na praia, ao pé de Leça, olhaste-o tanto que logo pensei que ias
morrer... Todo o teu corpo diz adeus ao sol. A mais ninguêm.
Família?... Nunca quis saber de ti: contaste-mo sem queixa,
simplesmente. Disseste como sempre: _é um detalhe..._
Que fica de ti, Suze? A memória da pele é passageira, e é muito incerto
que a tua graça vá dourar uma saudade.
Ninguêm irá ao teu enterro, e ainda bem!
Por tua causa, ninguêm se irritará jantando à pressa; ninguêm irá, de
sobrecasaca e mau humor, fazer-te o necrológio ao cemitério.
Não terás latim grunhido por um clérigo, nem essa coisa triste e
tão grotesca--um círio laico em ar solemne, com fungagá e arenga
humanitária.
Vais p'rà cova só, como viveste; e depois de te teres dado a tantos
homens, vai parecer-te natural que te amem vermes... Até na morte és
discreta, minha Suze, pois nem sequer virás numa gazeta.
Foste perfeita: és perfeita. Amaste a beleza sempre com loucura: nas
nuvens, nos _maquereaux_, nas pupilas das jóias, nos crepúsculos...
Ensinaste-me o desprêso sem palavras, a dor sem confidência, feita
orgulho. Deixa beijar-te ainda as mãos geladas.
Quem mas dera guardar p'ra sempre, em mármore; suspendê-las como um
_ex-voto_ à cabeceira, as tuas pobres mãos tão humilhadas, esfolhando
eternamente sôbre a vida, o perdão dos que a entendem:--o desprêzo.
... Oiço horas. Uma, duas... oito. Oito horas! Se eu pudesse dormir!
E agora mesmo, ao enfiar-me na cama extenuado, eu oiço a voz da
Suze, voz de sêda que range, a segredar-me:
--_Mon pauvre ami! Quoi?! Qu'est-ce qui t'attriste? Ma mort?... Mais, tu
sais, ça c'est un detail._
Sim, um _detalhe_... como tudo, terminando no mármore frio de uma
_morgue_, ou a uma esquina de rua banalmente. Como tudo.
O VEIGA
A Ramiro Mourão.
O VEIGA
É o tipo mais estranho que eu conheço. Que anos terá? Deve ter trinta ou
mais. Magríssimo, êsse lúgubre cabide que é o seu corpo, traz enfiadas
roupas de outros, muito largas: sobrecasacas, fraks, vestes ricas,
esverdeando, já em plena decomposição, e mais vexadas nesse esqueleto
curvo de pedinte que numa loja de adelo ou num palhaço.
Decerto o conhecem. Decerto já, cerimonioso e gago, lhes pediu esmola. É
um pobre diabo e é doido: o Veiga.
Caricatura das ruas, conselheiral e poética, encontro-o sempre com vagar
e ritmo, num abandono corcova de vadio, que daria dandismo a um
diplomata.
Pois bem: é só mendigo. Mas não como nós todos, a uma esquina de rua ou
a uma porta banal de ministério, a pedir emprêgo ou noiva rica, dez reis
ou participação num monopólio. Não é assim: é outro género, é paradoxal,
é único!
Pede para comer, mas não come como nós todos: por comer. É p'ra viver a
Vida, a Vida toda! Esperem um instantinho: é extraordinário.
Deixem-me antes contar-lhes como êle era.
O Veiga, quando eu dei por êle, era empregado num cartório. Às dez,
todas as manhãs, enfiava com unção manga de alpaca. Assim ficava até às
três, todo curvado, cumprindo religiosamente, riscando o papel selado
com uma letra estilada e redondinha, tão correcta e tão banal que faria
o desespêro de um grafólogo.
Tipo neutro, _nem vou lá, nem faço minga_, gozava em todo o tribunal uma
simpatia benevolente e desdenhosa. O escrivão, os colegas diziam
dêle: é um pobre diabo.
Era bem um pobre diabo.
Sofriam os seus nervos destrambilhados com o drama quotidiano do
tribunal, êsse espectáculo de miséria em carne viva, explorada pelos
outros que viam nela a melhor posta, extra-oficial e lucrativa, o
verdadeiro emprêgo.
O Veiga, coitado, não explorava: sofria. Às vezes, copiando
interrogatórios, mandados de captura ou de penhora, tinha os olhos
rasos, e umas rovoltas frustes de nervoso crispavam-lhe as mãos magras
na caneta, perturbando em trémulos sem arte o seu lindo e banalíssimo
cursivo.
Em muitas dessas prosas rígidas, onde se amortalha em formulas destinos,
ia o gráfico da sua emoção romantisada, o patético mapa dos seus nervos.
No cartório, melhor do que nos livros, sem gangas literárias, sem
imagens, o Veiga ouviu a maré rouca da desgraça: a sua caneta atenta
correu-lhe os sete círculos fatídicos; soube-a de cor, como um
folhetim vivo, gritado aos seus ouvidos, que êle recolhia em papel
selado a 20$000 réis por mês.
Naquelas laudas oficiais folheava a vida social como num índice; lia
como numa partitura, tôda a harmonia humana. E que harmonia, Santo Deus!
Tinha vontade de fugir, de tapar os ouvidos, de se meter sòzinho num
buraco. Ali roçou, mais encolhido, aspirações, quimeras ulceradas. Como
era um fraco, de uma nervosidade romanesca, sentiu terror: tinha vontade
de chorar. Não embotava como os outros num cinismo comodista: cada vez
destrambilhava mais.
Claro que não podia ter amigos: era ridículo, era diferente, era um
sòzinho. Riam-se dêle com benevolência, estendiam-lhe a mão com um ar de
obséquio.
Quando se afastava de algum grupo, sob as arcadas conventuais do
tribunal, ia aflito, a querer sumir-se, com vontade de morrer, pois bem
sabia que se riam dêle, das palhetas desafinadas, da gaguez.
Vivia com a mãe e sem mais parentes. Mal chegava a casa, ia esquecer,
queimar no braseiro interior essas misérias, e com a luz de tão má
lenha, fazia nimbos p'ro seu sonho.
Com que sonhava êle? Com o Amor.
Vira-o nu, reduzido a autos; ouviu-o debater-se bem imundo na
camisa-de-fôrças que é a Lei; acotovelou-o no cartório, em todas as
formas, da prostituta de viela ao adultério rico; e assim mesmo,
persistiu em amar imbecilmente, convencido,--o desgraçado! de não sei
que sarcástico destino que o talhara p'ra amoroso, com uma carcassa
humilhante de fantoche.
Amou.
Era uma loira muito chromo, filha da loja de miudezas lá da rua.
Escreveu-lhe em insónias de delírio, cartas imensas em papel azul.
Chamou-lhe tudo e ela respondeu-lhe. Durante umas semanas viu cor de
oiro, andava estonteado, como em sonho, suspenso dos fios dessa trança,
pairando à altura de um terceiro andar.
E mesmo na saleta do cartório, se o deixavam só alguns instantes,
fechava como os misticos os olhos, para forrar as pálpebras com ela,
sussurando baixinho devoções.
Que lhe importava agora o tribunal, essa tragédia amorfa, sem estilo,
tantas palavras que condensam dramas e que êle por ofício, copiava!
Escrevia a pensar nela, envolto em vago, como numa nebulosa redentora, e
já não via no papel um mar pautado, em que bóiam cadáveres de destinos,
frangalhos de esperanças, vidas podres...
Há muitos dias, o Veiga era quási um ser de sonho. Dizia à mãe em casa
coisas vagas, comia talvez menos, mas radiava.
Tinha grandes cuidados de _toilette_. Mandou brunir o seu antigo frak,
que agora sem pêlo era espelhento, e arranjou ainda um côco preto que o
magoava pouco na cabeça. P'ra ser em segunda mão, era magnifico.
Vendera-lho um colega no cartório. Andava cheio de felicidade como um
ovo. Era uma vontade doida de sorrir, de beijar as crianças, dar
esmolas, de agradecer a Deus o sol e a chuva, e de dizer a todos que era
amado.
Tinha ido apreçar um anel de oiro, e fazia economias prodigiosas para
lhe dar em breve essa _aliança_. P'ra ele o anel era um símbolo supremo:
fundiria p'ra sempre os seus destinos.
Só iria falar-lhe, gritando-lhe da rua o seu amor, quando pudesse levar
êsse aro liso, que ela enfiaria olhando-o perturbada, como numa liturgia
nupcial.
Chegou o dia. O Veiga nem comeu. Meteu o anel no bôlso, pôs o côco,
beijou a mão à mãe comovidíssimo, e partiu rítmico e mudo, mui solemne,
como se pisasse a aresta do destino.
Era ainda cedo. Vadiou nas ruas, braços pendentes, lânguido, scismático,
a construir projectos de futuro: outra casa melhor e em poucos anos--um
lar com ela, imortalmente loira.
Caminhava, alheado, fluctuando, sem olhar, sem perceber aspectos,
fumando o seu monólogo de sonho, sentindo com prazer que a noite vinha.
Parou por fim, cravando olhos de febre nessa varanda do terceiro andar.
Esperou... esperou e ela não vinha!... Há quanto tempo olhava êle a
varanda? Há cinco minutos talvez, talvez há uma hora. Perdera a noção do
tempo. Não sabia. Súbito moveu-se o transparente... Era ela. Olhou um
instante, viu-o, e retirou depois de um modo brusco.
«Coitadinha! Não pode vir agora. Talvez gente de fora...
Esperarei»--pensava o Veiga com as pernas a tremer. E esperou, esperou,
numa agonia.
Por fim deram dez horas muito fortes, badalando-lhe dentro da cabeça.
Ergueu os olhos. Não podia mais. Batia os vidros um luar de opalas
fluidas, e ela apareceu na claridade, muito branca, ao mesmo tempo que
lhe deu um encontrão um caixeiro ajanotado que passava.
«Foi decerto sem querer»,--pensou o Veiga, mas viu-o logo voltar-se a
provoca-lo.
«Que tem êle comigo? Que lhe fiz?» E interrogava-se assim ingenuamente,
quando o viu fazer sinais p'rò andar dela e opontá-lo a rir, com um ar
de troça.
Cessou em torno dêle tôda a vida. Deixou de ver, deixou de ouvir, ficou
imóvel, numa aura de vertigem que o lambia, cara p'rò alto, lívido,
inconsciente. O outro então aproximou-se dêle, fisgou-o pela gola, muito
têso, e com bruscos sacões foi-lhe dizendo:
--Que faz você alí, seu grande lorpa? Não percebeu ainda que o troçaram?
As suas cartas trago-as eu aqui, p'ràs ler aos meus amigos, p'ra me rir.
Você sempre é um ponto de primeira... Você ouve ou não ouve?...
E deu-lhe um sacão último mais forte.
--Não há que ver. É mouco como um muro.
O Veiga olhou-o atónito, sem gestos. Não teve uma palavra. Empedrou
todo. Vergava de fraqueza, mal ouvia, e nos olhos de febre, muito
abertos, um desencanto imenso, emparvecido, um vazio de assombro,
semi-louco... Estava em frente do outro sem o ver. Todo o seu corpo
magro de humilhado corcovava ainda mais de decepção, como se o
esfrangalhasse uma rajada. Parecia esperar uns braços p'ra cair. O outro
olhou-o num desprêzo besta, e rematou com o punho em murro junto dêle:
--Agora rode! Senão parto-lhe a cara.
O Veiga nem buliu. Ficou inerte.
--Não ouviu, seu burro, não ouviu?
E como êle não tinha um movimento, deu-lhe uma bofetada que o virou.
Depois, gozando muito o seu triunfo, encheu-lhe de pontapés o corpo
todo, teve-o nas patas ennovelado como um trapo, até que farto, resolveu
larga-lo, soltando-lhe magnânimo o perdão:
--Já basta. Tomou p'rò seu tabaco...
Havia um luar de espasmo, amorosissímo, e o imbecil, trepando a rua
derreado, abafava os soluços contra o lenço, cerrava a bôca seca como em
trismus, e só tinha uma ância a empurra-lo: ir despertar a mãe na
alcova escura para chorar baixinho junto dela, como em petiz quando o
troçavam no colegio.
Só isto poderia consola-lo: ouvir-lhe a voz, palavras de ternura,
sentir-lhe as mãos rugosas nos cabelos...
Fêz um último esfôrço, dominou-se. Foi em bicos de pés até ao quarto, e
caíu de bruços sôbre a cama, como se fôsse a cova, p'ra acabar, na
humilhação suprema de sovado diante do seu ídolo tão loiro.
Crispou no travesseiro mãos de náufrago, como na carne de alguêm que o
acolhesse, um amigo pr'a ouvir-lhe a confidência; disse coisas baixinho,
o nome dela, chorou horas e horas, gemeu alto, diluindo nas lágrimas a
angústia, sentindo contra o corpo extenuado a moleza da moinha a
consolá-lo.
Por vezes chorou quási com prazer, desdobrou-se, assistiu ao seu
martírio, como nas melhores noites de teatro, quando ouvia os quintos
actos soluçantes, apertado num logar das galerias.
Esteve assim de bruços muito tempo, amolentado, estúpido, pastoso. Não
podia dormir: era impossível. E com um grande esfôrço, quis erguer-se.
Mas doeram-lhe então as pisaduras, e numa raiva fruste de impotente,
feriu a paz do quarto com patadas, com rangidos de dentes e com murros,
torcendo-se num ódio corrosivo, menos contra o caixeiro que o tosara,
que contra êle, Veiga, gago e reles, sempre curvado em cumprimentos
torpes, entre troças e adeuses de desprêzo, sem coragem pr'a um murro ou
uma insolência.
Sentiu-se trapo, lôdo, coisa imunda. Teve mesmo prazer em deprimir-se;
rolou-se na humilhação quási com gôzo, como outros na glória ou na
luxúria, e arrancou do seu misérrimo grotesco, da sua covardia tão
cuspida, êste consôlo cristão para aureolar-se:
--Sou uma vítima, uma vítima do Amor e do Destino!
Tinha ainda na cara as bofetadas, ouvia ainda a voz boçal do caixeirola:
«Já basta. Tomou p'rò seu tabaco»; mas a única realidade bem
tangível, ao sentir-se chorar, assim, de bruços, de côco para a nuca e
sobretudo, era esta coisa mágica e inefável:--«Sou uma vítima do Amor,
tenho romance!» E com a cara a arder, era um herói.
Já quási madrugada, adormeceu. Acordou-o o sol vindo até êle, e ia
voltar-se contra a luz covardemente, p'ra se escoar no sono, p'ra
esquecer, quando ouviu passos da mãe que vinha entrando.
Embrulhou-se nos cobertores num gesto brusco, para que ela o não visse
por despir; encolheu-se na roupa o mais que pôde, mas ainda assim ficou
com os pés de fora, com as botas de elástico enlameadas e o côco
amolgado em travesseira.
A mãe entrou no quarto devagar, foi abrir as janelas de mansinho,
supondo-o a dormir, bem sossegado. Quando o viu vestido sôbre a cama,
com uma palidez desfeita e olheiras fundas, correu p'ra êle, pôs-lhe a
mão na testa, e perguntou branca de susto, a tremer tôda:
--Que tens tu, meu filho? Estás doente? Porque dormiste assim todo
vestido?!...
O Veiga olhou-a lorpa, emburrecido. Não soube que dizer, não quis
contar-lhe; e como se a morte da ilusão o acanalhasse, como se viesse de
nascer nêle um outro ser, de secura e vaidade, um reles cínico,
levantou-se da cama, espreguiçou-se, e sem olhar a mãe, sem a beijar,
foi eructando estas mentiras torpes, surpreendido êle mesmo de as ouvir,
travando relações com um novo Veiga:
--Que quer?... Nem eu sei já como isto foi. Uma noitada... mulheres...
foi um pagode. Carreguei-lhe no vinho. Ora aí tem...
Meteu as mãos nos bolsos do colete, e de pernas abertas, bamboleando-se,
vomitou aos puxões o seu programa:
--Isto vai mudar muito de figura. Estou farto de ser burro, vou mudar.
De ora avante é outra coisa, é outra vida... Previno-a já. Não tem mais
que estranhar...
E apontava-lhe a porta:
--O almôço está pronto? Vamos a isso já. Não quero esperar.
Quási nem gaguejava, o imbecil. Sem as asas-muletas da ilusão, que
erguiam êste orango a céus de sonho, êle ficava um tiranete bufo, com um
rancor covarde de falhado, a farejar na sua raiva de impotente, uma
vítima, alguêm para expiar. Pasmada, a pobre criatura saíu limpando ao
avental os olhos. E começou nessa hora o seu martírio.
Nova fase do Veiga.
Iniciou-se então no botequim e com o olhar envernizado de genebra,
ouvindo as _mayonnaises_ de ópera que um sexteto melodramático lhe
servia, ia pagando bebidas aos amigos...
Foi um ex-colega, que se alcançara havia meses, p'ra fundar um semanário
clandestino, que o apresentou aos rapazes do cavaco. Depois,
extorquindo-lhe os cobres da bebida, empreenderam tambêm o apostolado.
--E o nosso amigo tem... a _ideia_?
O Veiga não a tinha. Forneceram-lha copiosamente, em noites de catequese
desvairante. Era agora um iniciado o meu idiota. As necedades que os
outros lhe gosmavam, como uma bíblia obscena de revolta, acolhia-as o
Veiga com fervor: o caixeiro agora era o _burguês_, e o seu ídolo loiro
o _preconceito_!
Perdia as noites num delírio gago, a proclamar no botequim o _amor
livre_. Faltava ao cartório muitas vezes. Inconscientemente, como rezava
com devoção até há pouco, absorvia brochuras anarquistas, e tinha à
cabeceira, como uma espécie de _Flos sanctorum_ laico, um agiológio
patético, ilustrado, com um Ravachol de auréola, hiper-cristo, e os
mártires de Chicago nimbados.
Recolhia de madrugada ou noite morta. Nem já tinha horas certas de
comer. Alimentava-se de pastéis e álcool. Só ia a casa para insultar a
mãe e p'ra dormir.
Mal lhe dava dinheiro p'ra comer. A pobre criatura envelhecia anos cada
dia. Por fim já nem falava: tinha por êle uma espécie de terror. Ouvia-o
arengar coisas tremendas: a revindita social a dinamite, o «ódio ao
burguês», trapos de frases feitas que êle moía e remoía muitas vezes,
numa espécie de automatismo cerebral.
--Porque, fique-o sabeado, Deus é o crime... o crime, sim senhor,
digo-lho eu... Hei-de dar que falar. Verá, verá...
--Não hei-de ver, meu filho, que eu não tardo... Deus há-de me levar. É
grande esmola...
E lá ia a chorar muito baixinho.
Com as noites de álcool e vadiagem, numa exaltação agudíssima e imbecil,
a loucura do Veiga emparedou-o.
Não podia dormir o meu fantoche. E depois das palestras de café, em que
os outros disparavam burramente trechos de artigos de fundo e anecdotas,
vagueava monologando, em falla-só, repetindo na excitação da bebedeira
as escórias que mais o impressionaram, e o que era pior,
sugestionando-se, desdobrando-se num Veiga que ameaçava, e noutro que o
terror lambia todo.
A Sociedade, a Religião, o Estado, eram os inimigos do meu títere.
Ao recolher a casa, noite morta, tomava precauções, dava mais voltas, e
era em suores de angústia, em calefrios, que dobrava, na névoa, cada
esquina.
Andavam a preparar-lhe uma cilada... Quàsi tinha terror do novo ser que
se instalara nêle, inquietante, atulhado de fluído de revolta, como uma
garrafa de Leyde subversiva.
Certo, êle não fizera nada, era um pobre diabo inofensivo, mas vivia
agora o _outro_ dentro dêle, como uma mina de dinamite, subterrânea, que
a Ordem poderia farejar... E entrou a ter medo da polícia.
Ao recolher, logo que via um guarda, nem sequer dissimulava o seu
terror, rodava nos calcanhares, voltava logo, de uma forma tão flagrante
e tão grotesca, que se fazia notar ao mais boçal.
Às vezes esperava o sol, porque de dia não _lhes_ tinha medo, e era na
luz lial da madrugada que se esgueirava p'ra casa, rente às portas.
Uma noite em que bebera mais, desengonçou-se em tão cómicos tregeitos
ante o primeiro guarda que avistou, que o santo homem resolveu
deitar-lhe a luva, e regenerá-lo com parasitas no Aljube.
Lá passou o resto da noite, sem falar, meio sonâmbulo de medo e de
genebra, e a única impressão nítida que teve, foi a de ouvir, pouco
antes de o soltarem, um fado soluçado como nunca, por um gatuno que
dormira ao lado dêle:
Já que eu te não dou o pão,
dá-te nua a quem to der;
mas guarda-me o coração,
a alma que ninguêm quer.
Foi por êste tempo, que êle fez parte do grupo dramático _Luz e
Esperança_. Gago e solene, estava a calhar p'ra conde e p'ra _pai
nobre_.
Teve triunfos colossais nos arredores. Declamava às noites pelas ruas,
corrigia nos espelhos das vitrines a expressão dramática da tromba, e
muita vez contrascenou com os candieiros, à hora espectral dos
varredores... Fazia, é claro, teatro de combate, peças de intuitos
sociais, dramas de tese, e como todos os colegas lá na _troupe_,
considerava-se um _actor-apóstolo_. Recolhia cada vez mais tarde,
trespassado de frio e de patético.
Uma manhã, chegando ao patamar, procurava a chave pelos bolsos, quando
viu um vulto enrodilhado contra a porta. Estacou, varado de terror. O
seu primeiro movimento foi de fuga. Quem seria?!... A mãe não,--dormia
àquela hora. Mas, olhando melhor, viu que era ela... Estremeceu. Meu
Deus! Estaria morta?... Não, não: adormecera ali. P'ra quê?... Não podia
perceber.
--Deu-lhe talvez alguma coisa... Coitadinha!
Sacudiu-a de manso, despertou-a. Pela primeira vez há muito tempo,
teve um gesto de filho, de piedade: ajudou-a com ternura a levantar-se.
A pobre criatura erguia uma cara de espanto, de terror. Vê-lo outra vez
meigo p'ra ela como dantes, inquietava-a mais que ouvir-lhe insultos. E
ali no patamar, sem gestos, fitaram-se, como dois náufragos, segundos.
Não se viam já há muitos dias...
A expressão da cara dela ia mudando à medida que o fitava:--_era o seu
filho!_ Aquele rapaz cheio de rugas como um velho, com um tremor nas
mãos, no corpo todo, aquele pobrezinho--_era o seu filho!..._
Sempre a olhá-lo, ergueu as mãos que tanto o abençoaram; a sua máscara
desfeita iluminou-se, tanto a piedade ardia dentro dela; e com uma voz
de misericórdia e de carícia, pôde ainda dizer-lhe:
--Ó meu filhinho!...
E caíu-lhe, tôda em lágrimas, no peito. Entraram abraçados pelo quarto.
Lá estava a cama aberta, a dobra feita--como uma carícia dela a
recebê-lo... Através das frinchas das portadas, a manhã estava a
sorrir no travesseiro...
Então na alma dêste trapo humano o remorso dobrou como um mau sino,
fazendo-lhe vêr quanto de bom era possível: a vida antiga com a mãe, a
vida calma... Sentia bem que fôra torpe para ela; viu-a com a cova ao
lado p'ra tragá-la: e numa lufada de desespero ajoelhou com lágrimas
rolando quatro a quatro; gaguejou como uma creança a quem bateram:
--Ó mãesinha... ó minha mãe... perdão
Ficou assim alguns instantes; levantou-se. Ainda outra vez fitaram-se
nos olhos--como se um dêles acabasse de chegar, com uma sacola de dor,
de muito longe... E agora, entre lágrimas, sorriam. Êle pôz-se a
dizer-lhe muito baixo:
--Juro por Deus, minha mãe, juro por si, que ainda a hei-de fazer muito
feliz... Hei-de pagar-lhe com amor, com muito amor, os meses de martírio
que lhe dei. Verá, verá. Vou ser outra vez o seu filho, vou ser
outro...
--Sim, sim, meu filho, tu és bom. Deus trouxe-te outra vez. Pedi-lho
muito. Eram as más companhias... os malvados... Por pouco te matavam,
meu filhinho. Matavam-nos a ambos, Manoel. A tua mãe já não podia mais.
E tu... e tu... estás tão magrinho!...
--Hoje começa vida nova. Não se aflija. Hei-de ser forte outra vez, vou
trabalhar...
Interrompeu-se de repente, como se uma ideia de terror viesse gelá-lo. A
mãe, sem compreender, continuava:
--Trabalhar... ora ahi está, é o que é preciso. Foi por isso que te
esperei deitada à porta, com mêdo que entrasses e saísses sem te eu
ver--como nos últimos dias sucedera... E eu, pobre de mim, que tinha
medo, não sabia como to havia de dizer!... E afinal tu mesmo o
reconheces. Louvado Deus! Tudo é pelo melhor. Ora vê tu--mas que cabeça
a minha!--pus-me p'raqui a falar e nem to disse... Esta tarde, o senhor
Sousa esteve cá...
--Quem?
--O snr. Sousa escrivão... êle... o teu chefe.
--Ah! disse o Veiga e pôs-se cor de cal.
A mãe, sem reparar, dizia sempre:
--Devo-lhe muito, é muito nosso amigo. Que outro no seu lugar--tu bem o
sabes--tinha-te posto fora do emprêgo. Mas êle não. Só quer que tu te
emendes. Diz que te espera hoje sem falta, às dez em ponto. Verás,
Manoel, tudo se arranja bem...
Êle olhava-a com os beiços a tremer:
--Estás contente com isto? An! Manoel?...
--Não, minha mãe, não volto ao tribunal. Não posso mais... não posso
mais lá ir...
--Ora essa, meu filho, tu que dizes?!...
--Não, minha mãe, não posso mais lá ir...
Por mais que perguntasse, que insistisse, sempre a mesma resposta em voz
sumida, como a última decisão de um agonisante:
--Não posso... não posso... É-me impossível
E de repente, chegando-se p'ra ela como um petiz com terror, pôs-se
a dizer baixinho:
--Quem sabe se não é uma cilada... O Sousa quere-me lá p'ra me
prender... Sabe que sou um anarquista... quere vingar-se...
Continuou neste tom ainda algum tempo. Ouvindo-o sem poder
interrompê-lo, com o coração a desfazer-lhe o peito, a mãe era forçada a
perceber que aquele desgraçado que ali tinha, guardado nos seus braços
outra vez, precisava mais de si que em pequenino, porque Deus lhe tirara
o entendimento.
Quando êle lhe contava as suas noites, como na rua a polícia o
perseguia, o que havia na nèvoa, a certas horas,--interrompeu-se
bruscamente e ainda mais baixo, transido de pavor, colado a ela,
pediu-lhe que fôsse ver ao patamar... tinha ouvido passos... era
alguêm... Para o tranquilizar, ela fechou a porta à chave, com os olhos
rasos, a conter-se, e pôs-se então a ver se o adormecia.
--O que precisas, Manoel, é de dormir, tens mesmo os teus olhos a
fechar-se...
Êle não queria dormir. Era impossível. Podia vir o Sousa... alguêm
prendê-lo... Só se ela ficasse ao lado, de vigia.
--Eu fico, eu fico ao pé de ti. Sossega. Despiu-o então como em pequeno.
Tirava-lhe a roupa devagar, ia-o beijando com meiguice, em despedida: e
deitou-o por fim sem resistência, como se fôsse uma criança sonolenta.
Aconchegou-lhe o cobertor bem contra os hombros--tão magrinho, Senhor,
um esqueleto!--e à beira da cama, de joelhos, sentindo-o adormecer, ia
dizendo:
--Dorme, meu filho. Dorme... dorme... dorme...
Quando o sentiu adormecido, ergueu-se.