perto de nós, comove mais.
--Conheci um poeta que escreveu a «Imitação do Mar», paralelo á
«Imitação de Cristo».
Durante semanas viveu num quarto--só--uma vida de vaga. Encrespou,
arqueou num grande esfôrço, foi um côncavo glauco cheio de asas, e
explodiu a rir--todo espumante...
Só eu sei que se matou por não poder reviver aquela vida.
--Um livro tem p'rò autor uma outra voz: a do seu sangue a correr pelas
palavras.
--O ritmo é o anestésico mais forte.
--O sarcasmo é um soluço que despreza.
--Alguns escritores publicam os retratos nos seus livros. Ignoram,
decerto, que a _vera efigie_ de um artista é o estilo.
--Há no fundo do panfletário mais violento, um pobre diabo ingénuo,
fascinado, que aspira a _conselheiro_--sem saber...
--Receita p'ra fazer sucesso: condensar a banalidade, dar-lhe êmfase e
imprimi-la com maiúsculas...
--Alguns condenam as corridas de toiros e proclamam como uma
obrigação--o sacrifício...
--A procurar o sentido da vida, esquece-se muita gente de viver.
--Conheço muita gente que só olha a natureza... emoldurada.
--O processo, em arte, é o _maquillage_ do talento.
--O sucesso faz-se nos jornais:--a glória no silêncio.
--Quando um homem superior é célebre, ou é admirado por defeitos,
ou então por qualidades que não tem...
--As metafísicas são a _Belle au bois dormant_ contada em ideas.
--Que frio! Deito ao lume os meus deuses p'ra aquecer... É bom ouvil-os
crepitar: lenha divina!
Mas da cinza dos deuses--nascem deuses. Pela janela aberta vejo uma
estátua na névoa: o super-homem!
Criar deuses é a mais estranha função da nossa espécie. Nem podemos
aspirar as rosas: vivemos asfixiados de divino...
--Já viste uma ave livre--adormecida?... Tem nas asas fechadas todo o
ceu. Antes de te deitares, bebe à janela a noite, até caíres...
--A civilização é uma camisa de forças. Há duas maneiras de a rasgar: a
arte e o crime.
--A sociedade perfeita é a de Narciso: a própria imagem reflectida numa
fonte. É o máximo e o mínimo de convívio.
--A alegria é a pérola dos mergulhadores. Só se descobre com muitas
atmosferas de dôr por sôbre os ombros.
--Meditar é viajar através de nós mesmos.
--A lei faz isto: que um homem passe com fome num pomar sem cravar os
dentes num só fruto...
--As academias são o _trust_ da glória. Às vezes, são tambêm o asilo...
--P'ra saberes a expressão que teem as rochas, encomenda uma a um
escultor. Nenhum ta poderá executar. São mil máscaras fundidas numa
máscara.
--A melhor maneira de admirar um escritor é viver segundo o ritmo da sua
obra.
--Viver é adorar com o corpo todo. A suprema oração é o desejo, a
linguagem--a arte, que é o esfôrço heróico p'rà Beleza.
--Morte! És p'ra mim o sal da vida...
O teu silêncio grita:--andem depressa! Deita mais lenha na ambição,
ambicioso; decifrador de enigmas, parte a esfinge; corpo a corpo,
amorosos, sonho em sonho; e tu, maníaco de teorias, bom filósofo, coze
depressa o teu sistema--anda depressa!...
O teu silêncio excita como uma dança de baiaderas: dá vertigem...
P'ra exasperar em nós a sagrada loucura de viver, para que os homens não
percam um instante--ergam-te estátuas nos jardins, nas praças, na
cimalha das academias e dos templos, Musagéta da Vida, grande Morte, com
a lira de Apolo e olhos vazios...
--O que é o mar para o meu corpo, é a dôr para a minha alma.
--A solidão, _beata solitudo_, é o palácio encantado dos espelhos. Ó
alma, corre as tuas galerias. Myríades de retratos, de obras-primas, no
dédalo dos corredores, nas salas lúcidas, echoando em reflexos,
irisando-se, como a palavra de Deus de estrela em estrela. É o teu povo;
és tu, alma: és tu mesma.
--O tacto da alma é a evocação.
--Outono: idílio da Natureza com a Morte.
--O amor é o génio do desejo: um instinto espiritualisado.
--A arte é uma espécie de alchimia: mesmo do crime, extrai o oiro mais
puro.
[1] Nietzsche.
[2] C. F., meu ex-condiscípulo, despediu-se de mim para casar, como
outros se despedem para morrer. Casou depois de ter vivido
intensamente,--como outros se fazem morfinomanos ou alcoólicos: p'ra
anular a sua inquietação, a sua febre, na sedativa estupidez da vida
séria. Sentia-se sem saúde e sem coragem, quer p'ra viver a vida com
nobreza, quer p'ra ir ao encontro ao seu outono, morrendo a
tempo--como manda o meu filósofo. Foi há três anos. Nunca mais nos
vimos. Soube depois, por os jornais, que é deputado e, o que é
melhor... ou pior, que vai ser par. Não sei se o meu amigo conseguiu
a paz no anulamento, ou se é o actor duma comédia
lúgubre--mascarando de banalidade o seu espírito. Deixou-me à hora
da morte (à hora da vida social, da vida _séria_) os seus cadernos
de notas--e uma obra de humorismo lírico, de ironia comovida e
filosófica:--_A Metafísica de uma borboleta._--Estas notas, que
transcrevo de um dos seus cadernos, de entre as que não ferem
sensivelmente a moral pública, são talvez--os senhores
dirão--curiosas.
Índice
PAG.
Diálogo com uma águia 9
O precoce 47
O homem das fontes 77
Suze 119
O Veiga 155
Words 201
ACABOU DE SE IMPRIMIR ÊSTE LIVRO A QUINZE DE JUNHO DE MIL NOVECENTOS E
VINTE NA IMPRENSA DA EMPRÊSA DO «DIARIO DE NOTICIAS» PARA AS LIVRARIAS
AILLAUD E BERTRAND
ERRATA
A pag. 2, onde se lê: «Colhecem lá o amor etc.», deve lêr-se: «Conhecem
lá o amor etc.»
A pag. 73, onde se lê: «... ressuscitava em gramas sonolontas.», deve
lêr-se: «... ressuscitava em gamas sonolentas.»
A pag. 86, onde se lê: «Aludimos os», deve lêr-se: «Aludimos aos».
A pag. 93, onde se lê: «Com miss Foutain», deve lêr-se: «Com Miss
Fountain».
A pag. 161, onde se lê: «Vivia com a mãe e sem mais parentes.», deve
lêr-se: Vivia com a mãe sem mais parentes.»
End of Project Gutenberg's Serão inquieto : contos, by Patrício António