que vivesse a alma de Montmartre.
Acompanhava-a outra que mal vi, fisgado pelo estranho do seu tipo. Toda
a noite, ferozmente, a encarcerei no meu binoculo e ela, exibindo
atitudes de indiferença numa galeria intérmina, nem sequer teve o ar de
ver-me.
Aborrecia-se com complacência, olhando sem fitar, cumprindo com
resignação êsse destino de, sôbre uma platea do Pôrto, num barracão de
_Folies_-Brégeiras, esfolhar a carícia exangue e lambedora das suas mãos
de raça.
No meu grupo faziam-se hipóteses. Cocotte? Cançonetista? Talvez seja
essa que se estreia amanhã.
Todos a achavam imensamente estranha e alguma coisa feia.
Quando à saída ela passou, compondo um ar abstracto e um passo ondeante
de serpente-fantasma, excitado e burro, disse não sei que frase
escória e ouvi numa voz de sêda que range, esta coisa justa: _imbécile!_
Deixei de ir ao teatro. Achei a vida tôda tão imbecil como eu.
Até que uma manhã Just irrompe no meu quarto e preludia felicíssimo:
«Foste um doido em não aparecer». Contou então: o empresário F.
apresentára-o, e como eram duas e eu continuava incógnito, apresentou
por sua vez o conde C., que ao menos não se arranjava mal.--«A tua, a do
conde, chama-se Suzanne. A outra, a minha, é Gaby d'Anjou, é perfeita.
Não sei se reparaste: um corpo grego. Ha uns poucos de dias que isto nem
parece o Pôrto--».
E partiu num turbilhão de _chance_, dizendo apenas quási à porta, que a
Suzanne era finíssima, e se tolerava o conde é porque não via melhor, e
porque emfim, o Amieiro o não vestia mal.
Como mesmo escrevendo, estou morto por chegar ao quarto dela, direi já
que almoçamos a sós dias depois, e nem sei mesmo se comi, porque
estendia as mãos em concha aos seus pés magros, p'ròs sentir crispar-se
com luxúria ao ranger da sêda em fôlha sêca...
Foi rapido e simples. O meu amigo apresentou-me: o conde é lorpa, eu sou
fino, ela é fina e... _voilà_!
Aqui começa a feitiçaria, o encantamento em que essa serpentina bruxa me
colheu, polarizando o meu desejo p'rò seu corpo elástico e felino, como
se as suas mãos de pianista me corressem na medula, e os seus olhos de
névoa me perdessem em hipnose.
De corpo e espírito era flexivel como uma chama ao vento.
Horas e horas, com febre, com riso, com desespero, vasculho na memória,
recomponho o complexo encanto dessa rapariga que sabia de cór tôda a
_Comédia Humana_; tinha um vício pessoal, erudito, arqui-subtil;
cinicamente ingénua, ingenuamente cínica; amoral e heróica, e que
caminhava p'rò seu leito de _cocotte_ com o ar redolente de Desdemona na
_canção do salgueiro_...
Oh! A sua _canção do salgueiro_, musica e versos de Bruant, como eu a
trauteio ainda exasperado:
Les ch' veux frisés,
Les seins blasés,
Les reins brisés,
Les pieds usés.
Pierreuses,
Trotteuses,
Ás marchent l'soir
Quand il fait noir
Sur le trottoir.
Os cabelos impossíveis, abusivos, excessivos, caíam-lhe nos ombros; a
_robe empire_ era ampla e branca, as mangas vibravam em asas de serafim
profissional... Era uma aparição de lenda rociada de agua Lubin--orvalho
caro...
Quando depois mais de perto a detalhei, achei-lhe um não sei quê de
transido, de parado, espécie de kakemono, espécie de bébé enorme,
enigmatico, aflictivo, como só um caricaturista-poeta criaria, num
instante de emoção e febre, de quimera e riso. Pobre Suze!
Era pálida, pálida, no seu roupão de noite, sem as rosas do _maquillage_
que ela tão subtilmente esmaecia. Pobre Suze!
Nenhum pintor português, desde o Grão Vasco, viu para além do real como
tu viste, nem como tu transfigurou uma mascara de gêsso, patinada a lua,
numa obra-prima irradiante.
Tu que eu agora vejo como um mármore de desgraça, arripiado, vestido à
toa, sem _maillot_ de sêda, sôbre uma mesa misérrima de _morgue_; tu que
tens já talvez no ventre aberto o esverdear levíssimo com que a Morte
agora te maquilha; tu que depois de tanto te venderes, cada vez eras
mais _tu_ e mais perfeita,--ninguêm irá junto do teu cadáver pôr-te o
colar da Ordem do Desprêzo que na vida te deu beleza e estilo.
Foste um génio incompreendido, Suze. É o único ponto de contacto que
tiveste com dezenas de idiotas que eu admiro.
Mas não é isto o que me aflige, pois sei bem que se da Morte me ouvisses
e se da Morte me falasses, mais uma vez me dirias a tua grande frase, a
frase-medalhão, a frase-refrem, que tão sinteticamente define a tua
graça, o teu _génio_, o teu vicio, o teu desdem:
--_Tu sais, ça, c'est un détail._
P'rà Suze, tudo na vida era um _detalhe_.
Ela que se deu a saborear a tantos homens, duvido bem que conhecesse um
_ensaiista_, espírito de síntese, à Carlyle, que emquanto eu nesta noite
de insomnia a recomponho, com uma saudade sem esperança, friamente
medite um grosso tomo, que deveria assim chamar-se:--_A Filosofia de
Suze_ (livro postumo).
E em sub-título, dum chic transcendente:--_ensaio sôbre a supra-mulher_.
Dir-se-ia no futuro:--_isso é um detalhe_, como outrora se
disse:--_penso, logo existo_, como hoje se diz:--_o homem é uma ponte
p'ró Sôbrehumano_.
Se Eça de Queiroz fôsse ainda vivo, eu que nunca o conheci, havia de
apresentar-lhe a Suze, e juro, juro, que a acharia bem mais subtil, bem
mais complexa e humanamente fascinante, que o seu extraordinário
figurino--Carlos Fradique, dandy e epistológrafo.
Fialho, mais feliz, pôde falar-lhe; viu-lhe gestos que valiam maximas, e
ouviu-lhe memórias e anedotas bem mais significativas que parábolas. Mas
por mais que insistentemente lho pedisse, nunca escreveu sôbre ela:
recusou-se.
Não posso eu, como quem empalha uma asa, amortalhar o génio da Suze em
frases sabias, articular-lhe em sistema as formas tipicas, erguer emfim
essa arquitectura metafísica, que ficaria na névoa das idades, como um
farol p'ra sempre...
Não, não posso. Sinto ainda correr-me o corpo todo, em ondas lentas, o
afago dos seus cabelos, dos seus dedos, que eram vivos, enervantes como
línguas...
E não é assim, a arder em desejo postumo, que eu posso lançá-la à
posteridade... De resto, Suze, que era p'ra ti a posteridade? Um
_detalhe_, um _detalhe_ apenas...
Mas quero afirmar que nessa frase--que nem sequer p'ra muitos que a
beijaram, foi mais que uma ironia sem estílo--se condensa o estoicismo,
o galbo heroico, que fez desta parisiense tão estranha na sua vida de
_cocotte_ nobilíssima, uma neta espiritual de Marco Aurelio.
Foi nobre e foi cocotte. Não estranhem.
Viver, p'ra uma mulher, na sociedade de hoje, é qúasi sempre
prostituir-se. Mesmo as que casam, e que casando amavam os maridos,
quantas vezes não sofrem sem desejo, um cio incontinente, numa
humilhação de prostitutas, até que tôda a emoção se lhes estanque e o
hábito lhes embote o corpo e o espírito?...
Depois da primeira frase, em que a sêde de amor lhes doira a vida,
quantas não reconhecem no convívio que o seu ídolo moral é um canalha, e
que o amoroso é só o macho sordido, sem delicadeza, sem
ternura--contundente, ferocíssimo, legal...
As outras, são apenas fêmeas broncas presas à canga do lar animalmente,
ou semi-loucas resignadas que um catolicismo castrador perdeu, ou
índoles lunares de amorosas esperecendo de martírio e tédio. E
consciente ou inconscientemente, todas vão afinal prostituir-se. Só a
_moeda_ diferere: nada mais.
Mas se viver, p'ra uma mulher, é quási sempre prostituir-se, não o é
menos afinal p'ra um homem.
Prostituir-se é deformar, ou anular mesmo, o que em nós há de individual
e caracterisante, pela necessidade de captar alguêm, patrão ou mestre,
rico ou superior hierarquico, e até mesmo o pobre, que nos dá a ilusão
de sermos bons e a consideração hipocrita dos outros.
Cada um de nós, ao entrar na aula ou na oficina, no escriptorio ou na
repartição, no salão ou na taberna, é postiço, é convencional, é um
_outro_; ao princípio confrangídamente, através de mil torturas; depois
inconscientemente: mecanizado, deformado, quinquilharia andante e
cérebro de lixos, contribuindo assim para êsse ideal que nos empala, e
os moralistas chamam--solidariedade humana.
Era fácil mostrar como, violentando o temperamento, esta prostituição se
repercute até nos gestos, na nossa maneira de andar e de vestir. E isto
em todas as classes, porque ninguêm é suficientemente forte p'ra se
bastar a si mesmo; todos precisam da consideração dos outros, da opinião
pública, e vão vivendo sob a garra do preconceito, que os desengonça e
deforma, que os raquitiza e anula, como os saltinbancos às crianças.
Quantos resistem íntegros ao regímen penitenciário que é a vida de hoje
em sociedade? Alguns pelo isolamento;--bem poucos dos que ficam.
Não riam portanto ao ouvir que a Suze, a minha pobre Suze, foi nobre e
foi cocotte. Cocotte, sim. Como nós todos. Porque, em summa, eu sou
cocotte, tu és cocotte, êle é cocotte...
Que horas serão? Deve ser quási madrugada.
Eu bem queria nestas palavras de febre, silhuetar a Suze, ter um pouco
de método, monografá-la. Mas não posso, não posso.
Tenho aqui na minha mesa de trabalho o seu retrato, e nem sei como tenho
coragem p'ra escrever, como posso desviar os olhos da névoa abysmal dos
seus, que me transem de irremediável e me enlouquecem de desejo. Desejo
absurdo, que o impossível hiperestesia, e me impregnou celula a celula.
Sinto no corpo todo a carícia opiada dos seus dedos, a sua carne
sortílega, embruxada; a sua pele afim da minha, e que com ela dialogava
em silêncio, nas horas de esgotamento, rememorando sensações agudas,
fulgurantes...
Vejo-a, vejo-a!
Passa a teoria das nossas noites (em que os seus tics profissionais me
confrangiam) e ela era sempre duma envolvência fluida, de uma estesia de
actriz inconsciente, uma viciosa triste, insaciada, e uma boa e uma
pobre rapariga.
De comêço podiam julgá-la artificial, tão estilizada era a sua graça,
tanto o seu requinte parecia consciente e erudito, traindo-se em tudo:
no andar elástico, no dandismo sóbrio, e até no ruge-ruge da sua voz de
alcova e confidência. Mas não: viam-na mal. Ela era assim sem esfôrço,
naturalmente: ela nascera uma obra de arte. E todo o meu trabalho de
esta noite me parece o de um doido que quisesse com poeira reconstruir
uma obra prima...
Muitas vezes já, aludi ao seu cinismo. Mas entendam-me: cinismo, disse-o
o forçado genial de Reading--é a coragem de dizer as coisas como são e
não como deviam ser. E a Suze era assim, quando falava a alguêm que a
compreendia.
Êsses porém, eram raros, muito raros. Com uma intuição divinatória,
balzaquiana, a Suze adivinhava às primeiras palavras o seu caso,
lisonjeava-lhe os instintos, e assim durante o dia era, conforme o macho
em catequese, canalha ou ducal, obscena ou protocolar.
Um dêles, com quem viveu muito tempo, não via na Suze um animal de vício
em quintessência, e, estúpido, não lhe sentia a graça esparrinhando
génio: era apenas sentimental e jogador.
Outra qualquer, para o prender, faria comédias românticas, e decerto
orientaria o seu comércio por êsse fundo fadista e namorisquento. A Suze
não. Parecia-lhe demasiado reles, insuportávelmente folhetim. E foi por
o jôgo que o laçou.
Pouco a pouco, por sugestões dominadoras, foi-o convencendo de que
ganhava sempre quando cedia passivamente aos seus caprichos, quando lhe
dava mais vestidos, mais dinheiro: e em pouco tempo, ela era p'ra êsse
jogador supersticioso, um ícone sagrado, tutelar,--Nossa Senhora da
Sorte ao seu alcance...
Dominava-o por completo. Se o traía, explicava-lhe com um ar vago e
superior... que era para lhe dar _chance_; e todas as noites o
desgraçado vinha implorar da Suze, aninhada num divan, com um pequenino
ar de sibila delfica, um pouco de sorte por amor de Deus!...
Teve êste espectáculo hiper-dantesco: os Poderes Constituidos--em
cuecas!... Ella os viu, aos redentores da patria: viu como era piloso o
sacro onde teem o fogo os oradores: foi caloteada por economistas:
sofreu contra a pele fina a camisola de flanela dos guerreiros. Mas o
que mais magoou o seu desprezo, foi a secura e a egolatria dos artistas.
P'ra todos a sua arte era perfeita, radiando ilusão, hipnotisando.
Mais flexível que as nuvens são p'ró vento, o seu proteísmo teatral de
prostituta mimava a cada um o seu _ideal_...
Ah! Mas como ela ficava, a minha Suze, a sua fadiga nervosa aniquilante,
o seu imenso tédio neurasténico, querendo desertar de si, da sua alma e
da sua pele enojada, para sempre!...
E caída num estôfo, amarfanhada, era às vezes triste como uma coisa
morta, como uma asa ferida nalgum charco... Curtia assim consigo mesma
horas de miseria moral e de exaspêro, sem uma queixa, sem uma lágrima,
num orgulho de sózinha, donde só resumava o sofrimento, num gesto, num
olhar, numa ironia.
Uma manhã em Lisboa, acabavamos de almoçar no nosso quarto, com a
janella aberta p'rà Avenida.
Ela fumava um Laferme, devagar, no prazer subtil de soprar nuvens. E de
repente, como a uma lembrança súbita, disse-me isto baixinho, num tom
que nunca esquecerei:
--Tu sabes: não gosto de falar da minha vida. Nunca me queixei. Se agora
te falo, é porque é p'ra dizer bem... Neste horror, tenho tido dias de
uma volupia imensa. Nem sei como te diga. Começo por me sentir doente,
exasperada, sem poder mais... Eles vêem e eu penso que vou morrer de
nojo. Vem um, vêem muitos... vêem todos... Então, não sei porquê,
sinto um bem-estar, um gôso doido; acho prazer a que me humilhem;
parece-me que nasci p'ra isto, que não há destino melhor... e gozo... gozo.
Depois, num riso sêco:
--Sinto a volúpia de um cristão ás feras...
Parou. Eu recebi num beijo o fumo do Laferme, e a Suze concluiu:
--Que importa isto! É um _detalhe_...
As outras, as vulgares, bestializavam-se; passada a crise horrível de
adaptação, vendiam beijos, como um mercieiro vende arroz, um advogado
eloquência, ou um diplomata uma colonia. A Suze não; era esculptada em
lava: era _alguêm_. Prostituta ou esposa, seria sempre infeliz, seria
sempre _ela_, seria sempre só. Pobre Suze!
Alma apolínea, foi esboteada por fadistas que teem o nome em crónicas
heróicas; sofreu-lhes, em noites de orgia besta, o suor e o vomito; e
com uma clarividência trágica, presentiu muita vez os haustos da manhã
subindo, a olhar com a pele arrepiada a máscara boçal de algum cliente.
Teve amantes ricos, equipagens, e as suas melhores horas eram quando
sozinha, abandonada a si mesma, ouvia numa noite de inverno, como uma
confidência, o crepitar da lenha num fogão...
Teve paixões sensuais que a torturaram, foi roubada impunemente muitas
vezes, e uma noite em Moscou--cahia neve--velando uma companheira
moribunda, sem nada p'ra empenhar e sem recursos, foi pôr no prego, jóia
grotesquíssima!--a propria dentadura da doente que. Deus louvado, era
montada em oiro... Assim puderam comer aquela noite.
É de estoirar a rir--não lhes parece?...
Sabia de cor tôda a _Comédia humana_: viveu tôda a comédia humana. Pobre
Suze!
Tu ao menos, não precisaste de ser louca p'ra sêres santa: ergueste-te
sempre corajosa e simples, sem um abatimento ou uma queixa; e através de
insultos e torpezas, conservaste puríssima, apolínea, uma alma
aberta ao sol como uma rosa!
Quantas vezes, calçada de verniz, tiveste fome, e com teu passo elástico
de espectro, nem um só Cireneu topaste que ao estender-te a mão, te não
pedisse gôzo...
Tu, Suze, sabias bem tôda a piedade humana e como ela é antes... e
depois. Se algum principe Nekhuladoff tentasse redimir-te, como a tua
palidez riria de alto ao pobre místico, a êle que te falava de perdão e
arrependimento, quando os teus olhos de névoa viam claro, com um
determinismo lúcido, fatal, que a tua vida era assim, irremediável, e
nem tinhas ódios nem sêde de justiça, pois bem sabias que é inútil tê-la
p'ra morrer à sêde...
Conheceste príncipes, é certo, mas nem um místico: só mais ou menos
imbecis... Não te fossem falar do ceu,--a ti que tantos viras de platina
na bôca de gozadores com avarias.
Por isso não tiveste gritos, não te estorceste: nem sei mesmo se
choraste.
Posta em teatro, não farias uivar as galerias nessa paródia de circo tão
grotesca que é um quinto acto p'ra burgueses e povinho; eras p'ròs
_raros apenas_ como o matoidismo poético da minha terra. Na tua voz de
fôlha seca, dizias de todo o teu calvário apenas isto: _é um detalhe_.
Mas para mim, Suze, o teu corpo serpertino, que ora começa a
decompor-se, o teu génio a fagulhar num incêndio murmuro de elitros e,
sobretudo, o supremo encanto da tua dor heróica, sem desfalências e sem
queixas, para sempre ficarão no meu espírito, como qualquer coisa de
belo, de perfeito, pois que correste os bastidores da vida, todo o
egoísmo, tôda a lama, tôda a infâmia, em vítima serena--tão serena como
essas que na Grécia iam hirtas de dor entre colunas...
E amaste sempre o sol! E amaste sempre o sol!
Deixa-me lembrar-te: é a última carta que te escrevo. Desta vez serei
sincero, porque estás morta, porque a não lerás...
Espera!... As nossas tardes no Rio Doce, em Leça... Os olhos dos mortos
ainda reflectem, ainda _vêem_... Pudesse eu ir arrancar-tos, trazê-los
nas mãos com cautela, como dois pássaros mortos, e dar-lhes ainda a
beber, pobrezinhos!--sol, mar, areias ruivas, aguas correntes...
Pudesse eu beijar-te os olhos mortos!
Chamava-se _Sol_ o nosso barco. Eu levava-o à vara, lentamente. Tiravas
o chapéu, estendias-te à pôpa e nem falavas. De quando em quando, ia
colar à tua a minha bôca: beijava-te as pálpebras de manso.
Parava sob um chorão, à sombra dos seus cabelos verdes. Cingia-te.
Poisava a cabeça nos teus seios, que eram lindos, tersos como de virgem.
Todo o teu corpo desfalecia, se humilhava no teu vestido de sêda crua
como o duma criança adormecida... E era então que eu sentia, que eu
palpava, que eu vivia a vida divina do silêncio.
Era mais vago o marulhar da ramaria e fazia mais silêncio, como faz mais
silêncio, à noite, o acorde das ondas numa praia...
Sentia-se cair silêncio como se sente cair névoa.
As nossas bôcas colavam-se num beijo húmido, calado, duma volúpia
tristíssima, confrangida. Era como uma despedida sem palavras, muito
lenta, de dois suicidas...
Eu não te via os olhos, mas adivinhava-os: estavam maiores, mais
nevoentos, como janelas deitando p'rò silencio que se cavava em torno,
fazendo leito ao nosso pensamento pelo espaço...
E confusamente sentíamos que o tempo passava, passava sempre entre os
nossos corpos enlaçados....
Por fim--era à bôca da noite--voltávamos.
Devagarinho, dizias tu, devagarinho...
Eu ia levando o _Sol_ na agua mortuária, e à nossa passagem, partiam
sempre, iam partindo, pássaros mal adormecidos nos salgueirais das
margens, reflectiam-se no rio em fugas de asas, e era tudo mais
triste como se êsse vôo fôsse o adeus de tudo...
Quantas vezes te olhei com os olhos rasos! Disfarçava, não queria nunca
que mos visses. E de repente, apertava-te os braços, sacudia-te p'ra me
aturdir, p'ra espancar a emoção que me afogava numa maré de lágrimas
reprêsas.
Queria gritar, queria chamar-te meu amor e... odiava-te. Queria
beijar-te as mãos, vestir-te de meiguice, e dizer-te a ância, o sonho
doido de viver contigo sem palavras--como as estátuas dos túmulos nas
criptas...
Queria bater-te, cuspir-te, demolir-te, como faz um tufão a uma árvore
sozinha, e a puxar-te os cabelos de creança, ir gritando, gritando
sempre: prostituta... prostituta...
Hoje tenho remorsos. Mas tu compreendes, tu bem sabes: era quási loucura.
Não podia perdoar à tua graça ter-se deixado poluir, não podia perdoar
ao teu génio a tua derrota, não podia perdoar-te, Suze, que fosses
vítima.
Ah! ter piedade, ter piedade... Mas isso é pouco, muito pouco: é um
sentimento consolador só para eunucos. E eu queria amar-te ao sol, Suze,
olhando as árvores irmãmente, todo o nosso desejo a escorrer luz...
A noite vinha. Seguíamos enlaçados, e eu cansava-me no esfôrço imenso de
te não magoar... Tu bem sabias, tu bem sabias... Segundo a segundo, o
meu martírio pesava o tempo como se uns ponteiros de relógio me ferissem
os nervos... Tu bem sabias. Tanto sabias, que por fim me beijavas na
testa, quási maternal, e a tua voz de fôlha seca rangia êste refrem de
outono: «Isso passa. E um instante, _é um detalhe_.
Minha pobre Suze, como tu eras justa, como tu adivinhavas, bruxa de
vinte ânos, p'ralêm da hora que passa, o nada que virá.
A tua desgraça era suprema, porque tu eras _aquela que não se ilude nunca_.
Ainda assim, penso comigo: quem sabe! quem sabe! Se ela me visse como eu
sou, se eu não fôsse com ela sempre actor, se eu não fôsse o ser
falso, o clown scéptico mascarrando com riso o sentimento; se eu não me
amordaçasse a cada instante, e tivesse podido ser eu mesmo... Se visses,
Suze, a creatura que eu escondo; se soubesses que afinal eu sou bem
simples e como eu amo a vida tôda de mãos postas...
Se em vez de analisar, eu me entregasse; se eu esquecesse os livros e os
outros e te falasse tão naturalmente como o meu sangue fala nas
artérias... Quem sabe!... Talvez, Suze, se eu fôsse o que não viste, o
que te fala agora... Porque eu lembro-me, eu lembro-me. Duas horas houve
que nós vivemos um no outro, fora do espaço, fora do tempo... Tu bem
sabes, tu lembras-te.
Era madrugada. Estávamos deitados.
Todo o meu ser vivia de ti, morria em ti. O nosso desejo ardera, estava
morto. Que fadiga a nossa, que fadiga!...
A rua despertava, ouviam-se pregões, o sol luzia nas frinchas: eu tinha
a cabeça contra o teu peito, perdidamente, como contra a esperança,
como contra o futuro...
Embebia-me em ti, aspirava o teu corpo, a tua carne, a sua tristeza
imensa, a sua saudade de tudo o que não teve, de tudo o que não foi... e
juro--que em nenhum jardim, em nenhuma aurora, uma flôr com orvalho me
ungiu assim de sonho, me fêz assim vibrar no impossível dum amor perfeito.
Levantámo-nos, saímos, e logo a rua, os outros, a vida dos outros, se
apossou de mim, me perverteu, me obrigou a mentir, a torcer-me... e eu
ri, eu ri imbecilmente, de nós, da nossa vida, e dessas horas em que
auscultei contra o teu peito--o impossível de um sonho sempre erguido!...
Pois se esta noite mesmo, ao começar a escrever, ao pensar em ti--na tua
morte, Suze!--eu fui palhaço, eu quebrei em esgares a emoção, e mimei um
ar gelado, irónico, impossível, quando queria chorar perdidamente,
quando queria beijar os pés ao teu cadáver... É que tinha medo, um
medo horrivel de que os outros me vissem, porque p'ra êles é uma
torpeza amar-te assim...
Eu podia dormir contigo, dar-te dinheiro... só não podia amar-te. P'ra
todos os crimes há uma indulgência feita de cumplicidade, menos p'ra um
crime assim: não tem remissão: é imoral e é grotesco.
É preciso que a dor me abale todo, me fite bem de frente, e me hipnotize
o seu olhar de chama, p'ra eu poder dizer como te amava, como te amo.
Perdoa, perdoa. Aqui me tens aos pés do teu cadáver.
Tôda a vida morreu p'ra mim: a seiva gelou nas veias das árvores; o mar
que eu amei tanto, não me importa.
A vida agora é êste horror: uma sala de _morgue_, mesas ovais de
mármore, cadáveres sem nome, já esquecidos, e entre êles, Suze, o teu
cadáver.
Como irás tu p'rà cova? Quem te vestiu?... Foram mãos sem carinho,
mercenárias.
Vejo-te, digo-te adeus, Suze... O teu cadáver transe, empedra de
martírio. Pareces mais alta, mais comprida. Não te souberam pentear;
deixaram-te o cabelo em desalinho e, não sei porquê, está mais claro, de
uma sêda mais pura, mais de infância...
Tens um vestido preto (com que me foste esperar: há quanto tempo?...)
sapatos de verniz, ponteagudos... fivelas de oiro... meias de sêda nos
teus artelhos finos de cegonha.
Cruzaram-te de certo as mãos no peito, mas escorregaram, descaíram, e
amarelas, outonais, dizem ainda: «é um _detalhe_ apenas, um _detalhe_...»
E o que mais me entristece é que tens frio: as mãos da podridão vão-te
gelando. Oh! As tuas noites na cova, Suze!...
Abriram-te o ventre no hospital. Suturaram-to àpressa, sem cuidado. Se
te tirassem os nervos... Bem sei que é doido, mas que querem?... Ficava
assim mais socegado.
É amanhã que te enterram?... Hoje mesmo? Deve ser quási dia, minha
Suze.
Deixa beijar-te as mãos geladas, de mansinho, enquanto falo... Assim. A
minha febre aquece-tas: verás...
Não te descerro as pálpebras. P'ra quê? Está ainda escuro.