levantaram-se todos p'ra partir. Cada um então foi dar-lhe um beijo, e
ao apertarem-lhe as mãos--adeus Milinho!--êle olhou-os desta vez
mais devagar, com um olhar que nunca mais lhe viram, em longes de
meiguice, de outro mundo, numa névoa de lágrimas contentes. E sorria ao
dizer:
--Adeus, adeus. Tio Eduardo, tia Olívia, adeus, adeus...
Essa creança assim, a despedir-se, com uma voz perlada de carícia,
encheu-os de aflição e de terror; e foi mordendo os soluços, sufocados,
que saíram da alcova, que partiram, ouvindo dentro dêles o
crocito--nunca mais! para sempre! _never more!_--dêsse corvo fatídico,
de lutos, que Poé revelou em versos trágicos. Qualquer coisa de lindo ia
morrer. Qualquer coisa de lindo ia morrer...
No emtanto na alcova, o pequenino, alongava os bracitos para a mãe e
dizia feliz, como em segrêdo:
--Que bom, mamã! Que bom estar só consigo! Sente-se aqui depressa, mais
pertinho...
--Aqui me tens, Milinho, aqui me tens. E beijava-o na testa longamente.
--Como eu gosto de si, minha mamã! Quem me dera viver sempre ao pé de si!
--Deus há-de-te sarar. Verás, verás...
--Bem sei que lhe faz pena, não se aflija: qualquer dia, mamã, eu vou
partir...
--Nem digas isso, meu amor, nem digas isso.
--Vou-me embora, vou, p'ra muito longe... Não faço falta a ninguêm.
Ficam-lhe os manos. Só lhe deixo a si muitas saudades...
--Se tu gostas de mim, não digas isso.
Êle tornou mais lento, resignado:
--Por sua causa, mamã, queria viver ainda que fôsse assim... sempre
doente, sem saír do quarto, ao pé de si, mamã, ao pé de si...
--Agora precisas de dormir, de descansar. Fecha os olhos, Milinho,
dorme, dorme...
--Então dê-me as suas mãos. Quero dormir com as minhas mãos nas suas.
Dentro em pouco, serenamente, adormeceu. Ela tirou as mãos devagarinho,
aconchegou-lhe a roupa contra os ombros, e afastando-lhe dos olhos o
cabelo, deu-lhe um beijo na testa, muito leve.
Já o luar escorria pelos vidros em lágrimas de opala e de mercúrio. A
noite vinha ver o seu filhinho e enchê-la de esperança e de coragem.
Como o pai disse recolher mais tarde (uma entrevista no _club_ p'ra
negócios) mandou deitar as criadas, ficou só: esperá-lo-ia ali, junto ao
seu filho. Como dormia bem, tão sossegado! Deus era bom, havia de
salva-lo. E numa exaltação, quási feliz, encostou-se à vidraça a olhar a
noite.
A magnólia ao luar estava divina. Se o pequenino a visse, o pobresinho!
Como êle gostava das árvores, do mar! Não se lembrava de ter visto um
luar assim. Fazia-lhe tão bem: calmava-a tôda. Via ao longe, no rio, as
mastreações, e distinguia as vêrgas, o velame, a luz dos estais à pôpa,
nictitando. Vila-Nova, a casaria, os arvoredos, subiam do outro lado
empoalhados, e a névoa que se erguera pouco a pouco, era já na
colina ao luaceiro uma via-láctea nova, avoejante, salpicada de luzes,
muitas luzes, como se Deus atirasse com amor, às mãos-cheias de estrêlas
sôbre a terra. Toda a mole granítica da Sé, galvanisada a lua, se
animara: corria luar nas veias dessas pedras, morenas do sol de tantos
séculos, e tôda a catedral se eterizava como se as gárgulas aladas das
cimalhas acordassem p'ra tentar um voo último. A casaria mesmo, estava
absorta. Que lindo, meu Deus, como era lindo! Elfos de lua, gnomos,
rondas fluidas, andavam no ar com o pólen dos jardins, e as rosas de
toucar por sôbre o muro, fechando todo o quintal em trepadeiras, tinham
nuances de síncope, esmaiadas. A paisagem era um sonho deslumbrado, numa
assunção p'ra Deus, erguendo os caules, e os troncos, as torres das
igrejas, e os olhos das janelas: de mãos postas. Deus fundira-se em lua,
andava esparso, como um filtro de sonho, transcendente, propiciando,
amando, perdoando.
Bem certo: o seu filhinho sararia. E nessa maré-cheia de luar, no
encantamento sortílego da noite, a esperança subia a aluciná-la
despertando o sonho místico de outrora. Aquella figurinha não mentia: os
seus olhos de mago eram proféticos. As suas mãos tocando adivinhavam,
como naquela noite, há já três meses, em que uniu, sob a bênção dos seus
olhos, as mãos do tio Eduardo e da tia Olívia, no silêncio que em roda
se fizera. Assim os dois souberam que se amavam, e ficaram a olhar o
pequenino como numa liturgia nupcial... E não tinha sete anos ainda
então! Mesmo a sua conversa perturbava, com inflexões de médium,
reticentes, em que palavras de sempre, as mais comuns, se engastavam em
timbres de mistério. Nascera para amar, o seu filhinho. E tudo, a sua
voz de concha meiga, a sua palidez estiolada, os seus olhos de
oráculo--criança, diziam bem um ser predestinado, um guiador augusto de
destinos, em cuja atmosfera de carícia muita dor havia de acalmar-se,
como um perfume de rosa, a certas horas, nos beija com uma bôca de
perdão.
Toda a vida do seu filho ia passando. Descaíam-lhe as pálpebras, ao peso
das quimeras debruçadas. E de repente, estremeceu gelada. Sentiu o luar
nas mãos, subiu-lhe aos seios... Se a beleza da noite, transparente,
êste aquário em que a lua abria as veias e a vida da terra ia boiando
num abandono de ninfeia aberta, fôsse afinal uma cilada d'_Ela_, um
disfarce da Morte p'ra roubar-lho!?... Meu Deus, meu Deus! Era possível
que ela viesse assim, essa maldita, na feeria argêntea dessa noite, com
a fouce escondida em musselinas, silenciário carrasco sem memória,
correndo em passos de êxtase e de opala, e matando com um hálito de
gelo, num aflorar de plumas hesitantes junto do qual um beijo era
grosseiro?... Um instante o terror alucinou-a. Não deixaria a lua entrar
na alcova! Ia fechar as portadas, e no escuro, colando o corpo contra o
seu filhinho, estaria mais segura, a defendê-lo. Num sobressalto, foi
até junto dêle, ficou queda. Que imensa paz nessa carinha meiga!
Pôs-lhe a polpa dos dedos sôbre a testa. Estava muito suado como sempre.
Mas a sua respiração era tão calma, e na concha das pálpebras descidas
havia uma doçura tão profunda, que se sentia bem que o seu anjinho
estava a sonhar com as fadas de algum conto, onde, como êle às vezes lhe
contava, a boa fada tinha a cara dela, e olhava e beijava como ela. Tudo
corria bem. P'ra que assustar-se? Os seus nervos, afinal, só os seus
nervos! E ao voltar-se de novo para a noite, teve remorsos de ter medo
dela, de ter desconfiado loucamente que êsse luar de perdão espargelado
fôsse um scenário infame de traição, contra aquela flôr--a pobresinha!
que era seu filho e Deus ia salvar.
Voltou p'ra junto da vidraça, ainda trémula, a sossegar nesse esplendor
silente. O luar avançava sempre e sempre. Já lhe doirava agora os olhos
razos, o cabelo, a testa, o corpo todo. E com uma idea súbita rezou. Não
podia dizer a quem rezava, se rezava a Deus ou ao luar... Mas Deus
era o luar, era o luar... E agora estava certa, estava certa de que êle
vinha p'ra curar o seu filhinho, e envolvê-lo todo p'ra sará-lo como um
beijo de Deus a essa criança.
Pôs-se em bicos de pés o mais que pôde, e com um gesto feliz,
misterioso, corria os cortinados de mansinho, p'ra que êle chegasse mais
depressa junto ao leito, a sorrir e a chorar, tôda contente. Êle vinha,
êle entrava sempre e sempre. Estendia-lhe as mãos como a chamál-o, as
suas mãos de mãe, de veias altas, que um dilúvio de amor intumescera. Já
despertava os móveis, seus amigos, a que ela queria como a confidentes.
E doida de feliz, quási riu alto ao ver-se no espelho enluarado.
Dizia-lhe baixinho: «entra, entra...» Já a cadeira de braços estava
empoada e a trama florida do tapete ressuscitava em gamas sonolentas.
Se até vitalizava as coisas mortas! Era Deus, era Deus êste luar... E
que sossêgo agora, que sossêgo!... Até a bica do tanque se calara. Havia
uma atmosfera de milagre, o seu sonho de mística era certo. Os seus
pressentimentos não mentiram. Era um destino sagrado, o pequenino. Por
isso Deus descera no luar: era êle, era êle, estava ali... Isto era bem
verdade, era a verdade. Mas então o seu filho estava salvo! E desatou a
rir perdidamente, num timbre de histeria muito sêco.
De repente lembrou-se: o luar era Deus: não devia pisál-o, era um
pecado... Fugiu então p'rà zona ainda escura, olhou o pequenino
adormecido. Pareceu-lhe que sorria extasiado. Sentiu uma alegria
semi-louca, um excesso de esperança a sufocál-a. Por fim ajoelhou-se
junto ao leito, chamando-o com as mãos, lavada em lágrimas; mas rindo
sempre, sempre, a segredar-lhe: «Entra, entra, entra...» Êle vinha, êle
vinha, muito fluido, de cada vez mais branco, mais divino. Debruçou-se
então, beijou-lhe a orla. Ergueu-se a radiar, transfigurada, com os
olhos histéricos mais vítreos e um riso em aro, descobrindo os dentes,
numa beatitude arripiada. Foi esperar o luar do outro lado, as mãos
nas grades da cama, à cabeceira. Êle dormia sempre, o pequenino, uma mão
escondida no pescoço, a outra sôbre a dobra do lençol. Curvou-se para
ver onde o luar vinha. Mal conteve um grito de ventura. Tocava os pés da
cama: ia subir!... «Sóbe, sóbe, sóbe» ia dizendo. O seu pobre coração
endoidecera: despedaçava-lhe o peito, de feliz. Premiu as fontes com as
mãos: «lá vem, lá vem. Bemdito seja Deus, sempre bemdito».
Havia um clarão no _couvre-pieds_ agora. Uma larga lágrima, redonda, foi
lá rolar como uma grande pérola. Nesse instante ouviu como um gemido. O
pequenido mexia-se, acordava. Levou as mãos ao peito, despertou. Mal se
viu o veludo dos seus olhos... Quis erguer a cabeça, descaíu-a. A mãe
vergou-se sôbre êle: «meu filhinho», pôs-lhe as mãos em caricia sôbre as
fontes que um suor muito frio perolava, e ia beijál-o, quando ouviu três
vezes, como um fio de voz, já muito longe: «mamã, mamã, mamã...» E
fechou p'ra sempre os seus olhos febris de grande génio triste
depois dessa palavra suprema que era tôda a sua fé.
O luar chegara emfim à cabeceira!
Só quando êle esfriou sob os seus beijos, só quando viu os braços que
lhe erguera, para que Deus o visse de mãos postas, implorando-lhe vida,
o pequenino!--recaírem inertes sôbre a roupa, compreendeu o crime, o
crime imenso.
--Vinha no luar a Morte... no luar...
Voltou-se então num desespero último, p'ró expulsar, p'ró pisar sob os
seus pés: depois reanimaria o seu filhinho: dar-lhe-ia a beber todo o
seu sangue. Mas ficou paralítica de assombro. O luar alagara todo o
quarto: água lustral de lua, alma de lua, no chão, no ar, em tôda a
parte... O seu sangue gelava-se nas veias. Não podia lutar, era
impossível. Êle invadira a alcova, asfixiara-a. Estava tudo perdido,
tudo, tudo... Abriu os braços, hirta, inteiriçada, e caiu ao desamparo,
sem sentidos.
O HOMEM DAS FONTES
A Justino de Montalvão
O Homem das Fontes
Chama-se Harry Young o homem das fontes. Vi-o a primeira vez em Granada
no Paseo de los Tristes, ao pé de uma fonte árabe já morta. É um rapaz
alto, de um loiro muito claro, maneiras simples que revelam raça, olhos
de névoa calmos e abstractos, e uma voz estranha, monocórdia, ou p'ra
dizer melhor, uma voz de água. Nasceu em Londres. É rico. Sem família e
sem lar, vive em perpétua viagem. Encontrei-o em Roma, em
Constantinopla, em Florença, e, detalhe que me feriu intensamente,
desenhando, escrevendo ou só olhando, sempre junto a uma fonte,
concentrado, como se fôsse a caricatura fabulosa que o encantamento
de uma ninfa ali prendesse.
Harry Young chegou a obsidiar-me. Nunca porêm, pensei em ir falar-lhe,
recorrendo ao impudor tradicional que se tolera sempre aos que viajam.
Uma manhã, em Florença, tive quási a impressão de que era um louco. Cedo
ainda, seriam cinco horas da manhã, fui p'rà Piazza dela Signoria
encher-me de sadismo estesiante a olhar na Loggia o Perseu de
Benevenuto. Tem, como sabem por centenas de gravuras, uma fonte
desenhada por Vasári à sombra ameada do Palazzo Vecchio. Caía uma luz
melodiosa. Harry desenhava, um caderno de apontamentos na mão fina. Um
esbôço da fonte, era evidente.
Àquela hora só havia pombas no silêncio irreal da praça. Discretamente,
pus-me a olhar tambêm a fonte. Ao centro, o Neptuno de mármore é boçal;
há uma ronda de ninfas alongadas num bronze de _patine_ quási azul; os
cavalos marinhos saltam na água e os tritões que cercam tôda a taça
tem a alegria de quem vive na água, uma beatitude cínica e animal,
espirrando das máscaras de bronze por fossetas de riso, bocas ébrias, em
_verve_ muscular, em gestos vivos. Os dorsos luziam de água
esparrinhada, e de estátua p'ra estátua voavam pombas fazendo em roda
aquele adágio de asas que à pôpa dos navios, no mar alto, riscam os voos
curvos das gaivotas. Não podia saborear aquela paz, com um desejo único
a morder-me: ver o que Harry Young desenhava.
Êle fixava a fonte alguns instantes, e antes de transcrever o que
colhera, quedava ainda imóvel, recolhido, numa aura de emoção mais do
que estética, que me parecia absurda, incompatível com um esbôço num
álbum de viagem. Ao lado, em frente à estátua de Cosme de Médicis,
criados sonolentos iam dispondo as mesas nas _terrasses_. Já havia dois
cafés abertos onde gente apressada ia beber. Harry, que continuou
alheado ainda algum tempo, foi por fim sentar-se a uma _terrasse_, e
bebendo um copo de leite lentamenle, tinha o álbum aberto sôbre a
mesa dando os últimos retoques ao desenho.
Quem era esta criatura que só o encanto das fontes interessava, e que em
Florença, como em Granada, como em Córdova, nunca vi num museu ou numa
igreja, como se só o granito ou o mármore das fontes tivessem para os
seus olhos estesia? Que sensibilidade aberrante, que destino fadara p'rò
convívio enigmático, p'rò segrêdo embalador das fontes, êste rapaz, que
não tinha ainda trinta anos, era decerto rico, bem nascido, e nem via
mulheres nem paisagens, absorto neste claro misticismo?
Sentei-me numa mesa perto dêle e pude ver à vontade o seu desenho. Nem
um traço da fonte nessa página onde bem claro, escrito a grandes letras,
sob um desenho singular de mulher nua, eu li: _Fonte Adamanti, em
Florença._ O quê?! A fonte concebida por Vasári era p'ra Harry Young
aquele corpo?... E buscando a relação possível com essa fonte mítica e
ingénua, onde em torno a um Neptuno gigantesco farandolam ninfas e
tritões, ou fôsse sugestão da simpatia que desde que vira Harry eu
senti, ou porque de facto ela fôsse um claro simbolo, pareceu-me que
essa forma musical, êsse corpo de oceanide surprêsa esperando o tritão
que a possuiria, era a síntese poética flagrante da fonte que Vasári
imaginou. Corria o risco de me tornar suspeito na ânsia de ver melhor,
de analisar. Harry ergueu-se. Vi-o seguir pela galeria degli Uffizii e
desaparecer ao fundo, lentamente, p'ra êsse scenario onde se evoca
Dante, feito de lindas pontes habitadas, da escultura nobre das colinas
e das águas do Arno romanescas.
Depois voltei p'ra Roma, onde encontrara Harry meses antes.
Muitas vezes me lembrava dêle, eu que tambêm adoro as fontes, com uma
simpatia persistente, cúmplice. Por êsse tempo ia eu às noites degustar
o rascante trágico da solidão na Piazza del Popolo, estirado no largo
rebordo de alabastro da fonte, fronteira ao Pincio, impregnando-me
dessa alma sem memória, dessa crónica augusta de silêncio, que é em Roma
a atmosfera de magia das praças sem ninguêm, com vozes de água. Ficava
assim horas numa tristeza quási sensual, com uma espécie de delírio de
grandezas que me permitia dialogar com Roma, calmar a minha incerteza de
falhado na beleza sobrenatural da grande morta, e fundir com o dela o
meu destino como o de um herói num poema antigo.
P'ra sentir esta luxúria psiquica é preciso ter vivido muito ou ter a
velhice precoce dos artistas, que em plena força e plena mocidade,
agarrando pelos cabelos a alegria, entristecem ao beijar-lhe os olhos.
Era aquela em Roma _a minha hora mais silenciosa_.
Ao centro da praça os quatro leões golfavam água, guardando o obelisco
egípcio numa vigília de esfinges, sempiterna. Em Roma, à noite, vivem-se
horas de convento. É a cidade suprema p'ra viver com um sonho ou com uma
idea, velada por formas milenárias que recebem exames de
consciência. Notei um vulto esguio, à quarta ou quinta noite, sentado
aos pés do obelisco, num degrau. Estava na sombra e, nem eu sei porquê,
pensei em Harry. Dentro em pouco, na embriaguez dessa auto-sugestão, nem
já admitia dúvidas: era Harry, era o _homem das fontes_ que ali estava.
E como uma raiz fende um granito, brotou da minha solidão de quatro
meses, viajando sem sofrer um só convívio, um desejo furioso de falar-lhe.
O lirismo imemorial dêsse silêncio levava-me p'ra aquela criatura, que
uma espécie de loucura poética instalara de vez no meu espírito, como
p'ra um ser afim, um quási irmão.
Pareceu-me que êle mesmo se movera, olhara na minha direcção, como
esperando. E nessa hipertensão de nervos que dá aos imaginativos o
silêncio, o convívio calado e fascinante com as criaturas brancas dos
museus, o meu desejo de falar com Harry atingiu a plenitude,
exasperou-se. Levantei-me. Sem me atrever a caminhar p'ra êle,
fui-me timidamente aproximando: dei a volta ao obelisco devagar e parei
com ar distraído junto de Harry, como se olhasse um dos leões golfando
água. Fiquei assim nervosamente alguns segundos.
Quando por fim o olhei, vi nessa máscara glabra de tritão um desejo de
me falar igual ao meu. Não posso repetir o que lhe disse, as primeiras
palavras que trocámos. Aludimos aos nossos múltiplos encontros, em
Espanha, na Itália, na Turquia, por uma coincidência bem estranha,
sempre junto de fontes...
Ninguém passava. Ouvia-se o vento a arrastar no Pincio fôlhas sêcas.
Lembrei-lhe a manhã em Florença, na Piazza dela Signoria, o desenho da
fonte de Vasári que eu vira na _terrasse_ por trás dêle. Harry calava-se
surpreendido. Perguntei-lhe se viajava como artista, p'ra pintar.
--Não sou pintor. Gosto muito das fontes, perdidamente. São o grande
interesse da minha vida...
Disse-me então o seu amor às fontes, baixando um pouco a voz, quàsi em
segrêdo.
Era órfão. Nunca quis conviver com os seus parentes, onde, por razões
que depois soube, só encontrou um acolhimento frio, como se fôsse um
estranho, sem ternura.
Tinha uns nervos doentios que o isolavam. Dos seus tempos de colégio não
guardava saudades mas só ódios, à grosseria vulgar dos camaradas, à
promiscuidade forçada e torturante p'ra uma sensibilidade como a sua.
Logo que chegou à maioridade, rico e só, foi visitar nos arredores de
Londres o castelo em que seus pais viveram. Correu o parque, as salas,
as estufas. Viu ainda o seu berço, os seus brinquedos, onde um pó sem
saudade ia caindo, como sôbre coisas velhas num museu.
Passou no quarto de sua mãe algumas horas... Sentiu uma tristeza imensa
em que tudo lhe parecia hostil: os móveis, o ar, um cheiro a morte, até
os olhos fitos dos retratos... O seu primeiro desejo de homem livre fôra
essa visita com que tanta vez sonhara, e saía de lá desamparado, com
uma espécie de desespêro inerte que tôda a casa lhe contagiara: a
velhice das coisas sem beleza onde viveu alguêm que nos foi querido e
que perdem com a côr tôda a memória. Esses muros sem alma
angustiavam-no. Já atravessava o parque p'ra sair quando ouviu a
chamá-lo uma voz de agua. Era ali perto e pareceu-lhe bem distante,
vinda da sua infância já tão longe. Emfim alguêm amigo, acolhedor! Foi
p'ra ela como iria p'ra sua mãe ressuscitada, e ficou a ouvi-la até à
noite. Abrira-a o jardineiro emquanto êle percorria as salas. Harry
contou-me:
--Tive a visão de um lar naquele instante. Aquela pobre fonte sem beleza
consolou-me como uma mãe, beijou-me os olhos.
Acarinhou-me como a irmã... que nunca tive, como a noiva que decerto não
terei...
A sua água encheu-me de saudades. E ao pensar nas salas que deixara,
tudo me comoveu, ali, a ouvi-la: os olhos dos retratos já me olhavam...
os tapetes, os móveis, as paredes, tinham linguagem agora:
compreendiam-me. As janelas á névoa, eram olhos tão rasos como os
meus. E como poisavam pássaros na pedra, eu mesmo fui buscar pão p'ra
lhes dar, espalhei muitas migalhas pela fonte... Senti a vida tôda no
meu peito. Vem dessa hora o meu amor às fontes.
Harry erguera-se. Seguíamos pelo _Corso_ lentamente. Pedi-lhe então que
me mostrasse os seus desenhos, os símbolos de fontes que creara.
--Só se quiser vir comigo ao meu hotel.
Já tenho as malas feitas p'ra partir. Vou p'ra Veneza. Veneza é um
hospital de águas... Faz-me triste.
O quarto de Harry no hotel de Londres, Piazza d'Espagnia, tinha entre
duas janelas um piano. Estavam abertas à noite, que em Roma parece mais
arqueada, como p'ra receber melhor as confidências. A torre della
Trinitá del Monte deu onze horas. Naquela paz não éramos só dois, porque
subia da praça, propiciando, a voz da fonte de Bernini, _la
Borcáccia_, a escoar-se sem jactos, brandamente. Harry acendeu as
serpentinas sôbre a mesa. Vi então dois álbuns grandes de viagem, e
alguns pequenos mais esguios.
Começámos a folhear num dos primeiros a imaginosa notação das fontes
árabes: de Córdova, de Granada _la vieja_, a terra andaluza de
_mors-amor_. A fonte morta do Paseo de los Tristes, onde pela primeira
vez eu vira Harry, era um cadáver de almeia; e havia ainda outra de
Granada, que eu toquei no jardim de Lindaraja, onde a princesa agarena
vive ainda com uma côrte calada de ciprestes...
O desenho de Harry dava-me dela uma visão patética. Evocava-a nova,
musical, nesse jardim interior da Alhambra--jaula feérica da luxúria
árabe, onde os corpos morenos das almeias elanguesciam nos mármores dos
pátios, e nas salas de jóias lapidadas dormiam com os perfumes dos
jardins as grandes séstas tórridas, de cópula...
Desenhára o mirador de Lindaraja, com as suas gelosias marchetadas
que ela entreabria um pouco, debruçando-se, como p'ra ouvir melhor a voz
da fonte. E a fonte falava de desejo, porque ela tinha nos olhos, nos
cabelos, na bôca a entumescer, nas linhas sôfregas, a expressão de uma
corola ao cair do pólen... Dos desenhos que vi das fontes turcas, um
entre todos me maravilhou: a do sultão Ahmed, em Stambul, no coração da
praça do Serralho. É um lindo harém de grades redoiradas, arabescado de
oiro e lápis-lazuli, de que a água é sultana única.
Harry representara Schehèrezade, a noveleira das _Mil noites e uma
noite_. Essa era bem um símbolo de fonte, que durante _mil noites e uma
noite_, a contar histórias sôbre histórias, adormeceu o califa que a
matava se a sua voz lhe não fechasse os olhos... Foi um destino de fonte
Schehèrezade.
Havia fontes de parques e de claustros: a primeira era uma _Belle au
bois dormant_ que um pavão heráldico velava; e entre as imagens místicas
que vi, apenas lembro uma carmelitana, lendo sob uma ogiva, côr de
cera, decerto Santa Theresa, _Las moradas_... A última, porém, a mais
estranha, de não sei que vila romana ao abandono, era uma grande esfinge
tumular com asas mortuárias de falena. Recordo ainda páginas isoladas: a
fonte dos cavalos marinhos da vila Borghése era um Pégaso de crinas
alagadas, uma cabeça de cavalo grego, dêsses que nos versos de Homero
viviam irmãmente com os heróis. E não sei que fonte mitológica--uma
estátua de Juno, sereníssima, a cabeça nimbada de andorinhas.
O outro álbum era de esboços--desenhos e _maquettes_,--tôda uma
arquitectura fragmentária p'ra um palácio quimérico da água, num poético
parque, inverosímil como o de Poë no _Domínio de Arnheim_.
A maior parte dos desenhos eram vagos, dizendo a embriogenia dêsse
templo que Harry erguia à Água Padroeira, com beatitudes de arquitecto
místico, em linhas-versículos de sonho.
Perguntei-lhe se tencionava construi-lo. Harry sorriu.
--Construi-lo e habitá-lo... Com _Miss Fountain_... se a encontrar um dia.
O desenho mais minucioso era a fachada, feita de duas arquiteturas
sobrepostas: uma estável, de mármores rosados; outra móvel, música,
espumante, de milhares de tranças de água de essas fontes, cavadas em
motivos decorais no sonoro frontão religioso que viveria um dia tão
beijado como as asas do mar no temporal.
É impossível descrever-lhe as linhas, como é impossível descrever a
Alhambra. A fachada de mármore era subsidiária da segunda, a real, a
litúrgica, a _aquática_; era o seu esqueleto quási oculto, e por
milhares de ranhuras invisíveis, de declives matematicamente calculados,
por bôcas inflectindo em curvas gráceis, por biliões de crivos capilares
donde cairiam chorões de prata fluida, destinada a dar vazão a essa
segunda, arquitectura sinfónica, hino vivo, que o meu tritão exilado ia
criar.