através de rendas de Burano um colo ou uma nuca de mulher, e intumescia
às vezes como um seio no bôjo de uma ânfora sveltíssima ou na escultura
de uma planta de água.
Oh! que feliz a carne dêsse mármore, escrava de uma fluida arquitectura,
cantada e beijada todo o sempre! Jactos cruzavam-se como na argentaria
solar de uma panóplia, caíam numa taça canelada, donde escorriam
molemente, em lágrimas, p'ra renascer vivendo noutros sulcos, donde
espirravam como flores se esfolham, em graças _platerescas_, em sorrisos.
Contra o sol, as janelas, os balcões, tinham estores de longos fios de
água, tamisando a luz pr'ò interior em irisações fantásticas de nave.
Mas, como Harry me fêz logo notar, o seu projecto, perfeitamente
realizável, era um _ensaio de arquitetura musical_. A euritmia dessas
linhas de água, tantas volutas líquidas que eu via no amoroso desenho
daquele álbum, não tinham só um fim arquitetónico, antes eram a
consequência imediata, o instrumento de beleza necessário, pr'á ópera da
Água revelada por um arquitecto-músico de génio. Mostrou-me então a
_partitura_ do palácio. Sentou-se ao piano e tocou-me alguns motivos.
Como tôda a gente no hotel dormia, executava em surdina, emocionado.
Primeiro o _leit-motiv_ da entrada, cantado no peristilo por três
fontes, com três taças de prata cada uma. Era a ogiva elegantíssima da
entrada (duas curvas angulares de água jorrante em conchas de alabastro
quási ocultas) que acompanhava as três vozes argentinas. Harry
chamava-lhe: _o motivo de saudação_.
Depois tocou-me a sinfonia da fachada. E foi então que ouvi a alma
transcendente dêsse tristão-poeta desterrado! E Harry dizia, crispando
as mãos numa impotência de nervoso, que era impossível mimar sôbre um
piano a fluidez dionisíaca das frases. Os _graves_ e os _agudos_
conseguiam-se por diferenças de calibres, indo de uma tenuidade
capilar até aos cilindros de maior diâmetro, às bocas, divertículos,
ampolas, com recôncavos e inflexões previstas, num duplo intuito
ornamental e acústico.
A gama das resonâncias era imensa, indo dos acordes dos mármores e
alabastros até aos timbres dos metais mais ricos, dos bronzes, pratas
foscas, claros oiros, com espessuras várias nuançando, imbutidos nos
mármores da fachada, enriquecida assim com côres de jóia e os tons
sobrenaturais de um órgão de água. Oh! essa sinfonia! Reouvi-la e, meu
Deus! prazer supremo, ouvi-la e vê-la, se um dia o templo da Água fôsse
vida!
Três melodias _fugadas_ corriam a fachada sem cessar. A que vibrava ao
centro tinha timbres mais finos e mais altos, os jactos erguiam-se mais,
implorativos, antes de recaírem em vertigem, nos dois focos de
resonância decoral. Era uma prece indefinida e dava ao templo como uma
aspiração de agulhas góticas, a expressão decantada, musical, que teem
as mãos erguidas das Ogivas. Harry chamava-lhe: _a ânsia de ser nuvem_.
Os outros dois, visualmente, fundiam-se em sinuosidades expressivas, em
caprichos de linhas reticentes, e fiando a mesma clara rêde, eram,
musicalmente, bem diversos. Harry chamava-lhes: _a alegria de morrer
sorrindo: a saudade dos rios, das nascentes_. E os três deliam-se numa
polifonia liquescente em que a _ânsia de ser nuvem_ tinha o patético de
umas mãos erguidas; _a alegria de morrer sorrindo_ lembrava a vida e
morte das espumas; e _a saudade dos rios, das nascentes_, nas conchas e
recôncavos de mármore revestidos dos bronzes mais espessos, dizia em
acordes quasi cavos o desespero da água outrora livre, domada e
orquestrada sabiamente: a nostalgia do coração das rochas vivas, dos
açudes, dos campos cultivados que ela regava a chalrar nos sulcos largos.
Nos três lados restantes, a decoração musical era mais simples: baladas
de ecos sem memória instilando um esquecimento de magia. Inútil
descrevê-las: impossível. Ante o imprevisto desta arquitectura, Harry
compreendendo o meu espanto, mostrou-me, em cadernos atulhados, a
notação musical minuciosa, em que as vozes de milhares de fontes tinham
sido por êle copiadas, e outras de ensaios que realizara até poder
compor a _partitura_ dêsse palácio feérico da Água.
O seu esfôrço agora, a sua obsessão de cada instante, era, estudando a
hidráulica e a acústica, chegar a harmonizar a arquitetura, que lhe
parecia pouco bela ainda no mármore, com a beleza musical e plástica da
arquitetura líquida exterior. Trabalhava com febre, dia e noite.
Mostrou-me ainda detalhes interiores. A _Galeria da Meditação_ tinha
vitrais historiando os mitos da Água: ao largo da laguna veneziana, o
casamento do Doge com o Adriático na galera de sonho o _Bucentauro_;
Ophélia louca, o cabelo como um chorão de fios de oiro, apartando com
mãos de prata fosca os canaviais orando à beira-rio: sereias
penteando-se ao luar com medusas nos seios gotejantes...
No chão de pórfiro, um tapete esmaecido de reflexos. E nas paredes nuas,
como se pendurasse as telas de algum mestre, Harry cavara duas fontes
pequeninas, num tingling lacrimal, beijante, clepsidras a viver fora do
tempo... Ali iria meditar e ler.
Era evidente porém que o seu palácio só podia existir no isolamento.
Disse-me então como teria de murá-lo, defendendo-o do vento,
concentrando-o. Alêm das grades balizando o parque, cinco muros de
árvores concêntricas, por ordem de alturas decrescente: a grisalha
colossal dos eucaliptos, o veludo dos cedros, choupos góticos, ciprestes
tutelares, e em vagas meigas, as cabeleiras sôltas dos chorões... E
seria num vale agasalhado.
Harry empalidecia de emoção. Detestava viajar, o convívio forçado dos
expressos, a promiscuidade dos hotéis, dos restaurantes. Só por as
fontes se fizera vagabundo, para as ver, pr'às ouvir assimilando-as, e
poder executar um dia o seu palácio--síntese de todas.
O entusiasmo de Harry contagiou-me. É possível que amanhã não seja
assim, que dêste plano de arquitectura musical que antevejo e anteoiço
emocionado, no contágio febril que me vem de Harry, me fique a idea de
um projecto fruste, de uma alucinação de hiperacústico, com uma forma de
loucura poética só como documento, interessante.
O templo da Água é para a vida dêste sensitivo, sob uma forma íntima e
discreta, a minúscula visão quási infantil, a creancice lírica encantada
em que êste poeta semi-louco e ingénuo tenta exprimir em linguagem de
arte, com a arquitectura e a música por meios, tudo quanto na terra
deslumbrou a sua alma de tritão éxul.
Se amanhã analisar êste projecto longe do seu contacto perturbante,
talvez eu reconheça a inanidade de todo o seu amorosíssimo trabalho, mas
sempre com emoção hei-de admirá-lo, porque teve uma paixão e se lhe
entrega, sem nenhuma restricção, de todo o corpo, e arde nessa
febre dia a dia, abandonando tudo, belo e rico, por uma vida nómade, de
acaso, que o fará morrer ao desamparo no hotel dálguma terra onde haja
fontes, ainda fiel a essa visão de sempre, sorrindo ao seu palácio em
cristais múrmuros...
O palácio da Água!... «Construi-lo e habitá-lo com _miss Fountain_ se a
encontrar um dia...» Eu cuido ver essa beleza de água tal como vive nas
pupilas de Harry. Tem uma voz de água, os olhos de água, uma alma de
água, clara, imperturbada, e um desejo, um sensualismo de água,
envolvente, fluido, esquecedor, como um nirvana de água inexgotável.
Sem o fermento de nevrose que o desvaira, com faculdades criadoras
coordenadas, Harry seria talvez um grande músico, um encantador, um
mystico dos sons, como fragmentariamente o revelaram as estranhas
composições que agora ouvi. Ou, quem sabe! um arquitecto novo, musical
pela assunção das linhas, sem recorrer, vesánico, quimérico, às
impossíveis sinfonias da água onde os seus olhos pálidos, de névoa,
cuidaram descobrir todo o destino.
Ao ouvir-lhe a voz meíga, monocórdia, já começo aqui mesmo a duvidar, e
penso no que seria o desespero, a irremissível catástrofe dêste homem,
sem família, sem noiva, sem amigos, condenado a um absoluto isolamento
por uma sensibilidade hiperaguda, se viesse um dia a convencer-se de que
era uma loucura essa chimera onde fechou o futuro a sete chaves.
É certo, é natural que isso suceda. Que sabe êle de hidráulica, de
acústica? Nem sequer tem uma educação profissional, e era forçoso, p'ra
admitir como exequível êsse plano, que êle fôsse um arquitecto
extraordinário, um músico revelador de novos meios e um engenheiro
único, de génio.
E assim mesmo, pois que o drama musical de Wagner é, na sua beleza de
vertigem, a mais victoriosa das derrotas, condenando pela voz dêsse
homem-deus tentativas quaisquer de fusão de artes, não era mais que
certa, irrevocável, a falência total do sonho de Harry?
Êsse supremo aro de unidade, fervorosa obsessão de todo o artista, é um
prodígio _interior_, não se exterioriza, e só com uma genialidade
adivinhante, se realiza por um meio único (literatura, música, pintura)
a obra-prima contendo em potencial, englobando em sugestões latentes,
domínios que pareciam de outras artes.
Se ao menos pudesse conviver com êle e canalizar tão bellas qualidades
p'ra qualquer coisa de viável, de fecundo! Queria evitar que a sua vida
se partisse como uma lufada de vento quebraria aquela arquitectura em
pratas de água, como um sistema arterial de sonho. Mas é esta a primeira
noite que falamos e é decerto a última tambêm.
E depois, como poderia desviá-lo, por que paixão substituir esta paixão,
êste culto das fontes religioso?...
Lembrei-me então do mar, todo o meu culto. E voltando à sinfonia da
fachada, comecei a dizer que um dos motivos--_a alegria de morrer
sorrindo_--me fizera, ali na paz de Roma, uma saudade imensa do meu
mar. Harry fixou-me. Parecia constrangido.
--Gosta muito do mar, não é verdade?
Harry calava-se, interdito. Senti então entrar pelas janelas, como uma
onda de silêncio que arrolasse, a paz de Roma prenhe de memórias... A
fonte de Bernini ouviu-se mais: dir-se-hia uma voz de ama milenária a
acalentar fantasmas com terror...
Ao ver Harry perplexo, hesitante, arrependia-me da pergunta que lhe fiz,
mas elle viu com certeza nos meus olhos a minha curiosidade, a minha
ância. A sôbre-excitação daquele instante, até o facto de eu ser quási
um estranho, a quem se faz mais facilmente confidências do que mesmo a
um amigo ou a um conhecido, forçaram-no a falar, violentaram-no.
Respondeu-me com agitação de um modo brusco:
--O mar?!... Não posso suportá-lo, odeio-o, porque foi êle que perdeu os
meus... Compreendo-lhe a beleza, que é divina, mas não o posso ver,
atterra-me, detesto-o...
Ainda hesitou. Depois, sem interrupção, _vivendo_ as frases:
--Meu pai, que era um homem do povo, viveu doze anos com _êle_ e
adorava-o. Era piloto. Viajava p'rò Norte quási sempre. Filho de
marinheiros, tinha nas veias o amor do mar. Foi de volta da Islândia, a
bordo do _Baltic_, que pela primeira vez viu minha mãe. Teria ela então
dezassete anos.
Meu pai, ruivo e forte, tinha uma beleza viril, impressionante. Ela, já
então órfã, viajava com meu tio, um velho estranho, que só as viagens
por mar interessavam. Era bela (tirou uma fotografia da carteira)
imensamente bela, não é verdade?
Tinha uma índole exaltada, romanesca, que o hábito de realizar todos os
caprichos levou a um despotismo singular, de perversão nervosa, de
histeria, e ao menor obstaculo, com acessos de chôro e grandes febres.
Meu tio era o tutor, e longe de a reprimir, estimulava-a mais,
lisonjeando-a, com uma adoração de spleenético alcoólico por aquela
andorinha semi-louca. Mesmo a bordo, quando começou a amar meu pai, ela
ia fazer-lhe confidências, contar-lhe os sobresaltos dos seus nervos, e
êle ouvia-a com uma indulgência de ternura e talvez mesmo com uma ponta
de sadismo. Mas não quero aborrecê-lo com detalhes.
Contra a vontade de todos, apenas ajudados por meu tio, cujo spleen se
comprazia neste drama, os dois casaram, depois de uma côrte romanesca
que alucinara de paixão meu pai. Minha mãe teve uma exigência única, mas
que era para êle a mais cruel: _abandonar a vida de bordo para sempre_.
Estava tão doido, que a aceitou sem compreender, pálido como se lhe
arrancassem tôda a alma...
Na véspera do casamento, foi a bordo do _Baltic_ despedir-se. Abraçou os
companheiros um a um, e andou horas a bordo, como um náufrago, como um
cão sem dono, os olhos rasos, a dizer adeus ao seu navio. Toda essa
noite passou-a a errar no pôrto. Ninguém diria que aquele vagabundo
tinha uma noiva aristocrata, bela e rica, e ia casar já na manhã seguinte.
A caminho da igreja, sentia uma alegria lúgubre, uma felicidade
exasperada, como um travo de remorso do mar longe...
Depois veio a vertigem. Durante dois anos, esqueceu o mar, esqueceu tudo
nos olhos verdes de minha mãe como num álcool. Viviam um do outro, sem
convívio, num castelo dos arredores de Londres, que meu tio, ainda em
vida, lhes doou. Havia no amor dêle a minha mãe devoções de plebeu por
um ser de raça, e o sensualismo de um marinheiro, moço e forte, com
longos períodos de abstinência no mar largo, por um corpo de pétala,
serpentino, enlaçando com braços e perfumes...
No amor de minha mãe havia bastante de perversão histérica. Sabia como
êle evitava falar do mar com uma espécie de pudor religioso. Um dia
mesmo êle pediu-lhe de joelhos que não lhe lembrasse a promessa que
fizera, que não falasse do mar diante dêle. E a cada instante, em
horas íntimas, quando passeavam no parque, nas estufas, nas grandes
noites de invernia e chuva, ela aludia em frases reticentes onde adejava
o espectro do mar longe. Tinha a volúpia de o martirizar. E quando o via
bem amarfanhado, caído como uma coisa ao desamparo, p'ra cima de um
estofo, a mascar raivas, erguia-se mais linda que um _tanagra_ e ia
beijar-lhe os olhos, dar-lhe a bôca, endoidecê-lo de amor e de luxúria.
E viviam assim meses e meses. Nem uma visita. Ninguêm. Raro saíam. A
vida mundana não interessava minha mãe. Tinha-a vivido febrilmente e
esgotou-a com uma precocidade de nervosa, que tudo interessa e aborrece
em pouco tempo. Depois, ainda por orgulho. Tendo feito um casamento
desigual, não queria humilhar meu pai nem humilhar-se.
Havia nesta vida de desejo de dois seres tão diferentes e isolados
qualquer coisa de feroz, de criminoso. Dois instintos presos por amor,
na mesma jaula de oiro, dia e noite... Enervavam-se um ao outro.
Enlouqueciam-se.
Tenho em Londres uma fotografia de minha mãe por êsse tempo. Emagrecera.
Lembrava um ser patético de Shakespeare. O seu temperamento de histérica
requintava, em perversões subtis, quási em loucuras. Torturava meu pai
continuamente, dando-lhe a visão do mar a cada instante, por sugestões
que iam atormentá-lo, evitando contudo falar dêle, com uma hipocrisia
que era mais cruel do que seria uma alusão bem clara. Nas salas havia
paisagens de mar por tôda a parte... E por cima das mesas, dos sofás,
como uma obsessão de crime, sempre e sempre, livros, romances e
gravuras, com narrações de mar, sempre com o mar...
Até as músicas que tocava ao piano. Dizia-lhe: anda «ouvir como isto é
lindo!» E êle encostado ao piano, junto dela, via os _Lieder_ de
Schubert já abertos numa página marcada. E lia: _O mar!..._
Depois que eu nasci, a nevrose de minha mãe, longe de se calmar na
maternidade, exasperou-se. Os dias para os dois eram enormes. Passavam
horas junto do meu berço, inventando-me encantos, a adorar-me. E como me
dizia a velha Jenny, por quem eu soube tudo o que lhe conto, dir-se-ia,
naquela solidão envenenada, que cada vez se desejavam mais, se bebiam
com olhos mais sedentos, com um amor que era uma espécie de ódio.
Tudo isto passava-se sem gestos, sem levantarem a voz uma só vez.
A virilidade impulsiva de meu pae caía dominada ao ouvir-lhe o andar. O
ruge-ruge dos vestidos dela fazia-lhe um terror voluptuoso. Estirava-se
aos pés dela muito tempo a beijar-lhe os sapatos, marasmado...
Os criados achavam-nos estranhos, cada vez mais pálidos, mais magros.
Eles mesmos pressentiam--no silêncio augural daquela casa onde os viam
enlaçados, de olhos loucos--qualquer coisa de trágico, de mau...
Meu pai, que a bordo fôra sempre sóbrio, bebia agora imenso,
embebedava-se. Depois, com a idea do mar cravada nele, ia esmoer essa
obsessão, calado. Viam-no às vezes falar só, baixinho, escondido nas
salas afastadas, dizendo por entre dentes, sufocado, coisas de bordo,
vozes de comando, com as mãos em porta-voz, olhando o tecto, como se
fitasse os mastros, o velame...
Se alguêm o via, disfarçava, com uma expressão de terror quási idiota.
Ia endoidecendo pouco a pouco.
Minha mãe sabia tudo, tudo. A pobre Jenny, sobressaltada, ia contar-lhe;
pedia-lhes que se distraíssem, viajassem, que fizesse um esfôrço p'rò
salvar. Ela, porêm, só tinha curiosidade p'ra saber se meu pai bebia
muito, se falava só, o que dizia...
Ás vezes vinham cartas dos camaradas, dos portos em que o _Baltic_
tocava, falando-lhe de bordo com saudades. Êle lia-as e relia-as muitas
vezes. Trazia-as sempre consigo, decorava-as. Mas logo que minha mãe
aparecia, mudava de figura, era já outro. O olhar babava adoração.
E se um instante se abandonava nos seus braços, pegava nela ao colo como
um doido, levava-a p'rà alcova aos tropeções, sem se importar com os
criados, com ninguêm.
Afinal minha mãe gostava disto. Era ela que o enlouquecia pouco a pouco.
Cada vez mais, sem falar dêle, a propósito das coisas mais triviais,
aludia ao mar, com pausas bruscas, em que os ouvidos dêle, alucinados,
ouviam o rumor, a voz do largo...
Evocado a todos os pretextos, por essa linda torcionária histérica,
_êle_ acabou por ser uma presença: o Espírito do Mar viveu com êles!...
Eram três agora no castelo. Passava o inverno com êles, a seu lado.
Vivia nas marinhas das paredes, nos livros e no vento, nos ruídos... E
mais e melhor: na alma dêles...
Sós, à noite, a ouvir o vento, olhavam-se... E em ambas as bôcas, bem
cerradas, cada um lia: «Ouves o mar? É _êle_...» E depois de suspensos
um instante p'rò sentirem correr-lhes a medula, afogavam-se nos
braços um do outro, com uma fúria sensual desesperada. Foi minha mãe que
provocou tudo isto, e acabou por se enredar tambêm, por acreditar como
êle, contagiada. Numa cama de amor, dois amorosos, partilham as loucuras
como os corpos...
O Espirito do Mar estava com êles. Ainda lhe não tinham pronunciado o
nome, mas calavam-se muitas vezes para ouvi-lo, conversavam sôbre _êle_
por olhares...
Uma noite de inverno--ia a fazer três anos que casaram--recebeu do Norte
um telegrama.
Era dum camarada íntimo de bordo. Toda a tripulação o abraçava;
mandavam-lhe do _Baltic_ saudades... Pareceu-lhe então que o seu navio,
o seu pano que tanta vez ferrára, vinha naquela noite de Janeiro,
dizer-lhe o ultimo adeus da vida a bordo, das grandes rotas pelos mares
de névoa, das veladas na ponte a todo o tempo, dos sonos bons depois no
seu beliche, pequenino e estreito como um berço... Rolavam-lhe as
lagrimas dos olhos.
A Jenny, que andava inquieta e os vigiava, muita vez me contou essa
noite ultima.
Chovia imenso. Ela mesma lhes serviu o chá. Meu pai, como de costume,
bebeu _gin_. Mas nessa noite foi brutal o que bebeu. Minha mãe, com uns
olhos de aura histérica, dava-lhe as mãos a beijar, encorajava-o...
Já tarde, ergueram-se. Jenny foi ajudar a despir-se minha mãe. Êle
seguiu devagar pelo corredor e abriu a janela tôda à noite negra...
Ficou assim algum tempo a olhar o vago, com a cabeça nua, à chuva e ao
vento...
Depois, bruscamente, foi pr'ò quarto. Com um tremor de alcoólico nas
mãos, foi a um armário de que nunca se servia, e começou a tirar roupas
de bordo, atiradas há três anos para ali como coisas inúteis para
sempre. Pôs-se então a vesti-las febrilmente: japona de oleado, botas
altas, na cabeça o sueste... Como a bordo. Viu-se ao espelho. E ia a
sair, quando voltou p'ra trás. Qualquer coisa lhe faltava. Procurou
no armário, procurou... Era a faca de bordo, numa bainha de coiro já
puído. Pô-la â cinta e partiu com um andar mais firme, resoluto, como se
a bordo, fôsse fazer um _quarto_ em noite má.
Outra vez seguiu pelo corredor, até ao quarto de minha mãe, que o
esperava. Sem bater, entrou: parou a olha-la. Tinha os cabelos
desfeitos, muito branca, num _robe-de-chambre_ que abriu ao vê-lo
entrar. E com o colo nu perdeu-se a rir...
«Vaes p'r'ò mar, meu amor? Deixas-me só?...»
_P'rò mar! P'rò mar!..._ Pela primeira vez há já três annos, espantado
de se ouvir, da sua voz, repetia o nome sortílego, supremo: «_P'rò
mar!_» com uma inflexão pueril, quasi idiota.
A lenha crepitava no fogão. Ouvia-se chover cada vez mais.
--«Estás vestido p'ra bordo... Estás já pronto...»
De súbito, ela viu-o demudar-se. Com uma inflexão rouca, de bêbedo,
tornou; «Está mau... está mau... Está um temporal desfeito. Como querias
tu que eu me vestisse?» Ela sentiu terror e aproximou-se. «Ouves a
chuva?» dizia êle. «Ouves a noite?... Ouves?... Ih! Ih! Que vento! Que
maldito!...» Num lindo gesto meteu-se-lhe nos braços, colando-se contra
ele, abandonando-se. O _robe-de-chambre_ descaía-lhe nos ombros. «O pano
incha, o pano incha... Ferrar pano! gritou com voz de comando: Ferrar
pano!»--Tomou-lhe o corpo nos braços ennovelado. E Jenny, que ao
ouvir-lhe a voz correra, ouviu ainda aterrada; «Não aguenta o pano!
Cortar cabos!...» Tirou a faca de bordo da cintura, prendeu a bainha nos
dentes p'rà arrancar, e cravou-lha no colo até à raiz. Era curva.
Dir-se-ia que tinha a inflexão dos seios dela.
....................................................
Harry contou-me ainda o processo, o julgamento, e como êle no tribunal
acusou o Mar... A opinião dos médicos legistas, foi que êle estava
doido irresponsável. Apesar disso, porêm, foi enforcado. A opinião
pública, os jornais, eram contra êle.
Harry estava lívido.
--Compreende agora porque odeio o mar.
SUZE
A Paulo Osório
Suze
Oh! dolce,
della soglia del lupanare
mirar le vergini stelle!
--_La meretrice di Pirgo_--GABRIELE D'ANNUNZIO.
Não posso dormir. Como há mais de oito dias não recebi carta da Suze, e
a minha absurda vaidade se recusa a crer que ela me esqueça, ponho-me a
pensar, com uma perversidade triste, que tenho escrito loucuras a um
cadáver.
Na última contava ela com uma coragem simples, como o mais fútil
incidente, que ia entrar p'rò hospital p'ra ser operada. Anunciava-me
isto, entre um projecto de vestido _gris-taupe_, que iria bem à sua
tinta de viciosa pálida, e uma chuva de detalhes sôbre a gata, a
amar com romance e com luxúria um gato magro do terceiro andar.
Se tivesse sido operada e convalescesse, já decerto me teria mandado um
telegrama.
É pois forçoso convencer-me que a minha pobre Suze--«era uma vez»...
Repito alto p'ra mim mesmo: está morta, está morta a Suze! Logo que o
disse alto, todo o meu temperamento de actor o acreditou, e em todo o
meu ser, essa auto-sugestão ressoou em dobres, agudamente, por essa
rapariga de vinte e três anos com quem vivi dois meses.
A morta (é certo, é positivo que morreu) era alta e magra.
Aqui mesmo, no meu quarto, onde certa noite ela tomou chá entre os meus
livros, a vejo atirar o chapeu de rendas caras, em que havia heráldicas
tulipas, acender com um gesto fino um dos Laferme, correr a mão na testa
com o gesto da Duse nas catastrofes supremas, e dar-me fumo e destino e
sonho. Aqui mesmo.
Naquele espelho prolongou com um traço de crayon os olhos vagos,
ali palpou as molas do divan, e no _toilette_ atou horas depois, _im
memoriam_, as fitas de sêda azul que lhe prendiam a camisa nas espaduas...
(Mas assim, não consigo dizer o que ela foi. Preciso calmar a minha
febre e começar pelo comêço).
Vi-a a primeira vez êste verão, no teatro, e logo a destaquei.
Os seus cabelos de criança escandinava, loiro cendrado e sêda palha em
que havia reflexos quási brancos, tufavam na testa sob o chapéu preto,
descaíam à esquerda, subiam à direita recortando a têmpora em ogiva;
inverosímeis como raios de um sol de vício, quimicos, absurdos... Só
depois me convenci que eram autênticos.
Os olhos eram claros, cinzento de agua em névoa; a máscara alongava-se
num focinhito sonâmbulo; nariz incorrecto, quási grosseiro; bôca grande,
acolhedora, de comissuras em pontos de interrogação; e o mento perdia-se
na nuvem de tule de um laço, esparso na gola impecavel de um
_costume tailleur_ azul.