifica à idea ausente.

--Não há esculturas como as nuvens.

--Os homens que construem um sistema, fazem a própria jaula em que se

fecham.

--A grande indústria humana--a específica--é a fabricação de deuses.

--P'ra viver puro é preciso durar como as espumas: um instante.

--A tragédia de D. João está no supremo poder de seduzir, de que êle

próprio foi a maior vítima. Em nenhum amor matou a sêde.

De mulher em mulher, como outros de idea em idea, êle era,

essencialmente, um homem _bêbedo de Deus_, como Spinosa.

--Um perfume é uma confidência: é tambêm o olhar das flôres, e, segundo

Hello, o seu estilo.

--Viajar é a arte de saborear decepções.

--A magia da viagem, tão grande como a do amor, começa no instante do

regresso. A do amor chama-se--saúdade, a da viagem--evocação.

--Se na morte tivéssemos consciência--gozaríamos emfim a viagem da vida.

--Um artista numa terra nova tem a sensação de nascer segunda vez.

--As escólas literárias são verdadeiras cooperativas de consumo. É só

matricular-se... e cozinhar.

--Os génios são inclassificáveis: são a promessa falhada de outra espécie.

--A garra do génio é a sinceridade.--Falar _por la bocca de su

herida_ é um acto heróico.

--Só são coerentes os factícios.

--Os que se conhecem, são vazios.

--A palavra de honra é uma gazua. Força a credulidade dos ingénuos

quando não temos força moral p'ròs convencer.

--A música é o médium do mistério.

--A eternidade é a sensação de _alguns_ instantes...

Às vezes é num grande perigo que a sentimos: certos segundos lúcidos da

agonia em que se faz o supremo exame de consciência; antes duma operação

grave, quando cada gesto tem um fervor de despedida; nos últimos minutos

dum condenado à morte.

Outras vezes, é num grande gôzo que a entrevemos: no espasmo da cópula;

na aura do ataque epiléptico (que Dostoïevski diviniza); nos primeiros

momentos de admiração por uma obra-prima; na vertigem da criação

sub-consciente; e finalmente os místicos, na absorção em Deus, ou,

segundo a expressão de Dante, quando «partem do século».

--Uma vez, tomando nas mãos uma cabeça de mulher, disse-lhe baixo, com a

vontade perdida nos seus olhos: «Podes fazer de mim o que quiseres».

É isto que eu agora digo à Vida.

--_Testamento dum pobre_--Se eu morrer na primavera, envolvam em feno

aromático meu cadaver nu, cubram-me de lilases e de rosas, deixem-me

decompor assim--com tantos vermes como borboletas!

Enterrem nos meus olhos de morto já gomosos, pecíolos de rosas de

veludo. Não me embalsamem. Que eu seja uma podridão bem petalada!

Ponham-me sob uma árvore florida, p'ra que um vento de cópula passando,

sacuda o pólen sôbre o meu cabelo! Depois no roxo outono, morto, o

mais feliz dos mortos, cada corvo que vier grasnando--há-de partir de

gula o bico curvo contra o meu crânio em que há pétalas murchas...

--O sacrifício é a selecção natural invertida: os fortes servem de

degrau aos fracos.

--A incoerência instintiva, absolutamente sincera, tem uma lógica

interior--a própria lógica da vida--que os psicólogos profissionais

nunca auscultaram. Os personagens de Dostoïevski, por exemplo, ganham

tanto mais em unidade e em verdade, quanto mais, p'ra olhos vulgares, se

contradizem. Bourget é o psicólogo da coerência...

--O grito de Oswald Alving no último acto dos «Espectros»: «Mãe, dá-me o

sol», é o grito que a morte gela em muitas bocas.

--Portugal é um navio naufragado em que a tripulação espera há

séculos...

--A arquitectura que eu mais amo é a dos navios.

Os mastros aspiram como agulhas góticas, mas emquanto a catedral se

queda em êxtase, as velas seguem entre adágios de asas...

--Adoro o mar. Ando a ensinar ao meu desejo um ritmo de ondas, e à minha

dor a arquear de desespero como as vagas--mas a sorrir por fim em pó de

espumas.

--A. é um místico (medievalite e hidrofobia), B. vê tudo Wateau (é um

requintado...), C. é um grego do tempo de Pericles; eu, tal qual tu me

vês, sou um romano...

Quantos homens da Renascença tu conheces!...

O visconde L., por exemplo, é um Medícis...

Como quási ninguêm está nesta época--é bem de ver--quási ninguêm existe.

Os que tu vês--são só sobreviventes... almas fósseis...

Serão inquieto : contos · 第 6 / 7 段